quarta-feira, julho 16

vão por mim que eu sou barbeiro

Caríssimos, escutem. Escutem com atenção o que vos quero dizer. Eu sei do que estou a falar que sou mais velha que vocês, que vocês todos juntos, que eu já fui caçadora-colectora, lavadeira, já perdi a cabeça na guilhotina e não era sequer nobreza (estava só no sítio errado à hora errada), já fui jornaleira e sufragista.

Escutem o que vos digo.

Nada tem mal nenhum. O mal não existe. As coisas são o que são. E são assim. É o que há.
Os problemas também não existem. São coisas. São ruas com ruas à volta e muitos caminhos que se podem escolher, todos os caminhos do mundo e nem todos vão dar a Roma - isso também outra mentira.

Nada é o final do mundo. Nunca foi, nestes anos todos que já vivi e ouvi as pessoas dizerem que isto ou aquilo era o final do mundo, foi-se a ver, nunca foi. Há-de ser, mas não é para já.

Caríssimos, relaxem. Tudo vai correr. Correr, não é bem nem mal, é correr. Como a água num regato. A vida vai correr, a correr, isso é certo, mas não há-de correr bem nem correr mal que isso não existe, não se iludam. Façam com ela o que que com ela vos apetecer fazer, que essa é a única forma. Vivam sofregamente ou apaixonadamente ou deprimentemente, morram cedo se vos apetecer, a escolha é vossa porque só vocês é que existem e tudo à volta são acessórios que vocês optam por adoptar ou não.

Se por um lado lamento ter de ser eu a dar-vos esta notícia, por outra espero que vos liberte.

E isto não é literatura, senhores. É só uma velha a dizer o que sabe.

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