sexta-feira, junho 19

Chegar a casa.

O gato não me espera à porta -o sol dá-lhe moleza e ele mantém-se no parapeito da janela do quarto, os últimos raios a dourarem-lhe o pêlo, faz uma vénia - bem vinda - e volta à ronha porque para isso servem os finais do dia.

A loiça ainda não saiu da máquina e as sardinheiras ainda não aprenderam a regar-se sozinhas. Há um pequeno caos que só eu entendo pela casa, as chávenas de café na mesa da varanda, os copos de vinho no banco ao lado do sofá, os quadros na parede que nunca viram um nível,  uma tristeza que em alguns dias de calor sua pelas paredes mais claras, verniz das unhas, uma régua,  tintas e panos da loiça brancos a pedir partes do corpo como oferendas ao S. João que a cidade grita lá fora. Uma salganhada de andorinhas a cruzar o céu como se a Primavera não estivesse por um fio. Um último copo alto rachado, que encho agora mesmo com o fim do tinto de ontem, as sardinheiras secas, a hortelã atirada para baixo, em ameaça - olha que também eu me mato! mais tristeza a suar pelas paredes, uma gota até na parede amarela.

Ponho o rádio no on e por defeito de fabrico, só gosto de música triste e playlist que escolho, não obstante os 35º que se insistem lá fora apesar das 9 da noite, é chama-se quiet rainy days http://open.spotify.com/user/pop_gom/playlist/3qnpkT5st2CtAoEiBJpiiE

Acendo a já costumeira velinha de igreja e ponho no off o telefone

E caio na asneira de me deixar levar - é só uma cerveja, amanhã vou para Trás-Os-Montes e não se passa nada e mais 15 dias emigro para a Suíça e depois são 6 meses que fico lá mais a miúda e a Mimi, a gata e eu, que sou parva, lá alinho. Sou mesmo parva porque já estive aqui antes, já sei no que me vou meter, ainda assim não resisto a um choradinho.  É um grande defeito.  Resultado - são quase 4 da manhã e estou numa discoteca onde só passa música brasileira e o meu amigo me diz - H.  já ninguém ouve Radiohead!
Alguém me salve!

quarta-feira, junho 17

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Esta é a mensagem que recebo cada 6 meses há 2 anos. Não sei se é exactamente a mesma, admito.  Por falta de espaço no telemóvel tive a leviandade de apagar as últimas, mea culpa. O número,  tendo os 9 dígitos esperados, não recebe resposta. Já tentei ligar de volta para lhe dizer que com estes símbolos alumia os meus dias, que entre as mensagens do E.Leclerc e o Continente, o ocasional contacto da Worten a dizer que a minha varinha mágica está finalmente arranjada (ai a falta que ela me faz, senhores, isto de tentar ser fada sem varinha não funciona, tenho a casa em pantanas), esta mensagem enche-me o coração.  Em primeiro, porque este senhor (é senhor,  basta analisar a linguística e a forma como usa os pontos de interrogação em fundo negro, tão masculino) não está a tentar convencer-me a comprar nada e depois porque gosto da forma fugaz como me trata. Responda ou não responda, sem desespero, cumpre o seu plano e, sem pressas, lá vai lançando o seu charme. Como é que uma miúda resiste a isto?
Aguardo ansiosamente,  amorosamente,  noticias suas.
Cordialmente,
H

terça-feira, junho 16

'Gostava dos gatos por serem sólidos, quietos e líquidos ao moverem-se, fitinhas de sombras escapando-se entre os girassóis.'
António Lobo Antunes

Mas este meu não gosta de leituras, nem mesmo de poesia quando lhe digo, só nós os dois na cama grande, eu empurrada para um canto e ele a rebolar por cima do livro, deixa-me ler-te isto, só esta passagem, em voz alta é muito mais bonito. Ainda assim não gosta de literatura. Mas gosta de música,  o que já não é mau para gato. A maioria só gosta de peixe.

Bom dia. Ou boa tarde. O barulho dos autocarros deixam-te dormir?, pergunta-me sem antes me perguntar o nome. o meu quarto dá para o outro lado, para além de que já aqui vivo há demasiado tempo, já estou habituada, durmo mal é nos dias em que eles falham, digo olhando para o chão. queria contar-lhe que o carrinho de mão a chiar é o meu alerta de que são horas para ir para a cama, como os sinos da Igreja do Carmo às 7.15, 5 minutos antes de o meu despertador tocar, são o meu sinal de que esta luz que entra pela janela sempre aberta já não é luz de madrugada e que o dia está a começar. queria contar-lhe isso e que vou para casa abrir uma garrafa de vinho e sentar-me na mesa da sala a fazer desenhos anatómicos em panos da loiça. queria contar-lhe que vou estar sozinha em casa até à minha companheira de casa voltar do seu fim-de-semana. queria também perguntar-lhe de onde vem ele, num domingo no final da tarde. se foi passar o fim-de-semana a casa da mãe, ou a casa mesmo e este prédio é só a casa de trabalho, chega à sexta e volta para junto dos seus. queria perguntar-lhe se já tinha planos para este domingo à noite com chuva de Verão, se não queria ir até à minha sala, sentar-se no sofá enquanto eu desenho pulmões - respira Helena, respira! e bebo vinho do Douro que partilho de bom grado. mas são só 5 pisos que o elevador cumpre antes que me perguntes o meu nome ou que eu tenha tempo de levantar os olhos do chão.