sábado, setembro 27
Gaiteiros
Cheguei agora a casa. Eu sei que é tarde, eu sinto que é tarde, nos olhos e nos pés, sinto que é tarde. é tarde, sem ninguém perceber ou sequer tentar perceber, Tentamos discutir as letras dos Gaiteiros de Lisboa. Eu tenho 29 anos à 7 dias (ainda não feitos em completo, faltam-me horas) e não sei dos Gaiteiros!, não me veio com o grande pacote de informação que trago comigo como herança social, ambiental, heredietária e congénita. Gostava que alguém olhasse para mim e conseguisse perceber este lugar "donde" eu vejo esta sala. Deste que é um lugar onde nunca, na verdade, nunca ninguém vai, porque nunca ninguém, vai estar aqui, onde eu estou, na rua de santa margarida, 7 dias depois de ter feito 29 anos (a avô Antonieta diz que não se acredita que eu fiz 29 anos, e ela lembra-se muito melhor que eu!), às 05.46 am GMT em paredes que foram verdes e já não são (não vos avisei, pois não?, a parede virou azul petroleo, já vai um ano!, sorry!) E tenho pena que, neste 29 anos e 7 dias, ninguém tenha incluído no meu pacote (social, ambiental, hereditário ou congénito) estes senhores. - Os Gaiteiros de Lisboa..
sábado, julho 5
A falta que fazem as Sofias...
A falta que me faz o mundo que é só meu e que nem me atrevo a cantar... A Mitó, ontem, dentro do tanque, disse que quando começou a cantar o fado não contava a ninguém. Eu também não conto a ninguém que não sou de cá. Que não sou de 2008 nesta cidade. Que sou d'outras coisas. Que o meu mundo não é este nem é Marte e que não existe senão em mim. e que o meu umbigo é o único sítio a que posso chamar casa. E por isso tranco-me aqui por ser humano e ser gente.
Por isso bato a porta e agarro-me ao cordão umbilical que a avó Antonieta arrancou das mãos da parteira e que por isso não secou nunca. E por isso pouco interessa se cai uma chuva forte lá fora. Melhor ainda se cair uma chuva forte lá fora. Porque eu serei sempre aquela que passou férias com o Chico e com o Sérgio Godinho e que me sentei no jardim com o Eugénio de Andrade com maças e estátuas nas tardes dos muitos Setembros que hão de vir.
A falta que me faz o mundo que é só meu e que nem me atrevo a cantar... A Mitó, ontem, dentro do tanque, disse que quando começou a cantar o fado não contava a ninguém. Eu também não conto a ninguém que não sou de cá. Que não sou de 2008 nesta cidade. Que sou d'outras coisas. Que o meu mundo não é este nem é Marte e que não existe senão em mim. e que o meu umbigo é o único sítio a que posso chamar casa. E por isso tranco-me aqui por ser humano e ser gente.
Por isso bato a porta e agarro-me ao cordão umbilical que a avó Antonieta arrancou das mãos da parteira e que por isso não secou nunca. E por isso pouco interessa se cai uma chuva forte lá fora. Melhor ainda se cair uma chuva forte lá fora. Porque eu serei sempre aquela que passou férias com o Chico e com o Sérgio Godinho e que me sentei no jardim com o Eugénio de Andrade com maças e estátuas nas tardes dos muitos Setembros que hão de vir.
sexta-feira, abril 25
25 de Abril

Tanto quanto eu sei (e como bem sabem, eu ainda não andava por cá) o 25 de Abril foi uma luta de alguns. O povo (que mais ordena) não estava inquieto. também não estava contente. levava a sua vidinha e evitava meter-se aonde não era chamado, mesmo quando não era chamado para nenhuma decisão. A opressão não era brutal. em 74 já se ia ao café discutir a vida dos actores e os perseguidos eram uma elite. O povo (que mais ordena) lá ía andando. menos mal!
Felizmente havia luar e alguns não se deixaram adormecer. porque o País não os deixava dormir. porque as injustiças e as mordaças doíam-lhes na carne. e alguns conseguiram vencer a ditadura. talvez se aquele Povo que mais ordenou fosse um Povo maior, talvez se mais dormentes resistissem ao formigueiro e tivessem feito as suas pequenas lutas diárias, talvez o regime tivesse caído mais cedo. ou talvez não, talvez o regime se tivesse tornado mais forte e mais violento.
não sei.
e perdoem-me se erro. corrijam-me se erro!
mas hoje temos a democracia que é, de todos os regimes conhecidos, o que eu mais gosto. Eu, que nasci n
a democracia e que herdei da minha avó paterna uma língua afiada, custa-me imaginar-me calada e doí-me ver tanta gente adormecida outra vez. Ninguém reclama os direitos ganhos a 25 de Abril de 74. e aceitamos a recente plastificação dos nossos hábitos alimentares pela ASAE e ninguém pára para pensar que caminhamos a passos largos para a criação de uma sociedade asséptica e monocromática, provavelmente mais sombria e cinzenta do que antes de 74. uma sociedade onde os "Alpha" usarão gravatas e evitarão olhar os barcos que atravessam Gibraltar.Os estúdios da Disney anunciaram que vão retirar os cigarros (e os fumadores) das suas
películas. Talvez para o ano banam o álcool, as drogas, o excesso de velocidade e vestirão os sem abrigo com roupas pitorescas. Poderemos então ver o eterno filme universal - família, casa com jardim, rega automática, carreira, gente magra a discutirem a família, o jardim e a carreira, sempre com tónica cómica...A biologia prova que o Hitler estava errado desde o inicio. A diversidade é a chave para a saúde, para o progresso e para a sobrevivência.
Acabei de ouvir o Paulo na rádio a dizer que "sempre ouvi dizer que o Natal é quando o homem quiser; Abril tem de ser todos os dias!"

Por isso hoje, como fiz ontem e farei amanhã, deixo aqui o meu apelo - sejam únicos e defendam todos os dias a possibilidade de serem diferente. Mantenham os olhos abertos, critiquem, peçam o livro de reclamações, escrevam aos provedores, declamem poemas, inquietem-se por tudo e por nada, discutam à mesa de café com cigarros e vinho (venham cá a casa para o café se quiserem!), batam com a porta, inventem teorias válidas práticas loucas, de esquerda de direita, tortas ou lineares e resistam ao formigueiro do final do dia de trabalho mal pago. Esqueçam o umbigo e olhem para a rua. Contestem dogmas e leis da física ou da europa. E acima de tudo não calem a voz só porque a vossa música é diferente e façam com que este mundo seja cada vez mais a vossa casa.
Eu acredito em heróis. Acredito em Salgueiros Maia, Martin Luther Kings, Mários Soares, Mahatma Gandhis, Zeca Afonsos, Aung Suu Kyis. E nos milhares de milhões de anónimos que gritam todos os dias sem microfone apontado.

Se Abril me ensinou alguma coisa foi que a palavra é uma arma. E o Povo, unido ou não, desalinhado, em coro ou ao desafio, não será vencido.
Comecem por mim! Atirem os tijolos da construção!
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