quarta-feira, fevereiro 15

leituras


"Allegro ma non troppo" é só o mais delicioso ensaio sobre a estupidez humana.
O mundo reduzido à sua própria (in)significância num livro cheio de humor (de bom humor, diga-se de passagem).

As suas leis fundamentais são pérolas e deixo aqui as três primeiras só para abrir o apetite.

Primeira lei fundamental - "cada um de nós substima sempre e inevitavelmente o número de indivíduos estúpidos em circulação."

Segunda lei fundamental - "a probabilidade de uma certa pessoa ser estúpida é independente de qualquer outra característica dessa mesma pessoa."

Terceira lei fundamental - "uma pessoa estúpida é aquela que causa dano a outra pessoa ou grupo de pessoas sem que disso resulte alguma vantagem para si, ou podendo até vir a sofrer um prejuízo."

"allegro ma non troppo
pimenta, vinho (e lã) no desenvolvimento económico medieval
as leis fundamentais da estupidez humana"

Carlo M. Cipolla
Celta Editora


quarta-feira, fevereiro 1

smog 3 minutos antes de a maré encher

este cimêncio que me persegue coberto de neve caiu sem avisar ninguém eu que fugi do Norte e da vaga de frio para lá marcada que só a ideia arrefece-me os pés e anseio pelo botija entalada nos joelhos debaixo do meu quarto castanho-chocolate quente. e por isso rumo ao Sul e a entrada de lisboa, 30km de cimêncio e camiões como no livro que tanto procurei e que tropeçou-me nos olhos dois anos depois e que te deixo sem nota sobre a tua almofada. e rumamos os dois ao Sul e o cimêncio das duas da manhã aperta-nos as mãos um no outro. Lisboa de corrida e eu que não sou dali e tu não és de lá perdidos na cril e perdidos na crel e cimêcio a toda a volta, sem o verde de uma árvore a assinalar o caminho, sem o verde da parede das nossas noites e a neve a barrar-nos o caminho de regresso. o carro cheio, atolado não na neve mas nas compras que somos da província.
e hoje, já com tapete no chão da sala (só hoje descubro que me faltava como água, que eu não sei sentar-me senão no chão, resultado de sofás amarelo pálido na casa da mãe e jean indignos indigo imundos) sentada com o puff a fazer de encosto e aquecedor ao fundo da sala, a resistir ao ninho (pareço uma velha no inverno, e diz o homem que adoro que tem saudades dos dias em que a esta hora é dia e o é até às onze e saímos de casa para uma cerveja só porque está calor e eu hoje não queria que estou aqui tão bem, vestida de velha neste inverno de Norte, verde) e novo cimêncio ataca pelas colunas velhinhas e fabulosas, ataca como o gume da navalha e a Adília, a outra, não a minha, diz que

'os homens portugueses
são inseguros
são feios
são baixos
não têm sentido de humor
ou têm sentido de humor
que me arrepia
e me arrelia
não estudaram
nem estudam
geografia
e acham-se dispensados
de o fazer
não sabem jogar xadrez
nem damas
não reparam em mim
(eu reparo neles)
há portugueses
e portugueses, claro

mas um português
que não é como eu disse
e raro
que chatice'

e a Maria Antónia não a canta e eu bem a procuro, faixa escondida, entrelinha e nada, nem um acorde neste disco suburbano sofrido que ainda está por sair, sucessor dos olhos de boga. mas está lá. está de presente para os que comprarem o disco que só é meu hábito para uns poucos que me como estes me sopram para dentro que vinte euros é muito dinheiro. e ainda não saiu mas já é um alívio que agora que as rádios vão ter de ceder ao clientelismo nacional e ou passam os poucos bons com frequência de massacre ou vamos ter de levar com os Davids Fonsecas a chorar (até para chorar é preciso ter jeito) o que faz com que qualquer notícia de novos albuns de almas frescas, tipo pão de água, urbanas suburbanas ou rurais atiram-me um sorriso estúpido para a cara.
e hoje digo a Adília, à minha e à outra, que os homens portugueses são inseguros e feios e baixos mas há portugueses e portugueses e a mim saiu-me um dos outros