o que fazer com esta impotência de ver um genocídio na televisão?
sem entrar nos pormenores da origem da culpa, que na verdade está bem definida já que ninguém pode dar o que não é seu e a resolução de oferecer um pedaço de terra que não lhes pertencia em 1948 não deixa qualquer dúvida, mas esquecendo isso, fazendo de conta que este problema começou há 15 dias, como podemos ficar indiferentes a um massacre de um povo de crianças (a idade média dos palestinos é de 16 anos) por parte de uma super-potência militar? E se não ficamos indiferentes, o que podemos fazer? Porque partilhar imagens dos mais de mil estropiados, porque condenar nas redes sociais e discutir o assunto nos cafés me parece coisa pouca.
sempre condenei o alemães por não terem feito nada contra o movimento nazi. não quero, nem nunca quis, aceitar que todos os alemães aceitaram de bom grado o extermínio dos judeus e ciganos e romenos e deficientes. sempre acreditei que havia muitos que eram absolutamente contra, mas também sempre me chocou como podiam ir tomar café, e fazer férias e convidar amigos para jantar enquanto milhares eram reduzidos a cinzas ao seu lado. neste mundo global em que vivemos a Palestina é já aqui ao lado e eu continuo a tomar café e a trabalhar e a planear as minhas férias para Outubro e isso não me parece bem.
a democracia global pela qual supostamente tantos povos lutaram, tantas resoluções internacionais, tantas cartas de direitos Humanos e direitos da Criança, tantas acções conjuntas, tantas reuniões das Nações Unidas e na verdade esta democracia não serve para nada. As Nações Unidas pedem "contenção", tenham aí algum cuidado, não sejam tão mauzinhos, ó Israel. Nenhum embargo, nenhuma sanção, nenhuma força militar de paz, só palmadinhas nas costas - ó Israel, está toda a gente a ver, vê se não acertas em tantas criancinhas, vê se consegues contrariar as fotos de pequenos corpos espalhados no chão, dá-nos alguma coisa que ajude... conta-me a história do soldado isrealita que torceu o tornozelo numa ofensiva, conta-me como os vossos avôs foram mortos em câmaras de gás, fala de como os vossos tetra-avós foram expulsos para o deserto, e contenham-se - acertem com os mísseis apenas nos miúdos que tenham pedras nas mãos, evitem as grávidas, por favor.
e a mim custa-me trabalhar, custa-me ir ao supermercado, custa-me aceitar que não há nada que eu possa fazer para além de partilhar as fotos, custa-me continuar com a minha vida normal enquanto o povo-menino de pedras nas mãos a defender a sua casa é eliminado da face da Terra.
When they kick out your front door
How you gonna come?
With your hands on your head
Or on the trigger of your gun
E os meninos nem
armas com gatilho têm e nem mesmo o Hamas tem armamento de jeito para se
defender do país mais armado do mundo e mesmo assim eles arrombam a
porta e os Palestinos é que são os terroristas porque não abrem a porta
de joelhos no chão e mãos na cabeça.
a mim custa-me aceitar que a democracia, o poder do povo, nos continue a deixar de braços atados à frente da televisão ou do computador e que os nossos lideres, aqueles a quem nós pagamos todos os dias para nos representar, se alheiem desta situação como se entre marido e mulher não se metesse a colher, como se os crimes de guerra não fossem crimes públicos, como se os direitos Humanos só se aplicassem post-mortem.
se alguém souber como se lidar com esta angústia (e não me digam bebe um copo e vê a novela das 6), por favor, conte-me!
quarta-feira, julho 30
domingo, julho 27
O meu sangue é salgado e tem cheiro a maresia, sargaço e óleo dos petroleiros que passavam em Leixões. E é espesso como as folhas dos metrosíderos da Foz do Douro. Eu sou espessa como os metrosíderos, que vieram da Nova Zelândia, do outro lado do mundo, onde lhes chamam "pohutukawa" que, em maori, significa "salpicada pelo mar". Também eu fui salpicada pelo mar. A minha mãe tem medo do mar, este sal deve vir da parte do pai, ou dos passeios ao Sábado na Avenida de Montevideo, mas sempre senti as ondas de pulso com espuma suja, os meus cabelos ao vento sempre tiveram algas ou peixes e entre os dedos dos pés é frequente encontrar areia grossa.
Quando tomo banho, às vezes, reparo que trago uma ou duas traineiras no umbigo. Às vezes estão atracadas porque o tempo está mau e sinto o olhar vidrado dos pescadores das Caxinas no mar, em mim, à espera que a tempestade passe. Às vezes, quando os dias são bons, sinto-as a largar amarras e aventurarem-se veias acima, começam pela umbilical, logo ali ao lado e banham-se nos humores do peritoneu. Parecem borboletas.
As tábuas com pregos ferrugentos, restos de redes, as garrafas de óleo e de água e os pauzinhos dos gelados, um ou outro cadáver vêm sempre, mais cedo ou mais tarde, dar às minhas costas e eu não tenho bandeira azul, não tenho banheiro nem sou sequer praia, só mar, não tenho quem me limpe em dias de marés vivas e nem sei onde meti as minhas bóias salva-vidas.
quinta-feira, julho 24
Adília Lopes que eu queria Tília
Foi há um ano. Foi talvez o início do fim mas isso não tem importância nenhuma porque na verdade só ela é que interessa. A Adília. A Adília Lopes que eu queria Adília Tília porque tinha aquele verdes olhos que mereciam nome de árvore.
Era um rato quando me apareceu na clínica. Um rato, cheio de pulgas, pêlo ralo e um medo a subir cauda acima. Lembro-me das peixeiras das Caxinas que a trouxeram - ó doutora, fique-me com ela! está desde manhã cedo a miar-nos para o peixe e sabe que o meu marido me mata se eu levo um gato para casa! eu a olhar e a pensar que o patrão me mata se lhes fico com o gato, que para isso é que há gatis. e eu a olhar para aqueles olhos enormes que eram a única coisa que parecia ter vida naquele bicho...Lembro-me de tudo, minha querida. Lembro-me de como nos mordias e dizias todos os dias eu sou a rainha da casa mas não se esqueçam que sou caxineira! lembro-me como às vezes punhas o boné para trás, que é como quem diz que espetavas as orelhas e nos olhavas de lado, com ar de fuínha e de como te derretias com um beijo na testa. Lembro-me de como adoraste o Adolfo, como lhe lavaste os olhos e lhe bateste quando ele te roubava o mimo, lembro-me como atiravas tudo para o chão quando te davam os ciúmes. Lembro-me de tudo, melhor gata do mundo! Lembro-me disto, desta fotografia, todos os dias. Pensas que era por desleixo que deixava o copo com água em cima da mesa? não era, Adília, era por isto, por esta tua sede de fazer asneiras, por esta vontade que tu tinhas de ser gente, por este teu gozo de beber os meus copos de água até ao fim.
Lembro-me de te pôr o cateter, lembro-me dos nossos últimos 20 minutos, a tua cabeça encostada à minha cara - sabias tudo, não sabias? - um ronronar baixinho que o cancro do pulmão não te deixava mais, os olhos sempre à procura dos meus, lembro-me de adormeceres devagarinho, só nós as duas naquele consultório, devagarinho a cabeça a deslizar na minha mão... lembro-me como se fosse agora, minha querida, da tua paz, a olhar para mim como quando adormecias todos os dias, cabeça no meu braço.
Há quem diga que não há como o primeiro amor - é mentira. Mas há amores que nunca se desfazem. Há saudades que ficam sempre imaculadas, e tu, minha querida gata, és ainda e sempre a melhor gata do mundo! Hoje és uma gerbera vermelha no parapeito da varanda e Rita disse-me, a semana passada, que te diz sempre olá sempre que passa no canto do jardim onde vives na casa dos meus pais. Existirás sempre enquanto houver memória de ti, que é o mesmo que dizer que existirás, pelo menos, enquanto eu existir, ó esfinge!
terça-feira, julho 22
Estou em pausa entre livros. como que suspensa. à espera que passe. à espera que o "Kafka à beira-mar" passe, à espera que cada personagem passe por mim, devagar, limpe a casa toda, pegue em todos os trapos, arrume a cozinha que usou nas últimas duas semana para preparar o chá, eu sentada numa cadeira no canto da sala, com as mãos no colo, a vê-los a fazer as malas.
Há livros que vêm de mochila, quando acabam já têm tudo preparado para a saída e não tenho tempo nem para me sentar. E não estamos a falar de maus livros que eu esses abandono num canto qualquer e não penso mais neles. Mas livros que trazem pouca bagagem, livros-mochileiros ou one-night-stand, chegam, entram na cama e no dia seguinte saem antes de eu acordar. Talvez de manhã ainda me lembre das suas caras, das mãos mas no final do dia já é só a memória de um ou outro detalhe e seguir em frente.
Mas o Murakami não é desses. É dos que traz a sua própria chávena, que estende o tatami no chão do quarto, ao lado da cama, que enrola os dedos nos meus cabelos enquanto eu leio, que me sopra no pescoço. É dos que faz de conta que veio para ficar, dos que desfaz a mala e ocupa uma gaveta vazia e ajuda a arrumar a máquina de lavar loiça, como se a casa fosse sua. É dos que fala comigo como se o meu corpo fosse a sua casa, ali, à vontade, sem vergonha de me apertar o rabo, sem ansiedade nenhuma. Esses são os piores. São os melhores e só são os piores porque quando vão deixam tudo arrumadinho, dão um abraço, um beijo e vão à sua vida e quando chego a casa nem sei bem se alguma vez lá estiveram ou se foi só imaginação minha. Um vazio.
Estão todos, agora mesmo, a fazer a mala dentro de mim, a levar os livros todos, as músicas todas, a dobrar o jardim da biblioteca, a carregar a aldeia no meio da floresta, em silêncio, descalços. Já estão a varrer o chão. Quase imploro que não o façam - não precisam de levar tudo, não precisam de arrumar tudo, deixem-se ficar mais um bocadinho, faço-vos outro chá? Conta-me Kafka que vais fazer a seguir? Prometes escrever? Sakura, manda-me fotos! Oshima, que livro devo ler a seguir? E eles já em silêncio que já disseram tudo o que tinham para dizer e eu sei, mas queria que eles me adicionassem no facebook, que prometessem voltar um dia para um copo de vinho verde na Sé, todos juntos e talvez um passinho de dança.
Estou sentada no canto da sala, mãos no colo, a tentar descobrir um fio de cabelo, um chinelo perdido, um quadro roubado, alguma coisa que não esteja na mesma. O gato a olhar para mim - não vi nada, o que procuras? não se passou nada! E eu à espera que alguma coisa tenha mudado e gato a dar cambalhotas - olha para mim, tão lindo! - e eu a falar com o gato, talvez o Nakata tenha deixado o dom? e nada. Tudo na mesma. Se eu contar que ainda há 3 dias tinha a casa cheia de gente ninguém se acredita. Dentro de mim todos eles, já estão parados, uma vénia e eu em ovação, mais uma vénia e eu a gritar - só mais uma! só mais uma! e eles vão fazendo vénias e eu sei que daqui a nada se cansam e têm de ir embora e fico eu na sala, sozinha, a saborear as últimas palavras que ficaram suspensas no candeeiro, ou nas plantas da varanda.
Mais um dia ou dois, lá vou eu de volta à vidinha, à Islândia fria do Valter Hugo Mãe e é pena que me vai saber a pouco e até nem é mau livro "A Desumanização" mas depois disto vai ser romance de beira de estrada.
E porque o mundo fala comigo continuamente, acabei de me cruzar com isto:
"Ever finished a book? I mean, truly finished one? Cover to cover. Closed the spine with that slow awakening that comes with reentering consciousness?
You take a breath, deep from the bottom of your lungs and sit there. Book in both hands, your head staring down at the cover, back page or wall in front of you.
You’re grateful, thoughtful, pensive. You feel like a piece of you was just gained and lost. You’ve just experienced something deep, something intimate. (Maybe, erotic?) You just had an intense and somewhat transient metamorphosis.
Like falling in love with a stranger you will never see again, you ache with the yearning and sadness of an ended affair, but at the same time, feel satisfied. Full from the experience, the connection, the richness that comes after digesting another soul. You feel fed, if only for a little while." aqui
I rest my case!
Há livros que vêm de mochila, quando acabam já têm tudo preparado para a saída e não tenho tempo nem para me sentar. E não estamos a falar de maus livros que eu esses abandono num canto qualquer e não penso mais neles. Mas livros que trazem pouca bagagem, livros-mochileiros ou one-night-stand, chegam, entram na cama e no dia seguinte saem antes de eu acordar. Talvez de manhã ainda me lembre das suas caras, das mãos mas no final do dia já é só a memória de um ou outro detalhe e seguir em frente.
Mas o Murakami não é desses. É dos que traz a sua própria chávena, que estende o tatami no chão do quarto, ao lado da cama, que enrola os dedos nos meus cabelos enquanto eu leio, que me sopra no pescoço. É dos que faz de conta que veio para ficar, dos que desfaz a mala e ocupa uma gaveta vazia e ajuda a arrumar a máquina de lavar loiça, como se a casa fosse sua. É dos que fala comigo como se o meu corpo fosse a sua casa, ali, à vontade, sem vergonha de me apertar o rabo, sem ansiedade nenhuma. Esses são os piores. São os melhores e só são os piores porque quando vão deixam tudo arrumadinho, dão um abraço, um beijo e vão à sua vida e quando chego a casa nem sei bem se alguma vez lá estiveram ou se foi só imaginação minha. Um vazio.
Estão todos, agora mesmo, a fazer a mala dentro de mim, a levar os livros todos, as músicas todas, a dobrar o jardim da biblioteca, a carregar a aldeia no meio da floresta, em silêncio, descalços. Já estão a varrer o chão. Quase imploro que não o façam - não precisam de levar tudo, não precisam de arrumar tudo, deixem-se ficar mais um bocadinho, faço-vos outro chá? Conta-me Kafka que vais fazer a seguir? Prometes escrever? Sakura, manda-me fotos! Oshima, que livro devo ler a seguir? E eles já em silêncio que já disseram tudo o que tinham para dizer e eu sei, mas queria que eles me adicionassem no facebook, que prometessem voltar um dia para um copo de vinho verde na Sé, todos juntos e talvez um passinho de dança.
Estou sentada no canto da sala, mãos no colo, a tentar descobrir um fio de cabelo, um chinelo perdido, um quadro roubado, alguma coisa que não esteja na mesma. O gato a olhar para mim - não vi nada, o que procuras? não se passou nada! E eu à espera que alguma coisa tenha mudado e gato a dar cambalhotas - olha para mim, tão lindo! - e eu a falar com o gato, talvez o Nakata tenha deixado o dom? e nada. Tudo na mesma. Se eu contar que ainda há 3 dias tinha a casa cheia de gente ninguém se acredita. Dentro de mim todos eles, já estão parados, uma vénia e eu em ovação, mais uma vénia e eu a gritar - só mais uma! só mais uma! e eles vão fazendo vénias e eu sei que daqui a nada se cansam e têm de ir embora e fico eu na sala, sozinha, a saborear as últimas palavras que ficaram suspensas no candeeiro, ou nas plantas da varanda.
Mais um dia ou dois, lá vou eu de volta à vidinha, à Islândia fria do Valter Hugo Mãe e é pena que me vai saber a pouco e até nem é mau livro "A Desumanização" mas depois disto vai ser romance de beira de estrada.
E porque o mundo fala comigo continuamente, acabei de me cruzar com isto:
"Ever finished a book? I mean, truly finished one? Cover to cover. Closed the spine with that slow awakening that comes with reentering consciousness?
You take a breath, deep from the bottom of your lungs and sit there. Book in both hands, your head staring down at the cover, back page or wall in front of you.
You’re grateful, thoughtful, pensive. You feel like a piece of you was just gained and lost. You’ve just experienced something deep, something intimate. (Maybe, erotic?) You just had an intense and somewhat transient metamorphosis.
Like falling in love with a stranger you will never see again, you ache with the yearning and sadness of an ended affair, but at the same time, feel satisfied. Full from the experience, the connection, the richness that comes after digesting another soul. You feel fed, if only for a little while." aqui
I rest my case!
segunda-feira, julho 21
não vou dizer-te, meu amor, que tenho saudades tuas, porque é das tuas mãos que sinto a falta.
nem te direi que durmo encostada à parede para o caso de em sonhos precisares de canto onde descansar um pouco. não te direi que deixo sempre duas chávenas junto à chaleira (é de frutos vermelhos e limão) e que se precisares de gelo está na segunda gaveta do congelador. não te direi que a Rosa já voltou para a Alemanha e que já estou sozinha outra vez e que, como tal, podemos fazer amor de porta aberta, ou na sala, se quiseres.
não te direi, porque não te interessa para nada, que já fiz o desenho mas soltei o pássaro que bichos com asas não foram feitos para estar presos, nem dentro de corações, e que a parede ainda tem tanto espaço que não precisarei de ir para a rua de caneta em punho.
não te direi que tenho férias em Outubro e que procurei a tua rua no google maps e não me parece fraco destino.
nem te direi que durmo encostada à parede para o caso de em sonhos precisares de canto onde descansar um pouco. não te direi que deixo sempre duas chávenas junto à chaleira (é de frutos vermelhos e limão) e que se precisares de gelo está na segunda gaveta do congelador. não te direi que a Rosa já voltou para a Alemanha e que já estou sozinha outra vez e que, como tal, podemos fazer amor de porta aberta, ou na sala, se quiseres.
não te direi, porque não te interessa para nada, que já fiz o desenho mas soltei o pássaro que bichos com asas não foram feitos para estar presos, nem dentro de corações, e que a parede ainda tem tanto espaço que não precisarei de ir para a rua de caneta em punho.
não te direi que tenho férias em Outubro e que procurei a tua rua no google maps e não me parece fraco destino.
quarta-feira, julho 16
Momento ridículo do dia - acabei de tirar forno um delicioso arroz de pato para 2. Vivo sozinha e são 23.15 e nem o facto de arroz de pato ser a minha refeição preferida de todo mundo anula o facto de não ter fome absolutamente nenhuma. Dou graças a dEUS pelo facto de já ter comido uma sopa e a fruta enquanto esperava pelo pitéu, ponho papel de prata em cima e amanhã há festim ao almoço!
este post não deveria começar assim. e deveria ter o título - coisas adultos que vivem sozinhos. então cá vai a versão 2.0, menos cansada deste post
Não é fácil viver sozinho. É bom, mas não é fácil. Os dias são demasiado curtos, 24h não chegam para nada.
Sai-se do trabalho às 6, passa-se em casa para pegar na mochila para o ginásio, vai-se ao ginásio - 1h de cycling puro e duro e o sol de final da tarde a bater na cara, que quem é solteiro não se pode dar ao luxo de não queimar calorias num sítio qualquer sob o risco de passar horas no sofá com um pacote de bolachas na mão ou em mesa de tascos mal frequentados com vinho rasca à frente e eu, mal por mal, prefiro ficar jeitosa!
Chegar a casa às 9, regar as plantas - convém pôr adubo universal pelo menos uma vez por mês - dar de comer ao gato, limpar a areia ao gato, fazer a cama de lavado (a empregada até veio hoje - ai que eu sou tão burguesa! - mas por motivos alheios a mim e a ela não havia roupa da cama lavadae passada), fazer o jantar.
Fazer o jantar - verificar o que se tirou do congelador a correr à hora de almoço. Eu tenho um congelador cheio. Completamente cheio. Foram 12 anos de refeições organizadas, mega-jantaradas, assados e vinho a qualquer dia da semana, sempre congelador cheio para qualquer desejos. Polvos, peixes, pá de porco para assar, 1/2 pato, gelado, you name it, tenho tudo. Então tirei um taperware a correr, na esperança que fosse 3 fatias de carne assada feitas pela mãe para dias em que não sobra tempo para nada excepto para as enfiar entre 2 fatias de pão. Não era. Era um belo de um pato desfiado, com calda e tudo, mesmo à espera do forno. São 9.45 da noite, não são horas para um arroz de pato mas deitar comida fora é que não, muito menos pato que é só a minha refeição favorita. Então mãos à obra - seja arroz de pato, não tem mal nenhum, amanhã também é dia. Arroz de pato, receita da avó! Forno e tudo. É claro que já não havia qualquer esperança que isso me servisse de jantar, pelo que me fiquei pela sopinha e pela meia meloa que me esperava impaciente de tão madura no frigorífico et voilá, hoje tenho arroz de pato para almoço.
vão por mim que eu sou barbeiro
Caríssimos, escutem. Escutem com atenção o que vos quero dizer. Eu sei do que estou a falar que sou mais velha que vocês, que vocês todos juntos, que eu já fui caçadora-colectora, lavadeira, já perdi a cabeça na guilhotina e não era sequer nobreza (estava só no sítio errado à hora errada), já fui jornaleira e sufragista.
Escutem o que vos digo.
Nada tem mal nenhum. O mal não existe. As coisas são o que são. E são assim. É o que há.
Os problemas também não existem. São coisas. São ruas com ruas à volta e muitos caminhos que se podem escolher, todos os caminhos do mundo e nem todos vão dar a Roma - isso também outra mentira.
Nada é o final do mundo. Nunca foi, nestes anos todos que já vivi e ouvi as pessoas dizerem que isto ou aquilo era o final do mundo, foi-se a ver, nunca foi. Há-de ser, mas não é para já.
Caríssimos, relaxem. Tudo vai correr. Correr, não é bem nem mal, é correr. Como a água num regato. A vida vai correr, a correr, isso é certo, mas não há-de correr bem nem correr mal que isso não existe, não se iludam. Façam com ela o que que com ela vos apetecer fazer, que essa é a única forma. Vivam sofregamente ou apaixonadamente ou deprimentemente, morram cedo se vos apetecer, a escolha é vossa porque só vocês é que existem e tudo à volta são acessórios que vocês optam por adoptar ou não.
Se por um lado lamento ter de ser eu a dar-vos esta notícia, por outra espero que vos liberte.
E isto não é literatura, senhores. É só uma velha a dizer o que sabe.
Escutem o que vos digo.
Nada tem mal nenhum. O mal não existe. As coisas são o que são. E são assim. É o que há.
Os problemas também não existem. São coisas. São ruas com ruas à volta e muitos caminhos que se podem escolher, todos os caminhos do mundo e nem todos vão dar a Roma - isso também outra mentira.
Nada é o final do mundo. Nunca foi, nestes anos todos que já vivi e ouvi as pessoas dizerem que isto ou aquilo era o final do mundo, foi-se a ver, nunca foi. Há-de ser, mas não é para já.
Caríssimos, relaxem. Tudo vai correr. Correr, não é bem nem mal, é correr. Como a água num regato. A vida vai correr, a correr, isso é certo, mas não há-de correr bem nem correr mal que isso não existe, não se iludam. Façam com ela o que que com ela vos apetecer fazer, que essa é a única forma. Vivam sofregamente ou apaixonadamente ou deprimentemente, morram cedo se vos apetecer, a escolha é vossa porque só vocês é que existem e tudo à volta são acessórios que vocês optam por adoptar ou não.
Se por um lado lamento ter de ser eu a dar-vos esta notícia, por outra espero que vos liberte.
E isto não é literatura, senhores. É só uma velha a dizer o que sabe.
fugir 5 minutos à hora de almoço para ir buscar o saco de ginástica
trocar de roupa e vestir o vestidinho branco que há que tempos que esperava tê-lo lavado e passado no guarda-fatos
ir trabalhar
descobrir que o vestinho branco tem um nódoa vermelha - foram os morangos, estou mesmo a vê-los a cair no meu colo
ainda bem que não plantei um limoeiro no tanque
vestir a roupa do ginásio
lavar o vestidinho vermelho
a nódoa não sai
deixar o vestidinho a corar e a rezar para que o sol mais o sabão e experiência de mil anos de lavadeiras na minha família façam um milagre e me deixem continuar a usar o meu vestidinho branco, feito pela costureira há 15 anos para o meu corpinho de adolescente.
trocar de roupa e vestir o vestidinho branco que há que tempos que esperava tê-lo lavado e passado no guarda-fatos
ir trabalhar
descobrir que o vestinho branco tem um nódoa vermelha - foram os morangos, estou mesmo a vê-los a cair no meu colo
ainda bem que não plantei um limoeiro no tanque
vestir a roupa do ginásio
lavar o vestidinho vermelho
a nódoa não sai
deixar o vestidinho a corar e a rezar para que o sol mais o sabão e experiência de mil anos de lavadeiras na minha família façam um milagre e me deixem continuar a usar o meu vestidinho branco, feito pela costureira há 15 anos para o meu corpinho de adolescente.
Talvez
porque o mundo seja pequeno. Talvez porque o mundo não seja bonito para quem
cresceu dentro de livro e músicas e montanhas e praias paradisíacas, com a
família perfeita. Talvez a minha mãe não devesse ter-me ensinado a gostar de
poesia e da Sophia de Melo Breyner tão cedo ao ponto de construir o meu mundo a
partir de fadas e florestas e ruínas de uma Grécia de mitos. Ou talvez seja
apenas por ter entrado para a natação aos 3 anos e me terem ensinado que se é
para mergulhar, que seja de cabeça, mas agora não sei outra forma. Viver é mergulhar de cabeça – mede-se a
profundidade, põe-se o pé para avaliar a temperatura et voilá – de cabeça.
Porque se não for de cabeça como há-de-ser? Entrar devagarinho, pé ante pé, a
água gelada dos dias a enregelar-nos os ossos – como há coragem de continuar?
Dizem-me
frequentemente que sou uma mulher de coragem, que quando vou a jogo é cheia de
força, até aos ossos. É verdade, mas isso não é coragem. Coragem é ter calma,
entrar devagarinho nas águas, adaptar, ganhar, com o tempo, membranas
interdigitais e barbatanas dorsais e guelras – a natureza quis que a evolução
fosse um processo adaptativo lento e eu sou aquilo que os cientistas chamam de
salto evolutivo - uma mutação, portanto.
De
cabeça, sempre de cabeça e sempre sofregamente em tudo. Se é para ler um livro
é para se morar dentro daquelas páginas, é ser-se todos os personagens ao mesmo
tempo, é sonhar e ter-se angústias de figurino, é jantar-se apenas se houver
uma refeição no livro e alguém estiver com fome. Lembro-me agora de uma viagem
de comboio, era apenas de 1 hora, em que na leitura um persongem já não
aguentava sem urinar e de um momento para o outro, do nada, a minha bexiga
cresceu para um tamanho descomunal e como os urbanos não têm quarto de banho, lá
tive eu de sair a meio da viagem, correr para o café de serviço e esperar 1
hora pelo transporte seguinte.
Sempre
fui assim e cheira-me a que isto não tem cura. Ouvi dizer que se chama sofreguidão
e que é o oposto da calma. Como já disse, memória é coisa que não me falta mas
esta história de aprender com os erros não funciona muito bem comigo. Quer
dizer, não os repito iguaizinhos, vou fazendo pequenas variações, mas nunca no
mergulho. Começa sempre tudo com um mergulho.
Vai
agora uma nota para a menina Joana, little me. O meu pai tinha um kayake de
dois lugares e volta e meia lá ía eu em passeio, rio acima, rio abaixo, nas
calmas. Um dia, o meu tio e o meu primo, os dois homens bastante atléticos,
vieram passear connosco. Palavra puxar palavra, alguém se lembou de lançar a
competição (e se há coisa que eu não resisto é a uma competição – nunca entrarei
num casino, que esta ansia de ganhar é uma coisa doentia) e foi quanto bastou
para que nessa noite não pudesse escovar os dentes, tal a dor nos braços. É claro
que ganhamos, que pergunta mais tonta!, mas eu tinha 15 anos e foi a minha mãe
que me cortou a carne em pedacinhos para eu poder jantar.
É assim
com quase tudo. Não me ponham um copo de vinho à frente, ou uma fatia de bolo
de chocolate. Ou um amor – e aqui é o pior. Não me dêem coisas pequeninas,
petiscos. Não sou de depenicar, quero as coisas todas, ao mesmo tempo, quero
não dormir, quero não sair dali nunca, devorar o mundo todo porque nunca se sabe
quando vamos ter de parar, quando o outro vai ter de ir embora e até lá (ai que
pode ser já daqui a nada) há tanto para dizer, tantos beijos para partilhar,
tantos centimetro de pele para sentir – o coração a mil, sempre a mil, tudo,
tudo, tudo, até os silêncios têm de ser saboreados e às vezes nem há tempo para
eles. De cabeça! Às vezes com a cabeça quase a bater nas pedras do fundo, a
razar, de olhos bem abertos, a maravilha de se estar tão perto do abismo, tão
perto da loucura.
Já o
disse, a maior parte dos nossos dias é aborrecimento e rotina e desilusão, por
isso mergulho em todos os momentos bons, pinto-os com lápis de cor, dou-lhes
asas e delongo-me neles o mais possível, às vezes até os romper, buidos,
t-shirt velha onde os braços já entram em mais de 5 buracos, gasta mas tão
confortável, a cheirar a mim, células minhas espalhadas em todas as fibras. Sou
uma potencial alcoólica, obesa, toxicodependente, com problema de jogo e uma
sede de amor a razar-me os olhos. É isto que eu sou e se é só em potência é
porque dEUS nosso senhor calhou de me dar um cérebrozinho que me vai travando e
dizendo – olha o fundo, rapariga, olha as pedras, não batas com a cabeça,
passa-lhe só as mãos devagarinho, em apneia profunda.
terça-feira, julho 15
Hoje fui à praia, meu amor. Saí do trabalho às 6, passei em casa para pegar na toalha e no biquini e fui levar o Kafka à beira-rio. O nosso cantinho, junto às árvores, junto à água, estava ocupado. Um outro casal mais feliz que nós (tinham claramente todo o tempo do mundo) brincava e ria e dava corridas para a água. Eram bonitos, meu amor.
Sentei-me logo ali junto à entrada da água, onde as crianças pudessem chapinhar-me acidentalmente e corressem à minha volta no regresso à toalha - a relva tão fina ali na margem a vibrar com os pézinhos dos meninos.
É claro que tive saudades tuas, que pergunta... ainda entrei na água - já passava das 7, para ver se as mandava rio abaixo, mas veio uma brisa quente e o meu cabelo ondulou e eu ouvi a tua voz - o teu cabelo é tão macio - e as saudades enrolaram-se no vento que se enrolou nos cabelos e já não eram horas de mergulhar de cabeça.
Não tem mal. Eu vou habituar-me. Os portugueses são assim, habituamo-nos bem a esta saudade que nos deixa os olhos tristes. Também eu lhe arranjarei um canto confortável dentro de mim. Talvez a axila esquerda, ou no átrio direito que recebe o sangue do corpo inteiro. Ainda não sei. É dar tempo ao tempo e ver onde ela calha de morar.
Para já ainda tenho de a escrever, de a fotografar na minha sombra das árvores (consegues vê-la, meu amor, a saudade?), nos raios de sol tardio que atravessam as copas, de a deixar enrolar-se no vento nos cabelos, ainda tenho de a deixar ser coisa, de a deixar viver em todas as frases do livro que me deixaste, deixá-la estender-se, ganhar corpo até ela se cansar ou eu me cansar e comprar um voo para a Dinamarca.
domingo, julho 13
"- Em O Banquete, de Platão, segundo Aristófanes,
existiam três espécies de pessoas no mundo antigo da mitologia - afirma
Oshima - Conhece a história?
- Não
- Antigamente as pessoas não se limitavam a ser homens e mulheres, mas
um dos três tipos: macho/macho, macho/fêmea ou fêmea/fêmea. Por outras
palavras, cada pessoa continha em si os componentes das duas partes.
Toda a gente vivia satisfeita com este estado de coisas e nem sequer
pensavam muito nisso. Foi então que os deuses pegaram numa faca e
cortaram cada um em dois. E assim, depois disso, o mundo ficou dividido
em machos e fêmeas, e as pessoas passaram o resto da vida à procura da
sua própria metade."
- Haruki Murakami in “Kafka à beira-mar”
E sim, isto parte-me um bocadinho o coração. Porque às vezes faltas-me, ó metade, e há batidas que parecem ser só mínimas e eu queria-as semibreve, breves ou longas. A cardiomegália de que sofro não sobrevive de complexos prematuros ventriculares e há cantos, como os dedos dos pés, à noite, que receiam a falta de irrigação. Todos os dias, de manhã, a primeira coisa que faço é contar os dedos, ter a certeza que o pinkie não se soltou e ficou perdido entre os lençois, o que o gato não o apanhou e brincou com ele pela casa fora. Depois de contados, toco-lhes a todos, um por um, ainda está tudo mole e rosa, ainda tem unha, ainda não foi hoje, ainda não foi esta noite.
Dirão vocês - que falta faz um dedo do pé? Digo-vos já que não tenho fetiches por pés. Não nego o poder de uma massagem sensual pé acima no pino do Verão, ou o arrepio na espinha de uma leve lambidela dos dedos (não só não nego como só de falar nisso já estou com uma vontadinha...) mas não é daí que vem o meu medo, que haveria sempre o pescoço e os lobos das orelhas e as faces internas das coxas, os pulsos, as parte de trás dos joelhos, as parte da frente dos joelhos e este corpo todo, mesmo pequeno, ou a alma toda para massajar e lamber. Onde me fazem falta, os dedos dos pés, é na vidinha. Como poderia sair eu da cama e enfrentar o mundo se não estivesse ligada a ele por dez dedos e duas palmas? Se já com tudo isto a ligação parece tão ténue, se me faltasse um que fosse, aposto que voava e nunca mais ninguém me punha a vista em cima e eu tenho muito que fazer neste mundo.
Se um dia eu desaparecer, voar ou enlouquecer, será pela falta que me fazes, ó metade, será porque deixei de acreditar que vai haver manhãs em que eu não terei de confirmar os dedos um a um.
Virgem:
Ascendente em Virgem
Duplamente observador, hábil, engenhoso, critico e discriminativo, se
fia na lógica, na ciência e na pesquisa. Individualidade nervosa,
emoção instável, predisposição irrequieta. Pesquisador e inventor nato,
um tipo mais solitário, que busca a perfeição em suas reflexões e
pesquisas. Aqui, mais uma vez, uma base educacional rica fortalece essas
qualidades, canalizando-as para qualquer atividade cientifica, de
critica, pesquisa e catalogação. Literatura, comunicação, investigação
criminal também são boas opções. No amor, a instabilidade e a
idealização de um amor perfeito precisam ser contrabalançadas. Essas
conotações se acentuam ainda mais, dependendo da posição de Mercúrio, o
planeta regente, e de seu estado cósmico no dia de nascimento, que
domina o mapa.
Não sei onde estava Mercúrio no dia em que nasci, mas eu, que sempe gostei de ciências, posso dizer que Mercúrio é o meu símbolo - coisas de tabela periódica. Hg. A minha irmã mais velha é ouro e a mais nova não é coisa nenhuma. Hg. Raios me partam que nem disto me safo, se a posição de Mercúrio acentua ainda mais esta coisa do amor perfeito e da predisposição inquieta, não há nada que me salve que mercúrio estava bem ali, dentro da sala de partos, no dia em que nasci, dentro do meu umbigo, ó coisa tóxica.
Há coisas das quais não podemos fugir. Podemos dizer, é pá... não ligo a essas coisas... o meu cérebro de cientista não deixa... mas a verdade é que o mar anda para trás e para a frente ao sabor da lua e achar que eu consigo ser mais forte que isso, que consigo negar esta sombra que é o universo a pairar em cima de nós é só tolice.
Admito que não é assunto sobre o qual me demore diariamente, mas volta e meia alguém me pergunta e eu lá me lembro da cara da rapariga que me fez a carta astral. A sério?, dizia ela na sala da parede verde que na altura já era azul petróleo, Virgem em Virgem? E tudo a olhar para mim com ar recriminatório como se Balança em Capricórnio é que fosse fixe. Virgem em Virgem. A palavra perfeição a pairar sobre aquelas cabeças, tudo hippies e anarquistas e malta meio avariada e eu, sentada na cadeira perfeitamente estofada, da sala perfeitamente pintada, da casa perfeitamente pensada, a pensar que a perfeição não é uma coisa má e todos a olhar para mim como se a freaky fosse eu.
Diz o meu pai - que não sendo um sábio até diz umas coisas acertadas - que ninguém foge ao seu destino e quem tem de morrer de um tiro não morre de uma facada e é já garantido, provado mais que provado, que as facadas não me hão de matar mas esta busca do amor perfeito... do mundo perfeito... ai Mercúrio, metal líquido venenoso e redondo, prata viva, ai Mercúrio que me complicas tanto a vida.
Fixe, para mim, era ser Peixe em Aquário, o que quer que isso signifique.
Não sei onde estava Mercúrio no dia em que nasci, mas eu, que sempe gostei de ciências, posso dizer que Mercúrio é o meu símbolo - coisas de tabela periódica. Hg. A minha irmã mais velha é ouro e a mais nova não é coisa nenhuma. Hg. Raios me partam que nem disto me safo, se a posição de Mercúrio acentua ainda mais esta coisa do amor perfeito e da predisposição inquieta, não há nada que me salve que mercúrio estava bem ali, dentro da sala de partos, no dia em que nasci, dentro do meu umbigo, ó coisa tóxica.
Há coisas das quais não podemos fugir. Podemos dizer, é pá... não ligo a essas coisas... o meu cérebro de cientista não deixa... mas a verdade é que o mar anda para trás e para a frente ao sabor da lua e achar que eu consigo ser mais forte que isso, que consigo negar esta sombra que é o universo a pairar em cima de nós é só tolice.
Admito que não é assunto sobre o qual me demore diariamente, mas volta e meia alguém me pergunta e eu lá me lembro da cara da rapariga que me fez a carta astral. A sério?, dizia ela na sala da parede verde que na altura já era azul petróleo, Virgem em Virgem? E tudo a olhar para mim com ar recriminatório como se Balança em Capricórnio é que fosse fixe. Virgem em Virgem. A palavra perfeição a pairar sobre aquelas cabeças, tudo hippies e anarquistas e malta meio avariada e eu, sentada na cadeira perfeitamente estofada, da sala perfeitamente pintada, da casa perfeitamente pensada, a pensar que a perfeição não é uma coisa má e todos a olhar para mim como se a freaky fosse eu.
Diz o meu pai - que não sendo um sábio até diz umas coisas acertadas - que ninguém foge ao seu destino e quem tem de morrer de um tiro não morre de uma facada e é já garantido, provado mais que provado, que as facadas não me hão de matar mas esta busca do amor perfeito... do mundo perfeito... ai Mercúrio, metal líquido venenoso e redondo, prata viva, ai Mercúrio que me complicas tanto a vida.
Fixe, para mim, era ser Peixe em Aquário, o que quer que isso signifique.
sexta-feira, julho 11
minha cara little me ou o dia em que descobri que sou objecto de fábrica
A vida é um sítio estranho. Eu que não ligo a destinos, nem em reencarnações, nem em coisas que tal, tenho vindo a ser posta a prova nos últimos tempos, que é o mesmo que dizer que dEUS nosso senhor anda a brincar comigo, pôr-me coisas nos sapatos, deixar berlindes ao lado da cama, coisas esquisitas que me fazem pensar, eh lá! isto estava aqui ontem?
Por exemplo - de onde saiu esta criatura que ainda agora me caiu na sopa de espinafres? Anda uma pessoa a passear-se serenamente por este mundo virtual, a meter conversa com quem lhe parece interessante, que às vezes as mesas do café se tornam curtas e nem toda a gente tem um gosto especial pelas letras, e pimba! palavra puxa palavra sai-me uma garota que, sem lhe conhecer o tamanho das pernas, é eu em tamanho pequeno? Eu que já nem comigo posso, que me dedico às palermices para fugir deste corpo pequeno, e dou de caras uma little me? Para mais interessante e com bom gosto? as mesmas dores, as mesmas músicas, os mesmo amores...
Diz ela, nas conversas que mantemos, em lugares conhecidamente mal frequentados, que eu sou a "eu do futuro". tu és eu mas com mais 10 anos em cima, com responsabilidades, casamento e experiência. Cruz credo que se me tivesse aparecido assim alguém na minha vida, ao 23 anos, tinha fugido a sete pés e ainda agora estou a ver como me safo desta.
Por exemplo - de onde saiu esta criatura que ainda agora me caiu na sopa de espinafres? Anda uma pessoa a passear-se serenamente por este mundo virtual, a meter conversa com quem lhe parece interessante, que às vezes as mesas do café se tornam curtas e nem toda a gente tem um gosto especial pelas letras, e pimba! palavra puxa palavra sai-me uma garota que, sem lhe conhecer o tamanho das pernas, é eu em tamanho pequeno? Eu que já nem comigo posso, que me dedico às palermices para fugir deste corpo pequeno, e dou de caras uma little me? Para mais interessante e com bom gosto? as mesmas dores, as mesmas músicas, os mesmo amores...
Diz ela, nas conversas que mantemos, em lugares conhecidamente mal frequentados, que eu sou a "eu do futuro". tu és eu mas com mais 10 anos em cima, com responsabilidades, casamento e experiência. Cruz credo que se me tivesse aparecido assim alguém na minha vida, ao 23 anos, tinha fugido a sete pés e ainda agora estou a ver como me safo desta.
Ó moça...
nem sei que te diga para além de que estas coisas me assustam muito. Sempre
pensei que era única no mundo – é uma coisa de ego, sabes, tenho-me em muito
boa conta, sempre me conheci muito bem e sei que não penso como as pessoas
normais, que não vivo neste mundo, e às vezes penso que sou maluca mas não digo
a ninguém porque sei que se um dia me apanham sou a do conto do Gabriel Garcia
Marquez e nunca mais saio do hospital psiquiátrico.
Estou
contigo quando dizes que as pessoas se repetem, que a maioria das pessoas do
mundo são pessoas-tipo - o benfiquista barrigudo, a esposa-taperware, o engraçadinho que nunca vai sair daquilo - foram feitas numa fábrica na China e não vieram de
Paris num bico do uma cegonha, mas ver que também eu saí de uma linha de produção... porra!
Não me apetece nada! Afinal sou artigo da Alta Costura, limited edition, cara, mas feita na mesma cave pelos mesmos chineses de ordenados miseráveis. Queria ser artigo único, desenhada à mão, amadurecida ao
sol do Alentejo e alimentada com flores e musiquinhas estranhas, objecto de
arte, sabes? ou artesanato, irrepetível até nos defeitos. Não quero ir para sala de museu, mas sempre pensei que passaria
pelo mundo sem me repetir e isso era o alento dos meus dias – vai Helena que
não há referências para ti, não vale a pena olhares para os lados para ver que
caminho seguir que tu só existes dentro de ti e só tu é que podes saber.
Aposto que a esta hora estás para aí a rir-te e a pensar olha lá a
egocêntrica... e podes rir-te à vontadinha que eu não me importo! Nunca me
importei. Eu só não riu porque isto assusta um bocadinho.
E neste
momento penso – o que é que faço com ela? Nunca mais falo com ela? Deixo-a ser
única porque ser única foi a coisa que me deu mais força na vida? E deixo-a
bater com a cabeça? Deixo-a fazer os meus erros? Ajudo-a a não fazer os meus
erros e com isso tiro-lhe parte da piada da vida? Para que é que estou para
aqui a dar conselhos, se nem de comer me lembro e ando para aqui feita tolinha
a escrever longas cartas a estranhos? Pego o próximo combóio para Lisboa e
mostro-lhe a minha cara e digo-lhe que vai ter rugas e dores no coração tão
grandes que nem as pernas vão saber andar?
Ó minha querida,
minha little me... tu foge! Faz de conta que nunca me viste, faz de conta que
nunca ouviste falar de mim há 2 anos. Faz de conta que te mudaram outra vez o tema
e não só não me vais estudar enquanto case-study de empreendedorismo como
também não serei case-study de vida.
É que eu
já tenho uma little me, sabes? É uma coisa genética. E também tenho uma big me.
Na minha família esta alma anda de um lado para o outro e se eu sou a minha tia
Lena também sou a minha sobrinha Rita, mas aí... o genes... a comida, o mesmo
sol, os mesmos livros, o mesmo grande avô Albertino... isso é outra coisa.
Tu foge,
querida! Esquece tudo o que te disse. TUDO!
Não voltes a esta casa, não leias o que escrevo, não ouças as playlists,
não venhas ao Norte! É o único conselho que te posso dar. Continua a ser única -
objecto de arte – coisa que se passeia no mundo como se este sítio não fosse
feito para ti.
Se um dia me apanharem, se um dia vier o homem da rede dos hospícios e eu por desleixo me mostrar e for levada, para um quartinho pequeno onde o sol entra 27 segundos por dia, e se me deixarem fazer um telefonema, será para ti que ligarei e tu irás lá e dirás que não sou louca, que eu sou tu mas mais velha e ficaremos lá as duas a rir como tolinhas, ok?
quinta-feira, julho 10
as leituras não estão em dia
é verão e as leituras não estão em dia e quase dá vontade de não dormir, ou dormir 4 horas e trabalhar à base de café e cigarros. dá vontade de não trabalhar, na verdade, dizer à malta, peço desculpa, mas estou atrasada na leitura, sinal do not disturb colado na testa. tenho livros atrasados na mesinha de cabeceira, no parapeito da janela, na minha carteira, outro na mochila, há um outro que ainda não saiu do saco da livraria - um desrespeito total para quem se senta todos os dias a debitar palavras, costas dobradas sobre a secretária, cabeça a fervilhar, escolher o verbo, apagar o verbo, começar de novo.
isto para não falar dos poemas que quando era pequena (e era do mesmo tamanho que sou agora, apenas com a ilusão de que iria crescer) jurei que seria um por dia, antes de dormir. mas isso era no tempo dos aquários, era no tempo em que não sabia que antes de dormir é preciso lavar a loiça e estender a roupa e limpar a areia do gato e regar as plantas e escolher a roupa para o dia seguinte que as noites curtas não deixam manhã para isso
.
lembrete - roubar um Torga ao pai. está calor e são precisas algumas pedras de granito nesta casa, um pedaço de montes e inverno frio a esta cidade. A Criação do Mundo para mim e os Bichos para eu pôr no chão a ver se o Adolfo se entretem com eles e me deixa ler um bocadinho, pode ser? eu sei que vais dar conta, pai, e ligar no dia seguinte - foste tu, não foste, que levaste os Torgas? Preciso deles e eu que já não minto dir-te-ei - fui, Pai, desculpa, mas não posso devolver, comi-os! e vais resmungar e eu vou explicar-te que são só partilhas antecipadas e que as minhas irmãs podem ficar com os serviços Vista Alegre, os pratos pretos, os oiros e os relógios da mãe (os teus são para mim menos aquele piroso que trocaste pelo Omega Lisboa com o tio, esse não o quero). e dir-te-ei para não te preocupares, na Bertrand ainda podes ir comprar outro Torga que ninguém quer saber do Torga nestes dias que correm, estão para lá todos atirados para um canto ao preço da chuva.
e meus amigos, não telefonem, não convidem para a bola, nem para o passeio, não digam quem lançou um album novo, que eu tenho o Japão e Islândia a meio, o longinquo Oriente por sublinhar, mais o Primo Levi e o Senhor Valérie sentados no chão do quarto com ar cansado de tanto esperar.
e homens bonitos que me oferecem livros porque sabem que as flores as compro eu, não se importam de ligar lá para Outubro?
isto para não falar dos poemas que quando era pequena (e era do mesmo tamanho que sou agora, apenas com a ilusão de que iria crescer) jurei que seria um por dia, antes de dormir. mas isso era no tempo dos aquários, era no tempo em que não sabia que antes de dormir é preciso lavar a loiça e estender a roupa e limpar a areia do gato e regar as plantas e escolher a roupa para o dia seguinte que as noites curtas não deixam manhã para isso
.
lembrete - roubar um Torga ao pai. está calor e são precisas algumas pedras de granito nesta casa, um pedaço de montes e inverno frio a esta cidade. A Criação do Mundo para mim e os Bichos para eu pôr no chão a ver se o Adolfo se entretem com eles e me deixa ler um bocadinho, pode ser? eu sei que vais dar conta, pai, e ligar no dia seguinte - foste tu, não foste, que levaste os Torgas? Preciso deles e eu que já não minto dir-te-ei - fui, Pai, desculpa, mas não posso devolver, comi-os! e vais resmungar e eu vou explicar-te que são só partilhas antecipadas e que as minhas irmãs podem ficar com os serviços Vista Alegre, os pratos pretos, os oiros e os relógios da mãe (os teus são para mim menos aquele piroso que trocaste pelo Omega Lisboa com o tio, esse não o quero). e dir-te-ei para não te preocupares, na Bertrand ainda podes ir comprar outro Torga que ninguém quer saber do Torga nestes dias que correm, estão para lá todos atirados para um canto ao preço da chuva.
e meus amigos, não telefonem, não convidem para a bola, nem para o passeio, não digam quem lançou um album novo, que eu tenho o Japão e Islândia a meio, o longinquo Oriente por sublinhar, mais o Primo Levi e o Senhor Valérie sentados no chão do quarto com ar cansado de tanto esperar.
e homens bonitos que me oferecem livros porque sabem que as flores as compro eu, não se importam de ligar lá para Outubro?
terça-feira, julho 8
hoje quando sair do trabalho, daqui a um bocadinho, vou fechar-me em casa e ler livros e ouvir música e comer sopa de espinafres.
não vou escrever, não vou ao tumblr, nem ao facebook, nem venho aqui ver o que se passa. não vou fazer filmes, não vou fazer desenhos nem anotar pequenas frases que me marcam.
vou tentar ter uma vida absolutamente normal. vou tomar banho, regar as plantas, ligar à minha mãe, dar de comer ao gato e limpar a areia.
a minha vida é um filme. e eu queria era uma vida normal. quero a vida normal dos mortais, anónima, rotineira e aborrecida, se faz favor.
não vou escrever, não vou ao tumblr, nem ao facebook, nem venho aqui ver o que se passa. não vou fazer filmes, não vou fazer desenhos nem anotar pequenas frases que me marcam.
vou tentar ter uma vida absolutamente normal. vou tomar banho, regar as plantas, ligar à minha mãe, dar de comer ao gato e limpar a areia.
a minha vida é um filme. e eu queria era uma vida normal. quero a vida normal dos mortais, anónima, rotineira e aborrecida, se faz favor.
esta carta não a envio
E diz a lírica, que deve ser uma pessoa interessantíssima, é de certeza, mas para mim é uma estranha com quem eu troco conversas e sorrisos:
"A cena do destino! Isto tem a ver com o aparecimento do “Tal”. Ou seja, se acreditares que existe uma pessoa compatível contigo a um nível eterno (para mim existem várias e algumas que estão “destinadas” a serem amigos para todo o sempre), então onde é que está? Para acreditares no “Tal” tens de acreditar que ele vai aparecer eventualmente, até porque há coisas que não se procuram certo? No entanto, quando os encontras, tanto aos amigos como aos tais da tua vida, teve de existir uma coincidência. Para mim, não é coincidência, mas sim karma. O karma também é uma forma de destino, faz o bem e o bem receberás em troca. See no evil, hear no evil, speak no evil. Coisas boas acontecerão. E isso é uma forma de destino. No filme “Mr. Nobody” (com o jeitoso do Jared Leto)há uma quote assim “Todos os caminhos, que são caminhos são certos”. E acho que é por aí, não tem a ver com religião, tu continuas com o livre-arbítrio da tua vida, mas em termos de salva-vidas ou empata-vidas eles aparecem aleatoriamente. Já te tornaste amiga de alguém que hoje caracterizas como um “amigo certo, na altura certa” e também já tiveste amores que podiam ter sido certos, mas vieram na altura errada.
Essa “altura errada” para mim, é uma não-altura. Se não era suposto ser para sempre, então acabou. Serve de lição (e certamente aprendeste qualquer coisa, daí o não-arrependimento) e quando a altura certa chegar, há-de ser perfeito.
Isto é tudo bonito porque há sempre alguém que há-de chegar (até porque não podes criar amores como plantas em vasos..) mas o problema é o tempo de espera.
Agora anda a circular um vídeo no facebook, do Gustavo Santos, sobre até quando esperar pelo amor da tua vida. Ainda não vi, para ser sincera porque me parece uma daquelas teorias de life-coaching que são um tanto ou quanto inúteis, mas nunca se sabe!
E acho que é isto!
Bom dia!"
e eu que não perco uma oportunidade para uma boa conversa ponho logo mãos à escrita
"A cena do destino! Isto tem a ver com o aparecimento do “Tal”. Ou seja, se acreditares que existe uma pessoa compatível contigo a um nível eterno (para mim existem várias e algumas que estão “destinadas” a serem amigos para todo o sempre), então onde é que está? Para acreditares no “Tal” tens de acreditar que ele vai aparecer eventualmente, até porque há coisas que não se procuram certo? No entanto, quando os encontras, tanto aos amigos como aos tais da tua vida, teve de existir uma coincidência. Para mim, não é coincidência, mas sim karma. O karma também é uma forma de destino, faz o bem e o bem receberás em troca. See no evil, hear no evil, speak no evil. Coisas boas acontecerão. E isso é uma forma de destino. No filme “Mr. Nobody” (com o jeitoso do Jared Leto)há uma quote assim “Todos os caminhos, que são caminhos são certos”. E acho que é por aí, não tem a ver com religião, tu continuas com o livre-arbítrio da tua vida, mas em termos de salva-vidas ou empata-vidas eles aparecem aleatoriamente. Já te tornaste amiga de alguém que hoje caracterizas como um “amigo certo, na altura certa” e também já tiveste amores que podiam ter sido certos, mas vieram na altura errada.
Essa “altura errada” para mim, é uma não-altura. Se não era suposto ser para sempre, então acabou. Serve de lição (e certamente aprendeste qualquer coisa, daí o não-arrependimento) e quando a altura certa chegar, há-de ser perfeito.
Isto é tudo bonito porque há sempre alguém que há-de chegar (até porque não podes criar amores como plantas em vasos..) mas o problema é o tempo de espera.
Agora anda a circular um vídeo no facebook, do Gustavo Santos, sobre até quando esperar pelo amor da tua vida. Ainda não vi, para ser sincera porque me parece uma daquelas teorias de life-coaching que são um tanto ou quanto inúteis, mas nunca se sabe!
E acho que é isto!
Bom dia!"
e eu que não perco uma oportunidade para uma boa conversa ponho logo mãos à escrita
Quanto ao tal, não me acredito mesmo. Nada. Ainda menos
depois deste fim-de-semana em que o tal era o oposto absoluto de mim. A única
coisa que as nossas vidas tinham em comum era o facto de ambos sermos esquerdinos
e de esquerda. A vida dele era, em todos os aspecto, o inverso da minha. Eu
classe média-alta e ele de uma família miserável da Irlanda onde por vezes
faltava comida à mesa, ele o primeiro licenciado da família eu com um avô
professor universitário e e com 2 gerações de licenciados na área da medicina, ele com PhD
em Política Asiática a ensinar numa
Universidade de renome, a 3 anos de ter emprego para a vida garantido e eu à 3
anos deixei a minha carreira estável para abrir um negócio que não dá dinheiro
nenhum, ele a viver num apartamento que não tem um quadro na parede e eu a
pensar que mais dia menos dias não vou ter mais paredes onde desenhar, ele com as
mãos mais macias do mundo porque não prega um prego, não escreve com caneta,
passa o dia a pensar e a estudar e eu cheia de cortes e tinta nas mãos porque
as meto em todo o lado, ele um introvertido e eu que não me calo, ele que sabe imensas coisas e acha que as suas histórias não interessam a ninguém e eu que gosto de mostrar as coisas bonitas do mundo a todos com quem me cruzo, na esperança que a minha felicidade possa tornar o mundo um sítio mais feliz. Estavamos a
falar de anti-heróis, coisa que eu removo da minha vida – tudo o que é podre e
tem nódoas de gordura e dentes podres e podridão interna, falta de moral, nem
vejo nem consigo lidar com – e ele pediu-me um exemplo e eu falei-lhe de um
personagem de um livro do qual nem me lembrava do título e comecei a descrever
o personagem e ele adivinhou em 3 segundos. E desatou a rir-se porque adorou
aquele livro exactamente pelos mesmos motivos que eu odiei. A realidade crua e
brutal, porque ele aceita a realidade toda, com toda a sua podridão e aquilo é
só a descrição de uma podridão humana tão bem feita e ele leu-o na cidade em
que ocorre e viu aquilo tudo e gostou por isso mesmo. Ele que é a pessoa mais
calma e organizada do mundo consegue viver com a podridão e eu que sou um saco
de energia a correr de um lado para o outro feita louca tenho de criar o meu
mundo feito de flores e correcção moral... passamos 48h juntos, os nossos
assuntos são os mesmos e só o facto de nos termos cruzado foi um milagre. 48h
totais, discutimos tudo, bebemos vinho, passeamos junto ao rio, pedimos comida
e não comemos quase nada, saímos com os meus amigos e ele parecia que foi feito
para estar ali, acabamos em minha casa e não dormimos nem 1 hora e eu cheia de
energia e ele morto de sono. Levei-o à magnífica praia fluvial no domingo à
tarde e eu triste por ela estar vazia e os shoppings cheios e ele a pensar por
que carga de água é que eu queria que aquele paraíso fosse conhecido e apesar
de odiar o capitalismo tanto como eu prefere ter a malta às compras para termos
o céu só para nós. 48h - nada mais. Nunca
mais vamos falar nem nunca mais nos vamos ver e isso não tem importância
nenhuma. Não deixou de ser amor, não deixou de ser para sempre.
O próximo tal há-de aparecer e eu vou ser uma pessoa
diferente como somos sempre pessoas diferentes todos os dias. Hoje sou
completamente diferente da que era quando conheci este personagem. E se amanhã
me aparecer outro amor vai mudar-me de tal forma que serei incapaz de reviver
um outro amor antigo. Por isso também estranho a tua ligação aos homens que já
deixaste. Se tu não és a mesma pessoa, mesmo que eles sejam (porque os rapazes
têm dessas coisas e não crescem, às vezes), como podes esperar ser feliz? A felicidade
que tiraste dessas relações já foi, já existe, já a tens e é tua e é para
sempre. Não vais voltar a ter borboletas na barriga, não vais ficar maravilhada
com uma coisa qualquer porque já lá estás há demasiado tempo para te
surpreenderes. Com isto não te digo que deixei de acreditar em relações longas,
longos casamentos para a vida. Acredito e quero acreditar e preciso de
acreditar. Mas para isso é preciso que as coisas cresçam continuamente, as 2
pessoas cresçam continuamente e construam continuamente um mundo novo único por
ser construído a 2 mãos. Quando as relações terminam, terminam, mesmo que não
se saiba porquê. Ficar agarrado a elas é querer embalsamar o cão que já morreu
para o ter em casa. Digo eu. Sei lá. Parece-me assim, hoje.
Ó musa, o mundo é o sítio mais maravilhoso que existe porque
tem TANTAS realidades diferentes... não sei se já te disse, mas eu não sei o
que é estar aborrecida. Não sei mesmo. As 24h do dia não chegam para todas as
coisas que eu quero fazer, todos os pensamentos que eu quero ter, todas as
conversas, todos os livros, filmes, desenhos... é impossível. E olha que eu
durmo pouquinho, vivo de cafés e tenho tempo no meu trabalho para fazer destas
coisas e mesmo assim o tempo não chega para o mundo inteiro. Ainda agora de
manhã falava com uma amiga e dizia-lhe que tenho tanta pena de não ter paz, não
ter calma. Quero em todos os momentos captar tudo, guardar tudo dentro de mim
feito tatuagem, lembrar-me de tudo, ser tudo. Esqueço-me de comer e esqueço-me
de dormir e um destes dias vou ficar louca, e vou falar sozinha na rua e a
ideia não me agrada por aí além porque eu quero saber tudo para ser sábia, não
para ser louca. O que eu queria ser era sábia e ter paz e ter uma família e
filhos e fazer bolos e assados e agora não consigo nem lembrar-me de me
alimentar a mim própria...
Esta quinta-feira vou começar um curso de meditação
mindfulness. Tenho esperança que me cura desta sede e me ajude a encontrar
alguma paz. E vou fazer uma camisola para esta minha amiga porque ela acha que
se eu estiver a fazer a camisola vou ter de ser calma e não vou pensar mas eu,
que já fiz uma data de camisolas para entreter os dedos, bem sei que as faço
com o mesmo frenesim e excitação com que vivo e tenho alguma dúvida se vai
funcionar, mas vou tentar.
Ó rapariga, até já tenho pena de ti e do dia em que tu
disseste conta-me tudo! Não vou contar. Esta carta não ta envio. Vou poupar-te
um bocadinho a esta compulsão louca de escrever tudo, sobre tudo. Talvez um dia te cruzes
com este blogue e saibas que escrevi isto para ti. E para mim. E te rias um
pouco.
Such a perfect weekend
É verdade, é um pouco piroso, mais um cliché, mas eu ligo pouco a esses conceitos e na verdade é mesmo isto. Such a Perfect Weekend. Meu amor, tantas coisas que te queria contar, tantas coisas que eu queria que tu soubesses porque são coisas que me aquecem este coração sempre a transbordar e quando penso nas últimas 48h penso que gostaria de te ter dito que este música foi escrita para uma sandwiche de presunto.
quinta-feira, julho 3
Carta-resposta para uma lírica
Achei piada à tua frase de que a
normalidade não te traz inspiração e por isso te respondo. esta coisa da
normalidade tem sido, para mim, temática da maior importância. por causa
desta imagem que nos foi vendida de que a vida normal é a evitar, por ser cinzenta
e aborrecida, por a vida normal ser uma carneirada, um palerma deixou-me à
porta da obstectra onde íamos planear o nosso primeiro filho, numa relação
maravilhosamente bonita e cheia de amor, passeios, concertos, férias, casa
cheia de jantar com amigos, filmes de culto, projectos. não quero uma vida
normal, disse ele.
eu não sei o que é uma vida
normal. o conceito normal é uma coisa da estatística, da matemática, não tem em
conta as emoções.
as vidas nunca podem ser normais
porque são sempre únicas. a tua vida tem de certeza coisas únicas, todos os
dias, mas estamos tão formatados a esperar coisas gigantes, montanhas-russa a
toda a hora, grandes amores, imensas vitórias inesperadas, sentimentos
abruptos, que deixamos de dar valor à pequeninas coisas do dia-a-dia, que às
vezes são as melhores coisas do mundo, e que nós ao ignorarmos perdemos-lhes o sabor.
Se eu te contar a minha vida, os
meus dias, tu vais dizer uau! Tens uma vida fantástica! (e é verdade, tenho)
mas aposto que se tu me contares os teus, eu vou dizer o mesmo. Porque é
diferente da minha, tem emoções diferentes das minhas. Mas depende da forma
como me contares. Se eu te disser que ontem acordei cedo para ir trabalhar e
tive uma má notícia que me complica muita vida para os próximos tempos, e que
almocei sozinha uma tosta mista numa esplanada e que quando lá estava começou a
chover torrencialmente e eu tive de ficar debaixo do guarda sol à espera que
passasse... e que fui buscar uma bicicleta que deixei para arranjar há 1 mês e
que não estava pronta, e que tirei a tarde de folga e liguei a 6 amigos e que estava toda a gente
a trabalhar e não tinha namorado com quem partilhar as horas e que à noite fui jantar
com um amigo que até é fixe mas eu gosto é de gajos altos e depois dormi
sozinha não tem muita piada pois não? Mas se te disser que acordei cedo e fui
trabalhar e recebi uma má notícia que me complica muito a vida para os próximos
tempos e que decidi não me debruçar sobre o assunto e decidi não trabalhar à
tarde (sou patroa, posso fazê-lo) e tirar a tarde para limpar a cabeça e que
comi uma tosta mista numa esplanada debaixo de uma chuva e que me soube muito
bem porque tinha boa música a tocar no mp3 e havia uma rapariga na mesa ao lado
que estava na mesma situação e que nos rimos uma para outra e foi giro. E que
depois raptei o namorado estrangeiro de uma amiga e levei-o a beber um
fino à beira rio e depois devolvi-o e liguei a um amigo para jantar e fui
jantar uma costoleta de vitela e que ele, que é geografo e que conhece
as ruas todas desta pequena cidade, ao trazer-me para casa de carro, demorou
4 vezes mais tempo a deixar-me em casa do que se eu tivesse vindo a pé,
assim já tem alguma piada, certo?
It’s all about perspective! Não há
vidas normais. E a tua vida, pelo que eu já li dos teus textos, não tem nada de
normal. Saboreia-a e esmiúça as coisas pequeninas que lhe dão piada. ;)
Fico à espera!
Um abraço,
e PIMBA a lírica responde isto, sem ser resposta porque ainda não leu a minha carta, concerteza
quis fazer esquecer-te de que os homens não trazem bagagem, mesmo quando navegam. mesmo quando embarcam noutra viagem.
por altos mares te levam os ventos que te agridem e não há quem te traga de volta. as cordas rompem-se, da voz e da poupa. não há quem grite por ti que já não tenha gritado, não há quem saiba de ti agora, que em algum momento já não tenha sabido. já não és novo, nem aqui, nem na china.
e no entanto envelheces. tu e as tuas manhas, as tuas fracas franquias de pescador de banheira. e lá ias tu, sempre sem enjoar. sem me enjoar.
sem as enjoar.
agora restam náufragos de ti e de todas as tuas interpessoalidades.
fica-te dado como desaparecido, fica-te bem a ausência.
e eu derreto-me toda porque podia ter sido eu escrever se ainda escrevesse sobre este assunto e soubesse escrever!
Um abraço,
e PIMBA a lírica responde isto, sem ser resposta porque ainda não leu a minha carta, concerteza
náufragos
quis ver-te chegar a bom porto, onde não carregasses mais cruzes nem te sentisses morto.quis fazer esquecer-te de que os homens não trazem bagagem, mesmo quando navegam. mesmo quando embarcam noutra viagem.
por altos mares te levam os ventos que te agridem e não há quem te traga de volta. as cordas rompem-se, da voz e da poupa. não há quem grite por ti que já não tenha gritado, não há quem saiba de ti agora, que em algum momento já não tenha sabido. já não és novo, nem aqui, nem na china.
e no entanto envelheces. tu e as tuas manhas, as tuas fracas franquias de pescador de banheira. e lá ias tu, sempre sem enjoar. sem me enjoar.
sem as enjoar.
agora restam náufragos de ti e de todas as tuas interpessoalidades.
fica-te dado como desaparecido, fica-te bem a ausência.
e eu derreto-me toda porque podia ter sido eu escrever se ainda escrevesse sobre este assunto e soubesse escrever!
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