quarta-feira, agosto 26

Tirar o fio ao feijão verde,  dobar a meada para a renda, corar os lençóis de linho com renda de bilros na relva do jardim, cerzir as camisas puídas, tender a massa para o pão,  estalar as ervilhas tortas com chouriça, molhar a torrada na gemada e usar as claras para a goma dos colarinhos das camisas, descascar as favas e sem medo dos espinhos podar as rosas sem luvas.
Ter tempo e céus azuis e saborear as duas horas que o bolo leva no forno.
Polir os estanhos que as pratas não há, arrancar da árvore os limões na hora da limonada e ir buscar a água à fonte, servir para o lanche regueifa com salpicão e o vinho branco da casa.
Às 7 matar a galinha para o jantar e deixar o estrugido do arroz alourar para lá do ponto, encher a casa com cheiro a aldeia, atirar a hortelã arrancada junto às escada por cima da sopa.
Ter tempo e ter sol e não ter outra preocupação que as ervas, as flores, a cozinha e a felicidade da família inteira.
Saber que o homem vai chegar só pelo apitar do canudo da fábrica da aldeia, saber se chove pela Nossa Senhora que muda de cor, ir à missa todos os dias com a certeza que no final se vai para o céu.
Hoje queria isso avó, saber que vou acabar os meus dias com as mãos na regaço contemplando as rosas.
Ter peruca para os dias finos e não precisar de escovar o cabelo avó, e ver o avô a entrar o carro nos domingos à tarde para ouvir o relato no auto-rádio.
Acima de tudo, avó, ter a paciência de esperar a toupeira de sachola na mão,  eu que nunca mataria um bicho, avó, mas ter todo o tempo, toda a força no ombro, também ter a pitada de raiva que alimenta a espera, e arrumar com o problema com uma sacholada só.
Saudades

Blue

Hoje se pudesse pintava tudo de azul. Pintava a parede azul de azul outra vez, o prato azul na parede, pintava-o exactamente do mesmo azul, retocava o poster do Rothko azul com o azul atacado pelo sol desde há 4 anos. As minhas meias, os meus jeans, a minha t-shirt azul, o cachecol do FCPorto que pousa na almofada azul à espera de dias felizes, tudo de azul. Azulava a música e a matemática do relógio como quem arredonda a saia, na espera do autocarro. O rio Cávado, o mar da Foz, o vestido da Berta, o céu de Agosto, a moldura azul com a ilustração das sombras chinesas da Hélia Aluai, cinquenta tons de azul, mil latas azuis no chão da sala.
Com sabão azul esfregar as camisas brancas, com o gel azul esfregar os azulejos do quarto de banho,  gritar azul do fundo dos pulmões na varanda.
Azul até aos cotovelos, azul na testa, dedadas azuis no copo, uma gota de azul no vinho, com spray azul transformar as framboesas em amoras e deixar pegadas de azul no soalho para não voltar a perder-me em dias tristes de Verão.

terça-feira, agosto 25

Ó João,  mas não foi hoje a primeira vez que perdi o Norte. Minha Nossa Senhora,  diria o outro, já o perdi mais de mil vezes, apontando para todos os lados com todas as certezas, com a certeza grande de que a saída era por ali, que ainda há pouco passamos por aquela rotunda e se não era aquela era uma muito parecida. E se não era uma rotunda era uma encruzilhada da vida e já ali estive há tempos, a mesma dúvida, até pegar na bússola,  esquadro e régua (os quadros onde vou desenhando os meus problemas de orientação medem 50x70), compasso - não vá a vida não ser uma recta mas uma elíptica, tudo medido ao centímetro e nada bater certo. 
Um dia, porque andava meio perdida (é verdade, não há como esconder, as olheiras chegavam-me aos ombros), desenhei a constelação da Ursa Maior ao lado da cama, na esperança de que ela me dissesse -é por ali! Mas ele há dias em que de nada vale nos dizerem que ali é o Norte. O problema é não sabermos sequer para onde queremos ir. Eu gosto do Norte, mas e se for o Sul o sitio certo? E se for Noroeste? E se o farol de Carreço não alumiar o mundo tudo?  E se as dúvidas todas não forem resolvidas com um GPS?
Ó João,  não foi a primeira,  nem a segunda e não foi a última e tenho quase a certeza que quando tu abres o google maps também te questionas qual o destino e te irritas com a facilidade com a determinação do ponto de origem. Lá chegará o dia em que algoritmos resolverão o problema, juntarão os meus likes no facebook aos meus pins no pinterest, os meus (ou os teus) sons no spotify (agora toca este que me parte toda, sempre), mais a factura da pimenta de Szechuan mais os discursos políticos que um dia proferi em quase silêncio (juro que pensei que ninguém os ouvia) ou as músicas que canto em concerto de chuveiro, juntarão tudo e eu ligo o GPS, ou o google maps e ainda antes dele conseguir calcular onde eu estou me dirá para onde ir.
Certo é, como a água, que nesse mesmo instante,  o meu telefone ficará sem bateria, e eu tenha de, aleatoriamente, de escolhar a terceira saída à esquerda.

sábado, agosto 22

Coisas que o cérebro de esquece mas que o coração sempre sabe

Sou minhota.
Nascida tripeira e relutantemente arrastada para o norte em tenra idade, de nariz empinado típico das meninas da cidade levadas para a parvónia - ora diz pom, diziam os meus colegas e eu respondia orgulhosamente pão!  Ora diz pônte e eu teimava ponte! e eles riam-se e eu sobranceira contava em casa -parolos! Todos a correr para as escadas rolantes do shopping recém-inaugurado que só subiam, a dar a volta pelas escadas para voltarem a subir e eu a contar em casa - parolos, no Brasilia sobem e descem desde que eu nasci. Os meus pais meios perdidos de riso, meio assustados - como é que se tira a mania da cidade a estas miúdas que nós aqui é que estamos bem sem horas de ponta nem stresses de maior, vida tão mais fácil e pacata para família grande, a rir-se entre os dentes -continua a dizer pão e diz-lhes que sabe ao mesmo. Anos a fio a entrar no carro à sexta-feira - vamos para casa, finalmente,  vamos aos avós, a os primos, à cidade, ao cinema, aos museus, a serralves, à Foz, vamos à Foz dançar com os metrosideros da Austrália,  vamos comer gelados à Picologel. Vamos sair da aldeia que não é aldeia, só o é para quem vê cidades com prédios altos e buzinas dos carros na rotunda da Boavista. Anos a fio a achar que isto era o desterro, um filme por semana no cinema palácio, sem alternativas,  o teatro sempre com as peças pobres do teatro noroeste, de vez em quando as estreias nacionais (vá lá) da Olga Roriz.
Agora quando volto, quando os vejo com as camisas bordadas, os oiros nas orelhas, os corpetes, os lenços, o mar, o rio, o fogo de artifício a cobrir a ponte, desculpem, a pônte, quando oiço os bombos a fazer tremer a Praça da República,  não tenho qualquer dúvida que é daqui que eu sou e o meu coração grita pum-purum-pum-purum-pum-pum-pum e quando morrer dirá baixinho Viana é amor em arritmia sonora nas dissiconcronização severa dos Zés Pereiras.

sábado, agosto 8

Saudades haverá sempre dos tempos em que esta casa não era só feita dos silêncios das motas a acelerar lá fora ou o gato a organizar a areia

segunda-feira, agosto 3

Um dia proíbo o meu coração de dançar ao som da música.

Dos meus dedos voam pássaros

domingo, agosto 2

Eu sei que é Domingo à noite, mas alguém pode informar-me se já possível renegociar a dúvida?

Domingo no mundo

Tocar à campainha do vizinho e dizer 'peço imensa desculpa, ainda mais num domingo à noite, se há noite em que deviamos não ser incomodados é a de domingo, sou conhecedora da regra de que ao domingo se sofre por antecipação a semana de trabalho de que não gostamos e humildemente assim desperdiçamos um dos 2 dias de repouso que os direitos ainda nos concedem, bem sei caríssimo, e embora não entenda, costumo ser respeitadora da regra, mas olhe, hoje as coisas não estão a correr muito bem e juro (pés juntos, dois dedos na testa -é assim? nunca fui à tropa nem escuteira) que tentei afogar a coisa no bidé, mas o raio dos nervos continuam aqui e depois de 2 copos de vinho, estômago vazio desde o pequeno-almoço (é Agosto,  caríssimo, trabalho mais que uma mula), pareceu-me boa ideia vir aqui tocar à campainha para saber se por acaso sua excelência sabe fazer cafonés. Volto humildemente a pedir desculpa pelo incómodo, bem sei que são dez e meia da noite, mas isto de estar para ali sozinha mais o gato não dá grande resultado e tem dias em que a coisa avaria e hoje - vou ser sincera, eu nem gosto que me mexam no cabelo - as coisas não estão fáceis de resolver e se não souber cafonar, por acaso não se importa que eu ponha só a cabeça no seu colo, enquanto a música toca? Está impecável, não tem nada que se preocupar, ainda há menos de 22h foi lavado e escovado e se está assim apanhado e meio desalinhado é porque hoje não tive propriamente tempo de me pôr em traje domingueiro. Prefere na minha casa ou na sua? Eu cá não sou esquisita, me dá igual, às 7.20 o despertador toca e eu vou à minha vida, só preciso de encostar a cabeça um bocadinho'

sábado, agosto 1

Entro no carro, depois de te levar a casa (sim, eu não sou de chamar taxis), e devia ser o Sérgio Palma ou o Jorge Godinho a cantar e não haver engates sub entendidos nos últimos versos e eu acreditaria estar a ter um momento divino. Eu e o auto-rádio temos uma relação de anos e raras são as vezes que ele me falha - há sempre alguém do outro lado com uma palavra certa, a música que já nem me lembrava, a conversa de café que me apetecia ter enquanto conduzo, mas hoje... na mouche, minha querida.
Sabes, também eu ando meia perdida e é uma delícia sentar-me contigo, um pouco sem norte, na varanda e os copos de vinho a fazerem-nos esquecer que tínhamos bilhetes para o teatro, o sol a desaparecer atrás dos prédios, pôr as coisas cá para fora, deixar as dores e as felicidades suar da pele.
Desculpa a cena da sobremesa há-de haver uma próxima e mais um e muitos jantares.

Um dia há de chegar o dia em que chegando a noite te contarei uma história.
Dir-te-ei, por exemplo, que hoje só fiz asneiras e que até o bolo que planeei desde manhã cedo para que não me faltassem ingredientes na hora do o pôr no forno, consegui falhar. Contar-te-ei que li mal a receita e que, não obstante a reforçada atenção nos ingredientes,  não reparei que eram 2 bolos e não 1 e deixei amigos pendurados para o copo de pôr-do-sol. Tentarei, sem sucesso, explicar-te porque, vivendo num T3 sozinha, achei que a melhor forma de manter o bolo a salvo do gato era deixá-lo na varanda a arrefecer e sem qualquer vergonha, relatarei o quanto os meus amigos gozaram comigo por não ter escolhido a sala, ou o escritório ou o quarto de visitas.
Um dia há de chegar o dia em que chegada a noite e a hora urgente de me deitar - que eu trabalho cedo, mesmo aos sábados,  mesmo aos domingos - eu chegarei à cama e sempre sem te acordar, sussurrarei que apesar de tudo (APESAR DE TUDO) tenho uma sorte do caraças e nenhum pássaro entrou na varanda, nenhum gato abriu a porta, as natas não coalharam e amanhã vai haver bolo de chocolate e natas com morangos caseiros para pequeno-almoço.
Um dia, meu amor, há de chegar o dia em que à noite, no dia seguinte, te conte outra história qualquer, acerca dos irlandeses ou dos dinamarqueses ou das miúdas que em pleno concerto estavam concentradas no telemóvel. e também sei, meu amor, que essa história não valerá de nada, será sempre um pretexto para enrolar as minhas pernas nas tuas e dormir descansada.