quinta-feira, dezembro 26
Hoje, se pagasse à minha mãe por cada telefonema cheio de casos clínicos que lhe atiro no final do dia, já tinha voltado para casa deles e mais valia demitir-me e não, não é por não ter outro assunto, é porque isto pesa muito.
Trabalhar no ramo da saúde é uma coisa muito pesada. Ouçam, não vim para aqui queixar-me ou chorar o dia difícil.
Lembro-me de um dia perguntar à minha mãe, um dia em que ele tinha discutido a morte de uma doente com o meu pai - no tempo em que as pessoas eram doentes, não eram utentes nem pacientes - se não ficava triste quando os doentes lhe morriam. LHE morriam. Ela disse que sim, que às vezes ficava, que havia doentes de quem ela gostava e que lhe custava muitíssimo, mas que os médicos não eram deuses, que havia doenças que não tinham cura, havia doentes velhos, que a morte era inevitável, e que com essas mortes ela já tinha aprendido a viver em paz. Para além da morte de doentes-amigos, havia outras que a assombravam - eram as que ela não sabia porquê, porque tinham morrido. Se não souberes o diagnóstico, não sabes se fizeste o melhor, se o podias ter salvo ou não. Isso sim, é um pesadelo. Esses eram os casos que ela e o meu pai tentavam solucionar todos os dias à mesa do jantar - as camas 15 ao lado dos tachos às cotoveladas connosco.
Hoje tive um dia difícil. Morreu-ME um cão de 16 anos que, apesar de lhe saber o diagnóstico e a idade e a inevitabilidade daquela morte, era de uma colega e que, por isso mesmo, me custou. Tenho internado um gato simpático e de uma família simpática com um carcinoma indiferenciado abdominal que vamos operar amanhã e que apesar de todos os fingers crossed, tem tudo para acabar mal, e por isso me custa. Tenho, na jaula ao lado, um outro cão jovem, de uma cliente adorável, que tem uma insuficiência hepática pela qual já não podemos fazer quase nada e ainda assim vamos fazendo unhas e dentes, que não sendo em lado nenhum culpa minha, me entristece. Vão ME morrer, mesmo que a culpa não seja de todo minha - diagnósticos feitos, boas práticas, consciência tranquila - o peso é nos ombros.
Hoje escrevo isto exactamente por o dia ter sido difícil e por ouvir com demasiada frequência as pessoas a dizer mal dos profissionais de saúde - os preços e as pressas. Médicos, enfermeiros, dentistas, psicólogos, cuidadores formais e informais ligados à saúde (de medicina humana ou animal) não saem do trabalho à hora marcada e fecham a porta até às 9 da manhã seguinte. Os doentes comem connosco à mesa e dormem nas nossas almofadas.
Eu hoje ia ao cinema ver o Gaza. Não fui. Saí tarde e cansada.
Ia contar uma história palerma ao telefone à minha mãe. Não o fiz. Debitei angustias clínicas.
Ia cozinhar um jantarinho bom. É quase certo que vou jantar cereais.
A maioria dos profissionais de saúde que conheço são assim. Era bom que o mundo mandasse menos pedras. Não somos deuses e acreditem que isso também nos custa.
terça-feira, agosto 20
Às vezes questiono-me porque escrevo. Porque me entretenho tanto a contar histórias parvas quando podia, por exemplo, dobrar finalmente a pilha de meias que se acumula por emparelhar no pequeno balde verde no banco do quarto. Às vezes, bem sei, é realmente para poder justificar a falta de tempo para as meias, mas nem sempre. É que às vezes acontecem-me dias tão insólitos que merecem uma folha de papel. Hoje, por exemplo...
Desci para o que sabia que ía ser um dia de trabalho intenso na clínica. Chego à garagem e chave nem roda dentro da fechadura e o carro lá dentro. Eu raramente deixo o carro na garagem porque ela é como o balde das meias - um amontoado de coisas às quais ainda não arranjei pachorra para me dedicar, coisas de outras vidas que ainda não é tempo de me deixarem - e também porque o carro só entra num exactíssimo angulo e não obstante eu ser uma excelente estacionadora de carros, a maior parte dos dias não tenho esse finzinho de paciência. Mas a minha rua tem acácias e as acácias têm o mau hábito de cuspir para os carros quando os seus donos vão dormir e ontem eu tinha lavado o carro que estava imundo e o meu pai disse 'oh Lena, não deixes o carro na rua, mete-o na garagem. Isso vai dar-lhe cabo da pintura' e eu que tenho um carro novo e muito bonito e que quero que a pintura continue impecável não só mas também para não ouvir do meu pai, lá meti o carro na garagem.
Taxi it is.
O dia que prometia vapor na clínica cumpriu - a quimio do Niko, o banho da fera Vasco, uma pragana no olho da Patanisca, um pólipo no ouvido do Tofu, algumas dermatites avulsas e a colheita de sangue do pequeno puma de 6,5kg que dá pelo nome de Baguera, mais a auditoria dos alemães. Sem carro e sem hora de almoço, dei um salto ao shopping para ir buscar uma salada e aproveitei para levantar uma encomenda - umas sapatilhas - que esperavam por mim na tabacaria Camões 2. Fui num pé e vim no outro, até porque mesmo não havendo greve energética o meu carro continuava dormindo descansado na garagem, garagem essa, ou a sua fechadura, que teria de passar a problema de amanhã que hoje já estava a ser curto para tudo o que havia a fazer. Lá almocei como nunca recomendo, na secretária de trabalho à frente do computador e voltei ao trabalho. Da hora de fecho às 20 lá nos tivemos de arrastar mais 1h para fechar o dia de bichos e às 9 e pouco da noite a minha enfermeira deixou-me à porta de casa.
Fui espreitar a garagem - meto a chave, rodo a chave, rodo a maçaneta, levanto a porta e tudo no sítio. Tudo funciona, o carro está a dormir, nenhuma resistência ou vestígios da absoluta nega das 9.40 da manhã. Estranho.
Subo e abro o saco das sapatilhas e tudo correcto - tamanho, cor (podem gabar-mas, são mesmo giras), modelo, o que por si só é estranho já que a maioria das encomendas online chegam-me 4 números acima e modelo diferente. Espreito o saco e para além da factura, está lá dentro uma pequena lata de Heineken sem álcool e uma amostra de perfume. Sim, uma lata de cerveja e uma amostra de perfume. Claro que não minto, quem é que iria inventar uma coisa destas?
Decido arriscar um pouco mais - deixa ver o que o dia ainda reserva que ainda são só 10 da noite e fui levar o lixo. Passei na caixa de correio et voilá - um livro da Duras.
Pelo meio, não vos contei, ainda recebi uma boa maquia de dinheiro que me era devido e recebi uma notícia familiar estupenda.
Áá
Já tomei banho e não escorreguei no chuveiro. Meti-me na cama e ainda não caiu um pedaço de estuque na testa. Penso que por hoje já está tudo - uma segunda-feira como qualquer outra...
Amanhã, gentes que planeiam jantar cá em casa, é quase garantido que vamos comer esturro.
Ah, sabem porque escrevo? Porque se não o contasse, ninguém ia acreditar.
terça-feira, julho 23
Antonio, o Chileno
Há uns anos valentes, numa outra vida, quando eu era estalajadeira de sucesso (modesto), tive como hóspede um chileno chamado Antonio. Foi em Novembro de 2014 e estava frio e chovia e o Antonio era um daqueles viajantes de vida às costas. Era o único hóspede que tinha por esses dias. O POP não era bem um hostel, para dizer a verdade, era uma casa partilhada. Quem entrava fazia daquilo a sua casa, pés em cima de mesa, conversas de todos os tamanhos e feitios, partilhas de segredos e todas as coisas que só se pode fazer quando estamos livres das amarras do dia-a-dia. O António, o chileno, tinha cerca de 40 anos e estava em viagem sem bilhete volta - talvez quando o dinheiro poupado em trabalho de colarinho e gravata acabasse, talvez quando lhe desse saudade mortal de um prato da avó, talvez aí voltasse. Um dia. Até lá, há sempre trabalhos à distância e sazonais e quem é tem alma de viajeiro nunca se encontrará perdido. Assim Antonio chegou a Braga e até mim. Chovia e fazia frio e ele tinha estudado a lição
- Quero ir comer Papas à Sarrabulho, Helena!, onde vou?
- Antonio! hoje é sábado! em Braga é ao domingo que se come Papas! Amanhã digo-te.
A regra da casa era que, só havendo um hóspede (ou pouco mais), e sendo ele simpático, íamos beber um copo. O trabalho da manhã seguinte seria pouco, logo dava para deslizes. Assim foi com o António - sábado pela noite dentro pelo Subura com os meus amigos que também já morriam pelas noites com os estrangeiros.
No final da manhã de ressaca (pequeno-almoço dispensado no final da noite, para meu descanso), vem o António à recepção e diz
- Onde são as Papas?
Expliquei o melhor que pude e depois acrescentei
- António, posso acompanhar-te? Já não como Papas há anos!
E assim fomos os dois, e foi aí que ele contou a história.
Estava a caminho da Eslováquia - uma história louca, contou-me. 3 anos antes tinha conhecido uma Eslovaca de mochila às costas pelo Chile. Tinham-se apaixonado mas depois de algumas semanas de viagens e amor, havia o mar inteiro entre eles e embora nunca tivessem deixado de se falar, a coisa fica difícil com a distância. O Antonio seguiu a sua vida chilena e a Katarina a sua por Bratislava. Mas o amor tem destas coisas e a rapariga não lhe saía da cabeça, pelo que largou tudo - emprego, família, o piso em Santiago - pôs a mochila às costa e comprou bilhete de ida.
- Voy a ver Katarina en Bratislava. Sea lo que sea. Tengo de ir.
Não se fez anunciar.
, As Papas estavam óptimas, um abraço pôs a mochila às costas e seguiu viagem.
- Boa sorte, Antonio!
Em Junho do ano seguinte lembrei-me dele. E enviei-lhe o seguinte email
Una pregunta puedo?
Ni se si te acuerdas, ó si mismo te acordando, si me das la oportunidad de lo preguntar, pero como fue con la chica de eslovenia (era de eslovenia? Checa?). En Portugal se dice que la curiosidad mató lo gato y yo, hoy, me acordei de ti y de los astros y de lo tiempo cierto para haver algunas cosas y busco respuestas. Puedo?
Helena
Não respondeu.
Até que no final de Agosto, recebi a resposta.
Disculpa la tardanza en responder, estimada Helena..
domingo, julho 21
Se houvesse mais sol a tristeza secava, mas a minha casa é de solar de inverno e fresca no verão - cenário perfeito para a tristeza se pendurar nas paredes entre os quadros tortos, quase todos os dias do ano.
A Duras que é minha mãe de tristeza na parede e na mão - o amante da china do norte. E é agora que me fazes falta para que o quadro da tristeza fique completo - tu na minha cama, a fazer amor comigo pela última vez, duas vezes pela última vez.
terça-feira, julho 16
-'Portugal me da vértigo, sabes?'
-Vertigens, Laura?
- 'Si, vértigo. Portugal acaba en el mar. Después de Portugal no hay nada. Vértigo. El mar. Depués de Portugal no hay ninguna tierra. El mar. Es un mar grande, Helena. Las otras tierras, las que siguen, están muy atrás del mar. Vértigo. Como un precipicio. Portugal es un precipicio.'
-Sabes nadar, Laura?
-Sé.
quarta-feira, maio 8
Escrevo para não borratar a pintura (eu que nunca pinto os olhos) não vão os raios de verde queimarem com o sal e ficar com os olhos cor de outono seco.
É uma forma de ser dura como os carvalhos que o meu pai corta, resistentes a tudo menos à espada. Tortos. Escrever é a forma de ser torta sem quebrar pela cintura - pôr palavras à frente umas das outras (às vezes atrás) como outros têm o hábito de fazer puzzles na mesa da sala, condenando o jantar à mesa da cozinha, matar as horas até ser hora de ir dormir e outro demónios entrarem em acção e eu esses já não combato.
Escrever é matar os demónios diurnos.
Se pudesse não escrevia. Vivia só, tranquila. Mas a minha cabeça fala muito. Sempre que estou sozinha (e quando estou acompanhada também, na verdade) ele fala com tudo e com todos. Não pode ver um cão sem se lhe dar um bom dia e todos a todos os gatos lhes inventa uma história. Se vê uma árvores logo lhe pergunta quem foi o último a encostar-lhe a testa e que segredo lhe gritou para dentro da casca e quando vê o mar... quando o meu cérebro vê o mar... nem eu sei o que acontece quando o meu cérebro vê o mar - são marinheiros e piratas e as algas e dias idilicos em areias branca e peixe-aranha que picam os pés às pessoas que fazem xixi junto à orla e às vezes pequenas sereias apaixonadas e mexilhões. Cartas cartas cartas para vivos e para mortos (ai avó Arminda!). E perguntas - porque é que ele não me liga? Porque não ligo eu? Qual é o sentido da vida? E onde? Ou quando? E preparações para estranhos e realmente improváveis eventos futuros, o meu discurso para os oscares - há que estar preparada!, a entrevista ao senhor que pergunta o que dizem os meus olhos - não gosto de raia nem de couves de bruxelas, gosto de gatos e de livros. E depois a memória... a minha memória é do tamanho de um elefante! Há gente que tem memória de elefante mas o cérebro de um elefante pesa 7 kilos e meio. Eu aguento com isso! Mas a minha memória é do tamanho de um elefante todo. Adulto. Macho. E está todo desarrumado! Meias por todo o lado, tudo pedaços de histórias - as unhas gigantes da senhoras das finanças que não permitiam clicar no 4 da calculadora e por isso não podia ajudar-me com os recibos verdes, o dia em que o Buda me entrou em casa e era uma traça, o dia em que quase me caíram os dedos dos pés porque achei que nightswimming era mais do que uma boa canção e a noite era calma, aquela vez que achei que o amor era concreto e palpável, os setters do infantário, a Jean a reclamar em inglês 'tttchair! I'll sit in my tttttchair! Not in my share!', a Filipa a lamber o gelado depois de um queda na praia de Afife com ar vitoriosa, o papagaio da praça da republica 'te gustaria un regalo? cucurru cucurru!' e nem vos vou começar com os amores e os desamores todos lá enfiados dentro do elefante aos trambolhões como se dentro da máquina de lavar roupa. É assim o meu cérebro. Todos os dias.
Se eu pudesse não escrevia coisa nenhuma. Dobrava as meias, estendia a roupa, lavava as janelas, via a série, esmerava nas unhas - comprava uma daquelas máquinhas de pôr as mãos lá dentro que era uma boa forma de não conseguir escrever sem borratar a pintura.
Ler é outra forma de calar as vozes e manter as mãos quietas, embora por vezes os escritores me contem coisas que precisam de resposta, à vezes porque falam aos meus demónios (ai criatura tão egocêntrica que eu sou, sempre no centro de tudo) outras vezes por me inventarem novas dores, angustias que nem sabia que tinha, mas mal as vejo espalmadas impressas nas folhas de papel logo as faço minhas. Para essas conversas com deus, tenho sempre (quando o raio do gato pequeno não o rouba) um lápis do ikea na mesinha de cabeceira. (Um aparte, acho que os lápis ikea são uma piada maldosa. O tamanho até está bem, que eu sou pequena de mãos mas a dureza... 9H é cruel para os meus livros e qualquer nota mais emotiva sai em em forma de rasgão e sim, na hora de tomar notas, toda eu sou emoção). Mas ler é bom. Escuta-se. Com atenção. O meu cérebro cala-se e fica mansinho, enrolado debaixo da manta, boca meio aberta, todo colado às linhas, cada página tic, outra página tac, outra página tic, outra página tac, tempo tranquilo, sem tropelias.
'Tu pensas muito', dizia ele por detrás dos óculos escuros. Quando era pequena e falava pelos cotovelos, falava tanto como agora penso, o meu pai dizia-me 'quando não tiveres nada para dizer, diz pois'. Eu ficava triste e calava-me. Tudo aquilo que eu dizia, para mim, era importante. Eram coisas tão desimportantes como as conversas que tenho hoje dentro da minha cabeça. Aprendi a calar as cordas, agora incomodo cada vez menos (excepto nos fim de semana em que vou a casa dos meus pais e ai posso deixar a voz jorrar cá para fora que entre os meus já não me doi o 'Helena, diz pois!'). Mas quando digo ao meu cérebro 'diz pois' ele olha-me em silêncio durante 4 milésimos de segundo (o tempo que demora a olhar de dentro para fora) e volta logo à lenga-lenga e se discutíssemos hoje e agora o sexo dos anjos e o moço que bem vestido comprou um pack de cervejas de marca branca em pleno euro 2012 em dia de quartos de final? Sim, eu penso demais.
Eu estou cansada de tanta conversa dentro da cabeça - estas discussões entre mim e myself em que nem eu nem a outra (nem anjos nem diabos) chegamos a qualquer acordo. Ninguém cede, ninguém está certo, ninguém desiste e não há negociação nenhuma. Estas histórias que sou obrigada a escrever para poder arrumar os assuntos, criar pontos finais nas conversas por já não caberem mais palavras no meio dos textos, fazer letra pequena e ocupar as margens para não caberem adendas, pesam-me os dias.
Esta semana voltei aos comprimidos. Com os comprimidos não há histórias, não há paixões, não há copos de vinho e cigarros na janela da cozinha, não há livros rasgados. É tudo ameno. Sensato. Calmo. E nesta primavera triste sem finais de dia ao sol, paz é o que eu preciso.
terça-feira, abril 16
Como não pagar impostos em Portugal
quarta-feira, abril 3
Eu quero que alguém comigo acredite que ainda é possível ser se feliz. Não! Quero que alguém comigo diga que só importa ser-se feliz. Que comigo diga que se dane a imortalidade e as obras, os cifrões e a segurança na reforma. Alguém que comigo faça uma proposta ao tempo para que este não nos aborreça mais com chamadas telefónicas ou emails ou prazos de entrega - 'damos-te, ó tempo, as meias para dobrares até ao fim de ti, para que também tu estejas entretido. Nós temos mais que fazer. A felicidade é um trabalho árduo e laborioso e já não nos sobram nem os 80 anos pela frente. Sai dji baixo.'
Quero alguém que tenha o vagar de antigamente nos finais de tarde, aquele respeito fúnebre pelo adeus ao sol, o desprezo sincero pelas horas no momento do abraço.
Afinal, é sempre de tempo que falamos quando falamos de amor.
sábado, março 23
Dizer-te que sou do sol
Do sexo pela manhã
Do salto para fora da cama.
Dizer-te que sou dos rios
Ou dos mares revoltos
E que me aborrecem as águas paradas.
Dizer-te que, ainda de joelho coxo,
Corro e que não quero conquistar o mundo devarinho.
Que para ficar parada terei a velhice
Se lá chegar.
Que para a paz terei sempre a hora dos livros
E que os amores se querem com sede.
Ou não te dizer nada,
Que não o entendes.
terça-feira, março 12
Quando perco o pé faço listas para ver se não me perco de vez.
(perder o pé é tão fácil. a terra é-me tão estranha debaixo dos pés na maior parte dos dias, como se não fossemos feitos da mesma matéria - mica feldspato e quartzo. as leis da física com frequência esquecem-se de mim e nem a chuva em dia em que resolvi vestir vestido de meia manga me traz gravidade aos ombros. a minha cabeça não é daqui.)
A maioria das vezes nem reparo que aluei. Mas quando em pequeno percalço estatelo os olhos firmemente contra a parede azul da sala à procura de um quadro desalinhado que faça pandan comigo, apercebo-me que já não estou aqui. Às vezes (a maior parte das vezes) é depois da minha enfermeira em tom de brincadeira me dizer durante a tarde 'o que fez à doutora Helena? quem é você?'
(ninguém sabe realmente olhar para si próprio)
Então anoto tudo. As conversas que tenho de ter amanhã, ponto por ponto.
E faço lembretes no telemóvel.
Despertador para as sete e trinta e três só para olhar pela janela sempre aberta.
Despertador para as oito e dezassete para poder adiar vezes quase sem fim até às oito e cinquenta e três ou quatro.
Lembrete para mudar a água aos gatos às treze e cinquenta e nove.
Outro para limpar a areia às vinte e quarenta e sete.
Às sextas um lembrete para regar as plantas às vinte e uma e vinte e três.
Às quintas um lembrete para o cesto das meias por emparelhar.
Uma lista com as tarefas em atraso - os candeeiros do escritório, os apoios do aquecedor, o pagamento da via verde daquela vez que me esqueci que não tinha verde, as vacinas em atraso, arrumar a garagem, as prateleiras que há mais de um ano jurei que ia pôr na sala para os gatos serem mais altos.
O método que um dia há-de me fazer assentar.
Esta semana está difícil. Já acrescentei mais doze lembretes.
(terra. terra. terra.)
Apitos a horas aleatórias para não me esquecer de pensar menos, falar menos.
(calar calar calar não inventar novas histórias)
Falta pôr o alarme definitivo para te esquecer.
Preciso de me lembrar de te esquecer.
segunda-feira, março 4
Carta à Rita
Desde sempre que as mulheres ficaram com o papel de dona de casa, como se só elas o pudessem fazer, como se essas tarefas fossem uma vergonha para os homens. O que o feminismo defende é que estas tarefas todas não são coisas de mulher, mas sim coisas que as pessoas (homens e mulheres) devem partilhar. Tem lógica, não tem, Rita? E se os homens portugueses partilhassem igualmente estas tarefas, as mulheres portuguesas ganhavam 2h e 25 minutos por dia para fazerem o que quisessem, o que quer que isso seja. E isto também parece justo, certo?
sexta-feira, março 1
terça-feira, fevereiro 26
O homem
O homem não tinha tempo. Das 24 horas que Deus dava a todos os seres por dia, só lhe sobravam 3, que ele usava todos os dias, escrupulosamente, para dormir. O homem fazia imensas coisas, cumpria recados e tarefas com afinco e era, feitas as contas, um bom homem - ria-se e tinha amigos embora nunca se tivesse apurado onde os tinha arranjado, já que também não tinha tempo para lhes dar. Deus deve ter-lhe dado amigos para o compensar pelas horas extraordinárias, embora isso não fosse um bom presente já que o homem não tinha tempo para usufruir deles. Qualquer presente que Deus lhe tivesse dado, à excepção de um bom colchão e uma boa almofada, eram quase um presente envenenado, mais uma coisa para competir com as 3 horas de sono, mais um roubo ao seu descanso.
O homem viva sozinho e tinha a casa sempre arrumada porque não tinha tempo para a desarrumar. Quando saía da cama ela estava feita, desde que saísse sorrateiramente pelo lugar da almofada, coisa que fazia com mestria.
Era um homem magro e sorria na rua, zangando-se apenas perante as injustiças sociais que, como bem sabemos, são o mais comum de encontrar nos dias de hoje por isso o homem, apesar de sorrir na rua, andava sempre zangado.
O homem tinha planos e aspirações. E apesar da falta de sono, o homem sonhava, o que lhe atrasava o ritmo de trabalho e cada 5 minutos a sonhar conduzia a mais uma pilha de tarefas por terminar. Às vezes, quando a pilha era insuportável e os papéis batiam no tecto da casa sempre arrumada, o homem deixava de sonhar e só cumpria, mas 6 meses depois apercebia-se da falta de sonho e metia baixa. Nesta alturas o homem prometia-se outras coisas. Um sofá que disfarçasse o vazio da sala a que pudesse dar uso em domingos e quiça finais de alguns dias. Quando tivesse um sofá (e isto o homem sabia que talvez fosse sonhar alto demais mas já que estava de baixa, dava-se a esse luxo, de sonhar quase até ao tecto rente do apartamento suburbano mas ainda assim relativamente perto de uma estação de metro que nunca o levava à baixa), quando tivesse um sofá, podia convidar uma rapariga.
As baixas do homem nunca duravam mais do que 3 dias. Ao terceiro dia, religiosamente, um dos patrões (o homem trabalhava para A, B e C) mandava uma mensagem ou um cesto de fruta com votos de melhoras e de célere regresso que era tão importante e tão necessário que talvez o mundo parasse se ele se demorasse e ninguém queria isso. O homem era orgulhoso. Gostava de saber que o mundo podia parar por sua causa e orgulhosamente metia a baixa para baixo da cama, junto das pantufas que nunca tinha tempo para usar, arregaçava as mangas e voltava à árdua tarefa de salvar o mundo.
O homem nunca comprou o sofá.
Os seus patrões sempre dormiram descansados.
terça-feira, fevereiro 19
As finanças pedem-me, por mail, para actualizar o meu estado civil. E logo no dia seguinte dizem que tenho de ir ver as facturas, em tom de és ou não és adulta? As finanças julgam-me com olhos de avó que nunca tive a dizer ainda não te casaste rapariga? A minha avó não quer que eu case nunca. Mas as finanças não são doces como a minha avó. Gostam de meter o dedo na ferida para além do olho na carteira. Validei as facturas. Livros e comprimidos para a dor de alma e de costas - como queriam as finanças que eu mudasse o meu estado civil se nada mais tenho para apresentar. Nunca peço factura do vinho.
domingo, fevereiro 17
domingo, janeiro 6
Arthur's Seat
Chovia torrencialmente, coisa que nunca se veio a verificar, pelo que o homem atarracado e rosado a quem perguntamos as direcções nos ofereceu boleia quando nós queriamos era caminhar e, para mais,o carro dele estava longe como tudo e no sentido oposto do Arthur's Seat.
Não era assim que eu queria começar o dia e nem sei como é que um meu ex- apareceu em Edimburgo, quanto mais no meu sonho.
O homem rosado e comar de ressaca da noite anterior (estaria em condições para conduzir?) levou-nos até ao seu carro contando-nos tudo acerca da sua família que ele fazia aguardar pelo pão matinal só para nos levar ao vulcão morto - o saco de papel amassado pela chuva e pela axila - e ele suava mais do que a chuva.
O carro era um Travi e ele sentou-se no banco de trás, do lado esquerdo e começou a conduzir. Eu sentei-me à frente dele e fiz a viagem toda torta, meio deitada, para ele poder ver alguma coisa. Explicou-nos que o motor tinha avariado há uns anos e, como a reparação era muito cara 'agora eles não querem reparar nada. É tudo novo. Tudo novo', optou por instalar um motor novo na parte de trás do carro, porque sempre achou aquele sofá bem mais confortável do que o banco da frente. Depois de 5 minutos de viagem deixou-nos no sopé do Arthur's Seat e estou segura que só não tivemos nenhum acidente porque ainda era muito cedo e não havia ninguém nas ruas naquela manhã de domingo.
Começamos a subir e aquilo não era nada do que eu me lembrava. Tinha estado ali há mais de 20 anos, numa viagem da escola,e lembrava-me da professora Margarida Laranjeira, a professora mais temida da escola, a esgravatar monte acima apontando para um sinal que dizia 'ATTENTION - falling stones!' e que a senhora, professora de português-francês, traduziu como 'ATENÇÃO - Sigam as pedras'. De qualquer das formas, na altura vulcão morto era um belo monte verde que nós, adolescentes, subimos na galhofa de não corrigir nem seguir a professora,para apreciar as vistas sobre a cidade.
Agora,o Arthur's Seat era uma estrada sempre a subir, ladeada de pubs.
Por esta altura eu subia o monte mas estava deverás desiludida, e para mais o meu ex- estava ali e eu detesto ir de férias com fantasmas e a Chica, que está grávida, só queria encontrar uma padaria onde se sentsr e comer pão quente com manteiga. Eu que gosto tanto de viajar sozinha...
Eu queria subir o Arthur's Seat porque reza a lenda que as raparigas sobem lá acima para lavar a cara no orvalho da manhã para ficarem mais bonitas, mas esta beleza estava a custar-me.
A certa altura, estou eu a remoer estas coisas todas mais a subida e reparo na fachada de um dos pubs e o coat of arms é o símbolo do FCP! Sorri de imediato ♡ - o brasão do FCP em plena Escócia e nesse instante o Litos sai do pub com uma pint na mão e diz 'foi pena o Porto ter perdido ontem!' E eu 'Como? O Porto jogou aqui em Edimburgo ontem? E perdeu?' E ele 'Sim, 1-0' e foi por isso que eu percebi que isto era só um pesadelo e assim acordei a suar na minha camarata de 12 com vista para o castelo.
Levantei-me e como não chovia caminhei até ao topo do Arthur's Seat, que continua a ser um magnífico monte verde filho de um vulcão que já morreu, sem pubs pelo caminho, e lavei a cara no orvalho e como estou de férias fiquei realmente muito mais bonita.
Iá lá o Porto perder... pfffff

