terça-feira, novembro 17

Passei os últimos 4 anos a aprender. Na verdade, não era esse o plano. O plano era montar uma empresa e trabalhar nessa empresa várias e diversas horas por dia, mas o plano saiu furado e foi-se a ver e a única coisa que estive ali a fazer foi aprender. Eu não fazia a mínima ideia de que ia ser assim e até uma vez, quase no início destes 4 anos, meti a pata na poça e respondi - eu já acabei os meus estudos. Que vergonha, agora, Eilan! Era um rapaz inglês,  25 anos, e perguntou-me pela manhã - Helena, que vais estudar este ano? Eu, ignorante,  respondi e ele respondeu - eu, este ano, vou estudar astronomia e superalimentos. São coisas que me interessam, vou à biblioteca e vou estudar estes assuntos. O Eilan não devia ter mais do que o 12º ano e trabalhava entre a construção e a agricultura. E estudava porque queria saber coisas.
Agora também eu quero saber coisas e todos os dias abraço todos os bocadinhos de informação que me deixam à porta. E leio livros, vejo filmes, oiço músicas,  leio artigos e vejo documentários e guardo dentro de mim todas as conversas que tive na varanda.
Dou aos que entram o pouco que sei na esperança que eles me desenganem acerca das minhas próprias ideias. E todos os dias ganho muito mais do que ofereço.
Uma coisa que eu agora gostava de aprender, Eilan, era acerca das palavras. Sabes que as palavras só existem nas línguas quando já existem um conceito. Por isso cada cultura tem palavras diferentes que são intraduziveis noutras línguas.  Tenho andado muito atenta às palavras. Por exemplo, em esloveno (isto ensinou-me o Arne) existe uma palavra para nós os dois - Midva. E tem conjugação verbal diferente das restantes entidades eu tu ele nós vós eles. Na Eslovénia há eu, tu, ele, nós os dois (midva), eles os dois (onidva), elas as duas (onidve), nós,  vós, eles. Obviamente fiquei derretida quando aprendi que havia uma língua que dava tal importância ao par. Para mim faz todo o sentido. Conjugar um verbo para nós os dois, só nós os dois, estivessem nós os dois sentados num banco de jardim ou num concerto de mãos quase dadas, nós os dois na varanda a conversar, nós os dois que sou só eu e o gato, não interessa qual nós os dois somos, existe sempre uma intimidade que é tão maior do que nós as 5 mil pessoas que estavam naquele bar, que só posso me deliciar com o facto de uma língua inteira, um país inteiro (ainda que pequeno) já se tenha apercebido disso.
Outra palavra que aprendi recentemente (foi ontem) foi citta. Em Palli, coração e mente não estão divididos. Quem me dera também em mim não estarem, mas as coisas são mesmo assim. Nasci no país da saudade, palavra que trago cravada das unhas dos pés à ponta espigada dos cabelos,  feito tatuagem  e por aqui uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa e há poucos dias em deixamos o coração descer ao cérebro e sermos assim conduzidos por uma entidade só - se tivermos bêbados,  talvez! Já Budha tinha o coração ligado ao cérebro e tudo o que dizia lhe saia pela boca se maturava num só pote. Quem me dera, não que a palavra existisse em Português,  mas a sua necessidade lhe tivesse dado tradução.
Há outras, tantas que aprendi neste últimos anos, tantas palavras, que muito mais que palavras foram formas de ver o mundo, maneiras de perceber coisas que outros mundos têm numa só palavra, como quando eu chego a casa e o Adolfo diz, num miar só, que hoje me apetece iogurte.

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