sexta-feira, dezembro 15

Escuta!
Estica o ouvido esquerdo para o crepitar da lenha e o direito para o vento que arrasta as cadeiras lá fora. Pelo meio, tenta ouvir a música que toca e se olhares o gato nos olhos (e os semi-cerrares como quem diz gosto de tu) ouve-o a ronronar à distância, baixinho.
Atenta em como pinga a torneira da cozinha do vizinho de cima depois de lavarem a loiça (mira o tecto não vá teres infiltração).
Escuta o som dos autocarros a entrar e a sair da central,  distingue o som exacto da sua marcha-atrás a sonar bip-bip-bip-bip.
Fecha os olhos, agora.
Ouve o aparador da sala a dilatar com o calor. Ouve a tangerina a apodrecer na fruteira da mesa da sala, lentamente. (Estica o ouvido até ouvires o bolor a crescer na pele rugosa)
Ouve o som que fazes a deglutir o gole de vinho. Escuta outra vez - outro gole, agora de olhos fechados - escuta o barulho que fazem os lábios a separarem-se, a lingua a descolar do céu da boca, o copo a colar-se aos lábios (esquece o arrastar de cadeira do vizinho de cima), a glote a abrir e a fechar.
Escuta os que fazem da tua rua rali, que hoje é sexta à noite, e tenta prever quando terão de puxar do travão de mão na rotunda. 
Conta as garrafas que caem no vidrão e o estardalhaço que fazem - lembra-te sempre de levar as tuas no meio do dia, quando ninguém escuta nada.
Ouve a panela rota do carro que sobe a avenida.
Quando tiveres ouvido tudo, e enquanto os pássaros não rompem o eter com o seu canto, pelas 7h53m, abanando a manhã e a tília e o sábado, inventa escutares a conversa do vizinho da frente que deixa a porta do elevador fechar antes de tu fechares a porta de casa; inventa as conversas do que saem dos carros e entram no bar do outro lado da rua, olha para a cabeça do teu gato e ouve-o pensar,  em gatez.
Escuta tudo e não faças barulho. Faz da tua presença o silêncio, anda descalço pela sala para não interromperes o mundo. Atenta nos pormenores que mais ninguém tem ouvidos para inventar. Diz paz, diz calma, diz 'eu consigo ouvir o ar a entrar-me pelo nariz', arruma a alma dentro do silêncio, não deixes nem as meias sujas dos dias desalinhar o tempo.
Escuta e não te importes em ser importante. Sê, apenas. Bebe respira ouve - ouve tudo - lê. E sente na pele o calor do casaco velho. Sente tudo. Não te importes em mostrar coisa nenhuma. Sê importante por seres tudo a tuda a hora, sem ninguém saber. Guarda tudo em segredo dentro do peito e vê-te a crescer.

sexta-feira, novembro 24

Hoje, ao som da tua música, fiz uma feijoada de cogumelos.
Tocava a Sharon Van Etten quando, ontem, pus o feijão branco de molho, ainda sem saber se dele faria sopa ou arroz. O Father John Misty cantava quando o atirei para a panela de pressão. Depois fui à varanda colher a salsa do vaso. Quando voltei a Nina Simone reclamava. Os cogumelos são de duas variedades - os Agaricus biosporus e os Pleurothus ostreatus - e o vinho é da região de Lisboa e tem nome de bicho.
Chega para dois e está uma delícia.
Para te chatear, deitei-lhe duas rodelas de chouriço e botei o Chico e convidei-o para jantar.

quinta-feira, novembro 23

Regra número um para que tem o coração disponível

para se apaixonar:

- Ponham um sinal proibido em todos os tipos que percebam de música!

Acreditem em mim que nunca me apaixonei por ninguém que não soubesse fazer perfeitas passagens de Tom Waits para a Amália de dela para o Nick Cave e seguir daí para a Billie Holliday ou para os Gaiteiros de Lisboa. Sou, claramente, uma tipa com excelente gosto musical (modéstia à parte) e péssimo gosto para os amores. É que estes gajos nos lixam completamente a vida. 

O primeiro amor de que me lembro - assim de escrever poemas de adolescente em inglês e de ter insónias depois de ele me deixar de mota em casa depois do cinema - nunca mais andei de mota e já vão mais de 20 anos - passava-me cds piratas depois das aulas de biologia e com o ar mais casual do mundo dizia "tens de ouvir isto". Tinha suíças aos 17 anos e tocava baixo numa banda (como podia uma pobre adolescente resistir?) e apesar da sua coolness, era comigo - a croma melhor aluna da turma) que ia às sessões do cineclube à segunda feira. Ainda hoje (e desde que fiz 18 nunca mais o vi) não há música dos dEUS que não me leve até ele e àquele primeiro charro que fumei em Santiago. É que o que estes tipos fazem é incrustar-se dentro das notas musicais, dentro dos acordes e até dentro das pausas de músicas que nos acompanharão para o resto da vida!

Vão por mim que os conheço de gingeira.

O meu amor seguinte, para curar a adolescentite aguda - nunca lhe escrevi um poema embora ele merecesse, que foi um namorado impecável e eu não devia ter-lhe partido o coração como suponho, agora, que parti - encheu-me a aparelhagem com Spain, Mazzy Star e Mojave 5 e Tom Waits e Morfine e Tinderstics e mais uma data de coisas superdepressivas mas que lhe ficavam a matar porque ele dançava como o Ian Curtis e escrevia nos cds que me oferecia os nomes dos albuns com letras decrescentes e tortas numa vã tentativa que coubesse ali tudo. Convenceu mais de muitas vezes a ir a concertos em vésperas de exames, mesmo que isso lhe desse para chumbar de ano e lhe valesse o verão a trabalhar para não ouvir dos pais. Era a única pessoa que eu conhecia que tinha um minidisc que andava sempre enfiado nas calças sempre tão largas, ele tão magro. Chegava a minha casa e ainda antes de tirar o casaco ligava-o à aparelhagem ranhosa e dizia "tens de ouvir isto" e eu servia-lhe um prato gigante piramidal de comida que ele comia até ao último grão de arroz e éramos felizes. Explicava-me depois de comer (que enquanto houvesse comida no prato não se ouvia um ai, só o raspar do garfo no prato) a história da Factory de Manchester e a musicalidade nórdica da Bjork e do Jay Jay Johanson.

Se me lembro de tudo isto hoje, se me lembro de todos eles como se fossem tocar-me à campainha a qualquer momentos, é porque de tal forma se meteram dentro da música que oiço todos os dias que é como se todos eles, alternadamente, me acompanhassem enquanto cozinho só pela playlist que ponho a tocar nas colunas em cima do frigorífico.

O seguinte foi o pior.

Adenda à regra número um  - MUITO IMPORTANTE - se algum amor vos aparecer e vos fizer uma mixtape, espetem-lhe de imediato uma faca afiada entre o 4º e o 7º espaço intercostal, mais para o lado esquerdo, e rodem. Não tentem fugir, tal não é possível. Nunca Ninguém Ever sobreviveu a um amor que faz mixtapes.

Foi por este que abandonei sentado no parapeito de uma janela de um 4º andar um moço impecável. Ontem, a limpar o aparador da sala, olhei de canto para o 5 cds com nome poético que sei que trazem as Breeders e Um Zero Amarelo e os Belle & Sebastian e Suba e Carlos Paredes e faróis que até aí eram só meus.

Se tiverem, como eu, a música à flor da pele, mantenham, melhor, imponham uma distância mínima de 750m ddesta gente. LONGE! Toda a boa música desde 2002 a 2014 tem hoje aquele travo amargo no pós boca da saudade de tempos que já não existem e que foram felizes. Não é que tenham sido sempre felizes, mas foram-no no som, e o som foi o que ficou. É que é muita música e embora digam que é possível, eu acho impossível uma pessoa limpar-se do Morrissey (e dos Smiths) e do Vinicius e pior, de algumas músicas do Chico, que esta gente tem uma lata do caraças e rouba tudo! Rouba até coisas que já eram nossas antes de nós nascermos!

Sai de mim coisa ruim! Não vos conto quantas músicas dos The National este tem, quantas do Nick Cave mais o Je t'aime moi non plus, Feits, Kings of Convinence ou Sigur Ros e a Bebel Gilberto a cantar o Samba e Amor, quantos Gaiteiros e Zecas nem vos conto que tivemos uma gata chamada Adília que nos mordia as mãos por causa da Naifa. Quando me deixou, parada pregada na pedra do porto, levou quase todas as músicas do mundo. A minha irmã chegou a sugerir que eu aprendesse a gostar de rap ou hipy hopy. Não aconteceu. Arrumei o Jacques Brel e a Nina Simone dentro do umbigo e segui caminho.

Jurei, por essa altura, nunca mais me apaixonar por um melómano. E vieram os politólogos, os cientistas, os físicos teóricos, os jardineiros, os polícias, os professores chatos com aspirações sinceras a catedráticos e nunca nenhum me lixou a vida. Também nunca nenhum me tirou o sono, o que a ver pela quantidade de soporíferos que a população portuguesa toma, deve ser uma coisa boa.

Admito que às vezes tenho recaídas. Tenho já há alguns tempos um novo amor melómano, mas tenho-me mantido à distância e já não falo com ele há mais de um mês. Houve tempos em que andei a morrer de amor por ele e por todas as músicas que me atirava nas cartas, em género de citação, mas lavei tudo com clorhexidina e fiz um penso compressivo ao coração e agora, quando chego à noite e ponho a playlist dele a tocar enquanto cozinho e bebo o meu copo de vinho, sorriu para o canto do frigorífico de onde vem a música e digo-lhe "a esta distância estou segura!"

segunda-feira, novembro 20

Uma manhã de sol e de sábado fiz 37 pássaros de origami para oferecer a uma amiga. De cada vez que acabava um, passava-lhe uma agulha pela barriga e dava um nó ao fio. A minha amiga morava longe e eu não sabia como meter 37 pássaros no carro sem pôr em risco a minha condução. Cheguei a casa dela e pendurei-os na janela da cozinha para poderem olhar para a buganvília florida lá fora.
Hoje a minha amiga ligou-me a dizer que encontrou o fio vazio e os pássaros a voar feitos loucos contra o vidro. Abriu a janela e eles agora moram na buganvília.
Nunca tive jeito para domesticar pássaros.



sábado, novembro 18

A problemática do ferro de engomar

A pedido de muitas famílias e porque é sábado e as famílias aos sábados estão terrivelmente aborrecidas, aqui vai mais uma história que não interessa a ninguém mas que a mim me tem andado a matutar na cabeça já há vários meses e parecendo um problema supérfluo, eu estou convencida que há por trás dele uma questão maior.
Vou começar pelo fim, que são os creditos. Eu por mim não vos incomodava com estas histórias, mas, como já disse, há várias famílias à minha espera e eu detesto desapontar. A primeira são os Gomes Pereira (que é a minha prima e que é mãe de 3 - beijinhos à Ineza, princesa, ao Vasco e ao Vicente - e que como tal, acha que as minhas histórias são  contacto com a realidade), depois há os Moura e Sá (que é o meu cunhado, que não tem facebook e que como tal tem uma versão real da realidade e que adora este mundo estranho onde eu me meto) e há ainda os Rocha Gomes (que é o meu avô maluco que a semana passada partiu o braço a fazer ginástica - próps para o meu avô de 97 anos e votos de céleres recuperações que 'aquilo lhe vai atrasar muito a vida* dixit). É para estes leitores que escrevo porque eles gostam mesmo muito e esse amor nada tem a ver com o facto de poder ser eu a dar-lhes o presente de Natal no sorteio. Eles são mesmo gente boa.
Hoje a história é acerca dos ferros de engomar. Vou tentar não me alongar muito, agora que já gastei um tempão nos créditos.
Os ferros de engomar são os únicos electrodomésticos que não têm botão on-off. Eu, pelo menos, não conheço mais nenhum. O rádii, a torradeira, a máquiaha de barbear, o secador de cabelo, a máquina de lavar loiça (e a de roupa), a batedeira, o candeeiro da mesinha de cabeceira, o aquecedor a óleo dos anos 70 castanho bronze a cheirar a pó todos os Novembros, o microondas, a cena de aquecer a água para a botija, o computador (shall I continue?) todos TODOS têm um botão onofre. Menos o ferro de engomar.
Eu sou uma pessoa (eu sou uma pessoa que fica doente quando alguém diz 'eu sou uma pessoa que') que durante anos se recusou a passar a ferro. O meu primeiro parametro de selecção na compra de roupa é a necessidade de ser engomada, o que equivale a juntar mais 250€ ao preço. Engomar é a tarefa mais enfadonha do mundo. Por outro lado, não há nada que se compare a dormir nuns lençóis com renda bordada pela mãe com monograma HG retorcido impecavelmente engomados e esticados e juro-vos que durante anos ansiei pelas noites de 4as feiras (era os tempos em que eu tinha empregada) para finalmente dormir a noite com os anjos. Agora já não vivo nesses tempos e a minha empregada deu-me com os pés (isto de andar migrada dá pouco rendimento) e agora, se quero dormir em lençóis esticados, cabe-me a mim engomá-los. E juro-vos que é a única coisa que eu passo a ferro.
Eu tinha um ferro de engomar que era fraquíssimo e a minha empregada, às quartas, roubava o da Joana para passar os meus lençóis,  mas eu tenho mais vergonha que ela e achei que era hora de comprar um ferro decente. Corri as lojas todas (que é o mesmo que dizer que estudei toda a gama de ferros do Media Markt) e não encontrei nenhum que com botão on off Comprei um bom ferro de engomar. Passa mesmo bem. Os lençois ficam impecáveis. Durmo mesmo bem (já devem ter reparado pela ausência de olheiras e pelo meu ar de felicidade). Mas de cada vez que passo os lençóis a ferro, questiono-me se é obrigatório fazer aquilo de enfiada. É suposto eu não fazer uma pausa? Não ir ao quarto de banho ou à varanda beber um copo de vinho?
Eu sou muito lenta a passar a ferro. Os lençóis são muito grandes e a tábua é pequena e ainda não apanhei o jeito aos lençóis de baixo e mais os elásticos dos cantos - tenho noção que demoro a hora e meia que demora o filme que ponho a passar na tv só para passar um jogo de cama - mas acho quase cruel que para ter uma pausa tenha de arrancar a tomada da ficha.
Da última vez que passei a ferro - foi praí há 2 meses porque a minha mãe deu-me dote de moiça casadoira e tenho 7 conjuntos completos e todos eles muito bonitos, por isso, às vezes baldo-me -, fiquei a pensar acerca deste problema e uma questão saltou-me no coração.  Eu conheço muitos homens emancipados - cozinham, limpam, aspiram , arrumam, tratam dos miúdos,  lavam loiça, limpam janelas e wc, partilham todas as tarefas domésticas - mas até à data, nunca nenhum me disse que passava a roupa a ferro. E aquilo bateu-me um bocadinho. Será o ferro de engomar o último electrodoméstico feminino no sentido século XIX da problemática feminista? E por castigo, continua a não tem o botão que diz 'vou fazer um pausa' e obriga as senhoras a arrumar TODA a cesta de roupa de uma só vez - todas as camisas e todas as saias e todas as calças de vinco? É que sacar a ficha da tomada tem um ar de desistência que é diferente de vou fazer uma pausa e já volto a isto que é uma seca.
E era isto que eu queria partilhar convosco hoje. Lamento. Era uma problemática que já me andava a remoer há algum tempo e espero que os restantes leitores, aqueles que não correm grandes riscos de não terem bons presentes no Natal, se pronunciem acerca desta situação e, eventualmente,  se juntem a mim numa petição online ou numa manifestação feminista à frente da assembleia da república para pedir ferros de engomar 'twenty first century woman (and man)'s friendly'
Cordialmente,

Qualquer reclamação acerca da temática deve passar primeiramente pela vossa própria consciência (quando é que foi a última vez que passaram roupa a ferro?) e, persistindo, é enviar em carta registrada aos meus familiares. A culpa é toda deles.

terça-feira, outubro 31

eu uma vez fui ao halloween e saiu-me travessura

Há 3 anos estava em viagem. Sai de casa no getbus das 4 da manhã, com a excitação e medo de uma criança. Havia anos que não viajava sozinha, com uma mochila e apenas um hostel marcado para a primeira noite. O voo saía às 8 e tinha uma breve (mas calculada) escala em Londres. Cheguei ao aeroporto e já tinha perdido o meu voo de ligação.  O meu voo para Londres estava 8h atrasado.

Nota da autora: isto é um daqueles textos longos e não só não tem interesse nenhum como, chegando ao fim, não tem nenhuma moral. Se tiverem alguma coisa a fazer, levar o cão à rua, podar as sardinheiras, limpar o balcão da cozinha ou acabar de ler o expresso antes que seja sábado outra vez, façam um favor a vocês próprios e sigam com a vida.

Eram 5h da manhã e eu decidi que nada ía estragar as minhas férias. Peguei no vale de 5€ e comi um croissant com queijo para pequeno-almoço e sentei-me pacientemente a ler o livro grosso que tinha comprado no dia anterior para me acompanhar nos 10 dias de férias. Liguei o spotify e avisei a minha mãe que provavelmente não ligaria da Dinamarca às 4 da tarde como combinado, mas que não se preocupasse, tudo está bem quando a alma está para aí virada. E eu já tinha decidido que nada nem ninguém ía dar cabo das minhas férias e eu quando tomo uma decisão não há quem me tire de lá. Para mais, nunca li no jornal de notícias acerca de mortes de tédio no sá carneiro portanto, com orgulho e obstinação, mantive-me altiva nos calcanhares.
No balcão da ryanair confirmei o meu destino de perdedora de voos de ligação e a opção de um voo tardio para a cidade da Lego (billund? seriously?) não me animou. Troque-me lá o voo para o dia seguinte que eu lá me amanho nas inglaterras.
230 páginas depois abriu o sinal para o voo para londres e lá fui eu fresca e segura para o avião. Eu não gosto muito de voar. (Se pudesse ter um super-poder era, sem qualquer dúvida, voar - não entendo essas pessoas que queriam ser invisíveis, são umas coscuvelheiras! (Ou cabaneiras como se diz em Viana) (onde é que estã os aparentesis rectos? a ortografia tem poucas soluções para os meus apartes. A minha escrita não se coaduna com os símbolos disponíveis. É preciso inventar uma novi-escrita). Eu queria voar (ainda estamos nos super-poderes, daqui a nada voltamos à viagem) mas era sem metal nenhum à minha volta, sem máscaras de oxigénio que às tantas não se inflatam (é esta a palavra?) e que ainda assim deixam o oxigénio fluir e em caso de cair em mares e oceanos é preciso puxar o cordão apenas depois de sair do avião para não obstruir a passagem e mais a história do apito e do reflector de bicicleta. Eu a voar era mesmo só eu a voar, à super homem mas na versão mulher, sem pose, isso gostava, voar por cima das águas como na música do fausto e agora vou fechar os parentisis e já perdi a conta se os estou a fechar ou só a ser trenga, mas era isso, se eu tivesse um super poder era voar por cima das águas). Sento-me e tiro toda a parafernália necessária para se aguentar um voo - casaco e echarpe (faz sempre muito frio nos voos), livro, auscultadores, telefone, carteira aos pés com o caderninho e a caneta para tomar notas, máquina fotográfica no colo. Bring it on, senhores e senhoras hospedeiras, podem mandar descolar. Ao que vem a menina implacavelmente vestida a menina de bordo explicar porque é que eu tinha tanto espaço para montar ninho no meu lugar de avião low-cost 'menina, está na saída de emergência, não pode ter a carteira e máquina e o casaco e a echarpe e esse estaminé todo que montou nos últimos 3 minutos aos seus pés. Tem de pôr tudo na cabine e ouvir atentamente as instruções que caso isto corra mal, é a menina que abre a porta de saída'. Pensei e só disse aos meus amigos da b e c que estes gajos da ryanair devem ser tolos em dar-me o lugar que tem de puxar a alavanca de emergência. Em primeiro ligar (expliquei eu aos míudos que para mim serão sempre os strokes -  fininhos, cheios de pinta vestidos de preto e calças rasgadas a caminho de um concerto) nem eu tinha força para puxar aquilo nem a ryanair devia atribuir aquele lugar de forma tão aleatória 'sabem lá eles se eu não sou da al qaeda (eram os maus da altura, ainda não havia daesh), lá por ser rapariga e pequena... a ryanair deixa muito a desejar no que toca à segurança aérea. Controlam os frascos de shampoo e tal mas depois dão a porta da despressuração aeronáutica a qualquer um' Eles riram-se e prometeram que, em caso de emergência, puxavam eles a alavanca enquanto eu panicava no meu lugar.
Ainda assim cheguei a stansted de bom humor. O voo para aarhus seria na manhã seguinte às 10 da manhã. Sem stress. Eu sou boa a criar planos b e vai daí, abri o google maps (o roaming ainda não era gratuíto, logo foi uma decisão ponderada) e vi o que é que havia ali perto. Por meia dúzia de horas não valia a pena meter-me em londres mas cambridge era logo ali ao lado e lembro-me de que aquilo era giro e vê-se em meia dúzia de horas, vai daí compro o bilhete de autocarro para cambridge, olha que fixe! O autocarro saia às 6 e às 5 já nos avisavam que ía chegar atrasado e eu repetia 'quem tem de férias não tem pressa! Até é bom que faço já com calma a reserva num hostel'. Abro o hostelword e está tudo cheio. Abro o booking e encontro uma cama com ar espelunca a 5km do centro a 120€ e nada mais. Ligo para a pousada da juventude e confirmar, não é possível, está bem que é sexta-feira, mas ainda assim, nem uma cama, ao que o simpático rapaz da recepção me diz 'pois sabe, é halloween'. Sentada no chão de um dos piores aeroportos da europa percebi então que os cetins vermelhos e as maquilhagens excessivamente negras não eram a moda londrina, mas sim a noite das bruxas. Dirigi-me ao balcão dos autocarros e pedi a devolução do bilhete para cambridge e sentei-me no costa, e pedi uma fatia de bolo de cenoura e um cappuccino extra-large e preparei-me para escrever esta história, mas entretanto fiquei sem bateria no telefone e não tinha adaptador. O telefone morreu e eu acabei as 362 páginas de 'a peregrinação do rapaz sem cor' do Murakami (que nem é grande livro) antes de tentar dormir com a cabeça na mesa do café, a cada minuto incomodada com a menina que dizia 'sorry, you can't sleep here' e continuamente interrompida pela corrente de ar das portas de sensor que se abriam a cada desesperado a sair para ir fumar um cigarro.
Claramente saiu-me travessura.
Nunca mais voltei à dinamarca. E tenho pena. Foram provavelmente as melhores férias que tive na vida.
Eu avisei que esta história não tinha moral.


sexta-feira, outubro 27

Uma história para a Marina

Tenho uma pena tremenda das coisas que, por uma mero acaso, se tornam inúteis. Não é que eu tenha alguma coisa contra a inutilidade das coisas - ainda hoje defendi com unhas e dentes a minha figueira-violino quando alguém ao jantar resumiu a sua existência ao facto de, de facto, não dar figos. Fui até um pouco agressiva. Eu cá para mim, tenho pouca preocupação em ser útil para mais do que mim própria e para os poucos que se chegam para jantar e estou convencida que cada um é o que lhe apetece ser e não deve nada a ninguém e, não obstante eu adorar figos, não aponto o dedo à figueira-violino que se estica no canto da sala e a quem eu limpo o pó folha a folha mais do que ao aparador da sala porque gosto dela (não é que não goste do aparador da sala) mesmo que ela seja inútil.  O aparador da sala também é quase inútil.  Na verdade, nesta casa, somos todos uma cambada de inúteis, no conjunto ficamos todos muito bem e temos como rei o Adolfo, o gato mais bonito e provavelmente mais burro do mundo. Por mim, tudo óptimo. Sinto-me em casa.
Mas, ainda assim, há coisas que se me sofrem no coração pela sua inutilidade que nem a estratosfera salva.
A primeira são as luvas que perderam o par. O meu coração dói-se sempre que vejo uma luva perdida no passeio ou no banco de um tram (eu sei que aqui por Portugal não é a coisa mais vulgar do mundo, mas mundo fora há muitos trams e em meses de inverno têm sempre uma luva perdida e por cada luva perdida há uma outra que também, numa bolsa ou numa mochila, se vê sem par). Não vou, senhores, falar-vos das meias que perdem a parelha. São um assunto malcheiroso e demasiado banal (acontece-nos a todos!) para uma história digna como esta! Uma luva sem par não serve para nada. É lixo. E pode ter andado de mãos dadas na mais plena paixão que, sozinha, de nada vale. E isso é muito triste.
A segunda coisa que por um acidente ganha inutilidade são os baralhos de cartas a quem faltam um 5 de ouros, ou um 9 de espadas. Pode já ter jogado king e ter ganho tudo a nulos e  ser um às na canasta e saber o burro em pé e o peixinho, mas a partir do momento em que uma das 52 cartas decide abandonar o barco (que sem os jokers sobrevivem quase sempre) perde o valor todo.
Eu, com as luvas, sempre tive muito cuidado e até à data, penso nunca ter desemparelhado nenhuma. Uso a mesma técnica  que uso para os guarda-chuvas. Eu nunca perdi um guarda-chuva. E mais, sei sempre onde ele está. É um guarda-chuva bestial de 10 varetas, muito resistente, muito bonito, branco com pintas vermelhas, que fica mesmo bem com o casaco vermelho que eu vestia no dia em que me chovia torrencialmente em cima e que a minha mãe, não conseguindo cobrir com o seu pequeno guarda-chuva azul-da-cor-do-seu-casaco, decidiu comprar para mim naquela loja que vende chapéus e guarda-chuvas no início da rua do Souto. É um guarda-chuva daqueles em que se pode confiar. Faça chuva ou faça sol está sempre onde eu o deixei - na mala do carro e por isso nunca o hei-de perder. O mesmo me acontece com as luvas. Tenho vários pares e gosto muito delas, mas para evitar esta coisa terrível de lhes perder o par - e com isso torná-las em objectos inúteis - raramente as tiro da primeira gaveta da cómoda.
Já com os baralhos de cartas, não tenho tanta sorte. Tenho um baralho muito bonito, com poemas da Florbela Espanca, que um amor me ofereceu sem saber que eu sempre a achei depressiva demais para o meu género - deve ter confundido o meu terrível hábito de cantar mal para espantar os espíritos com paixão literária. Ainda assim era um bonito baralho de cartas e infelizmente acho que nunca chegou a jogar uma bisca sequer. Sofre da horrível falta da manilha de paus, patologia letal num baralho de cartas. Como sofro muito com esta perda de utilidade (eu que gosto de ser inútil) pus o baralho no móvel da entrada e quando alguém vem jantar a minha casa tem o direito a escolher uma carta e levar para casa para ser marcador de livros. Não é bem o mesmo que ser trunfo mas é melhor do que o lixo. Hoje a Marina levou o Às de Copas e embora o poema falasse dos olhos frios (e os olhos da Marina são uns doces), foi uma carta que até fora do baralho fez sentido.

domingo, outubro 15

Esta história começa assim:
Há 2 anos eu era outra pessoa. Há 10 anos, ainda que vestisse o mesmo pijama cirúrgico azul e estetoscópio pendurado ao pescoço, eu era ainda menos eu, mas desses tempos não reza esta história.
Há pouco menos de 2 anos, tinha eu um estaminé de alojamento local onde o meu trabalho era ter as melhores conversas do mundo, com as aleatórias pessoas mais interessantes do mundo, quando vi que o Tiago Pereira vinha a Braga apresentar o seu filme 'Porque eu não sou o Giacometti do século XXI' e num segundo, feita fã sem vergonha, mandei-lhe uma mensagem a oferecer dormida. Sempre tive medo de perder alguma boa conversa e foi assim que conheci o Tiago em pessoa e ainda hoje me orgulho da falta de vergonha. 9 dias depois fechei portas ao hostel e ainda hoje, quando vou à garagem solto uma lágrima quando olho para as tralhas que sobraram só de pensar nas conversas que não vou ter e das pessoas que não vou conhecer. Mas acerca disso, também não reza esta história.
Comecei 2016 como uma página em branco, cheia de possibilidades, sem contratos e sem grandes obrigações para além do gato e das sardinheiras, no bolso tinha uma licenciatura e uma pós-graduação em bichos e quase 5 anos de mochila às costas sem sair de Braga e a terrível sensação de que nunca fui marinheira (nem capitã) nem pintora nem bailarina clássica ou actriz de cinema mudo - aquilo que qualquer pessoa com a cabeça no sítio chama de 'perdida na vida' mas que eu decidi chamar de 'peito aberto para o mundo'.
Em Dezembro, porta fechada, mandei uma mensagem ao Tiago e disse-lhe 'nunca andei de tripé ao ombro e fui chauffeur, se precisares de alguma mula de carga ou só um peso para as filmagens, eu estou disponível em Janeiro'. O Tiago respondeu 'de 29 de Janeiro a 8 de Fevereiro vamos para o Alentejo. O nosso carro capotou e está na ante-câmera da funerária. Queres vir?'
Oh bien sûre e juro-vos que não sabia a maravilha que me esperava. Foram 10 dias a reaprender a ser portuguesa, de vida nova, a ouvir os velhos, as histórias, as receitas, correr atrás de ovelhas, a ouvir a música como sentimento, a descobrir o sentimento do cante, das ceifeiras, das tradições (quem nem sempre eram as minhas - este país que é tão pequeno é tão grande!), da solidão de um interior do país abandonado, do alcoolismo, das praças vazias e do queijo, do cheiro a esteva e dos coentros frescos. Fiz pouco mais do que ser motorista sem chapéu e comer tomatadas no Rugla e aprendi tanto! 10 dias a ganhar mais um mundo debaixo da pele, mais uma camada, que ainda hoje mal me acredito de quando ganhei nesses dias.
Ontem, o Tiago, que é um pequeno génio e sim, não é um Giacometti do século XXI (porque não está aqui para registar e documentar coisa nenhuma - está aqui para sentir e mostrar como se sente), mas sim um louco anjo da alma portuguesa, enviou-me o seu último 'os cantadores da Paris', no dia em que o apresentou em Paris em estreia mundial. Ele há honras que não merecemos e esta é uma delas. Para quem não sabe (como é possível?!?), o "os cantadores de Paris' é um magnifico filme acerca da universalidade da música e um grupo de cante alentejano de Paris que inclui franceses, italianos e alemães, gente que nunca (até o Tiago os trazer) tinham posto os pés em Portugal e que cantam como quem comeu açorda de bacalhau desde menino.
E é, meus senhores, LINDO. Se durante anos ouvimos óperas de Wagner, Mozart e Puccini, sem percebermos peva de italiano ou alemão, o Tiago mostra que os nossos sons são igualmente universais.
A música portuguesa a gostar dela própria é um trabalho de embaixador e eu, meus amigos, porei em todos os meus CV's, sejam para veterinária ou o para varredora de rua, que fui motorista deste projecto durante 10 dias para o resto da minha vida.
Parabéns Tiago, por mais um filme tão bonito, tão pele, tão português e por mostrar que a nossa voz é tão particular ao mesmo tempo que esta nossa linguagem é tão universal. E obrigada pela amizade, por me fazeres sempre sentir mais portuguesa e ainda desta forma pequenina me deixares ser parte deste teu projecto que é do país inteiro. De um mundo inteiro. Obrigada.


clicar aqui para ver como é tudo isto é lindo - https://vimeo.com/237596698
Os Cantadores de Paris viram o meu vídeo da moda "Além daquela Janela" dos Alentejo Cantado em que estes a cantavam de firma diferente, introduzindo o "cânone" e começaram a cantar a moda da mesma forma. Mais tarde vieram ao Alentejo e puderam cantar com eles da mesma forma. Isto é A música portuguesa a gostar dela própria.

quinta-feira, outubro 5

Há momentos em que uma pessoa toma uma decisão e no segundo a seguir diz foda-se, vou fumar um cigarro.

segunda-feira, setembro 25

Por exemplo, eu odeio espirros.

Há muita gente no mundo a odiar baratas ou ratos. Ou aranhas, que são bichos altamente e eu ainda ontem queria ter uma aranha de estimação no quarto porque andava por lá uma mosca a zumbir-me às orelhas e o meu gato ficava só a olhar para ela com cara de parvo e eu queria era dormir sem ter de tapar a cabeça com o lençol de renda e se tivesse uma aranha de estimação ela tratava do assunto em vez de eu ter de ficar a sofucar debaixo do lençol com um gato com cara de parvo a ronronar e a olhar para o ar. Por isso nunca hei-de entender as pessoas que não gostam de aranhas.
Mas eu vim aqui foi para falar de ódios e em particular do ódio aos espirros - tenho outros, por exemplo, odeio quando encosto a vassoura à parede e ela escorrega e cai num estrondo no meio do chão. Odeio isso. Fico piursa! Ou quando estou a aspirar a casa e a ficha do aspirador se desencaixa da tomada. Põe-me louca! Mas não tanto como quando alguém espirra!
O meu pai, quando espirra, é como quem manda uma bomba nuclear para cima da mesa. Está toda a gente calma (ou nem tanto) na conversa e vai ele e ressoa na casa toda e não me venham com história de que tapa a boca. Os seus labios resfolgam como um cavalo. A conversa,  inevitávelmente, pára. Faz-se um silêncio gigantesco, como o silêncio pós-apocalíptico e só passados uns segundos, depois de coçarmos os ouvidos para limparmos os zumbidos, é que somos capazes (quando somos!) de retomar a conversa. A minha mãe, por outro lado, toda muito bem educada, cheia de linhos engomados e coisa e tal, nunca espirra menos de 5 vezes - tim-tim-tim-tim-tim! Perdoem-me se pareço ranhosa, mas isto é uma total falta de respeito. Eu sou veterinária e vivo com os bichos todos os dias e posso dizer-vos que os bichos, que são bichos, espirram muito menos que nós. Se são alérgicos ao polén do pinheiro ou ao acáro do pó sabem o que é que eles fazem? Coçam-se! Também não é bonito,  é verdade, mas não andam praí a excretar em alto e bom som o que lhes passa dentro do nariz.
O espirro - esta é a minha opinião e percebo que haja gente que veja as coisas de forma diferente, nomeadamenteos os alérgicos que por preguiça preferem cuspir a alta velocidade a tomar anti-histamínicos - é altamente tolerado pela nossa sociedade. É engraçado como toda a gente é moderamente contra os arrotos e fundamentalista contra puzetes, principalmente se forem malcheirosos, mas ninguém é contra os espirros. Até à data, ainda não encontrei ninguém que seja moderamente nazi contra os espirros e acho isso muito estranho.
Eu, no que a mim me toca, não espirro há mais de 10 anos. Sim, senhores e senhoras, da mesma forma que se inibe um arroto ou se evita um pum, também e possível apagar um espirro. Exige prática, é certo, é preciso antecipar o momento, saber que há um espirro prestes a ser cuspido sala fora, e é preciso ter alguma força de vontade. A minha técnica é empírica e ainda não encontrei artigos científicos com as 'guidelines' ou os 'best practice' para os evitar mas como não sou invejosa e na verdade sou até altruísta,  ofereço-vos, livre de patentes e direitos de autor, a técnica que tenho vindo a desenvolver ao longo dos últimos 20 anos de vida. É bastante simples, mas é preciso estar atento ao timming. Um espirro é sempre precedido por uma inspiração mais profunda, normalmente em fases - uma pequena inspiração,  seguida de outra e mais outra, muito curtas, sem que haja a devida expiração pelo meio. Este é o sinal de alerta. Se vos der para dar uma inspiração deste género, é bom que tenham a consciência de que rapidamente e a uma velocidade estúpida, vão cuspir toda a vossa cavidade nasal cá para fora em todas as direcções. Os olhos vão fechar com força cheios de medo de sair das órbitas e que toda a gente na sala vai olhar para vocês. A não ser que sejam exibicionistas natos, é altura de agir. O primeiro passo é o reconhecimento da situação! Estar sempre atento! A seguir é simples. Franzir o nariz. Continuar a inalar. Exalar via oral mais ao menos ao mesmo ritmo parvo com que inala. Manter o nariz franzido. Franzir, já agora, a testa. Fazer olhos de chinês. Levantar a cabeça como quem olha para dEUS a pedir que ele não saia. Inspirar a 3 tempos e expirar a 3 tempos e em menos de 6 segundos o espirro já foi embora e ninguém (excepto a pessoa do lado oposto da mesa que vos irá perguntar se estás bem) se vai aperceber de alguma coisa. Ninguém olhará para vocês. Poderão agora, discretamente, usar um lenço de papel (ou se forem gente fina ou idosa, um lenço de algodão com monograma) para assoar o nariz removendo discretamente o agente que ainda há pouco ameaçavam expulsar a 240km/h.
Simples, não é? Eu acho!  É claro que volta e meio há um espirro que se solta, feito pirata, não dá tempo nem a cautelosos como eu e eu isso até perdoo. Um deslize acontece a qualquer um e até a mim, admito, já se me escorregaram 2 ou 3 nestes anos e não foi por isso que me flagelei. Acontece,  pronto. Mas que a sociedade continue a tratar dos espirros, em pleno século XXI, como se fossem a coisa mais banal do mundo, isso, eu, não entendo.

(Aposto que nunca ninguém começou uma história com por exemplo!)

quarta-feira, setembro 20

Eu que, ainda nesta idade, gosto de complicações , hoje decidi desmultiplicar o assunto do dia. Como os franceses (logo eu que sempre fui tão anglófona - ai p'ró que me deu!) decidi pegar e fazer 20 anos que fiz 18.
Levantei-me da cama cedo e parei no espelho da bivó Helena para ver como ia de rugas. Limpei as remelas e apanhei o cabelo e, talvez por não ter posto os óculos, pareceu-me estava tudo em ordem para quem é adulto há já 20 anos. E ser adulto é difícil como o caraças, caso não saibam, e mesmo com 20 anos de prática ainda me sinto uma noobie.
Não pus maquilhagem e tirei a selfie da praxe (lembrar-me-ei sempre de uma música de infância em que um miúdo perguntava 'porque é que te pintas' e ela respondia 'é pra ficar mais bonita' e ele ripostava 'então porque é que não ficas?'), e lá me atirei para o dia de ser princesa.
Há quem ache que os anos começam a 1 de Janeiro. Aí fazem-se os balanços possíveis (a ressaca do dia anterior atira para lá a culpa toda) e é um chorrilho de resoluções que vão da dieta a metas ecológicas e promessas de telefonemas a amigos. Para mim o ano começa a 20 de Setembro porque foi aí que tudo se me começou - trabalhando da parte da manhã num hospital central ainda dentro da barriga da minha mãe e nascendo no início da tarde enquanto o meu pai estacionava o carro.
Então cá vai o balanço de 20 anos de adulthood. Oh pá... não tem sido fácil, já comecei e acabei e recomecei e dei 3 cambotas e várias piruetas atabalhoadas, às vezes até tropecei, mas acima de tudo, tem sido fixe. Mesmo fixe, para não dizer altamente! E juro-vos, amiguinhos, que fazer o balanço em dia de receber tantos mimos, tantas mensagens, tantas chamadas de encher o coração contribui para isso. Ou vocês são todos parvos, ou devo estar a portar-me bem nesta coisa que é a vida para receber tanto amor! Um grande obrigada a todos por me animarem os dias e já agora convido-vos a ficar por perto porque quase aposto que o melhor ainda está para vir.
(Post Scriptum para a família,  que me atura há um pouco mais que 20 anos de idade adulta e que já viu até as birras de adolescente - carissimos, está visto que isto já deu o que tinha a dar e quem nasce canhoto raramente se endireita, obrigada do fundo do coração por aquele momento em que me apanharam do caixote do lixo dos ciganos no Marquês e me fizeram parte da vossa vida. Fiquem sabendo que já passou o prazo de devolução e que vamos ter mesmo de ficar juntos para sempre!)
Lots of love, H


sexta-feira, setembro 8

houve tempos em que

eu era tão feliz que dormia como os mortos - de barriga para cima com as mãos cruzadas no peito com medo que o coração me fugisse. O corpo todo esticado aberto, sem aninhar nem os pés. A alma também esticada. Acho que por essa altura não me atrevia nem a sonhar, não fossem os sonhos interromper a realidade.
Às vezes ele acordava-me, com um safanão, com medo que eu tivesse morrido de felicidade antes dele chegar à cama. Eu ria e respondia 'não me atrevia. To die by your side is such a heavenly way to die' e enroscava-me fazendo do seu peito curvo a almofada para o resto da noite.

À gajo

Lembro-me de uma crónica do Lobo Antunes. Foi mais ou menos assim. Acabar uma relação à gajo. Não votei no cliché apenas por ele não ser verdade. Não és tu, sou eu é uma treta. Mas a verdade é que o problema não era ele, éramos nós, e a mim não me doem os falhanços.
Arquei, à gajo, sem lhe apontar o dedo ou sequer me defender, com as acusações de que era por 'medo que fugia da relação', que era por 'ter sofrido e ter medo de sofrer outra vez' que desistia ao primeiro sinal de alarme e que era por 'insegurança que levantava muros que não deixavam os outros entrar'.
Olhei fixamente, à gajo, para o fundo da praça para não me dar esta cena de gaja que é querer ver sempre toda a gente bem e de me ver tremer a voz ao dizer que 'eu gosto de ti mas não funciona. e que preferia que fossemos apenas amigos, como antes'.
À gajo.
Que nem é à gajo, foi só à pessoa honesta, nem fria nem quente, mas prática. As coisas são o que são e quem não acredita em contos de fadas ou mudanças de personalidade não pode inventar desculpas esfarrapadas só para ter boa companhia para jantar.
Não,  podia ter dito, não é por medo nem é uma fuga. É só a constatação básica de que não quero continuar. E também não,  o que eu sofri não foi no amor. Desse, tenho as melhores memórias - dúvido que a maior parte das pessoas tenha tido relações tão felizes como as minhas. Sim, acabaram e nessa fase sofri como a quem lhe amputam o coração,  mas do amor nunca terei medo. Apenas saudades.
É talvez esse o problema, meu caro - e não o disse, já bastava ter de dizer que não queria continuar, que da minha paz, conquistada a pulso, não abdico nem a ferros - por saber a cara do amor, por saber o que me faz à cara, à pele, aos ossos, como me torna as pernas longas e me rouba o sono e a fome e a alma ao ponto de derrubar todos os muros que por feitio e não por defeito ou medo ou dor construí à minha volta, por saber tão bem o travo do medo de me perder - ai que só de me lembrar já não tenho pé e as correntes são tão forte - (ai tão bom!), por saber o que me faz abdicar de tudo, até da paz, é que digo ponto final.
À gajo.
Sem sequer peso na alma.
À gajo (como se os gajos tivessem menos alma que nós e não soubesse que é por dor, ainda que miudinha, hoje este me acusa de mil coisas). Mas vá, à gajo, que na gíria ainda infeliz dos dias de hoje significa à insensível com à gaja vale de histérica.
À gajo, chamei o empregado de mesa e pedi a conta. Cada um pagou a sua. À gajo, e porque estava de carro, ofereci-me para o levar a casa embora não me apetece. À gajo, ele, recusou a boleia mas levou-me ao carro, à gajo. E disse, fico em tua casa e depois desço a pé, até me vai saber bem. Insisti, à gajo, que não custava deixá-lo em casa e à gaja aceitei a desculpa da caminhada. Como dois ex-amantes despedimos-nos com um abraço mal saímos do carro e ele com o coração afrouxado desceu rua abaixo.
À gajo subi até casa e esperei 5 minutos.
À gaja, que é o que sou, voltei a descer, meti-me no carro e fui para casa de uma amiga limpar-me de culpas numa garrafa de vinho.
(É que estas coisas também custam a quem está do lado da mau da história.)

domingo, setembro 3

Por indecisão  crónica mais do que por decisão aguda e momentânea,  antes de sair de casa para um final de tarde ao sol, entrei no escritório e peguei não num mas em dois livros. Não me demorei mais do que 30 segundos na indecisão. Conheço-me o suficiente para saber que independentemente do tempo passado à frente da prateleira nunca sairia satisfeita com a escolha. O primeiro há já vários meses que olha para mim - não sei quem o comprou ou quem o deixou nas minhas mãos, nem sei do que trata. Chama-se 'will you please be quiet, please?' e olha para mim não com reprovação,  mas com voz melancólica de mãe - pára um pouco, por ti, fica quieta só um bocadinho, cala lá esse frenesim de correr de um lado para o outro - diz-me baixinho de cada vez que entro no escritório caótico. A voz com que fala é a minha, fui eu que o pus virado para a frente e não de lombada, como os outros.  Está nas minhas mãos há mais de 6 meses e não lhe pego porque sei que esta voz, a minha voz, é a voz da razão, é a voz da minha mãe mas não a posso ouvir agora. Agora tenho de me concentrar na outra voz, mais forte e segura que diz não pares ainda, continua a andar, se não falares escreve. Tenho medo do que me poderá dizer, este livro,  as coisas que não quero ouvir.
Está sol e hoje acabei trabalho pendente às doze e quinze da manhã. Sobra-me esperar. Como o Pedro. O trem. O email de chamada para o trabalho. O telefonema de amigo com saudades. Sobra-me a cozinha, o tricot. Vale-me o gato que dá à casa um ar normal. Sobra-me o exercício físico - o suor a escorrer nas costas que lava a mente, sabe-se lá como - pelos poros sai o sódio, o cloro e algumas angústias. Valem-me as plantas que sim, precisam de mim. E o vinho branco do Alentejo que depois do sol me deu gana de comprar, eu que teimo que só gosto de tinto.
Não pensem que vivo de stress. Por trás de tudo isto há uma paz estranha, sou como uma aldeia perdida na neve com banda sonora de Nick Cave, há silêncio e respirar fundo o cheiro a pinheiro e uma ligeira sensação de que não obstante a ausência de poluição corro o risco de sofucar a qualquer momento, embora isso ainda não tenha acontecido - é só uma premonição. Uma sensação de que há qualquer coisa de surreal no ar, não tenho a certeza de que as horas passem de verdade - as horas de quem tem a vida regrada pelo gato e pelo ritmo da música não têm 60 minutos -, neste silêncio onde a Kate Moss é nome de música (could i love you?) não há a certeza de que o mundo continua a girar para além da entrada e saída dos autocarros da central da camionagem,  e isso parece pouca prova. Para aumentar as suspeitas, a carne assada no tuperware no frigorífico há 15 dias continua por rançar e a feijoada com etiqueta de 2013 que tirei do congelador está deliciosa.
O segundo livro é diferente embora, e isso só descubro quando me ponho ao sol e decido fazer experiências ao cérebro, seja igual. Este comprei-o eu e tem na terceira página Um abraço para Helena, seguido de um rabisco que sei que é a assinatura do Sérgio Godinho. Sei-o porque nunca se esquecem as declarações de amor e lembro-me como se fosse hoje do momento de coragem em que lhe disse que também ele, sem saber, tem mil vidas duplas e que sem saber correu a minha vida ao meu lado.
Tu me manques. Como quem diz que a tua ausência me causa danos.
Tu dizes saudades a partir de um aeroporto ao sul, que os aeroportos, ao sul ou ao norte, são sempre o lugar dos abraços mais apertados. Eu cá, odeio aeroportos. Odeio as chegadas e as partidas e com frequência penso em ti nos aeroportos, embora nunca nos tenhamos cruzado em nenhum. Às vezes (felizmente nem sempre), os aeroportos são a casa dos abraços que nunca demos.
Já estava, meu amor, habituada ao vazio que é a nossa história. Pensei que também tu já a tinha atirado para o caixote dos amores incompletos,  aqueles que não darão direito a linhas por não lhes ser possível inventar um fim. Assim o arrumei, como aquela história que comecei a escrever uma vez,  à muito tempo, e que rapidamente condenei à morte por falta de fôlego. A nossa história também foi um pouco assim. Não foi a falta de ar que a matou em pleno enredo, mas a falta de corpo. Dois corpos que nunca se cruzam, duas rectas paralelas a olharem-se até ao infinito não podem dar bom romance.
Hoje viajo sem aeroporto. Não buscarei a tua ausência entre as mães no terminal de chegadas. Quando chegar, estacionarei o carro à porta de casa e sem dar por ti, subirei a casa.
Ainda assim, tu me manques. Na distância permanente das linhas paralelas, a tua ausência, como a tua presença e a tua saudade, causam-me danos.
vim aqui para escrever uma história, como faço sempre quando alguma coisa não está certa - sempre escrevi histórias para arrumar as coisas no seu sítio e este blog não frequentado é dos locais mais seguros para onde atirar as minhas desarrumações mentais, já que é mais fácil do que ir à garagem cujas chaves já nem trago junto às da porta. vim aqui para me explicar que o mal não está em mim, que é basicamente o que eu faço sempre que venho até aqui.
ontem acabei uma relação ainda antes de ela ser uma relação. vivo de muros erguidos e volta e meia, por insistência de amigos mais do que por vontade própria, lá baixo a guarda para ver como correm os romances na vida real. tinha menos de 1 mês, esta coisa, e tive de o levar a casa depois de um concerto e dizer com um penar sincero de que as coisas não estavam a funcionar. e não, não era ele. não sou cínica ao ponto do cliché do não és tu sou eu (embora eu ache que este cliché é sempre verdade - somos sempre nós (os que acabamos) a causa da separação). este caso é diferente e era isso que vinha aqui esclarecer de mim para mim, não sou eu e não é ele, somos nós. as guerras que criamos (os dois) sobre assuntos tão desinteressantes como as maças ou os gatos de rua. ainda agora tenho pena que assim seja. dois teimosos que podiam até, eventualmente, ser moderamente felizes na vida a casal, como os demais, não fossemos os dois uns cínicos em relação em relações e não termos tão mau feitio, os dois. de qualquer das formas, um tipo impecável.
era isto que eu vinha aqui esclarecer a mim própria, dar palmadinha nas costas e dizer fizeste bem miúda, antes sozinha em paz do que acompanhada em guerra. ficas tão bem como estavas antes e tu até gostas desta coisa de ser solteira e viveres dentro da tua cabeça e na sombra dos livros de poesia ou dos choupos do Cávado.
limpar a ideia de que com o tempo desaprendi a arte de negociar, coisa que todas as pessoas que ficam sozinhas durante algum tempo (esse tempo depende de cada um, não há um número) desaprendem - oh está-se tão bem no nosso casulo onde nada é novo nada é risco e a botija já tem o contorno das tuas cochas e eu até já me fui habituando às inúmeras discussões comigo própria que até já lhes sentia saudade. desculpar-me de preferir viver neste mundo de fantasia com o qual nenhum humano tem hipótese. que não é por continuar a procurar um amor do tamanho dos poemas do eugénio, ou das cartas do Pedro, ou das expectativas que eu finjo que já abandonei faz anos do homem que se levanta de manhã e traz pão enquanto eu sonho um último sonho com cheiro às cerejeiras do japão, que não é por isso que acabo este relação. que não é porque ergui muros tão altos que nenhum humano poderá alguma vez ultrapassar, nem o Pedro, se um dia se divorciasse e me aparecesse à porta com mala para ficar. que foi o que ele me disse, quando o deixei à porta de casa e ele triste percebeu que eu não ia voltar atrás, ele a olhar para mim e eu a olhar para o fundo da rua, os dois com a mesma tristeza do fim, também eu sem querer ir embora, mas sem poder fazer outra coisa.
era isso que eu vinha aqui deixar em pratos limpos. a culpa não é minha nem deixa de ser. as coisas são como são, e eu até abracei a sugestão dos amigos e baixei a guarda e até falei de cicatrizes que embora curadas ainda sofrem, em dias de nevoeiro, de dor fantasma. dizer-me a mim própria que fiz o melhor que pude dadas as circunstâncias (sendo que dentro das circunstâncias cabe tudo o que me aconteceu desde 20 de setembro de 1979), mas que tendo atingido este grau de (hesitação de vários e diversos segundos na escolha da palavra, eu que escrevo sempre em catadupa o que me vai na alma) paz que me custou tanto a atingir, não vou abdicar dele por um namorico qualquer. e que não tem nada a ver com o facto de ele só conhecer o Chico por alto ou de falhar redondamente na conjugação do verbo haver na 3a pessoa do singular. sou ranhosa, mas não é por aí. e que também não era por medo de abrir os muros, pelo suposto medo das relações de que fui acusada. são as guerras. há já vários anos que eu descobri que ir à guerra é imediatamente entrar a perder e eu, estando na minha paz de pedra e cal, não quero ir a guerra nem que o prémio seja o céu, até porque isso é depois e eu tenho sempre medo que o depois não chegue e entretanto já perdi as 2 pernas.
era isso que eu vinha aqui esclarecer para que não ficassem as dúvidas que o silêncio do meu carro e as mãos dadas a não quererem deixar-se me deixaram no coração.

quinta-feira, agosto 17

Tomar um Renex como quem toma um Xanax. Para onde sai o próximo? Para a Anadia? Ui, que eu sempre quis ir à Anadia! Não é aí que se comem as melhores sandes de Leitão? Não?  Deixe lá, deve ser um melhor sítio onde se passar as insónias, que esta janela da cozinha já me cansa... não é que seja mau sítio, tem vistas de gente a chegar e a partir a todas as horas, e posso sempre espiar quem entra na cidade fora de horas. Por causa das insónias, tenho uma pós-graduação em como cruzar os braços enquanto se espera por uma boleia, um mestrado em abraços cheios de saudades, um pós-doc em olhar para o telemóvel a temer que se tenham esquecido de nós. Nas minhas noites de insónia - às vezes nem noite são, são insónias de final da tarde, ou de primeiras horas do dia em que não consigo sonhar - sento-me no tanque da roupa às vezes molhado a inventar de onde vem aquele autocarro, quanto tempo tem de saudades aquele abraço ou quantas noites serão felizes aqueles por cá.
Feito Xanax, espero os autocarros da Renex, vejo-os a despejar pessoas e malas e a engolir pessoas e malas e inspiro a coragem que não há de descer as escadas, de pijama, e entrar no primeiro, só perguntar depois de me sentar - para onde vai? Anadia? Sempre quis ir à Anadia.

sábado, julho 22

Sabiam quem em 2017 ainda se morre de coração partido? Eu não sabia! Soubesse eu que tal era possivel teria eu própria morrido há uns anos, mas a minha mãe jurou a pés juntos que tal não  era possível e que o melhor era comer a sopa, o que fiz, porque o que a minha mãe diz é verdade e eu tenho um medo dela que me pelo. Vai-se a ver,  a minha mãe é uma mentirosa e eu só descubro isto com uns anos de atraso e agora já colei o coração todo e é apenas um desperdício tanto esforço  (para não falar do dinheiro investido em vinho tinto, por absoluta aversão à indústria farmacêutica) decidir morrer agora que a vida até me corre bem.
Eu tenho com a minha mãe uma relação de amor-ódio. Desde que a professora de psicologia (coitada! era uma criatura obesa e pequena que falava baixinho e que vestia umas t-shirts com o mesmo padrão da saia, de um tecido altamente suável, às flores beje e preto, cujo design a faziam ainda mais quadrada e pequena do que realmente era; e que de tempos a tempos 'avariava' (palavras da própria, na aula seguinte, no pedido de desculpas) e berrava em altos gritos que nós eramos todos uns anormais, estúpidos e borbulhentos), desde que a Rosinha me explicou que o Freud dizia que a culpa era sempre das mães - tinha eu 16 anos - que decidi que assim haveria de ser. A culpa é toda dela, sempre. Não se preocupem muito, caros leitores, que a minha mãe é bicho pequeno mas no que toca a ombros bate o hércules e o átlas e para ela o mundo às costas é coisa de domingo de manhã! Se a quiserem castigar, o ponto fraco são os joelhos e eu praí não atiro. Mas é verdade que todas as culpas dos meus dias são da minha mãe, até porque se não fosse ela eu nunca tinha feito nada na vida. Nada mesmo nada. Tudo o que eu faço é pelo medo que lhe tenho! De manhã levanto-me cedo com medo que ela me apanhe a preguiça. É por ela que tenho sempre a casa (moderadamente) arrumada e o chão da cozinha o mais decente possível - a última vez que a minha mãe esteve em minha casa foi há mil anos e eu tinha-me esquecido de limpar o pó do ecrã do computador e tivede levar com aquellos ojos verdes a atirar-me contra a parede (ainda hoje sofro tormentas, mãe, e por isso da última vez comprei um portátil - está sempre protegido). Outra coisa que é mesmo mesmo culpa da minha mãe é o problema da literatura. Eu estava encaminhada para ser uma guna de boné para trás mas a minha mãe encasquetou que eu havia de gostar de ler! É daquelas coisas que as mães metem na cabeça e não há quem as segure. Eu estava ali muito bem a perseguir cães e a olhar para as formigas e veio ela e subornou-me com livros ad libidium na bertrand e não há como argumentar que não foi isto que me lixou os dias.  Toma aqui uma Sophia, olha o Eugénio, um bocadinho de Alice Vieira, olha tantas aventuras e vai daí e colei na cena (os livros são uma droga do caraças! aquilo às vezes é pior que cogumelos mágicos) e entretanto já comi de tudo - Marquez, Saramago, Roth, Beauvoir,  Niïn, Sartre e todas as coisas que fazem mal aos miolos. Culpa da minha mãe!
A última foi ontem!, nem vos conto! Se algum dia forem a casa da minha mãe, vão sentir-se a rainha da dinamarca (atenção,  fumar vale um raspanete!) - vai buscar as pratas, polir os cristais, rechear as sardinhas com sapateira, sacar do serviço vista alegre com o friso dourado e stressar como se a páscoa que não celebramos se tratasse e vocês fossem o senhor bispo. Mas dizia eu, ontem tive eu aqui em casa uns amigos para jantar - o gang do costume. Eu cá, ao contrário dela, adoro cozinhar e lá me atirei para a cozinha com um menú que não venderia por menos de 50€/cabeça (pão caseiro, amêijoas à bulhão pato, cenouras à algarvia, hummus, arroz de tamboril e mousse de lima, tudo bem regado com os melhores brancos alentejanos) e quando meti o pão no cesto pensei 'este paninho de linho bordado merecia uma última passagem com o ferro para tirar este meio vinco que anda pra'qui'. Felizmente fui capaz de sacudir os ombros e dizer 'sai de mim coisa ruim' e ignorar a dobra de forma altiva e dizer em voz alta 'ainda não,  mãe! resisitirei o mais que puder a tentação de sacar do ferro de engomar em cima da hora'. (dêem-me mais 5 anos)
De qualquer das formas, como é hábito - a culpa também deve ser da minha mãe, eu é que ainda não lhe descobri o caminho - já me distrai e o tema era ainda se morrer de coração partido em 2017 e queria fazer uma apelo sincero - don't go breaking hearts for fun!, ele há gente que não aguenta! E nem toda a gente tem uma mãe tão boa como eu!


sexta-feira, julho 21

Vaso ruim não quebra

"Aos que trazem coragem a este mundo, o mundo só pode quebrá-los matando-os, e por isso, é claro, mata-os. O mundo quebra toda a gente; no entanto muitos ficam mais fortes no lugar da fratura. Mas àqueles que não consegue quebrar, mata-os. Mata os muito bons, os muito doces, os muito corajosos, imparcialmente. Se não sois desses, também vos há de matar, mas nesse caso não será particularmente apressado."

- Hernest Hemingway, in “Adeus às Armas”

Quebrar, quebrou-se-me uma rótula (a direita) a posar para uma fotografia. Anos antes, era ainda miúda, rachou-se-me uma falange do indicador (também direito) por baixo de uma rocha numa saída de praia de Inverno em Ofir (salvou-me da morte certa, debaixo de uma pedra gigante, um marinheiro que por ali passava e ouviu os gritos da minha mãe. O meu pai ainda hoje jura que foi ele que levantou o paredão e a minha mãe pede-me silêncio quando eu digo que ainda hoje lhe vejo os braços de Popey e a tatuagem da âncora - ele há coisas que um pai tem de eliminar da sua história para continuar a ser grande e a minha mãe, neste momentos, relembra-o sempre de que foi ele que me apanhou quando gatinhei para dentro da piscina, mesmo antes de engulir o pirolíto que, eventualmente, destruiria a minha eterna alma de peixe e, quiça, a vida).
Uma rótula e uma falange.
Fora isso, já morri muitas vezes.
Trago em mim a sorte de ter crescido bicho. [É a vantagem de ser filha do meio - nem é surpresa nem é tardia, pode andar para ali feita mogli que só lhe darão pela falta se no final do dia não se apresentar para a revisão dos dentes lavados (eu chumbava, sem grandes penalizações para além de ter de repetir a fraca performance, dia sim dia senão).] Aprendi nos metrosideros da Foz com as lagartas como cair das alturas sem partir a cervical, e com os mexilhões do mar de Afife como fechar a concha em dias de porrada e aguentar o temporal. Aprendi com os gatos como gerir as sete vidas e felizmente apenas há um mês descobri que em 2017 ainda se morre mundo fora de coração partido e se alguém mo tivesse contado há 3 anos, teria sido mártir da causa.
Feitas as contas, devem sobrar-me 2 vidas inteiras mais esta que decidi dedicar ao disparate. Tenho fé na ciência e na minha avozinha que está no céu que antes que me ganhem, ainda levo como uma ou duas vidas extra. No entanto, tento não abusar da sorte. Pratico pilates e yoga todos os dias e sou capaz de me vergar feita cana verde.
Quebrar é que não quebro.

terça-feira, julho 18

Três raparigas riem no cruzamento enquanto esperam pela boleia para casa. Malas pousadas no chão. Ouço apenas os risos e frases soltas 'foi no quarto de banho misto' risos 'acho que não...' 'só tu!' Risos. Chega um homem de fato e gravata e pousa o saco de ginásio no chão junto à parede grafitada, olha para as miúdas e abre o saco. 'Acho que ele estava bêbedo...' Risos e o homem nem olha. Tira o casaco e pousa-o com o forro para fora no chão, aninha-se e tira do saco uma lata de tinta spray e começa a pintar a parede. Convém por ora dizer que não estou a inventar. Do 5○ andar ouvem-se apenas exeetos e neste momento (são 22:15),uma feijoada de frango apurava no fogão e eu tinha acabado de abrir um delicioso 'fonte da loba' reserva e estava no meu posto de vigia. Depois de me morrer a gata com um cancro do pulmão, não se fuma dentro de minha casa, com a excepção desta janela da cozinha. Tive um namorado que em dias de inverno fumava em frente do fogão, com o exaustor ligado num barulho ensurdecedor - eu cá não sei como se pode saborear um cigarro com aquele barulho, eu que mantenho o exaustor em boa forma embora prefira evitar qualquer cozinhado que precise do dito, o barulho desconcentra-me a arte de bem saborear o cozinhar. Enquanto as couves que a minha mãe cortou ontem da pequena horta que lhe entretem a reforma (as melhores couves do mundo) apuram a feijoada, só uma fervurazinha que são tão boas que até as comia cruas feita coelho, acendo o cigarro e saboreio a loba (é uma delícia - fazer lembrete que este é para repetir em nova promoção no pingo doce), vigio a central de camionagem. É um hábito que mantenho diariamente. Um dia dar-me-ão o título de faroleira da central, sendo que faroleiro, na minha terra, é sinónimo de cabaneira (custou-nos bastante descobrir o que ser cabaneira era, quando nos mudamos do Porto para Viana) ou, para falar português de Portugal inteiro, coscuvelheira, mas eu cá sou das faroleiras que só vigia para imaginar para onde vão e para o que vêem os que gostam de autocarros - eu cá sou de pessoa de comboios, estou a ver se os entendo. Isso e por ter na parte de trás de cabeça aquela música dos belle and sebastian que teima que o meu amor virá no último autocarro a sair da cidade (ainda estou para perceber qual é! É que não param de entrar e sair e infelizmente o meu apartamento não dá para a saída oficial da central - daqui só vejos os perdidos ou os que já têm quem os venha buscar). Junto à janela está o tanque de lavar roupa onde me sento todos os dias para fumar o cigarro. Por motivos práticos, não o uso para lavar roupa - ficava sempre com o rabo molhado - e na mais que prometida remodelação da minha cozinha (ai por favor, tirem-me estes frisos dos móveis e este chão preto onde dois segundos depois de se lavar se vêem as pegadas do gato!) ficará no mesmo sítio (todas as casas têm de ter um tanque de lavar a roupa, diz a minha mãe), mas terá um tampo de madeira que poderei baixar e uma almofada confortável para me sentar neste cigarro mesmo antes das couves cozerem. 'Acho que não lhe vou ligar' diz uma delas mesmo antes da boleia chegar. O homem, entretanto, afinal, só retocou as sapatilhas do desenho que já lá estava, voltou a pegar no casaco, sacudiu-o um bocadinho antes de o pôr ao ombro e seguiu avenida abaixo. As couves estão prontas. Abusei no piri-piri, mas a feijoada está uma delícia. Um dia gostei de um rapaz que não gostava de leguminosas. No dia em que mo disse percebi que a nossa relação nunca teria futuro. Às vezes ainda durmo com ele, mas tenho a noção que a não ser que os belle and sebastian tenham razão, vou acabar sozinha. E não pensem que este pensamento me entristece. Neste preciso momento o gato entra-me na cozinha e roça-se nas minhas pernas 'já te disse que nos próximos meses não te abandono? Um brinde a isso, Adolfo?'

domingo, junho 25

Bicho do mato

Uma montanha, ou um rio, ou um bicho qualquer do mato, é o que eu sou.
E vêm os homens e põe bandeiras e gritam é meu, arrancam pedaços, bebem da minha água, agarrando-a com as mãos em concha.
Abraçam as minhas pernas como quem abraça as árvores, com sede do cheiro a pernas ou a eucalipto. Mordem-me as costas como quem faz castelos de areia que a próxima maré tratará de limpar.
Sou o parque e sou o bicho.
Deixo-os brincar com todos os pedaços de mim, puxar-me os cabelos ou snifar-me o cheiro das costas, deixo-os até prender-me sem fazer esforço para me soltar - os homens sempre gostaram das demonstrações de força - deixo-me ficar de barriga para baixo sob o peso dos seus corpos, a respirar baixinho.
O que fizer os homens felizes - deixo-os acaríciar os meus pêlos púbicos como se de uma anémona se tratasse, deixo-os tomar-me como se toda eu fosse abandonada, à espera de dono por uso capião.
Oh, como são ingénuos, os homens, e como ainda não aprenderam que o mar não tem dono, que podem rebentar todas as ondas que ele continuará o seu ritmo, que a montanha à noite tem dentes e olhos a brilhar no escuro e que nunca ninguém apanhou o vento. Oh pobres coitados daqueles que entram em mim de espada na mão, com ar de conquistador, como se eu pudesse ter amo ou mestre. Que desilusão devo ser quando sacudo os cabelos e me levanto como se o meu corpo fosse agora árvore alta e sólida com os olhos postos no céus e pés enterrados no chão, inabalável, e desinteressada dos pequenos problemas de ego.

Amanhã é que vai ser

Acabei agora de lavar os pratos de plástico e os copos de plástico e as taças lambidas de mousse de chocolate de plástico e os talheres de plástico e subir finalmente para a minha casa. As unhas arranjadinhas ontem estão uma lástima, unhas de segurança de social, como diz uma amiga minha, quando me apanha com as unhas vermelhas esbotenadas como pratos velhos. São 10 para a meia noite. A minha mãe desistiu há meia hora - ó filha, acabamos isso amanhã, já não são horas! e eu riu-me. Já pus a música a tocar há uma hora, tenho um copo de vinho no parepeito da janela, podiam dar-me copos para lavar até não haver mais copos sujos no mundo. Amanhã, no entanto, não farei nenhum. Esse é sempre o meu lema! Amanhã não farei nenhum. Hoje  - até já estou de avental! e as unhas também já não estou nenhum primor, deixa lá, só mais 30 copos não vão fazer mossa nenhuma,  traz-me tudo que eu tenho para fazer, traz-me hoje todos os trabalhos do mundo - tudo tudo tudo! - dá-me já hoje todos os problemas que eu já arregacei as mangas e a este disco do vinicius toquinho e maria creuza é grande e se tiver de tocar 2 vezes seguidas (já tocou tantas na minha vida e sei as letras todas de cor, olha vou cantando...), traz-me hoje todos trabalhos do mundo, ainda não é amanhã, atira-me todos os afazeres e deixa-os aí no chão, não irei dormir sem os os arrumar a todos nas respectivas prateleiras. Amanha farei nenhum.
Hoje tenho sempre tempo para arrumar as coisas, sempre tive. Só amanhã é qie não. Amanhã, dEUS vos livre! Prefiro arrastar o hoje até daqui a 15 dias, fazer tudo de seguida - a camisola até já tem nódoas, já vai ter de ir para a máquina e eu própria não me meto na cama sem passar no chuveiro que só assim é que amanhã pode ser impecável, começar o dia novo - o verdadeiro novo, sem ter de olhar para ontem - está tudo arrumado, há de tudo no frigorífico, a pele estará a brilhar e o acordar será com o sol a entrar no quarto branco e com o canto dos pássaros e o rulhar das rãs no tanque, amanhã será tão perfeito. Hoje que se lixe. Desde que acordei quee apercebi que afinal hoje não era o amanhã que ontem esperava. Ontem esperava um amanhã em que acordasse com os pássaros e o sol a bater na cama e no entanto adiei o despertador cheia de sono e tive de acordar de corrida e mal usufruir do tudo que tinha no frigorífico para a correr me meter no carro que mal tinha gasolina para chegar à bomba e chegar a Carreço a más horas. Logo quando acordei me apercebi que ontem programei mal o amanhã, logo, hoje, não cometerei o mesmo erro e não irei para a cama sem deixar todos os plásticos lavados e o chão da cozinha impecável.
Amanhã será brilhante. É garantido!!! Tal é a certeza que já estou até a celebrar o dia perfeito em antecipação com um copo de vinho tinto e um cigarro na varanda antes de ir dormir. Um dia novo! Viva o amanhã!

e eis se não quando, o gato arrasta a posta da varanda e salta que lhe é a porta do mundo e sai noite fora. Adolfo!!! Oh pá! (Lá vai ele todo contente que agora é gato do campo) Adolfo! Oh pá... já me lixaste o amanhã. Arrumo a garrafa, apago e cigarro e digo 'não tem mal, amanhã, também, é domingo, e eu nunca gostei de domingos. Segunda é que vai ser!'

quinta-feira, maio 11

Da série: na minha tropical ausência não darás pela minha falta

Se parto, é apenas na esperança que um dia me digas para ficar.

Deixo sempre tudo arrumado, como se voltasse na manhã seguinte, à excepção do gato e do frigorífico.
Deixo o livro de receitas na prateleira da cozinha, não vá faltar-te a sopa.
Deixo toda a roupa lavada e recados para não te perderes na minha ausência.
E mais, para que não me sintas a falta, vou dando notícias.
Deixo as chaves de casa com o Manel para que a varanda se mantenha florida, caso passes na rua lá em baixo.
As luzes são solares, pelo que a cozinha, pelo final do dia, terá sempre um cheiro a mim, como se ali estivesse a ler à janela, sentada no tanque da roupa.

Se parto, tão amiúde,  é para que um dia me perguntes quando volto.

Deixo a cama feita de lavado e com os lençóis de renda impecávelmente esticados.
As saudades, faço de conta que são coisa que não me apoquenta e encaixo-to-as na garagem, junto aos outros tempos e às bicicletas.
O carro deixo-o a porta de casa, à mercê das acácias floridas longe do mar, praga que lhe come a pintura. O carro, para que saibas (e não estou a reclamar), sente a minha falta e quando volto só ressuscita à força dos cabos, não é como tu.

Parto sem dizer que fui e que se me ausento é por ti.
Parto pelo calor do voltar.
Volto pelo gato, cansada de esperar o teu convite.

domingo, maio 7

Poema à mãe

Juro, mãe, ser a tua memória.

Se o dia chegar em que o alzheimer da avó te atingir, se te esqueceres dos cheiros e do que comemos naquele dia em Tomar, contar-te-ei com pormenor e inventarei histórias ainda mais bonitas do que as nossas.
Ando, há anos, a saborear os dias devagar, mastigando todas as folhas de hortelã na sopa de feijão em Trás-os-Montes e o cheiro do leite do peito que te mirrei. Todos os dias religiosamente guardo 3h por dia para me virar para trás e para dentro para te ouvir gritar 'Helena, não te agarres ao cão que não o conheces' enquanto corrias atrás de mim entre os metrosíderos da Foz em dias de Inverno. Já apurei todas as memórias de que não me lembro e verifico, mãe, pela manhã, se a camisola pica ou não,  no pescoço ou na etiqueta e vejo, muitas vezes, o pendente de marfim do colar que agora é meu a balouçar à frente do meu nariz quando acordo - a minha primeira memória de ti.
Contar-te-ei não que cheiravas a desinfectante e a hospital e a cansaço no final do dia, mas que tinhas sombra azul sobre os olhos verdes e que tínhamos reuniões diárias no teu quarto de banho , os 5, empilhados sobre o lavatório de mármore enquanto tu fazias xixi e o pai lavava os dentes depois de almoço.
Lembrar-te-ei de como sofreste por mim o meu coração partido mesmo quando eu fingia que já o tinha colado e como sempre foste uma rocha e eu ilha -  insuflável  e tola - atei uma corda a ti para não andar à deriva demasiadas vezes para uma vida só.
Contar-te-ei de como o teu pai ressonava como uma locomotiva e ia para o carro à porta de casa aos domingos à tarde fumar e ouvir o relato do Porto e de que como a tua mãe comprou o bilhete para o céu indo a duas missas seguidas. Não te falarei da sua depressão, ou dos choques eléctricos ou dos gritos, mas falarei dos tapetes de flores na Páscoa e da doçura do cheiro das suas rosas, que fazes crescer à porta da tua casa.
Nunca que contarei que não me lembro de grandes mimos, de que ainda hoje não encontro em cafonés o conforto do amor, que tive ciúmes das mães fofinhas das minhas colegas, que lhe faziam rissóis e panados para as visitas de estudo quando eu tinha de comer uma omelete no pão, mas dir-te-ei do fundo do coração que uma sandes de omelete de salsa e cebola é a coisa mais maravilhosa do mundo.
Dir-te-ei, sem mentir, que sempre quis ser como tu, embora tenha chorado quando me disseram que pareces fria como a tua mãe. Eu que sempre quis ser fria como tu. Bola para a frente, sofrer como tu deves ter sofrido o tempo todo, para dentro, sozinha,  sem nunca incomodar ninguém.
Contar-te-ei como venceste o teu destino de agricultura rural com a luta e sem nunca te achares nada de especial.
E juro, mãe, que me sentarei na tua cabeceira da cama a ler poesia e dir-te-ei, sem mentir nem numa vírgula, que se não fosse por ti, eu nunca tinha conhecido a paixão, a sombra das árvores, o rulhar do vento e o cheiro a maresia que vivem dentro dos livros onde eu sou feliz. Ler-te-ei o Eugénio de Andrade, e a Sophia de Melo Breyner, e cantar-te-ei o melhor que conseguir a Amélia dos olhos doces que sempre foste.
Contar-te-ei, mãe, que a primeira memória que tenho de um livro é 'aquela núvem e outras' e as aguarelas do Júlio Resende me alagam os olhos de cada vez que passo à frente de uma Bertrand e que a rosa amarela à janela terá sempre a tua voz de fundo a dizer 'escolhe um livro Helena, o que tu quiseres, qualquer um, vais ver que vais gostar!' E com vergonha contar-te-ei que o gato do Botero continua nas ramblas e que se eu hoje me mato por museus a culpa é só tua e que nunca mais achei piada a piscinas em parques de campismo.
Relatarei, feito relato de futebol, de como eramos felizes nas manhãs de fim de semana e que o pai saltava de cama em cama feito cabra-cabrez e de como nós te íamos salvar e de como Moledo no inverno era magnífico.
Se algum dia, deus queira que não, mãe, o teu cérebro se esquecer, falar-te-ei dos jesuítas de Santo Tirso, do cabrito do Marco, do cão a quem puxaste o rabo, do cabrito que só gostava do teu irmão e de como tu foste magnífica a vida inteira.
Dir-te-ei que me obrigaste a ir para os Estados Unidos aprender e que quando me deixaste no aeroporto (eu não queria ir, mãe - fui porque tu disseste que eu esse era o caminho) me disseste 'tenho tanto orgulho em ti, eu não era capaz!' E de que de todas as vezes que eu quis baralhar as cartas e começar de novo tu estiveste lá a dizer 'vamos lá, tudo vai sempre correr bem!'
Se te esqueceres, mãe, contar-te-ei como foste Mãe, a toda a hora, como me salvaste mil e muitas vezes e que embora eu faça ar de enfato ao atender o telefone 'ai mãe, não tenho 15 anos! deixa-me estar!', embora eu insiste em armar-me em parva, feita Gomes, ignorando o Ferreira e Marques e Silva que me corre no sangue, os teus telefonemas são,  todos os dias, a minha força.
Tenho pena, mãe, de não poder dizer-te isto hoje, por isso, mando-te, mesmo antes do dia acabar, uma mensagem a dizer apenas que te adoro e que as rosas antigas que me ofereceste no teu dia, serão sempre o lembrete de que eu gostava de ser como tu.

sexta-feira, maio 5

O Sindicato das Cartas de Amor

Sim, Pedro, sindicarizemos as cartas.

Para cada carta amarrotada, pena suspensa por 6 meses com direito a uma tarde de limpeza da mata nacional; 
para cada carta perdida, o carteiro terá de andar 15 dias com um letreiro onde se lerá 'eu perco cartas de amor'; 
para cada carta escrita e reescrita e nunca enviada (teremos espiões de pensamento no nosso sindicato, que verificarão diariamente as vontade de escrever algo e que vasculharão sem descanso os cadernos que as pessoas escrevem nas mesas de café quando se sentam sozinhas e as hesitações nos postos de correio) um senhor do fraque a passear atrás deles durante uma tarde a gritar 'faltou-te a coragem! Faltou-te a coragem!' 
Para as cartas não respondidas, a pena capital.

Fundaremos um exército de gente com selos em punho e senhas rápidas para os postos dos CTT. Teremos uma armada de papagaios loiros disponíveis em todos os quiosque payshop dispostos a levar as cartas para o outro lado e uma legião de pombos correios de anilha na pata para cartas telegrafadas stop.
Teremos sobre a nossa alçada todos o coros de santo amaro de oeiras e uma frete de autocarros dispostos a distribuir cartas cantadas por todos os canto do país e com serviço barato para o Luxemburgo (para começar). Teremos um escriva em cada aldeia para que o analfabetismo rural não sirva de desculpa.

Postais, fotografias com marcas de baton, envelopes cor de rosa perfumados e sobrescritos com caligrafia infantil serão prioritários e agora eu era o rei, era o bedel e era também juiz e pela minha lei a gente era obrigada a ser feliz.

quinta-feira, maio 4

O meu país cheira a coentros

O meu país cheira a coentros e a peixe fresco ou a peixe menos fresco, às vezes, mas antes isso que cheirar a sangue! E as caves das casas das avós cheiram a tasca e a vinho mau derramado mil vezes pelo chão há mais de 20 anos, quando o avô fazia o proibido e intragável vinho americano.
O meu país também cheira a cravos que não cheiram a nada, principalmente se forem de plástico para reutilização no Abril seguinte. Ou, lá para Junho, cheira a papel chinês dos balões de S. João e logo de seguida a incêndio. O cheiro a incêndio é o cheiro do meu país no Verão,  às vezes mascarado pelo do manjerico ou do bacalhau a assar na brasa.
E a refogado. Ou estrugido, que é a mesma coisa mas com muito mais azeite e alho e muito mais queimado e que inunda as ruas às portas dos restaurantes para trabalhadores - sitios com iluminação de frigorífico e chãos que se colam aos sapatos - mas onde se comem as melhores batatas assadas no mundo. As pessoas do meu país, normalmente as mães de outros tempos e avós, também cheiram a estrugido.
Por causa do vento, quase todo o meu país cheira a maresia, menos o Alto-Douro protegido pelo Marão e pelo Alvão e pelo Montemuro. Ali a maresia não entra e o meu país, ali, cheira a fumeiro.
Há quem disfarce o cheiro do meu país com perfume francês e incenso indiano. Eu tenho pena.
Também tenho pena que cada vez mais o país cheire a tubo de escape, mas por ora prefiro não pensar nisso.
O meu país não cheira às rosas antigas inglesas que a minha mãe se desunha para manter no jardim, e a maioria das flores que se vendem nos nossos mercados são importadas. E não cheiram a nada.
Mas eu gosto mesmo é quando o meu país cheira a coentros. Li recentemente um artigo científico que explica porque é que algumas pessoas odeiam coentros. A culpa é da genética e do receptor olfactivo OR6A2 que faz sobressair os aldeídos, fazendo qualquer boa feijoada de lulas saber a sabão. Também tenho pena. Essas pessoas nunca poderão completamente saborear o meu país.

domingo, abril 30

Esta mania de dividirmos o corpo em braços e pernas e olhos e cabelos e dedos dos pés e unhas das mãos, já para não falar que o coração e alma e os calafrios que às vezes se nos percorrem o corpo que nós nem contamos como corpo, esta mania de nos vermos como partes - as pernas andam e o seu andar nada tem a ver com o que o que os meus ouvidos ouvem, pesados, nesse dia, por brincos pendentes que comprei na feira da ladra já quase vazia em Londres, como se o peso que trago nos lóbulos não me atrazasse o passo e as conversas que apanho na rua não fossem também elas o resultado do joelho que parti há 5 anos a posar para uma fotografia; esta mania de nos vermos partidos,  como se não se não fossemos uma amalgama de cicatrizes antigas de arranhadelas de gato e nódoas negras recentes e dor de burro pela bebedeira de ontem, como se todas as histórias que nos moldaram todos os dias até aí e mesmo os dias que nunca fomos mas que se nos entraram via genes ou memória ancestral dos bisavós não contassem para a forma como pousamos as mãos sobre a mesa ou olhamos para a árvore do fundo da rua; esta mania de que todos os dias são um novo início;  esta mania, irrita-me.
Esta ideia de que podemos arrumar em caixas os dias maus, e noutras os dias inúteis em que não fizemos nada - só passei a ferro com esmero e borrifador as camisas que vou amarrotar no sofá, um caixote de cimento de tampa hermética para os dias em que o coração nos foi partido, e os dias felizes espalhados em cima da relva, esta ideia de que as pernas ou a forma dos abraços nada têm que ver com essas história, ou o sabor do pão que amassamos não ser a consequência de um filme que vimos uma vez à socapa quando ainda não tínhamos idade sequer para ver filmes à socapa, parece-me totalmente absurda. Eu nunca fiz nada pela pela primeira vez. Nunca tive um princípio. Nunca fui nova, como aquelas coisas que antes eram terra e agora são árvores.
Pudesse, eu, ter um dia novo... um dia sem bagagem, sem nunca ter lido um livro, sem os metrosideros da Foz, sem os dois cães que se me morreram à frente, sem nunca ter visto um azulejo azul com corações no fundo da rua dos Chãos, um dia feito folha branca que nunca se deitou sobre uma secretária na sombra da hesitação de uma esferográfica, sem aquele suspense que já conhece a espera, eu, ter um dia novo, novo mesmo novo, empacotado em esferovite, novo mesmo novo, com cheiro a lavado, mas sem o cheiro a lavado da casa da avó, lavado mas com sabor a água - indolor, incolor, indelével,  pudesse eu ter um desses dias, e juro que, pela primeira vez desde que me recordo, não olharia para os céus à procura de balões ou de olhos nos troncos das árvores e veria o mundo como ele aparece na televisão.