sexta-feira, abril 25

25 de Abril


Tanto quanto eu sei (e como bem sabem, eu ainda não andava por cá) o 25 de Abril foi uma luta de alguns. O povo (que mais ordena) não estava inquieto. também não estava contente. levava a sua vidinha e evitava meter-se aonde não era chamado, mesmo quando não era chamado para nenhuma decisão. A opressão não era brutal. em 74 já se ia ao café discutir a vida dos actores e os perseguidos eram uma elite. O povo (que mais ordena) lá ía andando. menos mal!
Felizmente havia luar e alguns não se deixaram adormecer. porque o País não os deixava dormir. porque as injustiças e as mordaças doíam-lhes na carne. e alguns conseguiram vencer a ditadura. talvez se aquele Povo que mais ordenou fosse um Povo maior, talvez se mais dormentes resistissem ao formigueiro e tivessem feito as suas pequenas lutas diárias, talvez o regime tivesse caído mais cedo. ou talvez não, talvez o regime se tivesse tornado mais forte e mais violento.
não sei.
e perdoem-me se erro. corrijam-me se erro!

mas hoje temos a democracia que é, de todos os regimes conhecidos, o que eu mais gosto. Eu, que nasci na democracia e que herdei da minha avó paterna uma língua afiada, custa-me imaginar-me calada e doí-me ver tanta gente adormecida outra vez. Ninguém reclama os direitos ganhos a 25 de Abril de 74. e aceitamos a recente plastificação dos nossos hábitos alimentares pela ASAE e ninguém pára para pensar que caminhamos a passos largos para a criação de uma sociedade asséptica e monocromática, provavelmente mais sombria e cinzenta do que antes de 74. uma sociedade onde os "Alpha" usarão gravatas e evitarão olhar os barcos que atravessam Gibraltar.

Os estúdios da Disney anunciaram que vão retirar os cigarros (e os fumadores) das suas películas. Talvez para o ano banam o álcool, as drogas, o excesso de velocidade e vestirão os sem abrigo com roupas pitorescas. Poderemos então ver o eterno filme universal - família, casa com jardim, rega automática, carreira, gente magra a discutirem a família, o jardim e a carreira, sempre com tónica cómica...


A biologia prova que o Hitler estava errado desde o inicio. A diversidade é a chave para a saúde, para o progresso e para a sobrevivência.

Acabei de ouvir o Paulo na rádio a dizer que "sempre ouvi dizer que o Natal é quando o homem quiser; Abril tem de ser todos os dias!"

Por isso hoje, como fiz ontem e farei amanhã, deixo aqui o meu apelo - sejam únicos e defendam todos os dias a possibilidade de serem diferente. Mantenham os olhos abertos, critiquem, peçam o livro de reclamações, escrevam aos provedores, declamem poemas, inquietem-se por tudo e por nada, discutam à mesa de café com cigarros e vinho (venham cá a casa para o café se quiserem!), batam com a porta, inventem teorias válidas práticas loucas, de esquerda de direita, tortas ou lineares e resistam ao formigueiro do final do dia de trabalho mal pago. Esqueçam o umbigo e olhem para a rua. Contestem dogmas e leis da física ou da europa. E acima de tudo não calem a voz só porque a vossa música é diferente e façam com que este mundo seja cada vez mais a vossa casa.

Eu acredito em heróis. Acredito em Salgueiros Maia, Martin Luther Kings, Mários Soares, Mahatma Gandhis, Zeca Afonsos, Aung Suu Kyis. E nos milhares de milhões de anónimos que gritam todos os dias sem microfone apontado.

Se Abril me ensinou alguma coisa foi que a palavra é uma arma. E o Povo, unido ou não, desalinhado, em coro ou ao desafio, não será vencido.

Comecem por mim! Atirem os tijolos da construção!