Tinhamos pousado as malas - eu as minhas e tu as tuas, onde quer que as pousasses. Sempre que eu pousava as malas, mesmo que nem de malas andasses, era como se também tu pousasses qualquer coisa com barulho no chão.
Não foi assim.
Sempre que eu pousava as malas, ainda antes de ir buscar o gato, tu fazias um barulho no meu chão. Eu chegava a casa, as plantas mal regadas, não há alhos em casa, ou coentros, ainda nem tenho gato nem abri a porta do quarto, e já ouço o bater das tuas malas. Ou melhor, a ausência do bater das tuas malas.
Também não é assim.
Eu chego com as malas e tão cansada que só vou buscar o gato amanhã - quem me dera que mo mandassem pelo correio. Quando tenho sorte, o companheiro de casa deixou tudo mais ou menos arrumado. Ou pelo menos a cozinha. Quando chego, tão cansada, às vezes até adio o mar, e isso é sinal de que estou mesmo cansada. E oiço o bater da ausência das tuas malas quando atiro as minhas contra o chão do corredor.
Estou a mentir. Isso não aconteceu.
As minhas malas não ressoam no chão em duo. Pouso-as devagar, para não fazerem barulho nenhum no quarto gelado. Gostava que o gato chegasse no dia anterior e remeloso levantasse as orelhas na minha chegada. Não é assim, o gato não está aqui. Amanhã pego no carro (que não pega - a bateria morre na minha ausência - é a única). Amanhã peço os cabos para acordar o carro, sujo das árvores de dois meses de outono mais um primeiro dia de inverno, para arrancar para o mar. Amanhã. O mar. O gato. Tu, não és desta história. É pena, nunca as tuas malas bateram em dueto com as minhas contra o chão.
Vou começar outra vez.
Chego a casa e desta vez até nem está mal. Só morreram os coentros e a salsa. O meu quarto está tão desarrumado como o deixei e o gato está de férias no resort que é a casa dos meus pais. Amanhã junto-me a ele. Somos tão felizes por lá! Ainda antes de me estragar do mimo caseiro e felino, paro o carro a frente do mar e fumo um cigarro devagar a ver as ondas a partirem-se contra a praia. Depois rapto-o para aqui e temos a casa só para nós - o sofá e a manta e a música a tocar só para nós. As malas ainda desarrumam o chão do quarto, mas ganho o andar felino e nem dou por elas. O gato cheira tudo antes de se atirar para a cama e ignorar que a dona é, nestes dias, um caos. É o bom dos gatos - não nos julgam a primeira falha, a não ser que esta seja a ausência da taça da ração, e isso é a primeira coisa de que eu trato mal entro em casa.
Tu não chegaste. Não pousaste a mala. O gato nem sabe sequer o teu nome. A tua ausência não é visível, é apenas uma coisa que eu invento para não viver sozinha entre os bichos, só para não me chamarem mogli.
segunda-feira, dezembro 26
terça-feira, dezembro 6
Resistir a enviar-te uma palavra é a minha missão do dia. Entretenho-me com quem não me interessa e só a tua ausência revolve no meu estômago. Hoje, por tua causa, ou melhor, pela tua causa perdida em mim, quase não comi. Fiquei-me pelo pequeno-almoço e quatro chavenas almoçadeiras de café. O caixote do lixo dos amores imperfeitos continua a ser vasculhado pelos ladrões de sonhos, e as tuas cartas aparecem todas as manhãs espalhadas nesta cama que não é a minha mas que foi de onde te escrevi. Como se nos lençois já tantas vezes lavados e onde nunca te deitaste, nesta aldeia que nem sabes onde fica, tivesse ficado impresso a permanente saudade a paixoneta que te tinha.
Sai de mim coisa ruim, sussurro antes de dormir, mas pela manhã (e às vezes pela noite dentro) lá me apareces de cartas em punho, todas dobradas, apertadas numa fita vermelha, elas que nunca foram físicas, todas escritas em papel virtual, nem o meu cheiro tinham, e tu com elas na mão, de camisa engomada metida dentro das calças - neste frio, rapaz, veste uma camisola, pelo amor da santa! - a olhar como quem vê os comboios a passar. Pedro pedreiro terceiro esperando o trem. Será que alguma vez vais entrar na carruagem?