segunda-feira, junho 11

Hoje à noite um homem tocava piano para mim. Os dedos corriam tão rápido sobre as teclas que por mais que eu focasse, apertasse os olhos para ver o movimento, os dedos eram sempre um leque a abanar violentamente sobre o teclado e, curiosamente, não era nada disso que a música acusava.
A cadeira ao meu lado estava vazia (eu sento-me sempre ao lado de uma cadeira vazia) e por isso pensei em ti. (Desconfio que quando me sento ao lado de uma cadeira vazia seja apenas para te guardar o lugar. Para quando existires. Hoje já existes por existir esta cadeira vazia. A tua. A tua ausência antes de ti.)
O homem tocava freneticamente no piano e eu pensava que nunca te contei que não gosto de Bach. Nunca te disse que adoro piano e que o estudei durante 3 anos e que desisti quando me mandaram tocar Bach. Bach que nunca escreveu para piano. No tempo do Bach nem sequer havia pianos. Bach que compôs para cravo e que por isso, para mim, cheira ao pó dos anos entalhados na madeira das colunas dos púlpitos das igrejas ao quem nem as beatas se dão ao trabalho de limpar o pó. O Bach cheira a pó e por isso desisti do piano e talvez não tenha sido bem por isso, talvez tenha sido porque aprender um instrumento seja um trabalho herculiano e eu seja apenas helena, fraca de carnes.
Ainda assim, a cadeira ao meu lado estava vazia e eu podia ter-te dito que adoro o piano e que não gosto de Bach e que este senhor hoje me encheu a alma e não disse porque a cadeira ficou vazia o concerto inteiro e eu não tive como te dizer.