Esta história começa assim:
Há 2 anos eu era outra pessoa. Há 10 anos, ainda que vestisse o mesmo pijama cirúrgico azul e estetoscópio pendurado ao pescoço, eu era ainda menos eu, mas desses tempos não reza esta história.
Há pouco menos de 2 anos, tinha eu um estaminé de alojamento local onde o meu trabalho era ter as melhores conversas do mundo, com as aleatórias pessoas mais interessantes do mundo, quando vi que o Tiago Pereira vinha a Braga apresentar o seu filme 'Porque eu não sou o Giacometti do século XXI' e num segundo, feita fã sem vergonha, mandei-lhe uma mensagem a oferecer dormida. Sempre tive medo de perder alguma boa conversa e foi assim que conheci o Tiago em pessoa e ainda hoje me orgulho da falta de vergonha. 9 dias depois fechei portas ao hostel e ainda hoje, quando vou à garagem solto uma lágrima quando olho para as tralhas que sobraram só de pensar nas conversas que não vou ter e das pessoas que não vou conhecer. Mas acerca disso, também não reza esta história.
Comecei 2016 como uma página em branco, cheia de possibilidades, sem contratos e sem grandes obrigações para além do gato e das sardinheiras, no bolso tinha uma licenciatura e uma pós-graduação em bichos e quase 5 anos de mochila às costas sem sair de Braga e a terrível sensação de que nunca fui marinheira (nem capitã) nem pintora nem bailarina clássica ou actriz de cinema mudo - aquilo que qualquer pessoa com a cabeça no sítio chama de 'perdida na vida' mas que eu decidi chamar de 'peito aberto para o mundo'.
Em Dezembro, porta fechada, mandei uma mensagem ao Tiago e disse-lhe 'nunca andei de tripé ao ombro e fui chauffeur, se precisares de alguma mula de carga ou só um peso para as filmagens, eu estou disponível em Janeiro'. O Tiago respondeu 'de 29 de Janeiro a 8 de Fevereiro vamos para o Alentejo. O nosso carro capotou e está na ante-câmera da funerária. Queres vir?'
Oh bien sûre e juro-vos que não sabia a maravilha que me esperava. Foram 10 dias a reaprender a ser portuguesa, de vida nova, a ouvir os velhos, as histórias, as receitas, correr atrás de ovelhas, a ouvir a música como sentimento, a descobrir o sentimento do cante, das ceifeiras, das tradições (quem nem sempre eram as minhas - este país que é tão pequeno é tão grande!), da solidão de um interior do país abandonado, do alcoolismo, das praças vazias e do queijo, do cheiro a esteva e dos coentros frescos. Fiz pouco mais do que ser motorista sem chapéu e comer tomatadas no Rugla e aprendi tanto! 10 dias a ganhar mais um mundo debaixo da pele, mais uma camada, que ainda hoje mal me acredito de quando ganhei nesses dias.
Ontem, o Tiago, que é um pequeno génio e sim, não é um Giacometti do século XXI (porque não está aqui para registar e documentar coisa nenhuma - está aqui para sentir e mostrar como se sente), mas sim um louco anjo da alma portuguesa, enviou-me o seu último 'os cantadores da Paris', no dia em que o apresentou em Paris em estreia mundial. Ele há honras que não merecemos e esta é uma delas. Para quem não sabe (como é possível?!?), o "os cantadores de Paris' é um magnifico filme acerca da universalidade da música e um grupo de cante alentejano de Paris que inclui franceses, italianos e alemães, gente que nunca (até o Tiago os trazer) tinham posto os pés em Portugal e que cantam como quem comeu açorda de bacalhau desde menino.
E é, meus senhores, LINDO. Se durante anos ouvimos óperas de Wagner, Mozart e Puccini, sem percebermos peva de italiano ou alemão, o Tiago mostra que os nossos sons são igualmente universais.
E é, meus senhores, LINDO. Se durante anos ouvimos óperas de Wagner, Mozart e Puccini, sem percebermos peva de italiano ou alemão, o Tiago mostra que os nossos sons são igualmente universais.
A música portuguesa a gostar dela própria é um trabalho de embaixador e eu, meus amigos, porei em todos os meus CV's, sejam para veterinária ou o para varredora de rua, que fui motorista deste projecto durante 10 dias para o resto da minha vida.
Parabéns Tiago, por mais um filme tão bonito, tão pele, tão português e por mostrar que a nossa voz é tão particular ao mesmo tempo que esta nossa linguagem é tão universal. E obrigada pela amizade, por me fazeres sempre sentir mais portuguesa e ainda desta forma pequenina me deixares ser parte deste teu projecto que é do país inteiro. De um mundo inteiro. Obrigada.
clicar aqui para ver como é tudo isto é lindo - https://vimeo.com/237596698
Os Cantadores de Paris viram o meu vídeo da moda "Além daquela Janela" dos Alentejo Cantado em que estes a cantavam de firma diferente, introduzindo o "cânone" e começaram a cantar a moda da mesma forma. Mais tarde vieram ao Alentejo e puderam cantar com eles da mesma forma. Isto é A música portuguesa a gostar dela própria.

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