quinta-feira, julho 21

Quando o mundo era mágico e havia copos a rodos e as pessoas tinham vinte anos e os computadores não avariavam 3 semanas depois de serem comprados e exactamente 2 dias depois de eu sair do país para uma jornada de cerca de 40 dias. Ai que a vida já foi tão mais fácil.


segunda-feira, julho 18

O dia em que eu fui à bruxa

É oficial. Hoje fui à bruxa.
Sim, já há muito que estava a pensar nisso, sabia que mais cedo ou mais tarde teria de deixar de parte o preconceito e aceitar que nem tudo é acaso, que las hay las hay como las hay las macumbas e o bonequinho de voodoo pequeno e de cabelo claro com madeixas rosa nas mãos de um maluco qualquer. Eu cá não sou supersticioso mas o pai dela dá-me azar (momento musical #1) e se já aceitei que é por vocação  (e não por feitiço) que tenho a arte de perder todos os autocarros, os combóios já com o bilhete na mão e o pé no cais, os aviões, os metros a fechar as portas apenas com o meu nariz lá dentro; se já aceitei que é por feitio e não por maldade divina que perco a cabeça com facilidade e que quando a recupero me encontro quase sempre em alhadas; se já me convenci (embora não tenha encontrado dados estatísticos acerca deste assunto na net) que não devo ser a única pessoa do mundo a ter partido um joelho a posar para uma fotografia durante uma entrevista; se sei com certeza absoluta que todas estas coisas são só coisas que se me acontecem, como a outras pessoas acontecerão outras coisas (eu, por exemplo, nunca perco os óculos, que é uma coisa de que já ouvi muita gente se queixar e eu, em 30 anos de uso, nunca perdi um par que fosse! nem uma lente! perdi uma vez um daqueles parafusos das hastes mas o meu avô deu-me um dos dele e tudo teria ficado resolvido num instante e nem seria história relevante não se tivesse dado o caso de o parafuso ter caído entre as frinchas do soalho e isto ter feito o meu avô levantar todo o parquet do escritório encontrando não só o dito parafuso como algumas pequenas maravilhas como pilhas de relógio, clips, tacha, pedaços de arame, mica, feldspato e quartzo em abundância, cada cacozinho com mil histórias porque o meu avô é como os elefantes e lembrava-se exactamente do momento em que cada um dos tesouros lhe escorregou dos dedos e o que comeu ao almoço nesse dia e com quantas nódoas na gravata foi trabalhar nesse dia) mas dizia eu, obviamente não foi por nenhuma destas coisas que eu fui à bruxa hoje.
Na verdade, embora nos últimos dias tenha pensado seriamente no assunto e até ter pedido à minha irmã contemplativa e meditabunda para me acender uma velinha, ainda não tinha tomado a decisão.  Foi, como é sempre nas histórias de bruxas, ela - a própria - que me convenceu a ir lá a casa. Ao engano, biên sure, que as bruxas fazem sempre tudo pela calada.
Então foi assim - a história começa há cerca de 2 meses, quando eu me preparava para, depois de um dia de trabalho, ver um filme e o meu computador - velhinho, companheiro de 8 anos de aventuras - se lembrar morrer no meu colo, sem suspiro e sem adeus. Isto é uma coisa normal - os computadores velhos têm grande tendência para a morte, mas é um bocado chato quando estás a trabalhar durante 4 semanas na Inglaterra profunda e aquele computador (para além do pequeno telemóvel) é a tua ligação com o mundo. Mas é como dizem os franceses 'c'est la vie' e botei a mão na cintura e qual Gloria Gaynor disse I will survive! Which I did - li todos os livros que tinha trazido, depois vi todos os jogos do Europeu de Futebol e todos os debates sobre o Brexit e com afinco fui feliz até me ver em Portugal e em pleno S. João correr para o shopping (sim, eu em pleno dia feriado num shopping - aconteceu!) para me oferecer um magnifico, belo, rápido, leve (e ligeiramente mais caro do que tinha planeado) computador.
Voltei ao trabalho na Inglaterra profunda na última quarta-feira. Consegui, com esforço, sangue, suor e lágrimas (literalmente) não perder nenhum avião, nenhum autocarro e só por uma vez perder o comboio, consegui até transformar a azelhice de me ter enganado na reserva do hostel numa história engraçada (esta fica para outro dia) e chegar ao meu ponto de trabalho com as malas todas, as energias recarregadas pelo sol e pelos mimos, pronta para mais 5 semanas de trabalho intensivo. Eis senão quando, ao segundo dia de trabalho, o meu novíssimo, reluzente, cheio de mundo computador decidiu, também ele morrer. À primeira uma pessoa acredita, mas à segunda?!?!? O catraio tinha 3 semanas de vida!, nem um risco sequer, nem um autocolante, nunca tinha sequer jogado uma paciência... é claro que me deu a fúria. Admito até que chorei e disse palavrões! Mais djipois como era de costumi, obedeci (referencia musical #3) e lá me dediquei a enviar o morto via UPS para a pátria para que alguém (obrigada mamã) fosse reclamar por mim. Jurei, no entanto (e como podem confirmar, não cumpri) que nas próximas 5 semanas não havia de escrever história nenhuma!
Perdoem-me caros leitores, bem sei que estão em pulgas pela entrada da bruxa e descanso-vos já dizendo que está quase, bem como o final desta história, até porque já são 15.30 e às 16h volto ao serviço.
Ora, é claro que não há posto da UPS nesta aldeia de onde não vou sair até 17 de Agosto e, como tal, restou-me fazer os procedimentos online, empacotei o defunto com jeitinho com os restos da caixa de uma televisão que encontrei debaixo da mesa da sala, medi e pesei a olho, gastei um rolo de fita-cola para que nem uma brisa entrasse no pobre bicho (não vá a loja anunciar que a causa da morte foi um resfriado) et voilá - ready to go! Faltava apenas imprimir a etiqueta. Sem computador e, claro, sem impressora, esta tornou-se a tarefa mais trabalhosa mas eu não desisto nunca e segunda-feira de manhã, às 8.30 da manhã já estava à porta da local shop - a minha aldeia tem dois estabelecimentos comerciais: o pub e a local shop (eu preferiria ter ido ao pub mas só abria às 11). A local shop tem um letreiro na janela onde se lê, entre outras coisas, 'print', logo o sucesso era quase garantido. A local shop é como a venda do Vengança na aldeia da minha avó no Minho profundo, tem de tudo um pouco, com a diferença de que aqui vem quase tudo embrulhado em pacotes com flores e a palavra organic aparece com alta frequência. Infelizmente, não tem o famoso salpicão mas fora isso, tem detergente da loiça e limões e pensos higiénicos e biscoitos de cão e tudo mais que se possa precisar para uma vida simples. No entanto, à semelhança do que sucederia se o Vengança ainda fosse vivo (a última vez que passei em S. Pedro de Bairro a podre venda era agora um reluzente Minipreço) alguém se esqueceu de pagar a conta de internet e como tal, nada de aceder ao site da UPS. Por uns momentos puxei do génio e ponderei desenhar eu os códigos de barras e os QR code, mas nem régua tenho e entretanto a senhora, ao ver o meu franzir na testa para além do limite da testa, me convidou para imprimir as etiquetas em sua casa. Tudo é organizado logo ali no balcão, ela sai às 9 da manhã (a loja abre às 8!) e passa lá em casa para me levar. Às 9:15 lá bate à porta e ela diz, apontando para os Meadows 'Vês aquela casa azul com uma bruxa na lateral, é a minha casa' com um sorriso enorme na cara. 'Eu vou ter de sair para levar a minha sogra a Minchinhampton, mas esta lá o meu marido e ele ajuda-te' e deslizando rua abaixo, desaparece.
E foi assim que eu, hoje manhã, fui à casa da bruxa mas como ela não estava e o marido não sabia da agenda, acabei por não marcar consulta.

Caros amigos e família, se chegaram a ler estas linhas só posso pedir desculpa! Sim, poderiam ter estado a ver videos de gatinhos na Internet, mas compreendam - já só me sobram 1,5 livros dos 4 que trouxe e os Jogos Olimpícos só começam daqui a 15 dias.

Beijos a todos