quinta-feira, novembro 24

Doem-me os caminhos fáceis. o trabalhar-cansar, televisão-dormir. acordar.
Há gente que vivia comigo e que hoje sobrevive. se arrasta sobre a crise o casamento o frio ou o calor as avarias do carros as dores das costas.
Quando morrerem com 96 anos, calmamente durante o sono (se não se engasgarem no tédio até aí, o que é provavel que essa gente é dura) espero que alguém lhes escreva como epitáfio:

Sr Fulaninho de Tal
sobreviveu-se a si próprio a maior parte da sua vida!

quarta-feira, novembro 23

polegar direito


anda-me tudo preso nos dedos.
agora foi um hamster preto (bem podia ter sido um rato do esgoto que para mim era o mesmo que eu não gosto destes bichos mas por causa do raio da profissão que me saiu na rifa não posso subir para as cadeiras e conhaque é conhaque - se isto fosse lá em casa apresentava-o à Adília e viamos quem morde quem!) com dentes amarelos (é por causa da dieta, pelo menos é que vem nos livros que eu de roedores só sei que transmitem doenças como o caraças e aviso de rajada que consultas só com o livro aberto à minha frente) que a dona acha que está doente e não acho (e espero sinceramente que não esteja, pela minha saúdinha) porque quem morde assim, com esta força, só pode sofrer de ruindade!
e o puto do dedo a escorrer sangue, o polegar direito (por azar o mesmo que o monstro de ontem se lembrou de morder) - vai já lavar os dedos, já dizia a tia Camila, tia muito tia de Cascais e eu com cinco anos e uma mosca esmagada na mão, ela enojada e eu orgulhosa da minha presa - quales dedos é que eu lavo?
e eu agora a lavar os dedos todos, a esfregar a mão toda com clorhexidina não vá o bicho sofrer de uma dessas oses maradas que não venha no livro.
e já são nove e meia e nunca mais são dez para eu ir para casa para tu me morderes também, mas nas costas

terça-feira, novembro 22

noite mal dormida ou o prenuncio de outra coisa


não se importa-se que eu me desligue um bocadinho, pois não? pode apagar a luz e as buzinhas dos carros (apagar mesmo, erase, delete)? ou será pedir muito?
é que dormi muito mal esta noite. más horas em que um monstro antigo rosnou a noite inteira debaixo da cama e já nem me lembro quando o atirei lá para baixo.
este sol frio de esplanada pede que eu feche o coração um bocadinho e esta luz não deixa (eu que nunca dormi uma sesta na vida, que fingia que dormia na casa dos avós só para não ter de ouvir a bruxa resmungar, que durante oito horas colei os olhos à janela enquanto atravessei o atlantico a ouvir a senhora do lado a suspirar ritmadamente o seu medo de aviões, eu que não vou conseguir dormir agora que precisava tanto de desligar por culpa de um monstro que mal o despertador tocou se calou para não ser apanhado pela luz da janela).
ainda tentei acender a lanterna que guardo para estas noites na mesinha de cabeceira mas mal estiquei o braço o macaco mordeu-me o polegar (agora já não se vê mas na altura doeu como o diabo)
mas não se preocupe que já liguei para o meu homem-anti-monstros-esquecidos-escondidos-debaixo-da-cama cujo número trago religiosamente colado ao frigorífico com iman (mesmo ao lado do número do homem do gás e do senhor-clix (esse que um dia enfio debaixo da cama com os outros e chamo alguém para o abater)) e ele vai lá logo à noite tratar desse e dos outros todos que andam com ele lá por baixo enroscados no cotão, sempre à coca para me atacarem. e vamos beber um vinho tinto que a minha mãe deixou-me deixou este fim de semana (aposto que já o tinha previsto) e comer queijo e rir bem alto e dançar aos saltos em cima da cama (coisa que é pior do que criptonite para eles) e vou dormir como um anjinho que não sou.
entretanto, se não se importa, apagava-me mesmo um bocadinho, será que dá com o botão?

segunda-feira, novembro 21

a casa da parede verde tem chuva no telhado da janela do quarto de manhã bem cedo quando ainda me posso enroscar no edredon de penas de aves sem gripe.

tem chuva antes do telemóvel gritar alvorada e o gato soltar um miau de felicidade por já ser hora de deitar mais um vaso ao chão.

hoje acordei como o gato

como um dia alguém me disse, se a chuva fosse minha, mandava-a cair. como quem toca piano

quarta-feira, novembro 16

o cinzeiro já está demasiado cheio para me aguentar.
a cat power já cá canta e pede-me nesta voz de tarde de chuva que não saia ainda. que acenda mais um cigarro e encoste a cadeira para trás. cansa-me esta mulher. pega-me esta morrinha de faltar à vida e ficar por aqui até os dedos estarem demasiado frios e estalarem. dedo médio preso ao R do teclado. (acendo mais um só mais um) esta casa ex-casa está demasiado vazia para o que aqui vivi. (lembras-te de como a lua entrava descarada pelas janelas da sala?)

lembro-me de não voltar a não-lugares que já foram. porque não me lembrei antes?

terça-feira, novembro 15


sofro de uma dor aguda que começa logo ali abaixo do estomago e depois me ataca costas acima até irradiar no olho esquerdo na altura exacta em que me cruzo com elas. elas que são sempre mulheres de quem gosto mulheres deliciosamente imperfeitas e pequenas de quem só não gosto mais porque gasto-me de amores por ti. de quem só gostaria mais se gostasse de raparigas e não houvesses tu para me fazer mudar de ideias.
não sou ciumenta de natureza, sou-o de ocasião
e eu que não te amo por esse teu coração grande demais por prolapso da válvula mitral de causa genética que ama toda a gente, ao desbarato,
eu que te amo por outra razões que não vêem agora à baila, tratarei de cozer-te as asas às costas quando me disseres que queres voar

segunda-feira, novembro 14

apresentação

a parede verde, que não é só virtual, que é muito pouco virtual (felizmente), que me fez correr todas as lojas de tinta da cidade e arredores, que me forçou a arrancar um papel de parede pavoroso e estuque à espátula, que fez de mim uma verdadeira mestre de obras, que ainda precisava de mais uma demão, e que tem sol nos domingo de ressaca pela tarde, APRESENTA-SE
a amiga é a Adília, the house cat

sexta-feira, novembro 11

histéricotipos


F E L I C I D A D E
imagens definidas de felicidade com uma casa no suburbio como pano de fundo. imagens imaculadamente desenhadas a vender o sonho da felicidade como se vende a banha da cobra. hollywood, anúncios promocionais a mascaras a corpos a esteriótipos copos martinis meias de seda. unhas vermelho escuro.

fel e cidade
fotografias apenas de pequeníssimos momentos montados em estúdio e ensaiados à exaustão.


o NÃO às olheiras unhas encravadas dores de alma de corpo roupa para lavar estender arrumar velhice demência lágrimas paridas de peles vermelhas vergonhas carro sem gasolina mau hálito de manhã

homens musculados que compram flores casam com mulheres que acordam maquilhadas e têm filhos que lavam os dentes 5 vezes por dia

eu, que não acordo maquilhada senão com a da noite anterior que por cansaço perguiça sono mimo não tiro, que não vou receber flores mais logo, que ando farta deste mundo de iludências que aparudem demais, vou para casa lavar-me do mundo num chuveiro que brota água quente com incerteza e fazer o jantar para quem me merece

quinta-feira, novembro 10

le petit prince


Reencontrei-me com este por uma curva de uma vida. Uma Amiga que em mudanças se cruzou com o livro com dedicatória (à qual, por coincidênciaou não, não era alheia) e o devolveu.

Li-o pela primeira vez quando tinha 10 anos.

Sinto que perdi demasiado tempo até o reler...

mas talvez tenha regressado apenas na altura Exacta.

"- Bom dia - disse o principezinho.
- Bom dia - disse o comerciante.
Era um comerciante de pílulas para matar a sede. Toma-se uma por semana e não se tem necessidade de beber.
- Por que vendes isso? - perguntou o principezinho.
- É uma grande economia de tempo - respondeu o comerciante. - Os peritos fizeram os cálculos. Poupam-se cinquenta e três minutos por semana.
- E que se faz nesses cinquenta e três minutos?
- Faz-se op que se quiser...
«Eu», disse o principezinho de si para si, «se tivesse cinquenta e três minutos à minha disposição, ia a pé, devagarinho, até alguma fonte...»"

"O Principezinho", Saint-Exupéry

terça-feira, novembro 8

o número verde

o número verde da clix tem mais de 5 minutos de espera para atendimento ao cliente. eu-cliente. eu-cliente em mudanças a precisar de levar o computador para a casa da parede-verde que lhe grita a ausência e os senhores clix que gozam comigo e com ela. os senhores clix que têm atendimento 24 horas por dia, sempre com 5 ou mais minutos de espera ao som de uma música capaz de fazer desistir qualquer ouvinte. os senhores clix que até aposto que foram passar a tarde ao shopping (porque está a chover e já não há esplanadas) que sabem que ninguém aguenta 5 ou mais muitos mais minutos ao som do Kenny G ou do que quer que seja aquilo que me obrigam a ouvir só para avisar que já mudei de casa há um mês e que abandonei um pobre computador e um cinzeiro numa outra já fria e sem sofás para aconchegar enquanto telefono para a clix, que ainda vai demorar 6 semanas a fazer a tranferência, a partir do momento em que eu conseguir que os senhores clix voltem das compras e me atendam a merda do telefone!

...

2 horas, 6 tentativas, uma das quais com 15 mensagens de por favor aguarde, atenderemos a sua chamada tão brevemente quanto possível a cada 2 minutos, dou-me por vencida!
volto a tentar lá para as 11 da noite, quando os shoppings fecharem e rezo bem ALTO para que os senhores clix tenham o bom senso de não aproveitarem a noite para uma qualquer sessão de cinema tardio!

segunda-feira, novembro 7

Irresistible


"if every angel is terrible
why do you welcome them?"
Coco Rosie

aos pés da minha cama, de uma das minhas camas, ou melhor, da mais minha das minhas camas, vivem um farol e um carvalho.
a mais minha das minhas camas vive num quarto nú de paredes impecávelmente brancas numa aldeia onde costuma haver flores na minha sala.
só lá durmo muito amiúde. em noites que pedem o silêncio daquelas paredes, a ausência do ruídos das gentes dos carros das fábricas ou do meu amor a compartilha outra cama.

SOFRO-ME DE INSÓNIAS nestas noites. como poderia eu dormir e deixar por escutar as sombras da árvores no vento e na luz? fecho os olhos forçados mas sei que ali, naquele lugar mudo e ventoso, todas as formas são fictícias, todos os monstros saltam à noite de árvores em árvore, os cães uivam e mil pequenos bichos tomam formas e cores só perceptiveis por olhos semi-cerrados, por baixo de edredons, colados à janela.
SOFRO-ME por insónias em noites deste silêncio esclarecedor
hoje começo a vender cãosultas por outras bandas.

o meu patrão não mas deixa dar

sexta-feira, novembro 4

Insónia


Continuo na mesma. Há duas horas na cama e ainda só sei como brincam com o vento as sombras na parede do quarto.
Alguém devia apagar as luzes todas do mundo. lua apagada. tudo escuro até qualquer lembrança de cor desaparecer. até o cérebro desistir de resistir.

Amanhã nunca é outro dia.
Merda para a pedra que me entrou no sapato depois do almoço e que ainda não deixou de doer no pé com esta dor que nunca é física e antes fosse.

Afinal não estou aqui sozinha. Há um bicho verde a tentar partilhar a almofada comigo. O mais provável é esta almofada já ser a dele e eu a intrusa. à quanto tempo não durmo neste quarto? O bicho verde desfoca-se ensonado para a lente da fotografia. Resmunga contra o flash a zumbir só com as asas e voa para debaixo da cama onde sabe que eu não vou, por guardar por essas bandas os monstros do dia a dia. (e eu que só queria levar a fotografia para mostrar na cidade com quem divido a minha cama nas noite de vento na terrinha)

Os dois comprimidos começam finalmente a pesar nas palpebras.
Vou apagar o azul da caneta.