sexta-feira, outubro 20

à dentista que está à escuta


o monstro saiu debaixo da cama que ainda não há por falta de horas para a procurar. desistiu de viver amarfanhado sob dois colchões, ou talvez tenham sido os gatos nas insistentes arradelas matinais que o tenham acordado de novo. o raio do monstro que me atormenta há já vários anos, acho que desde o dia em que fiz o último exame na faculdade, no dia dos meus 23 anos. economia para acabar em beleza. lembro-me de entrar no carocha DS-45-26 e atravessar o marão como se tudo tivesse acabado ali. para o bem e para o mal. com o monstro instalado e calado no lugar do morto. não morto, dormente. formigueiro corpo acima e confundir-se com a comichão da trepidação da suspensão que o carro nunca teve.
e agora outra vez (e entretanto tantas vezes) de que nada voltou a ser como era. para bem e para o mal. a clarividência de que nada volta a ser como foi. a começar pelos sonhos.
"nobody said it was easy, but nobody said that it would be this hard", ninguém falou das rasteiras, ninguém falou de contas nem que o peixe era bem mais caro que a carne e que a casa da mãe não ía estar sempre a dois passos. que os patrões eram uns aldrabões de primeira e que só pagam quando obrigados e que vão sempre colher os louros e varrer o resto para debaixo da mesa do antijogo. ninguém avisou que só vai a jogo quem tem dentes e o resto inventa na arrumação da casa um motivo para ser feliz.
hoje não tenho a casa arrumada e ouvi dizer de fonte segura que esta retracção gengival é irreversível e, já agora, que este cigarro cuja cinza ameaça o teclado não ajuda.
dentista querida, se ainda está por aí, manda-me uma embalagem de sensodyne pelo telefone. pode ser que o hálito fresco mate o monstro

segunda-feira, outubro 2

trago a preguiça toda no bolso de trás, a preguiça dos meus gatos, que agora são dois e já não preguiçam, que a arrumam dentro da mesinha de cabeceira logo de manhã, depois de lá arranjar espaço escolhendo-me vários pares de cuecas e meias que abandonam pelo chão do quarto. e não, não é a morrinha de outono que eu ainda estou no verão.
(por ainda estar no verão, ninguém me avisou, ninguém me avisa!, tenho roupa no estendal há já duas semanas e por algum mistério que não consigo deslindar continua tão molhada como no dia em que a pendurei. de qualquer da formas, este ano a temporada do patos vai ter de ser adiada. O Chico só chega cá no final deste outubro estival e toda a gente sabe que no Brasil é sempre verão. toda a gente sabe que o Chico é verão e viagens de carro país abaixo rumo ao sol. em novembro também não vai dar porque só os tolos é que vão para Budapeste no pino do outono, com frio e chuva e vento e eu nem tenho botas para aguentar esse tempo e tenho mesmo que lá ir que a mais pequena está para lá a estudar com o senhor erasmus morta de saudades de um mimo, nem que seja da mais do meio).
é mais uma preguiça manhosa, que me tenta todas as manhãs a ligar para a clínica com os dedos no nariz e nasalar uma insolação ou uma dor barriga insuportável (até me lembrar que os recibos verdes não têm baixa médica). é a vontade de ter um arroz de pato da minha mãe no congelador em vez de ter de inventar como é que se faz esparregado com aqueles espinafres que lá estão. é só este conforto-sandália de poder baixar os braços e saber que amanhã vai estar tudo na mesma, que ninguém arrumou, ninguém desarrumou o biquini do saco e que o martini vai ser de qualquer das formas servido às 8. é só esta ânsia de parar e encostar a cadeira para trás e ouvir a deliciosa chuva de verão