Chegar a casa.
O gato não me espera à porta -o sol dá-lhe moleza e ele mantém-se no parapeito da janela do quarto, os últimos raios a dourarem-lhe o pêlo, faz uma vénia - bem vinda - e volta à ronha porque para isso servem os finais do dia.
A loiça ainda não saiu da máquina e as sardinheiras ainda não aprenderam a regar-se sozinhas. Há um pequeno caos que só eu entendo pela casa, as chávenas de café na mesa da varanda, os copos de vinho no banco ao lado do sofá, os quadros na parede que nunca viram um nível, uma tristeza que em alguns dias de calor sua pelas paredes mais claras, verniz das unhas, uma régua, tintas e panos da loiça brancos a pedir partes do corpo como oferendas ao S. João que a cidade grita lá fora. Uma salganhada de andorinhas a cruzar o céu como se a Primavera não estivesse por um fio. Um último copo alto rachado, que encho agora mesmo com o fim do tinto de ontem, as sardinheiras secas, a hortelã atirada para baixo, em ameaça - olha que também eu me mato! mais tristeza a suar pelas paredes, uma gota até na parede amarela.
Ponho o rádio no on e por defeito de fabrico, só gosto de música triste e playlist que escolho, não obstante os 35º que se insistem lá fora apesar das 9 da noite, é chama-se quiet rainy days http://open.spotify.com/user/pop_gom/playlist/3qnpkT5st2CtAoEiBJpiiE
Acendo a já costumeira velinha de igreja e ponho no off o telefone