sábado, outubro 31

Melancolei-me em mim

As coisas que têm coisas lá dentro. As músicas que trazem histórias lá dentro, os livros que cheiram a um jardim particular onde se calhar só nos sentamos 15 minutos na nossa vida e onde nunca vamos voltar, o barulho do mar que vive dentro de um casaco velho que nem azul é. A Cat Power que tem várias das minhas casas dentro dela, dentro daquela voz que canta tão baixinho e tem barulho de copos e risos dos amigos e tem também lágrimas escondidas no escritório e as cores de paredes que já não há. O Eugénio de Andrade dos livrinhos brancos com relevo redondo para os dedos e pequenas letras laranja com quem terei sempre 15 anos e vontade de viver entre a brisa da manhã e os raios de sol. O cinzeiro laranja da varanda que não vai para o lixo apesar de partido, que nunca irá para o lixo, porque é Barcelona e é do Miguel e da Sofia quando o Miguel e a Sofia eram meus amigos e havia calma no acordar. As sandwiches que sabem sempre a Domingo ao almoço com a família toda a rir.
Mil curtas metragens. Todos os objectos, todos os nomes, todas os sinais de beira de estrada, o cheiro do arroz da avó Arminda quando passo na rua à frente daquele tasco onde nunca vou entrar (até ao dia em que as saudades apertarem mais forte), todas as palavras têm uma curta metragem com cheiro e ruído de fundo e fragmentos de poemas escritos na parede, as mil coisas dentro das mil coisas que me fazem estremecer só de as murmurar dentro do meu coração.


Todos aqueles sítios onde moramos sem lá pôr os pés, todos os sítios que moram dentro de nós sem saírem da poeira daquele canto atrás do baço excepto naquele particular acorde de guitarra ou de piano ou no voo rasante de uma borboleta na varanda.

E a certeza de saber que nada será como foi e o medo de não voltar a ser tão feliz como quando tinha 5 anos e descia a rua de mão dada com o avô a dizer mica feldespato e quartzo.

E o bater deste poema do Joaquim Pessoa na minha cabeça. Desde sempre.

"Eu sei, não te conheço mas existes.
por isso os deuses não existem,
a solidão não existe
e apenas me dói a tua ausência
como uma fogueira
ou um grito.
Não me perguntes como mas ainda me lembro
quando no outono cresceram no teu peito
duas alegres laranjas que eu apertei nas minhas mãos
e perfumaram depois a minha boca.
Eu sei, não digas, deixa-me inventar-te.
ao é um sonho, juro, são apenas as minhas mãos
sobre a tua nudez
como uma sombra no deserto.
É apenas este rio que me percorre há muito e desagua em ti,
Porque tu és o mar que acolhe os meus destroços.
É apenas uma tristeza inadiável, uma outra maneira de habitares
Em todas as palavras do meu canto.

Tenho construído o teu nome com todas as coisas.
tenho feito amor de muitas maneiras,
docemente,
lentamente
desesperadamente
à tua procura, sempre à tua procura
até me dar conta que estás em mim,
que em mim devo procurar-te,
e tu apenas existes porque eu existo
e eu não estou só contigo
mas é contigo que eu quero ficar só
porque é a ti,
a ti que eu amo."

quarta-feira, outubro 28

Passei o último mês a regar uma urtiga.

Só vos conto isto porque o Adolfo acabou de roubar-me uma malagueta e agora está ali no corredor com ar infeliz.

Eu, na verdade, semeei coentros e diariamente rodei o vaso, mimei-o, sol sem excesso, água qb, até cantei, vejam lá. E os coentros lá começaram a brotar, meio tímidos, é certo, mas lá começaram a aparecer uns rebentos e eu mantive a técnica. De um momento para o outro, um dos rebentos achou-se mais que os outros e disparou ar acima com ar confiante. É o patinho feio dos coentros, pensei eu, mas como nunca julguei as gentes (e os rebentos) pelo aspecto, deixei o moço estar. Até ao dia de fazer uma sopa de peixe e, atacando primeiro os breves rebentos e constando a sua insuficiência, lancei-me ao grande. Eu sou parva mas não sou maluca e não atiro para o tacho nada sem provar pelo que arranquei uma folhinha, rapidamente desfi-la entre os dedos e cheirei-a. 

Resultado - urticária nos dedos e nariz em forma de batata em menos de 1 minuto.


Tratamento - um anti-histamínico fora de validade que era o que havia.

Conclusão - Adolfo, amigo, a malta está contigo neste momento difícil!

terça-feira, outubro 27

Tendo em conta as últimas recomendações da OMS, retirei o abifa-te e cumpri apenas o avinha-te e abafa-te e não tenho a certeza que tenha sido boa ideia.
Sim, estou constipada.

à doida

se hoje pudesse ter super-poderes queria poder tricotar a saia que nunca mais acaba e ao mesmo tempo fazer pinturas de cérebros enquanto vejo um filme e ouço música com a mesma atenção e sim, ao mesmo tempo, ver este video que ainda agora postaram no facebook e, de botas calçadas, pintar as unhas dos pés de vermelho.


domingo, outubro 25

god cop bad cop

E agora o que é que se faz? Saio de cena para não te complicar a vida ou posso contar-te que, não sendo nada seguro (hoje houve tempo para passar no renovado Pingo Doce do Braga Shopping - bem haja a fila única - para comprar vinho -  Herdade Porto da Bouga) fiz um Maigret de Pato (caseiro que ontem foi dia de mãe) de bradar aos céus?
É quem tem a vida presa por qualquer coisa não sou eu e se por um lado cumpro o mais que posso a ética e a moral, por outro lado não fui eu que pus as cartas em cima da mesa e recusei o inocente jantar com desculpas de possibilidade de fraquezas da carne. Sim, não acredito na política don't ask don't tell das forças armadas americanas e até agradeço e admiro a honestidade (não há ego que resista!) mas e agora? Já não posso dançar descalça contigo pela sala? Fazer de conta que isto não é só a valsa de domingo à noite?
Posso contar-te aqui, onde não vais nunca encontrar-me (nunca ninguém alguma alma vai encontrar-me por aqui) que houve tempos em que tive um amor portátil, ainda antes do Pedro Paixão o escrever? Conto-te que nunca me sentei numa mesa de café a nenhumas 3 de alguma tarde com o Tom, que tanto eu como ele tinhamos relações felizes e saudáveis (para miúdos de 21 anos) e que nunca sequer fizemos planos de nos encontrar mas que nos encontrávamos todos os dias das 7 às 8 ou da 1 às 3 da manhã ou quando calhava termos saudades ou tempo ou saudades e tempo e que eramos namorados e ninguém tinha nada a ver com isso e ainda hoje, 2000 anos depois não sei como é que ele se chama a sério, mas que um dia sem a voz dele me fazia aflição.
Sem nenhum problema digo-te que a qualquer momento penduras o sinal do not disturb na porta da sala e eu volto para o meu canto e juro que prometo e cumpro que não te chateio de forma alguma e que o jogo das probabilidades não nos põe a menos de 5km um do outro até à próxima festa do vinho verde e que como tal,  podemos com toda a segurança e baixo risco e quase diria alto benefício mútuo continuar a existir assim um para o outro, sem sabermos ao certo o número da porta (é o 7 5ºdto - é tão bom ter-se um blog anónimo! ) .
Porque é isso ou deixo-te estar e com isso salvo com juízo o meu coração já meio amachucado, ainda a curar nódoas negras profundas - a minha vida está já tão cheia de confusões que isto era só tão dispensável... 

por exemplo, hoje é Domingo e ontem a minha mãe veio cá e trouxe um peito de pato. trouxe também rosas e nabos e morangos (sim, ainda há morangos a nascer no final de Outubro) e nabiças e agriões e espinafres e rabanetes e castanhas e eu, que sou uma rapariga muito organizada e que até já tinha 2 peitos de frangos e 1kg de cogumelos para as empadas e uma posta de salmão a marinar no frigorífico, achei por bem não congelar o pato. na altura pareceu-me que fazia sentido, para quem vive sozinha e já tem 6 refeições no frigorífico, mais kg de pato menos kg de pato não vai fazer diferença nenhuma.

outra coisa que para mim tem muita lógica é trabalhar o Sábado inteiro e chegar a casa à 8 da noite e cozinhar durante 2h, desarrumar a cozinha toda, farinha a saltar para o chão e cabelo, formas, frigideiras, bechamel, vinho do Porto nos cogumelos coiso e tal e chegar ao final, 22h30 e arrumar tudo arrumadinho, limpar balcões, varrer o chão, deixar a cozinha impecável e jantar cereais.

não precisam de rir, é mesmo assim. o sentido de um não tem de bater certo para mais ninguém. por exemplo, no outro dia convidei um rapaz para jantar e levei uma tampa.


Há outra razão que assim à primeira vista me deveria impedir de ir a tua casa jantar contigo
Que é a de me sentir bastante atraído por ti
Pois...
Assim em casa não se corre riscos...
Porque és uma mulher super interessante
Inteligente
Boa conversadora
E gira
Em resumo: Um cocktail explosivo!
Compreendo. São várias razões para ficares em casa!



Um dia, por acidente (ou por sorte), descobres que gostas de dançar e pegas no telefone e ligas-me.
É sempre por sorte (ou por acidentalmente nos apaixonamos por uma bailarinha) que descobrimos que gostamos de dançar. 
Eu tive sorte - a educação rigorosa da minha mãe ditava que se não gostas comes mais para aprenderes a gostar e da primeira vez que alguém me convidou tive medo do raspanete e de te ter de dançar a noite toda e lá aceitei.
A princípio é simples - é pôr os pés descalços em cima dos pés, descalços, do pai, mão pequenina dentro da mão gigante e rodopia-se pela sala. Depois também é simples - anca para um lado, pé oposto acompanha, anca para o outro, pé oposto acompanha, mãos nos bolsos, cabeça baixa, o adolescente que também não sabe nada daquilo à tua frente também ensaiou no espelho do quarto aqueles passos e está tudo feito.  Mas depois as coisas complicam-se, a música fala mais, sabemos a letra, estamos no sitio certo, a música certa, já tens memórias coladas aquilo - já foste feliz ou já choraste ou já limpaste a casa ao som daquela música,  já não podes pôr as mãos nos bolsos e fazer as grunge - vou contar-vos, caríssimos leitores que sei que não há (sim, eu espreito a estatística do blogspot volta e meio e sei que escrevo para 3 ou 4 lindos fantasmas) que quando estive desterrada em Knoxville, Tennessee, EUA, faziamos umas festas caseiras para fugir ao embargo alcoólico e cultural dos sábados à noite e a minha dança - olhos no chão,  cabeça baixa, sem qualquer espaço para contacto físico,  mãos enfiadas nos bolsos e coração em Portugal - pegou e no dia da despedida, os meus amigos, a Laura de Espanha, o Manuel, a Márcia e a Gelza do Brasil, o Pato e o Antonio do Perú, o Irakli da Geórgia e a Maria da Rússia botaram o I'm a scatman e dançaram a dança da Helena. Foi triste e espectacular ao mesmo tempo,  lindo pela homenagem,  triste de os ver todos com os olhos no chão.
Agora sei que não é assim que se dança e embora não saiba se foi por nunca dizer não a uma ciência que desconheço ou se foi esta coisa de não sofrer de grande vergonha, um passinho de dança é coisa que nunca recuso. Deixar o baixo entrar e ditar o movimento dos calcanhares,  deixar o piano dar andor às ancas, ouvir as palavras e deixa-las franzir os olhos, ignorar o joelho partido, o cabelo solto, ignorar a falta de espaço (a minha música não toca em grandes pistas de dança), ignorar até que a Joana não está ali a dar o ritmo.
Como dizer-te... lembro-me de te perguntar (era Julho e chovia e estavamos os dois gelados) do you dance? e lembrar-me-ei para sempre sempre que disseste que não ao mesmo tempo que pegaste na minha mão e rodopiamos pela sala.