Não há muitos momentos assim, muito menos aos 35 anos, em que as paixões são obrigatoriamente (ou não, talvez seja eu que esteja errada) mais sustentadas, mais sentidas na pele, mas receber um abraço do Sérgio Godinho... e caríssimos, não foi como na canção, não havia coros nem guitarras, havia vinho a rodos em ambas as partes, 6 copos para além da dose (não contem à minha mãe) em cada um dos lados (e vão doze!), mas ainda assim lhe pude dizer (não foi ao ouvido) que mais do que vidasduplas (que trago assinado mas o que eu queria era o autografo no pano-cru que custou ao meu pai 250$00 e do qual aprendo ainda hoje, na balada da Rita e no Primeiro Dia, tudo o que há para aprender sobre a vida) ele, o Sérgio, tem uma vida múltipla, tem muitas vidas múltiplas, vidas das quais ele nunca saberá, como a nossa, minha e dele, como as mil viagens que fizemos para o Alentejo antes de haver A1, cassete riscada que nós salvavamos por a sabermos de trás para a frente, ou como eu não troquei a fechadura nem ele reclamou dos seus anéis, como tantas Lisboas amanheceram na sua voz, Necas e bêbedos, cruzando a cidade triste que amanhecia, quantas Etelvinas, Albertinas, quantas pessoas sozinhas adormeceram com a esperança de encontrar o seu homem à beira-rio. Ele sorriu e disse que todos temos as nossas vidas nas vidas dos outros e eu disse-lhe que se alguma vez estivesse triste, que se lembrasse que, na minha vida ele (e eu), era feliz.