Ter tempo e céus azuis e saborear as duas horas que o bolo leva no forno.
Polir os estanhos que as pratas não há, arrancar da árvore os limões na hora da limonada e ir buscar a água à fonte, servir para o lanche regueifa com salpicão e o vinho branco da casa.
Às 7 matar a galinha para o jantar e deixar o estrugido do arroz alourar para lá do ponto, encher a casa com cheiro a aldeia, atirar a hortelã arrancada junto às escada por cima da sopa.
Ter tempo e ter sol e não ter outra preocupação que as ervas, as flores, a cozinha e a felicidade da família inteira.
Saber que o homem vai chegar só pelo apitar do canudo da fábrica da aldeia, saber se chove pela Nossa Senhora que muda de cor, ir à missa todos os dias com a certeza que no final se vai para o céu.
Hoje queria isso avó, saber que vou acabar os meus dias com as mãos na regaço contemplando as rosas.
Ter peruca para os dias finos e não precisar de escovar o cabelo avó, e ver o avô a entrar o carro nos domingos à tarde para ouvir o relato no auto-rádio.
Acima de tudo, avó, ter a paciência de esperar a toupeira de sachola na mão, eu que nunca mataria um bicho, avó, mas ter todo o tempo, toda a força no ombro, também ter a pitada de raiva que alimenta a espera, e arrumar com o problema com uma sacholada só.
Saudades