terça-feira, dezembro 30

há dias em que é preciso deixar a tristeza entrar, como o sol nas paredes da sala à hora de almoço. deixá-la pousar nas paredes como quem não veio para ficar. a mesa posta para um. ir buscar um copo extra para o amigo imaginário, fazer de conta que ainda alguém ressaca no quarto.



 o Sérgio Godinho a contar a história da fechadura que nunca mudei, a cantar este 2º andar direito que fica no 5º piso. voltar a ter saudades dos dias em que não podia tudo. podes, podes tudo o que quiseres mensagem do messenger recebida às 3h22m da manhã. sem contexto. alguém que sabia que hoje teria de a ler. e de sofrer a ansiedade de poder tudo. eu sei. posso tudo mas hoje preferia não poder. já me passa, não se alarmem, amanhã voltarei a não querer namorado, voltarei a querer trazer para a minha casa, para a minha mesa, para o café da esquina, para a minha cama, quem bem me apetecer e ir embora no segundo em que me der na gana, mas hoje não. hoje queria que alguém decidisse o que seria para jantar, uma corda no calcanhar, alguém a quem contar que a Louise Bourgeois hoje me tocou outra vez, alguém que me beijasse o pescoço só porque o viu por baixo do cabelo apanhado, alguém a quem eu pudesse dizer - esta casa é o meu presente para ti, o sol nas paredes são o meu presente para ti, queres um café? uma tangerina? este desenho mostra o que eu sinto, consegues sentir também? sem eu explicar? os pássaros na parede dão a sala um ar de amor. é pena que nunca tenham visto nenhum.olho com inveja daqueles pedaços de barro pintado e vidrado junto à parede amarela e questiono-me porque não me fogem também, porque insistem em ficar ali com leveza, hoje que trago o coração pesado. se eu fosse um canto gostaria de ser aquele, a leveza das asas, o ar inocente do Ringo e do Bob Dylan, o amarelo onde o sol de Inverno não chega nem precisa de chegar, mas não sou. hoje sou o corredor, frio, todas as portas todas as possibilidades sim podes tudo o que quiseres e eu parada. também posso ficar aqui. não há sol, não há nada para fazer e ninguém me vê.