terça-feira, junho 16

Bom dia. Ou boa tarde. O barulho dos autocarros deixam-te dormir?, pergunta-me sem antes me perguntar o nome. o meu quarto dá para o outro lado, para além de que já aqui vivo há demasiado tempo, já estou habituada, durmo mal é nos dias em que eles falham, digo olhando para o chão. queria contar-lhe que o carrinho de mão a chiar é o meu alerta de que são horas para ir para a cama, como os sinos da Igreja do Carmo às 7.15, 5 minutos antes de o meu despertador tocar, são o meu sinal de que esta luz que entra pela janela sempre aberta já não é luz de madrugada e que o dia está a começar. queria contar-lhe isso e que vou para casa abrir uma garrafa de vinho e sentar-me na mesa da sala a fazer desenhos anatómicos em panos da loiça. queria contar-lhe que vou estar sozinha em casa até à minha companheira de casa voltar do seu fim-de-semana. queria também perguntar-lhe de onde vem ele, num domingo no final da tarde. se foi passar o fim-de-semana a casa da mãe, ou a casa mesmo e este prédio é só a casa de trabalho, chega à sexta e volta para junto dos seus. queria perguntar-lhe se já tinha planos para este domingo à noite com chuva de Verão, se não queria ir até à minha sala, sentar-se no sofá enquanto eu desenho pulmões - respira Helena, respira! e bebo vinho do Douro que partilho de bom grado. mas são só 5 pisos que o elevador cumpre antes que me perguntes o meu nome ou que eu tenha tempo de levantar os olhos do chão.

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