
o monstro saiu debaixo da cama que ainda não há por falta de horas para a procurar. desistiu de viver amarfanhado sob dois colchões, ou talvez tenham sido os gatos nas insistentes arradelas matinais que o tenham acordado de novo. o raio do monstro que me atormenta há já vários anos, acho que desde o dia em que fiz o último exame na faculdade, no dia dos meus 23 anos. economia para acabar em beleza. lembro-me de entrar no carocha DS-45-26 e atravessar o marão como se tudo tivesse acabado ali. para o bem e para o mal. com o monstro instalado e calado no lugar do morto. não morto, dormente. formigueiro corpo acima e confundir-se com a comichão da trepidação da suspensão que o carro nunca teve.
e agora outra vez (e entretanto tantas vezes) de que nada voltou a ser como era. para bem e para o mal. a clarividência de que nada volta a ser como foi. a começar pelos sonhos.
"nobody said it was easy, but nobody said that it would be this hard", ninguém falou das rasteiras, ninguém falou de contas nem que o peixe era bem mais caro que a carne e que a casa da mãe não ía estar sempre a dois passos. que os patrões eram uns aldrabões de primeira e que só pagam quando obrigados e que vão sempre colher os louros e varrer o resto para debaixo da mesa do antijogo. ninguém avisou que só vai a jogo quem tem dentes e o resto inventa na arrumação da casa um motivo para ser feliz.
hoje não tenho a casa arrumada e ouvi dizer de fonte segura que esta retracção gengival é irreversível e, já agora, que este cigarro cuja cinza ameaça o teclado não ajuda.
dentista querida, se ainda está por aí, manda-me uma embalagem de sensodyne pelo telefone. pode ser que o hálito fresco mate o monstro