Mil curtas metragens. Todos os objectos, todos os nomes, todas os sinais de beira de estrada, o cheiro do arroz da avó Arminda quando passo na rua à frente daquele tasco onde nunca vou entrar (até ao dia em que as saudades apertarem mais forte), todas as palavras têm uma curta metragem com cheiro e ruído de fundo e fragmentos de poemas escritos na parede, as mil coisas dentro das mil coisas que me fazem estremecer só de as murmurar dentro do meu coração.
Todos aqueles sítios onde moramos sem lá pôr os pés, todos os sítios que moram dentro de nós sem saírem da poeira daquele canto atrás do baço excepto naquele particular acorde de guitarra ou de piano ou no voo rasante de uma borboleta na varanda.
E a certeza de saber que nada será como foi e o medo de não voltar a ser tão feliz como quando tinha 5 anos e descia a rua de mão dada com o avô a dizer mica feldespato e quartzo.
E o bater deste poema do Joaquim Pessoa na minha cabeça. Desde sempre.
"Eu sei, não te conheço mas existes.
por isso os deuses não existem,
a solidão não existe
e apenas me dói a tua ausência
como uma fogueira
ou um grito.
por isso os deuses não existem,
a solidão não existe
e apenas me dói a tua ausência
como uma fogueira
ou um grito.
Não me perguntes como mas ainda me lembro
quando no outono cresceram no teu peito
duas alegres laranjas que eu apertei nas minhas mãos
e perfumaram depois a minha boca.
duas alegres laranjas que eu apertei nas minhas mãos
e perfumaram depois a minha boca.
Eu sei, não digas, deixa-me inventar-te.
ao é um sonho, juro, são apenas as minhas mãos
sobre a tua nudez
como uma sombra no deserto.
É apenas este rio que me percorre há muito e desagua em ti,
ao é um sonho, juro, são apenas as minhas mãos
sobre a tua nudez
como uma sombra no deserto.
É apenas este rio que me percorre há muito e desagua em ti,
Porque tu és o mar que acolhe os meus destroços.
É apenas uma tristeza inadiável, uma outra maneira de habitares
Em todas as palavras do meu canto.
É apenas uma tristeza inadiável, uma outra maneira de habitares
Em todas as palavras do meu canto.
Tenho construído o teu nome com todas as coisas.
tenho feito amor de muitas maneiras,
docemente,
lentamente
desesperadamente
à tua procura, sempre à tua procura
até me dar conta que estás em mim,
que em mim devo procurar-te,
e tu apenas existes porque eu existo
e eu não estou só contigo
mas é contigo que eu quero ficar só
porque é a ti,
a ti que eu amo."
tenho feito amor de muitas maneiras,
docemente,
lentamente
desesperadamente
à tua procura, sempre à tua procura
até me dar conta que estás em mim,
que em mim devo procurar-te,
e tu apenas existes porque eu existo
e eu não estou só contigo
mas é contigo que eu quero ficar só
porque é a ti,
a ti que eu amo."