Prometemos, antes de qualquer coisa,
que nunca nos vamos encontrar.
Essa será a pedra basilar do nosso casamento.
Outros terão a confiança, a amizade, o amor e a paixão,
as promessas de eterna fidelidade,
velhice conjunta,
o para o bem e para o todo o mal dos dias que correm,
as unhas encravadas e o Alzheimer quase certo.
Nós não.
Assumiremos perante as mais altas entidades
- notário,
- república portuguesa;
- ou o padre (se insistires)
que abdicaremos de forma absoluta
de qualquer contacto físico.
Juraremos que em momento algum,
seja concerto do Chico ou exposição da Helena Almeida,
roçaremos ombros nos corredores.
Faremos questão de discutir em antemão e negociar
(como se faz nos bons casamentos)
em que dia saio eu de casa. Em que dia sais tu.
Irás à Índia em Janeiro e eu pego o voo mais barato de Fevereiro.
Farás escala em Frankfurt e eu em Londres..
Haverá dias, se dEUS quiser,
em que quase nos poderemos cheirar
em países concorridos.
Ainda assim, cornometraremos, ao segundo,
a ausência no espaço um do outro.
Fora isso, seremos a sombra um do outro.