sexta-feira, novembro 24

Hoje, ao som da tua música, fiz uma feijoada de cogumelos.
Tocava a Sharon Van Etten quando, ontem, pus o feijão branco de molho, ainda sem saber se dele faria sopa ou arroz. O Father John Misty cantava quando o atirei para a panela de pressão. Depois fui à varanda colher a salsa do vaso. Quando voltei a Nina Simone reclamava. Os cogumelos são de duas variedades - os Agaricus biosporus e os Pleurothus ostreatus - e o vinho é da região de Lisboa e tem nome de bicho.
Chega para dois e está uma delícia.
Para te chatear, deitei-lhe duas rodelas de chouriço e botei o Chico e convidei-o para jantar.

quinta-feira, novembro 23

Regra número um para que tem o coração disponível

para se apaixonar:

- Ponham um sinal proibido em todos os tipos que percebam de música!

Acreditem em mim que nunca me apaixonei por ninguém que não soubesse fazer perfeitas passagens de Tom Waits para a Amália de dela para o Nick Cave e seguir daí para a Billie Holliday ou para os Gaiteiros de Lisboa. Sou, claramente, uma tipa com excelente gosto musical (modéstia à parte) e péssimo gosto para os amores. É que estes gajos nos lixam completamente a vida. 

O primeiro amor de que me lembro - assim de escrever poemas de adolescente em inglês e de ter insónias depois de ele me deixar de mota em casa depois do cinema - nunca mais andei de mota e já vão mais de 20 anos - passava-me cds piratas depois das aulas de biologia e com o ar mais casual do mundo dizia "tens de ouvir isto". Tinha suíças aos 17 anos e tocava baixo numa banda (como podia uma pobre adolescente resistir?) e apesar da sua coolness, era comigo - a croma melhor aluna da turma) que ia às sessões do cineclube à segunda feira. Ainda hoje (e desde que fiz 18 nunca mais o vi) não há música dos dEUS que não me leve até ele e àquele primeiro charro que fumei em Santiago. É que o que estes tipos fazem é incrustar-se dentro das notas musicais, dentro dos acordes e até dentro das pausas de músicas que nos acompanharão para o resto da vida!

Vão por mim que os conheço de gingeira.

O meu amor seguinte, para curar a adolescentite aguda - nunca lhe escrevi um poema embora ele merecesse, que foi um namorado impecável e eu não devia ter-lhe partido o coração como suponho, agora, que parti - encheu-me a aparelhagem com Spain, Mazzy Star e Mojave 5 e Tom Waits e Morfine e Tinderstics e mais uma data de coisas superdepressivas mas que lhe ficavam a matar porque ele dançava como o Ian Curtis e escrevia nos cds que me oferecia os nomes dos albuns com letras decrescentes e tortas numa vã tentativa que coubesse ali tudo. Convenceu mais de muitas vezes a ir a concertos em vésperas de exames, mesmo que isso lhe desse para chumbar de ano e lhe valesse o verão a trabalhar para não ouvir dos pais. Era a única pessoa que eu conhecia que tinha um minidisc que andava sempre enfiado nas calças sempre tão largas, ele tão magro. Chegava a minha casa e ainda antes de tirar o casaco ligava-o à aparelhagem ranhosa e dizia "tens de ouvir isto" e eu servia-lhe um prato gigante piramidal de comida que ele comia até ao último grão de arroz e éramos felizes. Explicava-me depois de comer (que enquanto houvesse comida no prato não se ouvia um ai, só o raspar do garfo no prato) a história da Factory de Manchester e a musicalidade nórdica da Bjork e do Jay Jay Johanson.

Se me lembro de tudo isto hoje, se me lembro de todos eles como se fossem tocar-me à campainha a qualquer momentos, é porque de tal forma se meteram dentro da música que oiço todos os dias que é como se todos eles, alternadamente, me acompanhassem enquanto cozinho só pela playlist que ponho a tocar nas colunas em cima do frigorífico.

O seguinte foi o pior.

Adenda à regra número um  - MUITO IMPORTANTE - se algum amor vos aparecer e vos fizer uma mixtape, espetem-lhe de imediato uma faca afiada entre o 4º e o 7º espaço intercostal, mais para o lado esquerdo, e rodem. Não tentem fugir, tal não é possível. Nunca Ninguém Ever sobreviveu a um amor que faz mixtapes.

Foi por este que abandonei sentado no parapeito de uma janela de um 4º andar um moço impecável. Ontem, a limpar o aparador da sala, olhei de canto para o 5 cds com nome poético que sei que trazem as Breeders e Um Zero Amarelo e os Belle & Sebastian e Suba e Carlos Paredes e faróis que até aí eram só meus.

Se tiverem, como eu, a música à flor da pele, mantenham, melhor, imponham uma distância mínima de 750m ddesta gente. LONGE! Toda a boa música desde 2002 a 2014 tem hoje aquele travo amargo no pós boca da saudade de tempos que já não existem e que foram felizes. Não é que tenham sido sempre felizes, mas foram-no no som, e o som foi o que ficou. É que é muita música e embora digam que é possível, eu acho impossível uma pessoa limpar-se do Morrissey (e dos Smiths) e do Vinicius e pior, de algumas músicas do Chico, que esta gente tem uma lata do caraças e rouba tudo! Rouba até coisas que já eram nossas antes de nós nascermos!

Sai de mim coisa ruim! Não vos conto quantas músicas dos The National este tem, quantas do Nick Cave mais o Je t'aime moi non plus, Feits, Kings of Convinence ou Sigur Ros e a Bebel Gilberto a cantar o Samba e Amor, quantos Gaiteiros e Zecas nem vos conto que tivemos uma gata chamada Adília que nos mordia as mãos por causa da Naifa. Quando me deixou, parada pregada na pedra do porto, levou quase todas as músicas do mundo. A minha irmã chegou a sugerir que eu aprendesse a gostar de rap ou hipy hopy. Não aconteceu. Arrumei o Jacques Brel e a Nina Simone dentro do umbigo e segui caminho.

Jurei, por essa altura, nunca mais me apaixonar por um melómano. E vieram os politólogos, os cientistas, os físicos teóricos, os jardineiros, os polícias, os professores chatos com aspirações sinceras a catedráticos e nunca nenhum me lixou a vida. Também nunca nenhum me tirou o sono, o que a ver pela quantidade de soporíferos que a população portuguesa toma, deve ser uma coisa boa.

Admito que às vezes tenho recaídas. Tenho já há alguns tempos um novo amor melómano, mas tenho-me mantido à distância e já não falo com ele há mais de um mês. Houve tempos em que andei a morrer de amor por ele e por todas as músicas que me atirava nas cartas, em género de citação, mas lavei tudo com clorhexidina e fiz um penso compressivo ao coração e agora, quando chego à noite e ponho a playlist dele a tocar enquanto cozinho e bebo o meu copo de vinho, sorriu para o canto do frigorífico de onde vem a música e digo-lhe "a esta distância estou segura!"

segunda-feira, novembro 20

Uma manhã de sol e de sábado fiz 37 pássaros de origami para oferecer a uma amiga. De cada vez que acabava um, passava-lhe uma agulha pela barriga e dava um nó ao fio. A minha amiga morava longe e eu não sabia como meter 37 pássaros no carro sem pôr em risco a minha condução. Cheguei a casa dela e pendurei-os na janela da cozinha para poderem olhar para a buganvília florida lá fora.
Hoje a minha amiga ligou-me a dizer que encontrou o fio vazio e os pássaros a voar feitos loucos contra o vidro. Abriu a janela e eles agora moram na buganvília.
Nunca tive jeito para domesticar pássaros.



sábado, novembro 18

A problemática do ferro de engomar

A pedido de muitas famílias e porque é sábado e as famílias aos sábados estão terrivelmente aborrecidas, aqui vai mais uma história que não interessa a ninguém mas que a mim me tem andado a matutar na cabeça já há vários meses e parecendo um problema supérfluo, eu estou convencida que há por trás dele uma questão maior.
Vou começar pelo fim, que são os creditos. Eu por mim não vos incomodava com estas histórias, mas, como já disse, há várias famílias à minha espera e eu detesto desapontar. A primeira são os Gomes Pereira (que é a minha prima e que é mãe de 3 - beijinhos à Ineza, princesa, ao Vasco e ao Vicente - e que como tal, acha que as minhas histórias são  contacto com a realidade), depois há os Moura e Sá (que é o meu cunhado, que não tem facebook e que como tal tem uma versão real da realidade e que adora este mundo estranho onde eu me meto) e há ainda os Rocha Gomes (que é o meu avô maluco que a semana passada partiu o braço a fazer ginástica - próps para o meu avô de 97 anos e votos de céleres recuperações que 'aquilo lhe vai atrasar muito a vida* dixit). É para estes leitores que escrevo porque eles gostam mesmo muito e esse amor nada tem a ver com o facto de poder ser eu a dar-lhes o presente de Natal no sorteio. Eles são mesmo gente boa.
Hoje a história é acerca dos ferros de engomar. Vou tentar não me alongar muito, agora que já gastei um tempão nos créditos.
Os ferros de engomar são os únicos electrodomésticos que não têm botão on-off. Eu, pelo menos, não conheço mais nenhum. O rádii, a torradeira, a máquiaha de barbear, o secador de cabelo, a máquina de lavar loiça (e a de roupa), a batedeira, o candeeiro da mesinha de cabeceira, o aquecedor a óleo dos anos 70 castanho bronze a cheirar a pó todos os Novembros, o microondas, a cena de aquecer a água para a botija, o computador (shall I continue?) todos TODOS têm um botão onofre. Menos o ferro de engomar.
Eu sou uma pessoa (eu sou uma pessoa que fica doente quando alguém diz 'eu sou uma pessoa que') que durante anos se recusou a passar a ferro. O meu primeiro parametro de selecção na compra de roupa é a necessidade de ser engomada, o que equivale a juntar mais 250€ ao preço. Engomar é a tarefa mais enfadonha do mundo. Por outro lado, não há nada que se compare a dormir nuns lençóis com renda bordada pela mãe com monograma HG retorcido impecavelmente engomados e esticados e juro-vos que durante anos ansiei pelas noites de 4as feiras (era os tempos em que eu tinha empregada) para finalmente dormir a noite com os anjos. Agora já não vivo nesses tempos e a minha empregada deu-me com os pés (isto de andar migrada dá pouco rendimento) e agora, se quero dormir em lençóis esticados, cabe-me a mim engomá-los. E juro-vos que é a única coisa que eu passo a ferro.
Eu tinha um ferro de engomar que era fraquíssimo e a minha empregada, às quartas, roubava o da Joana para passar os meus lençóis,  mas eu tenho mais vergonha que ela e achei que era hora de comprar um ferro decente. Corri as lojas todas (que é o mesmo que dizer que estudei toda a gama de ferros do Media Markt) e não encontrei nenhum que com botão on off Comprei um bom ferro de engomar. Passa mesmo bem. Os lençois ficam impecáveis. Durmo mesmo bem (já devem ter reparado pela ausência de olheiras e pelo meu ar de felicidade). Mas de cada vez que passo os lençóis a ferro, questiono-me se é obrigatório fazer aquilo de enfiada. É suposto eu não fazer uma pausa? Não ir ao quarto de banho ou à varanda beber um copo de vinho?
Eu sou muito lenta a passar a ferro. Os lençóis são muito grandes e a tábua é pequena e ainda não apanhei o jeito aos lençóis de baixo e mais os elásticos dos cantos - tenho noção que demoro a hora e meia que demora o filme que ponho a passar na tv só para passar um jogo de cama - mas acho quase cruel que para ter uma pausa tenha de arrancar a tomada da ficha.
Da última vez que passei a ferro - foi praí há 2 meses porque a minha mãe deu-me dote de moiça casadoira e tenho 7 conjuntos completos e todos eles muito bonitos, por isso, às vezes baldo-me -, fiquei a pensar acerca deste problema e uma questão saltou-me no coração.  Eu conheço muitos homens emancipados - cozinham, limpam, aspiram , arrumam, tratam dos miúdos,  lavam loiça, limpam janelas e wc, partilham todas as tarefas domésticas - mas até à data, nunca nenhum me disse que passava a roupa a ferro. E aquilo bateu-me um bocadinho. Será o ferro de engomar o último electrodoméstico feminino no sentido século XIX da problemática feminista? E por castigo, continua a não tem o botão que diz 'vou fazer um pausa' e obriga as senhoras a arrumar TODA a cesta de roupa de uma só vez - todas as camisas e todas as saias e todas as calças de vinco? É que sacar a ficha da tomada tem um ar de desistência que é diferente de vou fazer uma pausa e já volto a isto que é uma seca.
E era isto que eu queria partilhar convosco hoje. Lamento. Era uma problemática que já me andava a remoer há algum tempo e espero que os restantes leitores, aqueles que não correm grandes riscos de não terem bons presentes no Natal, se pronunciem acerca desta situação e, eventualmente,  se juntem a mim numa petição online ou numa manifestação feminista à frente da assembleia da república para pedir ferros de engomar 'twenty first century woman (and man)'s friendly'
Cordialmente,

Qualquer reclamação acerca da temática deve passar primeiramente pela vossa própria consciência (quando é que foi a última vez que passaram roupa a ferro?) e, persistindo, é enviar em carta registrada aos meus familiares. A culpa é toda deles.