sexta-feira, novembro 27

Proposta de casamento a um homem casado

Prometemos, antes de qualquer coisa,
que nunca nos vamos encontrar.

Essa será a pedra basilar do nosso casamento.

Outros terão a confiança,  a amizade, o amor e a paixão,
as promessas de eterna fidelidade,
velhice conjunta,
o para o bem e para o todo o mal dos dias que correm,
as unhas encravadas e o Alzheimer quase certo.

Nós não. 
Assumiremos perante as mais altas entidades
- notário,
- república portuguesa;
- ou o padre (se insistires)
que abdicaremos de forma absoluta
de qualquer contacto físico.
Juraremos que em momento algum,
seja concerto do Chico ou exposição da Helena Almeida,
roçaremos ombros nos corredores.
Faremos questão de discutir em antemão e negociar
(como se faz nos bons casamentos)
em que dia saio eu de casa. Em que dia sais tu.
Irás à Índia em Janeiro e eu pego o voo mais barato de Fevereiro.
Farás escala em Frankfurt e eu em Londres..
Haverá dias, se dEUS quiser,
em que quase nos poderemos cheirar
em países concorridos.
Ainda assim, cornometraremos, ao segundo,
a ausência no espaço um do outro.

Fora isso, seremos a sombra um do outro.

Há gente que nos toca
Há gente que nos toca e foge
Há gente que nos toca e foge e ainda assim, 

Fica.

Se eu for mesmo estúpida,  ainda assim a corrente Mindfulness diz-me para não me culpar?

quarta-feira, novembro 25

A liberdade é uma maluca e não sabe quanto vale um beijo

Mesmo assim!
E o pior nem é ser uma maluca.  É pior que isso.
O meu pai costumava dizer 'se soubesses o quanto custa mandar, obedecerias para o resto da vida'. Eu sou a menina do papá, é certo,  mas sou ao mesmo tempo altamente crítica em relação a tudo o que ele diz, na esperança eterna de poder soltar-me do complexo de Electra - já consegui (maizómenos),  que o senhor não é infalível nem eu sou parva -,  mas nisto ele tem razão.  Nisto e noutras coisas que, como ele diz (ele fala muito) - quem tem de morrer de um tiro não morre de uma facada, e eu hoje gostava de ter a certeza de que não fui desenhada para morrer de amor - que seja de ser um atropelamento em plena passadeira e pelo menos é isto que a minha mãe suspeita, ainda hoje me liga diariamente para ter a certeza que eu cheguei a casa sã e salva.
Voltando ao título - isto aqui é sempre uma montanha-russa, perdoem-me! -, a liberdade! A tão almejada liberdade... juro-vos que adorava não a ter todos os dias  à minha espera à porta de casa. Alguém (alguma coisa que não fosse apenas o Adolfo, o gato,  a dizer que o jantar deveria ser iogurte) com planos que não tivesse ser eu que inventar,  alguma coisa já estabelecida - toma banho,  lava os dentes, come a sopa, arruma os papéis,  paga as contas,  arruma as sapatilhas que já tens 5 pares espalhados pela casa, pôe uma máquina a lavar que já não há meias e está frio, janta... janta!  isto da liberdade em que não há ninguém (só o gato e vota iogurte) que diga janta... ou só alguém que diga esquece os poetas, esquece as flores e as músicas com que o teu corpo insiste em tecer os dias  pensa nas coisas concretas  pensa no carro - e se avaria! -  pensa na reforma,  pensa que a partir de certa idade (a tua idade) o desemprego de longa instância é quase certo, abraça o medo em vez de abraçares a liberdade de poderes tudo - e se eu amanhã fosse para a Índia com este rapaz que não só é Índia como é Chico..
e oh pá... no meio desta liberdade toda ninguém merece ter alguém assim,  a desarrumar ainda mais aquilo que já é só um caos só.
dEUS nosso senhor, manda-me já um ditadorzinho, machista, alto (de preferência) para me libertar deste peso da liberdade que tenho de trazer todos os dias aos ombros. Passar-lhe-ei, olhos no chão,  todo o meu peso para cima dos ombros e prometo cozinhar a tempo e horas, todos os dias, pataniscas e arroz de grelos.
Amén

segunda-feira, novembro 23

O jardinar que é preciso

Se não podes amputar as nódoas negras, as carnes pisadas, as dores de alma que trazes em ti, se não podes cortar o pé que não é convidado para dançar,  a mão que serve só ao gato, se tens de esperar que o tempo cure os podres todos, um por um - e há sempre a boa notícia de que o corpo se regenera, célula a célula a cada 7 anos - podes ao menos podar as sardinheiras da varanda.

sábado, novembro 21

Uma das minhas formas preferidas de mentir é inventar uma história por cima da história.  Porque não existe verdade, nada é ultimamente uma única coisa e uma pitada de sal e malaguetas picadas nunca estragaram paisagem nenhuma.

quarta-feira, novembro 18

Por lei, deveria ser proibido mentir.
E omitir também.
Por lei deveriamos ser obrigados a dizer que queria tomar um café contigo. Que gosto de ti. Que tenho saudades. Que não percebi bem o que querias dizer quando disseste aquilo.
Por lei deveria também ser obrigatório respondermos não me apetece. Também eu tenho saudades. Eu gosto de ti mais ou menos mas aceito o café desde que tu pagues.
Por lei deveriamos ser obrigados a dizer que ontem sonhei contigo.  Mesmo que o sonho te tenha amputado uma perna e tu tenhas respondido, no sonho, que era pior se fosse um braço.
Por lei deveriamos dizer as palavras todas e nunca deixar palavra nenhuma por dizer. Explicar tudo tudo tudo sobre a pena de deixar de haver silêncio (e isso era pena, mas era só a consequência de deixar de haver mal-entendidos e de passarmos todos a ser pessoas muito mais sabedoras).
E pela minha lei toda a gente era obrigada a ser feliz.


terça-feira, novembro 17

Ui! Poder ser parva tem sido o meu ordenado do últimos 4 anos!!! ♡ come-se mal mas a alma vai dormir feliz!

Passei os últimos 4 anos a aprender. Na verdade, não era esse o plano. O plano era montar uma empresa e trabalhar nessa empresa várias e diversas horas por dia, mas o plano saiu furado e foi-se a ver e a única coisa que estive ali a fazer foi aprender. Eu não fazia a mínima ideia de que ia ser assim e até uma vez, quase no início destes 4 anos, meti a pata na poça e respondi - eu já acabei os meus estudos. Que vergonha, agora, Eilan! Era um rapaz inglês,  25 anos, e perguntou-me pela manhã - Helena, que vais estudar este ano? Eu, ignorante,  respondi e ele respondeu - eu, este ano, vou estudar astronomia e superalimentos. São coisas que me interessam, vou à biblioteca e vou estudar estes assuntos. O Eilan não devia ter mais do que o 12º ano e trabalhava entre a construção e a agricultura. E estudava porque queria saber coisas.
Agora também eu quero saber coisas e todos os dias abraço todos os bocadinhos de informação que me deixam à porta. E leio livros, vejo filmes, oiço músicas,  leio artigos e vejo documentários e guardo dentro de mim todas as conversas que tive na varanda.
Dou aos que entram o pouco que sei na esperança que eles me desenganem acerca das minhas próprias ideias. E todos os dias ganho muito mais do que ofereço.
Uma coisa que eu agora gostava de aprender, Eilan, era acerca das palavras. Sabes que as palavras só existem nas línguas quando já existem um conceito. Por isso cada cultura tem palavras diferentes que são intraduziveis noutras línguas.  Tenho andado muito atenta às palavras. Por exemplo, em esloveno (isto ensinou-me o Arne) existe uma palavra para nós os dois - Midva. E tem conjugação verbal diferente das restantes entidades eu tu ele nós vós eles. Na Eslovénia há eu, tu, ele, nós os dois (midva), eles os dois (onidva), elas as duas (onidve), nós,  vós, eles. Obviamente fiquei derretida quando aprendi que havia uma língua que dava tal importância ao par. Para mim faz todo o sentido. Conjugar um verbo para nós os dois, só nós os dois, estivessem nós os dois sentados num banco de jardim ou num concerto de mãos quase dadas, nós os dois na varanda a conversar, nós os dois que sou só eu e o gato, não interessa qual nós os dois somos, existe sempre uma intimidade que é tão maior do que nós as 5 mil pessoas que estavam naquele bar, que só posso me deliciar com o facto de uma língua inteira, um país inteiro (ainda que pequeno) já se tenha apercebido disso.
Outra palavra que aprendi recentemente (foi ontem) foi citta. Em Palli, coração e mente não estão divididos. Quem me dera também em mim não estarem, mas as coisas são mesmo assim. Nasci no país da saudade, palavra que trago cravada das unhas dos pés à ponta espigada dos cabelos,  feito tatuagem  e por aqui uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa e há poucos dias em deixamos o coração descer ao cérebro e sermos assim conduzidos por uma entidade só - se tivermos bêbados,  talvez! Já Budha tinha o coração ligado ao cérebro e tudo o que dizia lhe saia pela boca se maturava num só pote. Quem me dera, não que a palavra existisse em Português,  mas a sua necessidade lhe tivesse dado tradução.
Há outras, tantas que aprendi neste últimos anos, tantas palavras, que muito mais que palavras foram formas de ver o mundo, maneiras de perceber coisas que outros mundos têm numa só palavra, como quando eu chego a casa e o Adolfo diz, num miar só, que hoje me apetece iogurte.

um dia caso-me contigo.
por mim será em 2004, lá para Dezembro. ou em 2007, conforme te der mais jeito.
só preciso que me envies os teus dados para tentar descobrir como nos vamos conhecer antes deste 2015, desta tarde nesta varanda, desse casamento que não trazes no dedo, já tão tarde para todos os planos que eu quero fazer contigo. Manda-me os ingressos dos concertos, os bilhetes das viagens, os talões dos cafés onde te sentaste a ouvir música ou a ler um livro, manda-me a lista dos livros para eu arranjar um ponto comum e poder meter conversa. eu digo-te que não saio de casa sem o estojo e que a toda a hora tomo notas e que em todos os cafés onde estive podes chegar-te à minha mesa e sem vergonha perguntar o que anoto tão atentamente.
e só agora me lembro! lembras-te? foi em 2006, exactamente 9 anos antes de nos conhecermos, no mesmo dia, no Coliseu do Porto. Lembras-te rapaz? À porta, no final do concerto do Chico. Estavas lá, não estavas? 1 de Novembro de 2006. Agora lembro-me de ti. Eu com o coração colado à alma, meio furiosa com o Chico por não ter cantado a Rita, por não ter cantado o Açucar e o Afecto que lhe tenho, só musiquinhas novas não falavam de mim. Lembras-te? Lembras-te de vires ter comigo e dizer que ainda assim era o Chico, que ainda assim cantou para nós e isso ninguém nos tira. Não te lembras? Se eu continuar a inventar a história e a repetir vezes sem conta, achas que te convenço?  e mudo o passado todo para poder mudar o futuro. Se eu escrever um livro inteiro desde esse dia, completo, inventar discussões, festas, idas à lua e à Índia, alinhas?

domingo, novembro 15

Domingo há Cozido


Hoje fui à província (sempre quis dizer isto e nem é verdade que toda a gente sabe que só a malta de Lisboa é que vai à província,  eu só fui a casa dos meus pais que por acaso é numa aldeia) para descobrir que o sobrenome tem muita importância e que não é aleatória a localização que toma no nome completo - faz na verdade muita diferença o lugar de cada palavra em cada frase e aposto que o Gomes Ferreira não sofre das mesmas doenças dos Ferreira Gomes, ou dos Santos Gomes.
Era Cozido à Portuguesa por negócio meu. Na minha família ninguém dá nada a ninguém.  Tudo é negociado e já que a minha mãe me ligou com voz de mel a dizer que a granola de chocolate que lhe fiz com amor (em troca de uma coisa qualquer) há uns meses já tinha acabado e que talvez fosse hora de eu me ligar ao forno, eu cravei com toda a delicadeza um belo banquete carnívoro para toda a família. Cozido é daquelas obras de arte fervidas que só se come em casa da mãe e que as obriga à maior fidelidade com o talho, já que uma farinheira de diferente proveniência pode muito bem dar cabo de laços familiares com mais de 30 anos e isso não dá jeito nenhum.
E sim, já reparei que estou a desconversar. Voltemos ao sobrenome.
Nós gostamos muito de cozido. Todo o bom português (aposto que mesmo os vegetarianos) gosta muito de cozido. Aquilo é um abuso mas um cozido é um cozido e vai mais de toucinho fumado e uma coxinha de frango e só mais uma cenoura e um monte de couves e chega aí só mais um bocadinho de molho que na verdade é só a àgua de cozer as coisas, não há para aqui azeites nem natas e quando reparamos já só os com Gomes em último lugar continuavam a debulhar. Cunhado e mãe já com os talheres arrumadinhos, sobrinhos que até também são Gomes - mas lá para o meio - uma quer ver televisão e o outro já foi buscar um livro e proceder à leitura de wc. Restamos o meu pai, a minha irmã e eu. A debulhar. Devarinho. Olhamos uns para os outros e murmuramos entre 2 garfadas - ai já estou tão cheio mas isto é tão bom!
A minha mãe ri-se de nós e orgulhosa do banquete diz-nos - se estão cheios parem! Ao que em uníssono respondemos - não assim, ai pára! A nossa patologia de Gomes é uma insuficiência na hormona Leptina libertada pelo estômago em direcção ao centro da saciedade no cérebro. Ou falta de receptores cerebrais. Depois de algum debate chegamos a um diagnóstico preciso - nós somos obesos mentais. Em comum temos os facto de pensar assim
- oh pá já estou tão cheio! Devia parar, mas isto é tão rico! Como mais um bocadinho e logo tomo só um chá ao jantar. Talvez com uma torrada. Com um bocadinho de manteiga. Ai manteiga não,  antes uns oregãos. Ui com tomate e oregãos! Grelha-se o tomate um bocadinho na sertã... E um bocadinho daquele queijo que até já tem um pouco de bolor e é um crime ir para o lixo. Ai que a courgete também está a precisar de ser comida. E o pimento! Ai, uns pimentos recheados... isso é que era! Com um copinho de vinho... isto entre uma garfada de carne de vaca e outra de batata e um chega aí o molho que o arroz já está um bocadinho seco.
Só para que a história fique bem completa, a sobremesa foi diospiros e bolo de abóbora e nozes com uma bola de gelado de baunilha com granola.
Eu vi gente a lanchar e não digo quem foi.
Aposto que houve alguns que até jantaram como gente grande.
Eu,  para me redimir, lavei os dentes mal cheguei a casa e fiz um chá boa digestão e liguei a televisão para ver um episódio do Masterchef mas não ponho de parte a hipótese de umas uvas mais daqui a nada porque, me lembro agora, ainda não comi as 3 peças de fruta diária recomendadas pela OMS.
Bem hajam Gomes do meu coração!

segunda-feira, novembro 9

Às vezes, talvez por solidão,  vejo televisão na casa do vizinhos.

quero ser para ti a coisa mais doce das coisas inúteis.
arrancar-me a ferros da partitura do Chico
e por contrato assinado e verificado pelo notário
ser tua de amor das 9 às 4
com folgas à quarta e ao sábado.
ser tua aos domingos apenas ao jantar.
ser inútil por não te servir para nada.
por contrato seres obrigado ao elogio fácil
da maciez da minha pele
e a um copo de vinho.
por contrato eu ter de ser gentil e ouvir com atenção as tuas histórias.
fora do contrato fica tudo o resto que quisermos
mas aviso desde já que não faço horas extraordinárias.
por contrato pré-nupcial renunciarmos de forma absoluta
à possibilidade do coração partido
e sermos,
por decreto,
só,
um para o outro,
o livrinho de quebra-cabeças que se passeia no bolso para as horas vagas.

E desalmadamente
desarmadamente
desamadamente
sermos o encosto dos dias do outro



era bom ter uma certeza, nem que fosse só uma.
teres mãos e pés e teres uma morada para onde mandar cartas de amor.
era bom que alguma coisa fosse coisa mesmo coisa, matéria sólida,
esfera de metal ou árvore
e não só estes farrapos de imaginação fértil com que ocupo os meus dias.
não seres mais ses, teres mãos e pés.
saíres destas coisa que é o cérebro e nem que não me apareças à porta,
que tenhas telefone e conta de email e projectos para o futuro
e mesmo que não gostes de dançar, que tenhas voz para me recusares a dança
que tenhas até algum cansaço, que não te passeies pelos meus sonhos
como quem tem vida fácil e nasceu nos versos dos poetas
ou em playlist de bossa nova.
que hoje tivesses tempo porque tens pernas
e quisesses ir ao cinema e precisasses de um casaco porque tens frio
e no final dormisses comigo não por solidão
mas porque as minhas pernas e as tuas pernas
físicas, com ossos e músculos e pele
assim o decidiam.
teres um nome. uma palavra que eu possa gritar
ou sussurar baixinho para não acordar as flores.

e eu poder largar este jogo de viver no detalhe das sombras
abandonar a arte de melanColar no dedilhar da uma guitarra
e voltar a sujar as unhas no jardinar que é preciso.
e sairmos da folha de papel, tu e eu,
e da ponta dos teus dedos eu ser a continuidade da pele macia.



sábado, novembro 7

eu gostava de não ser uma pessoa. não ter pernas nem cabelos nem dentes para lavar nem dentes para morder. não ter corpo, não ter de me sentar ou de me deitar ou de decidir o que vestir de manhã. e não ter quereres, ser coisa inerte, observadora apenas. pairar sobre o mundo todo, ouvir o mundo todo, não interferir com coisa nenhuma. não ter saudades de coisas que nunca tive, não querer as coisas que não posso ter. não ter esta imaginação que me permite estar onde não vou estar como se estivesse agora mesmo junto ao mar de mãos dadas. não ter mãos para não ter de inventar onde as entreter na ausência das tuas.

ser por exemplo tatuagem, perpetuada e, feito bailarina, nos teus braços repousar morta de cansaço


domingo, novembro 1

e aquele dia em que assumes que já não tens medo do rio, que as águas turvas, os redemoinhos, os frigoríficos perdidos no fundo do leito, as água que agora em Novembro já são forte que ainda a semana passada choveu este céu e o outro, se já nada disso te mete medo, se cada corrente do seu caudal passa a ser só mais uma força da Natureza que te há-de levar a um sítio qualquer - para o fundo, para a tona, para a margem, que te levará até ao mar ou até à aldeia mais próxima, se já nada disso te assusta, se dizes que qualquer um desses sítios não é melhor nem pior do que qualquer outro e que já nem esta margem verde de choupos parece um sítio perfeito para ficar, se ficar também já não é o que te apetece e soltas os cabelos que por algum recato mantens apanhado em rabo de cavalo discreto, se botas batom vermelho às 3 da tarde apesar de ser dias dos mortos e contas tudo a 3 desconhecidos na cozinha, contas que mais um mês fechas a porta e vais fazer alguma coisa que ainda não sabes bem o que vai ser mas que há um rio - há sempre um rio - e é Novembro e será Dezembro e as águas serão fortes e a algum lado te há-de levar e esse sítio não será melhor nem pior e não será igual de certeza e não tem mal nenhum que eu sempre tive fôlego, sempre soube nadar em apneia, sem garrafa e sem máscara.

aqueles dias em que de um dia para outro nada é perfeito porque nada é ou será ou foi perfeito e não teres dono nem amarras nem os filhos que sempre quiseste e só o gato e só a casa (que também se vende se for necessário) e só um coração cheio de memórias boas e memórias más e histórias que nunca ninguém viveu (nem eu) e coisas que nunca sequer existiram e só essas coisas todas que parece que cabem em 120m2 de apartamento e corpo de pouco mais de metro e meio, só isso tudo já é tanto e sabes que o dia de amanhã vai ser fantástico porque amanhã vai haver um dia e tu vais ter de acordar de manhã para servir o pequeno-almoço e vais sair da cama arrastada e ainda assim o dia vai ser fantástico porque não há outra forma de fazer os dias e no momento em que escreves isto toca a Cherry Blossom Girl e tu olhas para o ombro direito, tocas nas flores que aí mandaste tatuar há mais de 2 anos e lembras-te que as flores de cerejeira são símbolo de quão frágil é a vida e de quão importante é aproveitar cada instante e que também os samurais as traziam nos olhos e pensas que ainda falta o Japão e as mil e uma coisas que ainda não fizeste, os mil e um caminhos, as mil e uma personagens que ainda não abraçaste e tudo é tão perfeito e nunca nada é perfeito nem tem de ser perfeito nem sequer se quer que seja perfeito e ainda assim este agora é perfeito.
Se ainda te amo hoje é porque é dentro de mim que tu existes, os poemas existem, as folhas dançam nas árvores em tardes sem vento.
Se ainda te guardo e passeio por museus, se ainda te ponho na mala em caso de viagem, se haverá sempre o teu copo vazio junto ao meu copo de vinho na varanda, se ainda te cedo o espaço na minha cama nas noites em que durmo sozinha, é porque dentro de mim o mundo dança uma valsa esquisita.
Se as minhas pernas mantém o toque dos teus dedos é só porque também os leitos dos grandes rios em África, no Verão, retêm nas suas curvas áridas a memória da água.
Se ainda hoje, ou depois de amanhã, te buscar dentro de um livro, me cruzar com a tua silhueta à beira de um rio e me lembrar do gato de Schrödinger e me rir sozinha, não te alarmes, são coisas minhas.
Se os meus pés ainda guardam dentro deles a dança da sala é só porque trago a memória na flor da pele e há roçares que deixam sulcos profundos e eu sempre gostei de cicatrizes.
Mas se um dia nos cruzarmos numa rua, aqui, em Copenhagen ou em Kyoto, guardarei dentro do peito o pequeno complexo prematuro ventricular e direi no melhor inglês how do you do.