sexta-feira, abril 24
é o quanto as coisas mudam em tão pouco tempo. embalagem vintage my ass, que eu não uso pochette nem sou de andar a aplicar cremes na rua.
é como silêncio da casa, antes tão duro, que zumbia nos ouvidos, que doía no estômago, que fazia o Adolfo chorar à noite e que me mantinha em estado vigília, na esperança de ouvir uma chave na porta (sim, ficaste com a chave muito mais tempo do que devias), é hoje a mais doce das músicas.
chegar a casa e ouvir os carros na via rápida, a carripana arrastada na Central às 00.15 em ponto, o riso dos bêbados a sair dos bares e os cantares da Igreja Universal, 5 pisos abaixo, na delícia de ter a cama só para mim e poder esticar-me toda... como muda tudo! a delícia de poder sentir a casa só minha, pôr a minha música sobre o meu silêncio, cantar desafinada ou nem por isso sobre o meu silêncio, ouvir os meus amigos que todas as terças lá jantam ocuparem o meu silêncio, saber que o voltarei a ter só para mim, silêncio sobre paredes azul manhatan e verde fumo, silêncio com Jon Hopkins em pano de fundo, silêncio com cheiro a caril ou a pão acabado de cozer, silêncio com cigarro na varanda. Silêncio que é já só opção, a opção, o espaço de meditação, todo meu.
como tudo muda.
o creme que me ofereceste para as mãos, embalagem vintage, vaselina só mas a preço de ouro, uso-o nos pés e nos pés cheiro àquilo que um dia achaste que me deviam cheirar as mãos.
sábado, abril 11
E eu - what? O que é que fiz agora?
- preocupas-te tanto com os outros.
De facto -, e isto já em conversa sobre o efeito de 3 copos de vinho ao telefone com a minha mãe, 5 horas mais tarde - mil e um defeitos mas o egoísmo não é um deles. Mãe querida, não sei como vais viver com isto, mas criaste 2 invejosas e uma lorpa.
A minha mãe ri-se e o objectivo deste telefonema está cumprido, porque na incapacidade de lhes dar algo que eles precisem - pão, ou dinheiro para as contas da farmácia (não é o caso, mas fica bem para o romance) ao menos lhes saque um sorriso..
2 invejosas mais uma lorpa faz-se a média e a minha filha nem má pessoa.
O vinho -ainda bem que perguntam - não tinha e fazia falta e como pessoa generosa que sou, roubei-o à minha inquilina.
E ontem foi o dia dos irmãos e eu, que por azar ou por falha paterna, não os tenho, falhei a comemoração.
Mas tenho isto.
Não sou a mais alta nem a mais baixa. Nem a mais esperta mas talvez a mais burra. Sou a mais loira, isso é óbvio, mas acima de tudo tenho o grande prazer de ocupar o lugar do meio, apertada, mimada e altamente estragada pelas duas.
Tchapum!
Ninguém (e estou a falar muito a sério) tem irmãs como as minhas!
(isto de estar tudo nú é uma cena muito 1984)
A arte de esperar que uns se vão embora e outros vão dormir para servir um copo de whiskey, acender um cigarro na sala e pôr um BBC vida selvagem sobre ursos polares enquanto se brinca com cola e cartolina colorida... o bem que sabe misturado com esta estranha sensação de que já só sou realmente feliz sozinha!