Hoje, ao som da tua música, fiz uma feijoada de cogumelos.
Tocava a Sharon Van Etten quando, ontem, pus o feijão branco de molho, ainda sem saber se dele faria sopa ou arroz. O Father John Misty cantava quando o atirei para a panela de pressão. Depois fui à varanda colher a salsa do vaso. Quando voltei a Nina Simone reclamava. Os cogumelos são de duas variedades - os Agaricus biosporus e os Pleurothus ostreatus - e o vinho é da região de Lisboa e tem nome de bicho.
Chega para dois e está uma delícia.
Para te chatear, deitei-lhe duas rodelas de chouriço e botei o Chico e convidei-o para jantar.
sexta-feira, novembro 24
quinta-feira, novembro 23
Regra número um para que tem o coração disponível
segunda-feira, novembro 20
Hoje a minha amiga ligou-me a dizer que encontrou o fio vazio e os pássaros a voar feitos loucos contra o vidro. Abriu a janela e eles agora moram na buganvília.
Nunca tive jeito para domesticar pássaros.
sábado, novembro 18
A problemática do ferro de engomar
A pedido de muitas famílias e porque é sábado e as famílias aos sábados estão terrivelmente aborrecidas, aqui vai mais uma história que não interessa a ninguém mas que a mim me tem andado a matutar na cabeça já há vários meses e parecendo um problema supérfluo, eu estou convencida que há por trás dele uma questão maior.
Vou começar pelo fim, que são os creditos. Eu por mim não vos incomodava com estas histórias, mas, como já disse, há várias famílias à minha espera e eu detesto desapontar. A primeira são os Gomes Pereira (que é a minha prima e que é mãe de 3 - beijinhos à Ineza, princesa, ao Vasco e ao Vicente - e que como tal, acha que as minhas histórias são contacto com a realidade), depois há os Moura e Sá (que é o meu cunhado, que não tem facebook e que como tal tem uma versão real da realidade e que adora este mundo estranho onde eu me meto) e há ainda os Rocha Gomes (que é o meu avô maluco que a semana passada partiu o braço a fazer ginástica - próps para o meu avô de 97 anos e votos de céleres recuperações que 'aquilo lhe vai atrasar muito a vida* dixit). É para estes leitores que escrevo porque eles gostam mesmo muito e esse amor nada tem a ver com o facto de poder ser eu a dar-lhes o presente de Natal no sorteio. Eles são mesmo gente boa.
Hoje a história é acerca dos ferros de engomar. Vou tentar não me alongar muito, agora que já gastei um tempão nos créditos.
Os ferros de engomar são os únicos electrodomésticos que não têm botão on-off. Eu, pelo menos, não conheço mais nenhum. O rádii, a torradeira, a máquiaha de barbear, o secador de cabelo, a máquina de lavar loiça (e a de roupa), a batedeira, o candeeiro da mesinha de cabeceira, o aquecedor a óleo dos anos 70 castanho bronze a cheirar a pó todos os Novembros, o microondas, a cena de aquecer a água para a botija, o computador (shall I continue?) todos TODOS têm um botão onofre. Menos o ferro de engomar.
Eu sou uma pessoa (eu sou uma pessoa que fica doente quando alguém diz 'eu sou uma pessoa que') que durante anos se recusou a passar a ferro. O meu primeiro parametro de selecção na compra de roupa é a necessidade de ser engomada, o que equivale a juntar mais 250€ ao preço. Engomar é a tarefa mais enfadonha do mundo. Por outro lado, não há nada que se compare a dormir nuns lençóis com renda bordada pela mãe com monograma HG retorcido impecavelmente engomados e esticados e juro-vos que durante anos ansiei pelas noites de 4as feiras (era os tempos em que eu tinha empregada) para finalmente dormir a noite com os anjos. Agora já não vivo nesses tempos e a minha empregada deu-me com os pés (isto de andar migrada dá pouco rendimento) e agora, se quero dormir em lençóis esticados, cabe-me a mim engomá-los. E juro-vos que é a única coisa que eu passo a ferro.
Eu tinha um ferro de engomar que era fraquíssimo e a minha empregada, às quartas, roubava o da Joana para passar os meus lençóis, mas eu tenho mais vergonha que ela e achei que era hora de comprar um ferro decente. Corri as lojas todas (que é o mesmo que dizer que estudei toda a gama de ferros do Media Markt) e não encontrei nenhum que com botão on off Comprei um bom ferro de engomar. Passa mesmo bem. Os lençois ficam impecáveis. Durmo mesmo bem (já devem ter reparado pela ausência de olheiras e pelo meu ar de felicidade). Mas de cada vez que passo os lençóis a ferro, questiono-me se é obrigatório fazer aquilo de enfiada. É suposto eu não fazer uma pausa? Não ir ao quarto de banho ou à varanda beber um copo de vinho?
Eu sou muito lenta a passar a ferro. Os lençóis são muito grandes e a tábua é pequena e ainda não apanhei o jeito aos lençóis de baixo e mais os elásticos dos cantos - tenho noção que demoro a hora e meia que demora o filme que ponho a passar na tv só para passar um jogo de cama - mas acho quase cruel que para ter uma pausa tenha de arrancar a tomada da ficha.
Da última vez que passei a ferro - foi praí há 2 meses porque a minha mãe deu-me dote de moiça casadoira e tenho 7 conjuntos completos e todos eles muito bonitos, por isso, às vezes baldo-me -, fiquei a pensar acerca deste problema e uma questão saltou-me no coração. Eu conheço muitos homens emancipados - cozinham, limpam, aspiram , arrumam, tratam dos miúdos, lavam loiça, limpam janelas e wc, partilham todas as tarefas domésticas - mas até à data, nunca nenhum me disse que passava a roupa a ferro. E aquilo bateu-me um bocadinho. Será o ferro de engomar o último electrodoméstico feminino no sentido século XIX da problemática feminista? E por castigo, continua a não tem o botão que diz 'vou fazer um pausa' e obriga as senhoras a arrumar TODA a cesta de roupa de uma só vez - todas as camisas e todas as saias e todas as calças de vinco? É que sacar a ficha da tomada tem um ar de desistência que é diferente de vou fazer uma pausa e já volto a isto que é uma seca.
E era isto que eu queria partilhar convosco hoje. Lamento. Era uma problemática que já me andava a remoer há algum tempo e espero que os restantes leitores, aqueles que não correm grandes riscos de não terem bons presentes no Natal, se pronunciem acerca desta situação e, eventualmente, se juntem a mim numa petição online ou numa manifestação feminista à frente da assembleia da república para pedir ferros de engomar 'twenty first century woman (and man)'s friendly'
Cordialmente,
Qualquer reclamação acerca da temática deve passar primeiramente pela vossa própria consciência (quando é que foi a última vez que passaram roupa a ferro?) e, persistindo, é enviar em carta registrada aos meus familiares. A culpa é toda deles.