O homem não tinha tempo. Das 24 horas que Deus dava a todos os seres por dia, só lhe sobravam 3, que ele usava todos os dias, escrupulosamente, para dormir. O homem fazia imensas coisas, cumpria recados e tarefas com afinco e era, feitas as contas, um bom homem - ria-se e tinha amigos embora nunca se tivesse apurado onde os tinha arranjado, já que também não tinha tempo para lhes dar. Deus deve ter-lhe dado amigos para o compensar pelas horas extraordinárias, embora isso não fosse um bom presente já que o homem não tinha tempo para usufruir deles. Qualquer presente que Deus lhe tivesse dado, à excepção de um bom colchão e uma boa almofada, eram quase um presente envenenado, mais uma coisa para competir com as 3 horas de sono, mais um roubo ao seu descanso.
O homem viva sozinho e tinha a casa sempre arrumada porque não tinha tempo para a desarrumar. Quando saía da cama ela estava feita, desde que saísse sorrateiramente pelo lugar da almofada, coisa que fazia com mestria.
Era um homem magro e sorria na rua, zangando-se apenas perante as injustiças sociais que, como bem sabemos, são o mais comum de encontrar nos dias de hoje por isso o homem, apesar de sorrir na rua, andava sempre zangado.
O homem tinha planos e aspirações. E apesar da falta de sono, o homem sonhava, o que lhe atrasava o ritmo de trabalho e cada 5 minutos a sonhar conduzia a mais uma pilha de tarefas por terminar. Às vezes, quando a pilha era insuportável e os papéis batiam no tecto da casa sempre arrumada, o homem deixava de sonhar e só cumpria, mas 6 meses depois apercebia-se da falta de sonho e metia baixa. Nesta alturas o homem prometia-se outras coisas. Um sofá que disfarçasse o vazio da sala a que pudesse dar uso em domingos e quiça finais de alguns dias. Quando tivesse um sofá (e isto o homem sabia que talvez fosse sonhar alto demais mas já que estava de baixa, dava-se a esse luxo, de sonhar quase até ao tecto rente do apartamento suburbano mas ainda assim relativamente perto de uma estação de metro que nunca o levava à baixa), quando tivesse um sofá, podia convidar uma rapariga.
As baixas do homem nunca duravam mais do que 3 dias. Ao terceiro dia, religiosamente, um dos patrões (o homem trabalhava para A, B e C) mandava uma mensagem ou um cesto de fruta com votos de melhoras e de célere regresso que era tão importante e tão necessário que talvez o mundo parasse se ele se demorasse e ninguém queria isso. O homem era orgulhoso. Gostava de saber que o mundo podia parar por sua causa e orgulhosamente metia a baixa para baixo da cama, junto das pantufas que nunca tinha tempo para usar, arregaçava as mangas e voltava à árdua tarefa de salvar o mundo.
O homem nunca comprou o sofá.
Os seus patrões sempre dormiram descansados.
terça-feira, fevereiro 26
O homem
terça-feira, fevereiro 19
As finanças pedem-me, por mail, para actualizar o meu estado civil. E logo no dia seguinte dizem que tenho de ir ver as facturas, em tom de és ou não és adulta? As finanças julgam-me com olhos de avó que nunca tive a dizer ainda não te casaste rapariga? A minha avó não quer que eu case nunca. Mas as finanças não são doces como a minha avó. Gostam de meter o dedo na ferida para além do olho na carteira. Validei as facturas. Livros e comprimidos para a dor de alma e de costas - como queriam as finanças que eu mudasse o meu estado civil se nada mais tenho para apresentar. Nunca peço factura do vinho.
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