"- Em O Banquete, de Platão, segundo Aristófanes,
existiam três espécies de pessoas no mundo antigo da mitologia - afirma
Oshima - Conhece a história?
- Não
- Antigamente as pessoas não se limitavam a ser homens e mulheres, mas
um dos três tipos: macho/macho, macho/fêmea ou fêmea/fêmea. Por outras
palavras, cada pessoa continha em si os componentes das duas partes.
Toda a gente vivia satisfeita com este estado de coisas e nem sequer
pensavam muito nisso. Foi então que os deuses pegaram numa faca e
cortaram cada um em dois. E assim, depois disso, o mundo ficou dividido
em machos e fêmeas, e as pessoas passaram o resto da vida à procura da
sua própria metade."
- Haruki Murakami in “Kafka à beira-mar”
E sim, isto parte-me um bocadinho o coração. Porque às vezes faltas-me, ó metade, e há batidas que parecem ser só mínimas e eu queria-as semibreve, breves ou longas. A cardiomegália de que sofro não sobrevive de complexos prematuros ventriculares e há cantos, como os dedos dos pés, à noite, que receiam a falta de irrigação. Todos os dias, de manhã, a primeira coisa que faço é contar os dedos, ter a certeza que o pinkie não se soltou e ficou perdido entre os lençois, o que o gato não o apanhou e brincou com ele pela casa fora. Depois de contados, toco-lhes a todos, um por um, ainda está tudo mole e rosa, ainda tem unha, ainda não foi hoje, ainda não foi esta noite.
Dirão vocês - que falta faz um dedo do pé? Digo-vos já que não tenho fetiches por pés. Não nego o poder de uma massagem sensual pé acima no pino do Verão, ou o arrepio na espinha de uma leve lambidela dos dedos (não só não nego como só de falar nisso já estou com uma vontadinha...) mas não é daí que vem o meu medo, que haveria sempre o pescoço e os lobos das orelhas e as faces internas das coxas, os pulsos, as parte de trás dos joelhos, as parte da frente dos joelhos e este corpo todo, mesmo pequeno, ou a alma toda para massajar e lamber. Onde me fazem falta, os dedos dos pés, é na vidinha. Como poderia sair eu da cama e enfrentar o mundo se não estivesse ligada a ele por dez dedos e duas palmas? Se já com tudo isto a ligação parece tão ténue, se me faltasse um que fosse, aposto que voava e nunca mais ninguém me punha a vista em cima e eu tenho muito que fazer neste mundo.
Se um dia eu desaparecer, voar ou enlouquecer, será pela falta que me fazes, ó metade, será porque deixei de acreditar que vai haver manhãs em que eu não terei de confirmar os dedos um a um.
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