domingo, novembro 1

Se ainda te amo hoje é porque é dentro de mim que tu existes, os poemas existem, as folhas dançam nas árvores em tardes sem vento.
Se ainda te guardo e passeio por museus, se ainda te ponho na mala em caso de viagem, se haverá sempre o teu copo vazio junto ao meu copo de vinho na varanda, se ainda te cedo o espaço na minha cama nas noites em que durmo sozinha, é porque dentro de mim o mundo dança uma valsa esquisita.
Se as minhas pernas mantém o toque dos teus dedos é só porque também os leitos dos grandes rios em África, no Verão, retêm nas suas curvas áridas a memória da água.
Se ainda hoje, ou depois de amanhã, te buscar dentro de um livro, me cruzar com a tua silhueta à beira de um rio e me lembrar do gato de Schrödinger e me rir sozinha, não te alarmes, são coisas minhas.
Se os meus pés ainda guardam dentro deles a dança da sala é só porque trago a memória na flor da pele e há roçares que deixam sulcos profundos e eu sempre gostei de cicatrizes.
Mas se um dia nos cruzarmos numa rua, aqui, em Copenhagen ou em Kyoto, guardarei dentro do peito o pequeno complexo prematuro ventricular e direi no melhor inglês how do you do.




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