quarta-feira, dezembro 30

3 lágrimas, não mais, por ter, hoje, mandado cortar a luz que já não  havia ao fundo de qualquer túnel.
Mais 4 por ter ido, sozinha, declarar o óbito não só ao meu ganha pão mas, muito mais importante que isso, áquele lugar junto à auricula direita, onde fui tão feliz (e tão infeliz) nos últimos 4 anos.
20 lágrimas pelas conversas que não  voltarei a ter, 13 pelos pôr-do-sol,
300 pelo caso que o acaso que por azar nos colocou naquela mesma varanda não queira voltar a juntar-nos, mas deixo essas para depois.
25 pela vergonha de estar hoje a chorar quando devia estar orgulhosa
Mais 3 mas estas são  o vinho a falar.

segunda-feira, dezembro 28

E a minha mãe, que raramente vem cá a casa (talvez por saber do medo que tenho de a desapontar com pó no ecrã na televisão, do stress que me vai causar em tentar impressioná-la e não ter a casa um brinco, o caos de lápis de cor e garrafas de vinho que ela nunca vai entender, a desarrumação de alma que ela nunca sofreu) perguntou-me, quando se deliciava com o meu novo escritório - porque é que fazes isto? os desenhos? os quadros? os paninhos pintados com corações e cérebros e olhos, para que servem?
Como lhe explicar, a ela, a senhora das soluções práticas, a rainhas das coisas úteis, que aquilo não serve para nada, que eu própria não sirvo para nada e mais, também não quero servir para nada, não tenho energia para ter qualquer utilidade, que faço desenhos para aliviar o coração, tirar de lá de dentro coisas que me entopem a respiração, que têm de ser ditas, mesmo que ninguém as oiça, mesmo que não sirvam a ninguém, só tirar aquelas coisas de dentro de mim como quem arranca as larvas migrans cutâneas com um anzol perfurando a pele, mesmo que a minha formação me diga que tirar a larva migrans cutânea deixa o ovo enquistado noutro canto qualquer, os parasitas são mesmo assim, sacamos o óbvio mas há sempre o enquistado, prestes a eclodir a qualquer momento, provavelmente quando for Verão e estiver calor e tudo parecer bom, tudo de t-shirt e calções e cerveja na mão e de um momento para o outro, lá eclode o bicho. Ainda assim, mãe, arranco tudo, como quem espreme os pontos negros, como quem varre por onde passa a noiva, é o possível. Por mais que tente ir mais fundo, mais fundo, limparei as juntas dos azulejos do quarto de banho com a máquina de vapor e escova de dentes, como a tia Lúcia, mesmo que faça isso tudo, arrume tudo, deite tudo ao lixo, prometa que daqui em diante farei este procedimento para o resto da vida pelo menos semanalmente, tudo, não deixe fotos, não me agarre a nenhum momento feliz e só olhe para a frente, não me apegue àquelas coisas que nunca ninguém vê, os poemas que vivem dentro dos dias maus, as esperanças que vivem nos pôr-do-sol, mesmo que prometa que tomo os comprimidos a horas, quaisquer que sejam os comprimidos, mesmo que jure que não vou melancolar dentro de todas as músicas tristes, que vou esquecer o Chico Buarque, o Chet Baker,  que vou esquecer tudo aquilo de que me lembro feito gravador, feito tatuagem, o que cada um dos homens por quem me apaixonei me disse e qual era a cor do céu, ou que música tocava naquele instante (sim mãe, foi sempre só um instante, toda a minha vida foi só um instante, esta parte é que é longa), prometo mãe e mais, juro que prometo que vou lavar dos dentes comme il faut e as mãos como a OMS quer e ainda assim, o sorriso que levarei para a cama será para te aliviar o peso de teres parido uma fraca da alma.

quarta-feira, dezembro 16

Dançar não serve para nada

(...) ; os nove diabos da civilização escondem-se debaixo do 3º andar do baile, os homens da pré-história não faziam bailes,  pelo contrário,  estavam sempre apressados,  não andavam à roda como os malucos que dançam, que dançar é também isso: não ter pressa, não ter medo (...)
Gonçalo M Tavares,  in  animalescos

Num mundo em que todos corremos atrás das coisas altamente úteis - o décimo-sexto casaco, a máquina de cortar ovos cozidos, o carro que dá 320, pulseiras brilhantes Swarovsky, o status para entrar no grupo de elite daqueles que por sorte ou artimanha ainda não foram detectados pelas malhas da lei, o mordomo para maltratar, eu continuo a preferir as coisas que não servem para nada. Talvez por também eu querer ser inútil,  não servir para cozinhar, ou dobrar as meias, ninguém contar comigo para equilibrar as contas domésticas, ninguém precisar de mim para coisa nenhuma. E ainda assim, no final do dia, cansada, depois de uma noite sem dormir às custas de 3 inundações, fazer bolachas que não hão-de servir para nada e ir para o sofá a réstia de esperança de que alguém,  mesmo eu não servindo para nada, mesmo até atrapalhando a cena como é meu hábito, alguém, obviamente não estando no seu juízo perfeito,  queira ser meu par.

Voulez vous dancer avec moi?

sexta-feira, dezembro 11

Se eu te contar, ou melhor, se eu te contasse, quantas velinhas de igreja tenho guardadas no cesto da lenha,
Se te contar, ou melhor, se te contasse, que nenhuma consequência ocorre de pôr em off o telefone,
Se te contar, ou melhor, se alguma vez sobre o efeito embriagado deste copo de vinho,  me ocorresse contar-te, enviar-te carta anónima (tenho envelopes selados em número maior que a coragem) que um dia recolhi da espuma do mar uma cabeça de santo de cera, parte de uma macumba qualquer que incluía também flores e uma galinha morta dentro de um saco de seda branca, numa praia de Carcavelos numa manhã ventosa,
Se o acaso quisesse fazer de assunto as vezes que jogo o euromilhões pedindo encarecidamente à menina para me dar apenas o segundo prémio,
Se te contasse que não sendo religiosa, nem um bocadinho que seja, teimo em agarrar-me com unhas e dentes às coincidências da vida e em todas as esquinas ver sinais que me hão de alumiar o caminho e que chegando a casa, depois de me perder mil vezes no caminho que é andar 100 metros e virar à esquerda e que houve dias dei a volta toda à cidade três vezes só porque um sorriso casual na rua me disse que era dia de passear,
E se te contar que em alguns desses dias estava a chover e eu estava de sapatilhas,
Se te contar que chegada a casa, com os pés molhados, espreito da varanda se é hoje que chegas no último autocarro que sai da cidade, como os Belle and Sebastian insistem em prometer-me,
Se um dia perder a vergonha, e te disser que quando digo que ponho em off o telefone minto, que nunca o ponho em off, nunca o desligo, nunca o deixo desligar-se, se te disser que o simples facto de teres o meu número não me permite, na vã esperança que um dia tenhas algo também para me dizer,
Se te contar que hoje é sexta-feira e que para mim, como dizem os espanhóis,  me da igual, que podia ser terça ou quinta, que só não quero que seja Domingo, que não quero nunca que seja Domingo porque os Domingos são sempre o pior para pessoas como eu, se é que as há...
Se eu te contasse, ou melhor, quando eu te contar, com tom de fim de história,  que vens tarde, que já toquei todos os discos do Chico, que já esgotei as possibilidades de não ser normal e que a tua ausência me levou à monomania dos dias e que houve um dia em que eu não pesquisei o preço das viagens para a Índia e que com isso ganhei tempo para arrumar o escritório como o resto das pessoas, e dobrar as meias como o resto das pessoas, e fazer desaparecer as tintas da mesa da sala como já devia ter feito há muito,  muito antes sequer de te conhecer,
Se te contar que conhecer-te foi a última lufada de ar fresco e que agora, que é quase Inverno, prefiro o ar saturado e quente do sofá e que prometo manter o hábito da velinha da igreja em forma de lamparina por baixo do óleo de cheiro a laranja e cedro apenas por conforto e não por esperança,  a cabeça do santo por motivos meramente estéticos e que passarei a vir directa para casa, faça chuva ou faça sol,
Se te disser tudo isto, em carta em papel perfumado com letra bonita,
Vens?


sexta-feira, novembro 27

Proposta de casamento a um homem casado

Prometemos, antes de qualquer coisa,
que nunca nos vamos encontrar.

Essa será a pedra basilar do nosso casamento.

Outros terão a confiança,  a amizade, o amor e a paixão,
as promessas de eterna fidelidade,
velhice conjunta,
o para o bem e para o todo o mal dos dias que correm,
as unhas encravadas e o Alzheimer quase certo.

Nós não. 
Assumiremos perante as mais altas entidades
- notário,
- república portuguesa;
- ou o padre (se insistires)
que abdicaremos de forma absoluta
de qualquer contacto físico.
Juraremos que em momento algum,
seja concerto do Chico ou exposição da Helena Almeida,
roçaremos ombros nos corredores.
Faremos questão de discutir em antemão e negociar
(como se faz nos bons casamentos)
em que dia saio eu de casa. Em que dia sais tu.
Irás à Índia em Janeiro e eu pego o voo mais barato de Fevereiro.
Farás escala em Frankfurt e eu em Londres..
Haverá dias, se dEUS quiser,
em que quase nos poderemos cheirar
em países concorridos.
Ainda assim, cornometraremos, ao segundo,
a ausência no espaço um do outro.

Fora isso, seremos a sombra um do outro.

Há gente que nos toca
Há gente que nos toca e foge
Há gente que nos toca e foge e ainda assim, 

Fica.

Se eu for mesmo estúpida,  ainda assim a corrente Mindfulness diz-me para não me culpar?

quarta-feira, novembro 25

A liberdade é uma maluca e não sabe quanto vale um beijo

Mesmo assim!
E o pior nem é ser uma maluca.  É pior que isso.
O meu pai costumava dizer 'se soubesses o quanto custa mandar, obedecerias para o resto da vida'. Eu sou a menina do papá, é certo,  mas sou ao mesmo tempo altamente crítica em relação a tudo o que ele diz, na esperança eterna de poder soltar-me do complexo de Electra - já consegui (maizómenos),  que o senhor não é infalível nem eu sou parva -,  mas nisto ele tem razão.  Nisto e noutras coisas que, como ele diz (ele fala muito) - quem tem de morrer de um tiro não morre de uma facada, e eu hoje gostava de ter a certeza de que não fui desenhada para morrer de amor - que seja de ser um atropelamento em plena passadeira e pelo menos é isto que a minha mãe suspeita, ainda hoje me liga diariamente para ter a certeza que eu cheguei a casa sã e salva.
Voltando ao título - isto aqui é sempre uma montanha-russa, perdoem-me! -, a liberdade! A tão almejada liberdade... juro-vos que adorava não a ter todos os dias  à minha espera à porta de casa. Alguém (alguma coisa que não fosse apenas o Adolfo, o gato,  a dizer que o jantar deveria ser iogurte) com planos que não tivesse ser eu que inventar,  alguma coisa já estabelecida - toma banho,  lava os dentes, come a sopa, arruma os papéis,  paga as contas,  arruma as sapatilhas que já tens 5 pares espalhados pela casa, pôe uma máquina a lavar que já não há meias e está frio, janta... janta!  isto da liberdade em que não há ninguém (só o gato e vota iogurte) que diga janta... ou só alguém que diga esquece os poetas, esquece as flores e as músicas com que o teu corpo insiste em tecer os dias  pensa nas coisas concretas  pensa no carro - e se avaria! -  pensa na reforma,  pensa que a partir de certa idade (a tua idade) o desemprego de longa instância é quase certo, abraça o medo em vez de abraçares a liberdade de poderes tudo - e se eu amanhã fosse para a Índia com este rapaz que não só é Índia como é Chico..
e oh pá... no meio desta liberdade toda ninguém merece ter alguém assim,  a desarrumar ainda mais aquilo que já é só um caos só.
dEUS nosso senhor, manda-me já um ditadorzinho, machista, alto (de preferência) para me libertar deste peso da liberdade que tenho de trazer todos os dias aos ombros. Passar-lhe-ei, olhos no chão,  todo o meu peso para cima dos ombros e prometo cozinhar a tempo e horas, todos os dias, pataniscas e arroz de grelos.
Amén

segunda-feira, novembro 23

O jardinar que é preciso

Se não podes amputar as nódoas negras, as carnes pisadas, as dores de alma que trazes em ti, se não podes cortar o pé que não é convidado para dançar,  a mão que serve só ao gato, se tens de esperar que o tempo cure os podres todos, um por um - e há sempre a boa notícia de que o corpo se regenera, célula a célula a cada 7 anos - podes ao menos podar as sardinheiras da varanda.

sábado, novembro 21

Uma das minhas formas preferidas de mentir é inventar uma história por cima da história.  Porque não existe verdade, nada é ultimamente uma única coisa e uma pitada de sal e malaguetas picadas nunca estragaram paisagem nenhuma.

quarta-feira, novembro 18

Por lei, deveria ser proibido mentir.
E omitir também.
Por lei deveriamos ser obrigados a dizer que queria tomar um café contigo. Que gosto de ti. Que tenho saudades. Que não percebi bem o que querias dizer quando disseste aquilo.
Por lei deveria também ser obrigatório respondermos não me apetece. Também eu tenho saudades. Eu gosto de ti mais ou menos mas aceito o café desde que tu pagues.
Por lei deveriamos ser obrigados a dizer que ontem sonhei contigo.  Mesmo que o sonho te tenha amputado uma perna e tu tenhas respondido, no sonho, que era pior se fosse um braço.
Por lei deveriamos dizer as palavras todas e nunca deixar palavra nenhuma por dizer. Explicar tudo tudo tudo sobre a pena de deixar de haver silêncio (e isso era pena, mas era só a consequência de deixar de haver mal-entendidos e de passarmos todos a ser pessoas muito mais sabedoras).
E pela minha lei toda a gente era obrigada a ser feliz.


terça-feira, novembro 17

Ui! Poder ser parva tem sido o meu ordenado do últimos 4 anos!!! ♡ come-se mal mas a alma vai dormir feliz!

Passei os últimos 4 anos a aprender. Na verdade, não era esse o plano. O plano era montar uma empresa e trabalhar nessa empresa várias e diversas horas por dia, mas o plano saiu furado e foi-se a ver e a única coisa que estive ali a fazer foi aprender. Eu não fazia a mínima ideia de que ia ser assim e até uma vez, quase no início destes 4 anos, meti a pata na poça e respondi - eu já acabei os meus estudos. Que vergonha, agora, Eilan! Era um rapaz inglês,  25 anos, e perguntou-me pela manhã - Helena, que vais estudar este ano? Eu, ignorante,  respondi e ele respondeu - eu, este ano, vou estudar astronomia e superalimentos. São coisas que me interessam, vou à biblioteca e vou estudar estes assuntos. O Eilan não devia ter mais do que o 12º ano e trabalhava entre a construção e a agricultura. E estudava porque queria saber coisas.
Agora também eu quero saber coisas e todos os dias abraço todos os bocadinhos de informação que me deixam à porta. E leio livros, vejo filmes, oiço músicas,  leio artigos e vejo documentários e guardo dentro de mim todas as conversas que tive na varanda.
Dou aos que entram o pouco que sei na esperança que eles me desenganem acerca das minhas próprias ideias. E todos os dias ganho muito mais do que ofereço.
Uma coisa que eu agora gostava de aprender, Eilan, era acerca das palavras. Sabes que as palavras só existem nas línguas quando já existem um conceito. Por isso cada cultura tem palavras diferentes que são intraduziveis noutras línguas.  Tenho andado muito atenta às palavras. Por exemplo, em esloveno (isto ensinou-me o Arne) existe uma palavra para nós os dois - Midva. E tem conjugação verbal diferente das restantes entidades eu tu ele nós vós eles. Na Eslovénia há eu, tu, ele, nós os dois (midva), eles os dois (onidva), elas as duas (onidve), nós,  vós, eles. Obviamente fiquei derretida quando aprendi que havia uma língua que dava tal importância ao par. Para mim faz todo o sentido. Conjugar um verbo para nós os dois, só nós os dois, estivessem nós os dois sentados num banco de jardim ou num concerto de mãos quase dadas, nós os dois na varanda a conversar, nós os dois que sou só eu e o gato, não interessa qual nós os dois somos, existe sempre uma intimidade que é tão maior do que nós as 5 mil pessoas que estavam naquele bar, que só posso me deliciar com o facto de uma língua inteira, um país inteiro (ainda que pequeno) já se tenha apercebido disso.
Outra palavra que aprendi recentemente (foi ontem) foi citta. Em Palli, coração e mente não estão divididos. Quem me dera também em mim não estarem, mas as coisas são mesmo assim. Nasci no país da saudade, palavra que trago cravada das unhas dos pés à ponta espigada dos cabelos,  feito tatuagem  e por aqui uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa e há poucos dias em deixamos o coração descer ao cérebro e sermos assim conduzidos por uma entidade só - se tivermos bêbados,  talvez! Já Budha tinha o coração ligado ao cérebro e tudo o que dizia lhe saia pela boca se maturava num só pote. Quem me dera, não que a palavra existisse em Português,  mas a sua necessidade lhe tivesse dado tradução.
Há outras, tantas que aprendi neste últimos anos, tantas palavras, que muito mais que palavras foram formas de ver o mundo, maneiras de perceber coisas que outros mundos têm numa só palavra, como quando eu chego a casa e o Adolfo diz, num miar só, que hoje me apetece iogurte.

um dia caso-me contigo.
por mim será em 2004, lá para Dezembro. ou em 2007, conforme te der mais jeito.
só preciso que me envies os teus dados para tentar descobrir como nos vamos conhecer antes deste 2015, desta tarde nesta varanda, desse casamento que não trazes no dedo, já tão tarde para todos os planos que eu quero fazer contigo. Manda-me os ingressos dos concertos, os bilhetes das viagens, os talões dos cafés onde te sentaste a ouvir música ou a ler um livro, manda-me a lista dos livros para eu arranjar um ponto comum e poder meter conversa. eu digo-te que não saio de casa sem o estojo e que a toda a hora tomo notas e que em todos os cafés onde estive podes chegar-te à minha mesa e sem vergonha perguntar o que anoto tão atentamente.
e só agora me lembro! lembras-te? foi em 2006, exactamente 9 anos antes de nos conhecermos, no mesmo dia, no Coliseu do Porto. Lembras-te rapaz? À porta, no final do concerto do Chico. Estavas lá, não estavas? 1 de Novembro de 2006. Agora lembro-me de ti. Eu com o coração colado à alma, meio furiosa com o Chico por não ter cantado a Rita, por não ter cantado o Açucar e o Afecto que lhe tenho, só musiquinhas novas não falavam de mim. Lembras-te? Lembras-te de vires ter comigo e dizer que ainda assim era o Chico, que ainda assim cantou para nós e isso ninguém nos tira. Não te lembras? Se eu continuar a inventar a história e a repetir vezes sem conta, achas que te convenço?  e mudo o passado todo para poder mudar o futuro. Se eu escrever um livro inteiro desde esse dia, completo, inventar discussões, festas, idas à lua e à Índia, alinhas?

domingo, novembro 15

Domingo há Cozido


Hoje fui à província (sempre quis dizer isto e nem é verdade que toda a gente sabe que só a malta de Lisboa é que vai à província,  eu só fui a casa dos meus pais que por acaso é numa aldeia) para descobrir que o sobrenome tem muita importância e que não é aleatória a localização que toma no nome completo - faz na verdade muita diferença o lugar de cada palavra em cada frase e aposto que o Gomes Ferreira não sofre das mesmas doenças dos Ferreira Gomes, ou dos Santos Gomes.
Era Cozido à Portuguesa por negócio meu. Na minha família ninguém dá nada a ninguém.  Tudo é negociado e já que a minha mãe me ligou com voz de mel a dizer que a granola de chocolate que lhe fiz com amor (em troca de uma coisa qualquer) há uns meses já tinha acabado e que talvez fosse hora de eu me ligar ao forno, eu cravei com toda a delicadeza um belo banquete carnívoro para toda a família. Cozido é daquelas obras de arte fervidas que só se come em casa da mãe e que as obriga à maior fidelidade com o talho, já que uma farinheira de diferente proveniência pode muito bem dar cabo de laços familiares com mais de 30 anos e isso não dá jeito nenhum.
E sim, já reparei que estou a desconversar. Voltemos ao sobrenome.
Nós gostamos muito de cozido. Todo o bom português (aposto que mesmo os vegetarianos) gosta muito de cozido. Aquilo é um abuso mas um cozido é um cozido e vai mais de toucinho fumado e uma coxinha de frango e só mais uma cenoura e um monte de couves e chega aí só mais um bocadinho de molho que na verdade é só a àgua de cozer as coisas, não há para aqui azeites nem natas e quando reparamos já só os com Gomes em último lugar continuavam a debulhar. Cunhado e mãe já com os talheres arrumadinhos, sobrinhos que até também são Gomes - mas lá para o meio - uma quer ver televisão e o outro já foi buscar um livro e proceder à leitura de wc. Restamos o meu pai, a minha irmã e eu. A debulhar. Devarinho. Olhamos uns para os outros e murmuramos entre 2 garfadas - ai já estou tão cheio mas isto é tão bom!
A minha mãe ri-se de nós e orgulhosa do banquete diz-nos - se estão cheios parem! Ao que em uníssono respondemos - não assim, ai pára! A nossa patologia de Gomes é uma insuficiência na hormona Leptina libertada pelo estômago em direcção ao centro da saciedade no cérebro. Ou falta de receptores cerebrais. Depois de algum debate chegamos a um diagnóstico preciso - nós somos obesos mentais. Em comum temos os facto de pensar assim
- oh pá já estou tão cheio! Devia parar, mas isto é tão rico! Como mais um bocadinho e logo tomo só um chá ao jantar. Talvez com uma torrada. Com um bocadinho de manteiga. Ai manteiga não,  antes uns oregãos. Ui com tomate e oregãos! Grelha-se o tomate um bocadinho na sertã... E um bocadinho daquele queijo que até já tem um pouco de bolor e é um crime ir para o lixo. Ai que a courgete também está a precisar de ser comida. E o pimento! Ai, uns pimentos recheados... isso é que era! Com um copinho de vinho... isto entre uma garfada de carne de vaca e outra de batata e um chega aí o molho que o arroz já está um bocadinho seco.
Só para que a história fique bem completa, a sobremesa foi diospiros e bolo de abóbora e nozes com uma bola de gelado de baunilha com granola.
Eu vi gente a lanchar e não digo quem foi.
Aposto que houve alguns que até jantaram como gente grande.
Eu,  para me redimir, lavei os dentes mal cheguei a casa e fiz um chá boa digestão e liguei a televisão para ver um episódio do Masterchef mas não ponho de parte a hipótese de umas uvas mais daqui a nada porque, me lembro agora, ainda não comi as 3 peças de fruta diária recomendadas pela OMS.
Bem hajam Gomes do meu coração!

segunda-feira, novembro 9

Às vezes, talvez por solidão,  vejo televisão na casa do vizinhos.

quero ser para ti a coisa mais doce das coisas inúteis.
arrancar-me a ferros da partitura do Chico
e por contrato assinado e verificado pelo notário
ser tua de amor das 9 às 4
com folgas à quarta e ao sábado.
ser tua aos domingos apenas ao jantar.
ser inútil por não te servir para nada.
por contrato seres obrigado ao elogio fácil
da maciez da minha pele
e a um copo de vinho.
por contrato eu ter de ser gentil e ouvir com atenção as tuas histórias.
fora do contrato fica tudo o resto que quisermos
mas aviso desde já que não faço horas extraordinárias.
por contrato pré-nupcial renunciarmos de forma absoluta
à possibilidade do coração partido
e sermos,
por decreto,
só,
um para o outro,
o livrinho de quebra-cabeças que se passeia no bolso para as horas vagas.

E desalmadamente
desarmadamente
desamadamente
sermos o encosto dos dias do outro



era bom ter uma certeza, nem que fosse só uma.
teres mãos e pés e teres uma morada para onde mandar cartas de amor.
era bom que alguma coisa fosse coisa mesmo coisa, matéria sólida,
esfera de metal ou árvore
e não só estes farrapos de imaginação fértil com que ocupo os meus dias.
não seres mais ses, teres mãos e pés.
saíres destas coisa que é o cérebro e nem que não me apareças à porta,
que tenhas telefone e conta de email e projectos para o futuro
e mesmo que não gostes de dançar, que tenhas voz para me recusares a dança
que tenhas até algum cansaço, que não te passeies pelos meus sonhos
como quem tem vida fácil e nasceu nos versos dos poetas
ou em playlist de bossa nova.
que hoje tivesses tempo porque tens pernas
e quisesses ir ao cinema e precisasses de um casaco porque tens frio
e no final dormisses comigo não por solidão
mas porque as minhas pernas e as tuas pernas
físicas, com ossos e músculos e pele
assim o decidiam.
teres um nome. uma palavra que eu possa gritar
ou sussurar baixinho para não acordar as flores.

e eu poder largar este jogo de viver no detalhe das sombras
abandonar a arte de melanColar no dedilhar da uma guitarra
e voltar a sujar as unhas no jardinar que é preciso.
e sairmos da folha de papel, tu e eu,
e da ponta dos teus dedos eu ser a continuidade da pele macia.



sábado, novembro 7

eu gostava de não ser uma pessoa. não ter pernas nem cabelos nem dentes para lavar nem dentes para morder. não ter corpo, não ter de me sentar ou de me deitar ou de decidir o que vestir de manhã. e não ter quereres, ser coisa inerte, observadora apenas. pairar sobre o mundo todo, ouvir o mundo todo, não interferir com coisa nenhuma. não ter saudades de coisas que nunca tive, não querer as coisas que não posso ter. não ter esta imaginação que me permite estar onde não vou estar como se estivesse agora mesmo junto ao mar de mãos dadas. não ter mãos para não ter de inventar onde as entreter na ausência das tuas.

ser por exemplo tatuagem, perpetuada e, feito bailarina, nos teus braços repousar morta de cansaço


domingo, novembro 1

e aquele dia em que assumes que já não tens medo do rio, que as águas turvas, os redemoinhos, os frigoríficos perdidos no fundo do leito, as água que agora em Novembro já são forte que ainda a semana passada choveu este céu e o outro, se já nada disso te mete medo, se cada corrente do seu caudal passa a ser só mais uma força da Natureza que te há-de levar a um sítio qualquer - para o fundo, para a tona, para a margem, que te levará até ao mar ou até à aldeia mais próxima, se já nada disso te assusta, se dizes que qualquer um desses sítios não é melhor nem pior do que qualquer outro e que já nem esta margem verde de choupos parece um sítio perfeito para ficar, se ficar também já não é o que te apetece e soltas os cabelos que por algum recato mantens apanhado em rabo de cavalo discreto, se botas batom vermelho às 3 da tarde apesar de ser dias dos mortos e contas tudo a 3 desconhecidos na cozinha, contas que mais um mês fechas a porta e vais fazer alguma coisa que ainda não sabes bem o que vai ser mas que há um rio - há sempre um rio - e é Novembro e será Dezembro e as águas serão fortes e a algum lado te há-de levar e esse sítio não será melhor nem pior e não será igual de certeza e não tem mal nenhum que eu sempre tive fôlego, sempre soube nadar em apneia, sem garrafa e sem máscara.

aqueles dias em que de um dia para outro nada é perfeito porque nada é ou será ou foi perfeito e não teres dono nem amarras nem os filhos que sempre quiseste e só o gato e só a casa (que também se vende se for necessário) e só um coração cheio de memórias boas e memórias más e histórias que nunca ninguém viveu (nem eu) e coisas que nunca sequer existiram e só essas coisas todas que parece que cabem em 120m2 de apartamento e corpo de pouco mais de metro e meio, só isso tudo já é tanto e sabes que o dia de amanhã vai ser fantástico porque amanhã vai haver um dia e tu vais ter de acordar de manhã para servir o pequeno-almoço e vais sair da cama arrastada e ainda assim o dia vai ser fantástico porque não há outra forma de fazer os dias e no momento em que escreves isto toca a Cherry Blossom Girl e tu olhas para o ombro direito, tocas nas flores que aí mandaste tatuar há mais de 2 anos e lembras-te que as flores de cerejeira são símbolo de quão frágil é a vida e de quão importante é aproveitar cada instante e que também os samurais as traziam nos olhos e pensas que ainda falta o Japão e as mil e uma coisas que ainda não fizeste, os mil e um caminhos, as mil e uma personagens que ainda não abraçaste e tudo é tão perfeito e nunca nada é perfeito nem tem de ser perfeito nem sequer se quer que seja perfeito e ainda assim este agora é perfeito.
Se ainda te amo hoje é porque é dentro de mim que tu existes, os poemas existem, as folhas dançam nas árvores em tardes sem vento.
Se ainda te guardo e passeio por museus, se ainda te ponho na mala em caso de viagem, se haverá sempre o teu copo vazio junto ao meu copo de vinho na varanda, se ainda te cedo o espaço na minha cama nas noites em que durmo sozinha, é porque dentro de mim o mundo dança uma valsa esquisita.
Se as minhas pernas mantém o toque dos teus dedos é só porque também os leitos dos grandes rios em África, no Verão, retêm nas suas curvas áridas a memória da água.
Se ainda hoje, ou depois de amanhã, te buscar dentro de um livro, me cruzar com a tua silhueta à beira de um rio e me lembrar do gato de Schrödinger e me rir sozinha, não te alarmes, são coisas minhas.
Se os meus pés ainda guardam dentro deles a dança da sala é só porque trago a memória na flor da pele e há roçares que deixam sulcos profundos e eu sempre gostei de cicatrizes.
Mas se um dia nos cruzarmos numa rua, aqui, em Copenhagen ou em Kyoto, guardarei dentro do peito o pequeno complexo prematuro ventricular e direi no melhor inglês how do you do.




sábado, outubro 31

Melancolei-me em mim

As coisas que têm coisas lá dentro. As músicas que trazem histórias lá dentro, os livros que cheiram a um jardim particular onde se calhar só nos sentamos 15 minutos na nossa vida e onde nunca vamos voltar, o barulho do mar que vive dentro de um casaco velho que nem azul é. A Cat Power que tem várias das minhas casas dentro dela, dentro daquela voz que canta tão baixinho e tem barulho de copos e risos dos amigos e tem também lágrimas escondidas no escritório e as cores de paredes que já não há. O Eugénio de Andrade dos livrinhos brancos com relevo redondo para os dedos e pequenas letras laranja com quem terei sempre 15 anos e vontade de viver entre a brisa da manhã e os raios de sol. O cinzeiro laranja da varanda que não vai para o lixo apesar de partido, que nunca irá para o lixo, porque é Barcelona e é do Miguel e da Sofia quando o Miguel e a Sofia eram meus amigos e havia calma no acordar. As sandwiches que sabem sempre a Domingo ao almoço com a família toda a rir.
Mil curtas metragens. Todos os objectos, todos os nomes, todas os sinais de beira de estrada, o cheiro do arroz da avó Arminda quando passo na rua à frente daquele tasco onde nunca vou entrar (até ao dia em que as saudades apertarem mais forte), todas as palavras têm uma curta metragem com cheiro e ruído de fundo e fragmentos de poemas escritos na parede, as mil coisas dentro das mil coisas que me fazem estremecer só de as murmurar dentro do meu coração.


Todos aqueles sítios onde moramos sem lá pôr os pés, todos os sítios que moram dentro de nós sem saírem da poeira daquele canto atrás do baço excepto naquele particular acorde de guitarra ou de piano ou no voo rasante de uma borboleta na varanda.

E a certeza de saber que nada será como foi e o medo de não voltar a ser tão feliz como quando tinha 5 anos e descia a rua de mão dada com o avô a dizer mica feldespato e quartzo.

E o bater deste poema do Joaquim Pessoa na minha cabeça. Desde sempre.

"Eu sei, não te conheço mas existes.
por isso os deuses não existem,
a solidão não existe
e apenas me dói a tua ausência
como uma fogueira
ou um grito.
Não me perguntes como mas ainda me lembro
quando no outono cresceram no teu peito
duas alegres laranjas que eu apertei nas minhas mãos
e perfumaram depois a minha boca.
Eu sei, não digas, deixa-me inventar-te.
ao é um sonho, juro, são apenas as minhas mãos
sobre a tua nudez
como uma sombra no deserto.
É apenas este rio que me percorre há muito e desagua em ti,
Porque tu és o mar que acolhe os meus destroços.
É apenas uma tristeza inadiável, uma outra maneira de habitares
Em todas as palavras do meu canto.

Tenho construído o teu nome com todas as coisas.
tenho feito amor de muitas maneiras,
docemente,
lentamente
desesperadamente
à tua procura, sempre à tua procura
até me dar conta que estás em mim,
que em mim devo procurar-te,
e tu apenas existes porque eu existo
e eu não estou só contigo
mas é contigo que eu quero ficar só
porque é a ti,
a ti que eu amo."

quarta-feira, outubro 28

Passei o último mês a regar uma urtiga.

Só vos conto isto porque o Adolfo acabou de roubar-me uma malagueta e agora está ali no corredor com ar infeliz.

Eu, na verdade, semeei coentros e diariamente rodei o vaso, mimei-o, sol sem excesso, água qb, até cantei, vejam lá. E os coentros lá começaram a brotar, meio tímidos, é certo, mas lá começaram a aparecer uns rebentos e eu mantive a técnica. De um momento para o outro, um dos rebentos achou-se mais que os outros e disparou ar acima com ar confiante. É o patinho feio dos coentros, pensei eu, mas como nunca julguei as gentes (e os rebentos) pelo aspecto, deixei o moço estar. Até ao dia de fazer uma sopa de peixe e, atacando primeiro os breves rebentos e constando a sua insuficiência, lancei-me ao grande. Eu sou parva mas não sou maluca e não atiro para o tacho nada sem provar pelo que arranquei uma folhinha, rapidamente desfi-la entre os dedos e cheirei-a. 

Resultado - urticária nos dedos e nariz em forma de batata em menos de 1 minuto.


Tratamento - um anti-histamínico fora de validade que era o que havia.

Conclusão - Adolfo, amigo, a malta está contigo neste momento difícil!

terça-feira, outubro 27

Tendo em conta as últimas recomendações da OMS, retirei o abifa-te e cumpri apenas o avinha-te e abafa-te e não tenho a certeza que tenha sido boa ideia.
Sim, estou constipada.

à doida

se hoje pudesse ter super-poderes queria poder tricotar a saia que nunca mais acaba e ao mesmo tempo fazer pinturas de cérebros enquanto vejo um filme e ouço música com a mesma atenção e sim, ao mesmo tempo, ver este video que ainda agora postaram no facebook e, de botas calçadas, pintar as unhas dos pés de vermelho.


domingo, outubro 25

god cop bad cop

E agora o que é que se faz? Saio de cena para não te complicar a vida ou posso contar-te que, não sendo nada seguro (hoje houve tempo para passar no renovado Pingo Doce do Braga Shopping - bem haja a fila única - para comprar vinho -  Herdade Porto da Bouga) fiz um Maigret de Pato (caseiro que ontem foi dia de mãe) de bradar aos céus?
É quem tem a vida presa por qualquer coisa não sou eu e se por um lado cumpro o mais que posso a ética e a moral, por outro lado não fui eu que pus as cartas em cima da mesa e recusei o inocente jantar com desculpas de possibilidade de fraquezas da carne. Sim, não acredito na política don't ask don't tell das forças armadas americanas e até agradeço e admiro a honestidade (não há ego que resista!) mas e agora? Já não posso dançar descalça contigo pela sala? Fazer de conta que isto não é só a valsa de domingo à noite?
Posso contar-te aqui, onde não vais nunca encontrar-me (nunca ninguém alguma alma vai encontrar-me por aqui) que houve tempos em que tive um amor portátil, ainda antes do Pedro Paixão o escrever? Conto-te que nunca me sentei numa mesa de café a nenhumas 3 de alguma tarde com o Tom, que tanto eu como ele tinhamos relações felizes e saudáveis (para miúdos de 21 anos) e que nunca sequer fizemos planos de nos encontrar mas que nos encontrávamos todos os dias das 7 às 8 ou da 1 às 3 da manhã ou quando calhava termos saudades ou tempo ou saudades e tempo e que eramos namorados e ninguém tinha nada a ver com isso e ainda hoje, 2000 anos depois não sei como é que ele se chama a sério, mas que um dia sem a voz dele me fazia aflição.
Sem nenhum problema digo-te que a qualquer momento penduras o sinal do not disturb na porta da sala e eu volto para o meu canto e juro que prometo e cumpro que não te chateio de forma alguma e que o jogo das probabilidades não nos põe a menos de 5km um do outro até à próxima festa do vinho verde e que como tal,  podemos com toda a segurança e baixo risco e quase diria alto benefício mútuo continuar a existir assim um para o outro, sem sabermos ao certo o número da porta (é o 7 5ºdto - é tão bom ter-se um blog anónimo! ) .
Porque é isso ou deixo-te estar e com isso salvo com juízo o meu coração já meio amachucado, ainda a curar nódoas negras profundas - a minha vida está já tão cheia de confusões que isto era só tão dispensável... 

por exemplo, hoje é Domingo e ontem a minha mãe veio cá e trouxe um peito de pato. trouxe também rosas e nabos e morangos (sim, ainda há morangos a nascer no final de Outubro) e nabiças e agriões e espinafres e rabanetes e castanhas e eu, que sou uma rapariga muito organizada e que até já tinha 2 peitos de frangos e 1kg de cogumelos para as empadas e uma posta de salmão a marinar no frigorífico, achei por bem não congelar o pato. na altura pareceu-me que fazia sentido, para quem vive sozinha e já tem 6 refeições no frigorífico, mais kg de pato menos kg de pato não vai fazer diferença nenhuma.

outra coisa que para mim tem muita lógica é trabalhar o Sábado inteiro e chegar a casa à 8 da noite e cozinhar durante 2h, desarrumar a cozinha toda, farinha a saltar para o chão e cabelo, formas, frigideiras, bechamel, vinho do Porto nos cogumelos coiso e tal e chegar ao final, 22h30 e arrumar tudo arrumadinho, limpar balcões, varrer o chão, deixar a cozinha impecável e jantar cereais.

não precisam de rir, é mesmo assim. o sentido de um não tem de bater certo para mais ninguém. por exemplo, no outro dia convidei um rapaz para jantar e levei uma tampa.


Há outra razão que assim à primeira vista me deveria impedir de ir a tua casa jantar contigo
Que é a de me sentir bastante atraído por ti
Pois...
Assim em casa não se corre riscos...
Porque és uma mulher super interessante
Inteligente
Boa conversadora
E gira
Em resumo: Um cocktail explosivo!
Compreendo. São várias razões para ficares em casa!



Um dia, por acidente (ou por sorte), descobres que gostas de dançar e pegas no telefone e ligas-me.
É sempre por sorte (ou por acidentalmente nos apaixonamos por uma bailarinha) que descobrimos que gostamos de dançar. 
Eu tive sorte - a educação rigorosa da minha mãe ditava que se não gostas comes mais para aprenderes a gostar e da primeira vez que alguém me convidou tive medo do raspanete e de te ter de dançar a noite toda e lá aceitei.
A princípio é simples - é pôr os pés descalços em cima dos pés, descalços, do pai, mão pequenina dentro da mão gigante e rodopia-se pela sala. Depois também é simples - anca para um lado, pé oposto acompanha, anca para o outro, pé oposto acompanha, mãos nos bolsos, cabeça baixa, o adolescente que também não sabe nada daquilo à tua frente também ensaiou no espelho do quarto aqueles passos e está tudo feito.  Mas depois as coisas complicam-se, a música fala mais, sabemos a letra, estamos no sitio certo, a música certa, já tens memórias coladas aquilo - já foste feliz ou já choraste ou já limpaste a casa ao som daquela música,  já não podes pôr as mãos nos bolsos e fazer as grunge - vou contar-vos, caríssimos leitores que sei que não há (sim, eu espreito a estatística do blogspot volta e meio e sei que escrevo para 3 ou 4 lindos fantasmas) que quando estive desterrada em Knoxville, Tennessee, EUA, faziamos umas festas caseiras para fugir ao embargo alcoólico e cultural dos sábados à noite e a minha dança - olhos no chão,  cabeça baixa, sem qualquer espaço para contacto físico,  mãos enfiadas nos bolsos e coração em Portugal - pegou e no dia da despedida, os meus amigos, a Laura de Espanha, o Manuel, a Márcia e a Gelza do Brasil, o Pato e o Antonio do Perú, o Irakli da Geórgia e a Maria da Rússia botaram o I'm a scatman e dançaram a dança da Helena. Foi triste e espectacular ao mesmo tempo,  lindo pela homenagem,  triste de os ver todos com os olhos no chão.
Agora sei que não é assim que se dança e embora não saiba se foi por nunca dizer não a uma ciência que desconheço ou se foi esta coisa de não sofrer de grande vergonha, um passinho de dança é coisa que nunca recuso. Deixar o baixo entrar e ditar o movimento dos calcanhares,  deixar o piano dar andor às ancas, ouvir as palavras e deixa-las franzir os olhos, ignorar o joelho partido, o cabelo solto, ignorar a falta de espaço (a minha música não toca em grandes pistas de dança), ignorar até que a Joana não está ali a dar o ritmo.
Como dizer-te... lembro-me de te perguntar (era Julho e chovia e estavamos os dois gelados) do you dance? e lembrar-me-ei para sempre sempre que disseste que não ao mesmo tempo que pegaste na minha mão e rodopiamos pela sala.

domingo, setembro 20

Adormecer onde se ouve o mar.
Madrugar no grito do pássaros.

terça-feira, setembro 15

no dia em o Buddha tocou à campainha, com voz e farda de carteiro, havia uma borboleta morta no tapete.


é claro que eu não sabia de nada disto quando ouvi a campainha. o carteiro não gosta de subir as escadas, é sabido, como eu não gosto de ir à caixa de correio. passo meses sem lá ir. se quiserem cortem a água, mas tremo quando ponho a chave pequenina na fechadura. que más notícias, quantas contas, publicidades de canalizadores, espíritas, limpa-chaminés e viagens a fátima terei de deitar ao lixo em toda a minha vida? enquanto não instalarem um separador spam nas caixas de correio, tenciono lá ir 2 vezes por ano, mesmo correndo o risco de perder maravilhosas embalagens de mostarda potente enviada com amor da Alemanha (sim, been there) ou de receber postais de Natal no meio de Junho.

confio no atinado juízo do carteiro de me tocar à campainha caso a carta lhe cheire a amor ou o volume indiciar presente do bom. até à data, no que toca a embrulhos volumosos, a preguiça do senhor tem sido uma mais valia. no que toca às cartas de amor, pela sua ausência, presumo que as leve para casa para poupar o meu pobre coração.

hoje, portanto, havia volume e desculpou-se o carteiro quando cheguei lá a baixo 'é que está a chover tanto que não me deu para subir as escada', fiz de conta que entendi a lógica e subi com os olhos no remetente - Templo Budista, R. Dr. Josivalter - é partidinha, né? - Foz do Iguaçu, Brasil, Depois contei os selos - 12 selos entre os quais um de manicure (valor de R$1), um de sapateiro (valor de R$0,20) e um trompete (valor R$0,10) o que, parecendo que não, mostra muito o valor das coisas neste mundo. Tudo certo até agora. Um templo budista manda-me um volume para o local de trabalho, num dia de chuva, pejado de selos a mostrar a escala de valores.

desvio os olhos do embrulho, para abrir a porta do hostel et voilá - a borboleta. havia já 3 dias que vivia na ombreira da porta - tinha o ar cinzentão das traças que nunca se casam, gorda, com filhos espalhados por todos os armários a comer as camisolas de inverno enquanto a gente se distraí com os finos nas esplanadas, sempre ali à ombreira da porta como se ela fosse uma janela, a espiar quem entra e quem sai. mesmo assim, durante os últimos dias, dei-lhe educadamente os bons-dias e as boas-noites sem que ela sequer pestanejasse. ainda hoje de manhã, juro que a gorda senhora continuava instalada no canto superior esquerdo com ar sisudo. agora está no tapete. não está de barriga para o ar e não parece suicídio, não há asas nem antenas espalhadas, mas vê-se o rebordo laranja da combinação pelo que é óbvio que algo não está bem. olho para o embrulho do templo budista e olhe para a gorda senhora e penso se não terá sido Buddha a falar pela primeira vez do bater das asas de uma borboleta em Tóquio (Japan is always on mind) e o consequente tornado no novo mundo e se hoje alguém reclamar da falta de vento (nem uma agulha bulia na quieta melancolia das cerejeiras de Quioto) saibam que tudo começou à minha porta.

pego na senhora e no embrulho e pouso os dois na secretária. agora depois de morta, com as saias laranja à mostra a borboleta não parece assim tão gorda nem parece tão traça e pesa-me a consciência da história que lhe inventei quando a vi pela primeira vez. abro-lhe as asas tentando não lhe roubar o pó mágico que a permitia voar, só para a ver melhor. é bonita e podia ter vivido num jardim qualquer a pousar levemente como um hipopótamo de flor em flor.

volto-me para o embrulho. hesito antes de abrir. não tenho nada contra templos budistas, muito pelo contrário, mas estranho a ausência de nomes no remetente. o meu nome também não está no destinatário. abro de qualquer das formas, devagar, para não danificar nada, nem os selos, nem os carimbos espalhados por todo o envelope, poder guardar a morada Rua Dr. Josivalter, espreito a medo quando começo a ver contornos rosa e roxo. abro tudo e sai de dentro do envelope de papel industrial um saco plástico cor de rosa, com ursos e balões a sweet heart escrito repetidamente em fonte hello kitty. (não se questionem caros leitores, não voltem ao discurso do só tu Helena, já estás a inventar, estavas a ir tão bem e agora tinhas de meter ursos e balões e sacos de plástico cor de rosa! é verdade! e por ser verdade e porque eu, apesar de já não mentir há cerca de 20 anos, desde o fatídico episódio do Pedro e do Lobo, sei que a minha credibilidade ainda é duvidosa, documentei tudo em fotografia!). Dentro do saco de plástico cor de rosa e roxo com ursinhos com balões e com letras hello kitty a dizer sweet heart há livros. viro o saco 3 vezes à procura de uma nota, um envelope, uma assinatura e nada. abro finalmente o saco e há 10 livros. 5 livros diferentes. repetidos são "O Método Básico de Meditação" - 2 volumes e um caderno de argolas com uma gravura de um monge budista, uma inscrição ORBI Ordem Budista Internacional e uma outra inscrição em caracteres que penso serem chineses que eu não sei o que diz - 5 volumes. Para além deste 2, há o "Sabedoria - Revista bimestral do templo Tzong Kwan - Setembro, 14. Volume 77", o "O "Tao" da saúde e longevidade" do Mestre Pu-Hsien, com tradução de Victoria Lin e revisão de Chen Tsung Jye e o último volume, de Walpola Rahula, "What the Buddha taugh". Folheio cuidadosamente cada um dos livros e suas repetições à procura da carta que começaria por querida Helena, sei que andas meio perdida. Leio atentamente todos os nomes de todas as capas e contra capas à procura de um nome familiar (o Hsien diz-me alguma coisa e lembro-me do meu hóspede de Singapura que se passeava pela Europa numa mota comprada no Reino Unido para o efeito em 2012 mas era Tan e a última vez que falamos, em Janeiro deste ano a desejar o bom ano, não assinou mestre de coisa nenhuma). Nada. Nenhum livro vem com dedicatória, o saco de plástico com de rosa não trás recibo assinado. Ainda ligo à minha irmã mais velha - faz sentido, ela é que é toda budista, meditações, mindfullness e aposto que jurou a nossa senhora de fátima que me havia de salvar a alma desse por onde desse, faz sentido sim senhor, só pode, até porque ela gosta de mandar coisas pelo correio. Mas não, não só negou como já quer tudo para ela.

 Hoje encontrei uma borboleta morta  no tapete e por ter faltado à aula de anatomia patológica não sei como realizar necrópsias a membros da ordem Lepidóptera e por isso não posso dizer que foi por causas naturais.

Buddha is in the house, dentro de uma saco plástico cor de rosa e não sei quem o mandou até aqui.






Prometo, de qualquer das formas, de ler tudo até ao fim. não é hoje, que hoje estou noutras azáfamas. noutro dia. um dia. ler tudo e embora os bichos carpinteiros (e o gato) me impeçam de qualquer tentativa de meditação, ponderarei sobre o assunto e logo voltarei para vos contar.

sexta-feira, setembro 11

Um dia, antes de dormir, pintei o cabelo de cor de rosa (foi ontem), para descobrir no dia seguinte que essa era a exacta cor tendência para a próxima estação.  Ainda antes de descobrir isto, porque da janela do meu quarto que dá para nascente e às 7.21, depois de calar momentaneamente o despertador, me informa da metereologia, havia nuvens que não me deixavam ver o plátano gigante do separador central da avenida, decidi ainda no ninho, edredon de meia estação enfiado até ao nariz, que hoje sairia de casa de casaco e quis o acaso que o primeiro da terceira gaveta a contar de cima fosse rosa como o meu cabelo e como a tendência,  como vim a saber mais tarde.
De rosa, por acaso, pintei os lábios apenas porque não gosto das coisas muito arrumadinhas e já tinha as unhas de vermelho. 
Antes de sair de casa, mesmo antes de rodar a chave, já passavam das 8.17 e os segundos já contavam na minha cabeça - daqui à padaria 143 segundos,  da padaria ao hostel 66 segundos,  escadas a galope, pousar carteira e chaves 43 segundos,  quanto tempo leva a água para o café ferver (depende da temperatura da água no cano, se já alguém acordou e puxou a água quente do termoacumulador ou se ainda há o vazio da noite) entre 65 a 98 segundos, ainda falta pôr as compotas e o gelo à volta dos iogurtes, enquanto rodo a chaves de casa e faço a matemática possível,  ainda olho as rosas de Carreço, secas, e lembro-me que rosas eram as flores onde pousavas os olhos nos grandes e calmos dias de Setembro e corro dia fora.

quarta-feira, setembro 2

Reza a história que hoje,  não estando o dia a correr bem,  faltavam 10 minutos para as 8, exactamente os mesmos 10 minutos que faltavam para o supermercado fechar, corri elevador abaixo e rua acima para comprar vinho e chocolate e a conta foi exactamente 7.77 €.
Provas não há porque pedi à menina para deitar o talão ao lixo para ninguém saber que na minha vida até as contas batem certo.

E uma pessoa se lembrar disto numa noite fresca e triste de Setembro? Há alguma justiça no mundo?  Alguém merece?

quarta-feira, agosto 26

Tirar o fio ao feijão verde,  dobar a meada para a renda, corar os lençóis de linho com renda de bilros na relva do jardim, cerzir as camisas puídas, tender a massa para o pão,  estalar as ervilhas tortas com chouriça, molhar a torrada na gemada e usar as claras para a goma dos colarinhos das camisas, descascar as favas e sem medo dos espinhos podar as rosas sem luvas.
Ter tempo e céus azuis e saborear as duas horas que o bolo leva no forno.
Polir os estanhos que as pratas não há, arrancar da árvore os limões na hora da limonada e ir buscar a água à fonte, servir para o lanche regueifa com salpicão e o vinho branco da casa.
Às 7 matar a galinha para o jantar e deixar o estrugido do arroz alourar para lá do ponto, encher a casa com cheiro a aldeia, atirar a hortelã arrancada junto às escada por cima da sopa.
Ter tempo e ter sol e não ter outra preocupação que as ervas, as flores, a cozinha e a felicidade da família inteira.
Saber que o homem vai chegar só pelo apitar do canudo da fábrica da aldeia, saber se chove pela Nossa Senhora que muda de cor, ir à missa todos os dias com a certeza que no final se vai para o céu.
Hoje queria isso avó, saber que vou acabar os meus dias com as mãos na regaço contemplando as rosas.
Ter peruca para os dias finos e não precisar de escovar o cabelo avó, e ver o avô a entrar o carro nos domingos à tarde para ouvir o relato no auto-rádio.
Acima de tudo, avó, ter a paciência de esperar a toupeira de sachola na mão,  eu que nunca mataria um bicho, avó, mas ter todo o tempo, toda a força no ombro, também ter a pitada de raiva que alimenta a espera, e arrumar com o problema com uma sacholada só.
Saudades

Blue

Hoje se pudesse pintava tudo de azul. Pintava a parede azul de azul outra vez, o prato azul na parede, pintava-o exactamente do mesmo azul, retocava o poster do Rothko azul com o azul atacado pelo sol desde há 4 anos. As minhas meias, os meus jeans, a minha t-shirt azul, o cachecol do FCPorto que pousa na almofada azul à espera de dias felizes, tudo de azul. Azulava a música e a matemática do relógio como quem arredonda a saia, na espera do autocarro. O rio Cávado, o mar da Foz, o vestido da Berta, o céu de Agosto, a moldura azul com a ilustração das sombras chinesas da Hélia Aluai, cinquenta tons de azul, mil latas azuis no chão da sala.
Com sabão azul esfregar as camisas brancas, com o gel azul esfregar os azulejos do quarto de banho,  gritar azul do fundo dos pulmões na varanda.
Azul até aos cotovelos, azul na testa, dedadas azuis no copo, uma gota de azul no vinho, com spray azul transformar as framboesas em amoras e deixar pegadas de azul no soalho para não voltar a perder-me em dias tristes de Verão.

terça-feira, agosto 25

Ó João,  mas não foi hoje a primeira vez que perdi o Norte. Minha Nossa Senhora,  diria o outro, já o perdi mais de mil vezes, apontando para todos os lados com todas as certezas, com a certeza grande de que a saída era por ali, que ainda há pouco passamos por aquela rotunda e se não era aquela era uma muito parecida. E se não era uma rotunda era uma encruzilhada da vida e já ali estive há tempos, a mesma dúvida, até pegar na bússola,  esquadro e régua (os quadros onde vou desenhando os meus problemas de orientação medem 50x70), compasso - não vá a vida não ser uma recta mas uma elíptica, tudo medido ao centímetro e nada bater certo. 
Um dia, porque andava meio perdida (é verdade, não há como esconder, as olheiras chegavam-me aos ombros), desenhei a constelação da Ursa Maior ao lado da cama, na esperança de que ela me dissesse -é por ali! Mas ele há dias em que de nada vale nos dizerem que ali é o Norte. O problema é não sabermos sequer para onde queremos ir. Eu gosto do Norte, mas e se for o Sul o sitio certo? E se for Noroeste? E se o farol de Carreço não alumiar o mundo tudo?  E se as dúvidas todas não forem resolvidas com um GPS?
Ó João,  não foi a primeira,  nem a segunda e não foi a última e tenho quase a certeza que quando tu abres o google maps também te questionas qual o destino e te irritas com a facilidade com a determinação do ponto de origem. Lá chegará o dia em que algoritmos resolverão o problema, juntarão os meus likes no facebook aos meus pins no pinterest, os meus (ou os teus) sons no spotify (agora toca este que me parte toda, sempre), mais a factura da pimenta de Szechuan mais os discursos políticos que um dia proferi em quase silêncio (juro que pensei que ninguém os ouvia) ou as músicas que canto em concerto de chuveiro, juntarão tudo e eu ligo o GPS, ou o google maps e ainda antes dele conseguir calcular onde eu estou me dirá para onde ir.
Certo é, como a água, que nesse mesmo instante,  o meu telefone ficará sem bateria, e eu tenha de, aleatoriamente, de escolhar a terceira saída à esquerda.

sábado, agosto 22

Coisas que o cérebro de esquece mas que o coração sempre sabe

Sou minhota.
Nascida tripeira e relutantemente arrastada para o norte em tenra idade, de nariz empinado típico das meninas da cidade levadas para a parvónia - ora diz pom, diziam os meus colegas e eu respondia orgulhosamente pão!  Ora diz pônte e eu teimava ponte! e eles riam-se e eu sobranceira contava em casa -parolos! Todos a correr para as escadas rolantes do shopping recém-inaugurado que só subiam, a dar a volta pelas escadas para voltarem a subir e eu a contar em casa - parolos, no Brasilia sobem e descem desde que eu nasci. Os meus pais meios perdidos de riso, meio assustados - como é que se tira a mania da cidade a estas miúdas que nós aqui é que estamos bem sem horas de ponta nem stresses de maior, vida tão mais fácil e pacata para família grande, a rir-se entre os dentes -continua a dizer pão e diz-lhes que sabe ao mesmo. Anos a fio a entrar no carro à sexta-feira - vamos para casa, finalmente,  vamos aos avós, a os primos, à cidade, ao cinema, aos museus, a serralves, à Foz, vamos à Foz dançar com os metrosideros da Austrália,  vamos comer gelados à Picologel. Vamos sair da aldeia que não é aldeia, só o é para quem vê cidades com prédios altos e buzinas dos carros na rotunda da Boavista. Anos a fio a achar que isto era o desterro, um filme por semana no cinema palácio, sem alternativas,  o teatro sempre com as peças pobres do teatro noroeste, de vez em quando as estreias nacionais (vá lá) da Olga Roriz.
Agora quando volto, quando os vejo com as camisas bordadas, os oiros nas orelhas, os corpetes, os lenços, o mar, o rio, o fogo de artifício a cobrir a ponte, desculpem, a pônte, quando oiço os bombos a fazer tremer a Praça da República,  não tenho qualquer dúvida que é daqui que eu sou e o meu coração grita pum-purum-pum-purum-pum-pum-pum e quando morrer dirá baixinho Viana é amor em arritmia sonora nas dissiconcronização severa dos Zés Pereiras.

sábado, agosto 8

Saudades haverá sempre dos tempos em que esta casa não era só feita dos silêncios das motas a acelerar lá fora ou o gato a organizar a areia

segunda-feira, agosto 3

Um dia proíbo o meu coração de dançar ao som da música.

Dos meus dedos voam pássaros

domingo, agosto 2

Eu sei que é Domingo à noite, mas alguém pode informar-me se já possível renegociar a dúvida?

Domingo no mundo

Tocar à campainha do vizinho e dizer 'peço imensa desculpa, ainda mais num domingo à noite, se há noite em que deviamos não ser incomodados é a de domingo, sou conhecedora da regra de que ao domingo se sofre por antecipação a semana de trabalho de que não gostamos e humildemente assim desperdiçamos um dos 2 dias de repouso que os direitos ainda nos concedem, bem sei caríssimo, e embora não entenda, costumo ser respeitadora da regra, mas olhe, hoje as coisas não estão a correr muito bem e juro (pés juntos, dois dedos na testa -é assim? nunca fui à tropa nem escuteira) que tentei afogar a coisa no bidé, mas o raio dos nervos continuam aqui e depois de 2 copos de vinho, estômago vazio desde o pequeno-almoço (é Agosto,  caríssimo, trabalho mais que uma mula), pareceu-me boa ideia vir aqui tocar à campainha para saber se por acaso sua excelência sabe fazer cafonés. Volto humildemente a pedir desculpa pelo incómodo, bem sei que são dez e meia da noite, mas isto de estar para ali sozinha mais o gato não dá grande resultado e tem dias em que a coisa avaria e hoje - vou ser sincera, eu nem gosto que me mexam no cabelo - as coisas não estão fáceis de resolver e se não souber cafonar, por acaso não se importa que eu ponha só a cabeça no seu colo, enquanto a música toca? Está impecável, não tem nada que se preocupar, ainda há menos de 22h foi lavado e escovado e se está assim apanhado e meio desalinhado é porque hoje não tive propriamente tempo de me pôr em traje domingueiro. Prefere na minha casa ou na sua? Eu cá não sou esquisita, me dá igual, às 7.20 o despertador toca e eu vou à minha vida, só preciso de encostar a cabeça um bocadinho'

sábado, agosto 1

Entro no carro, depois de te levar a casa (sim, eu não sou de chamar taxis), e devia ser o Sérgio Palma ou o Jorge Godinho a cantar e não haver engates sub entendidos nos últimos versos e eu acreditaria estar a ter um momento divino. Eu e o auto-rádio temos uma relação de anos e raras são as vezes que ele me falha - há sempre alguém do outro lado com uma palavra certa, a música que já nem me lembrava, a conversa de café que me apetecia ter enquanto conduzo, mas hoje... na mouche, minha querida.
Sabes, também eu ando meia perdida e é uma delícia sentar-me contigo, um pouco sem norte, na varanda e os copos de vinho a fazerem-nos esquecer que tínhamos bilhetes para o teatro, o sol a desaparecer atrás dos prédios, pôr as coisas cá para fora, deixar as dores e as felicidades suar da pele.
Desculpa a cena da sobremesa há-de haver uma próxima e mais um e muitos jantares.

Um dia há de chegar o dia em que chegando a noite te contarei uma história.
Dir-te-ei, por exemplo, que hoje só fiz asneiras e que até o bolo que planeei desde manhã cedo para que não me faltassem ingredientes na hora do o pôr no forno, consegui falhar. Contar-te-ei que li mal a receita e que, não obstante a reforçada atenção nos ingredientes,  não reparei que eram 2 bolos e não 1 e deixei amigos pendurados para o copo de pôr-do-sol. Tentarei, sem sucesso, explicar-te porque, vivendo num T3 sozinha, achei que a melhor forma de manter o bolo a salvo do gato era deixá-lo na varanda a arrefecer e sem qualquer vergonha, relatarei o quanto os meus amigos gozaram comigo por não ter escolhido a sala, ou o escritório ou o quarto de visitas.
Um dia há de chegar o dia em que chegada a noite e a hora urgente de me deitar - que eu trabalho cedo, mesmo aos sábados,  mesmo aos domingos - eu chegarei à cama e sempre sem te acordar, sussurrarei que apesar de tudo (APESAR DE TUDO) tenho uma sorte do caraças e nenhum pássaro entrou na varanda, nenhum gato abriu a porta, as natas não coalharam e amanhã vai haver bolo de chocolate e natas com morangos caseiros para pequeno-almoço.
Um dia, meu amor, há de chegar o dia em que à noite, no dia seguinte, te conte outra história qualquer, acerca dos irlandeses ou dos dinamarqueses ou das miúdas que em pleno concerto estavam concentradas no telemóvel. e também sei, meu amor, que essa história não valerá de nada, será sempre um pretexto para enrolar as minhas pernas nas tuas e dormir descansada.

sábado, julho 18

Viva a RTP2 e estes pacotes que nos permitem viver com uma semana de atraso



Triste é o cinema português ter de ser francês

sexta-feira, julho 17

Quem souber cozinhar nunca será infeliz

Por outro lado, não nos vale nada ter juízo na hora de ir ao supermercado. Não tenho em casa bolachas, natas, não compro bolos, nada de chocolates dos bons - só chocolate negro, sem amêndoas, sal marinho ou caramelo.  


Ainda assim, o gosto pela culinária dá cabo de tudo. 


Só para não ficar sozinha na coisa da gula, hoje dou em cozinheira (infelizmente dou quase todos os dias) e partilho a receita.

.
Ingredientes (tudo coisas saudáveis):
- 1 maça verde
- 2cm3 de gengibre fresco ralado
- 2 colheres de sopa de aveia
- 1 colher de sopa de trigo sarraceno
- 4 nozes picadas
- 1+1/2 colher de sopa de açúcar
- 1 colher de sopa de manteiga
- 2 colheres de sopa de iogurte grego natural sem açúcar.

Numa frigideira,  bem quente,  alourar o trigo sarraceno com a aveia. Quando o trigo começar a estalar, reservar.
Juntar o gengibre à maçã cortada em cubos pequenos na frigideira e deixar alourar durante 2 minutos, em lume médio. Juntar 1 colher de açúcar e deixar caramelizar levemente.
Retirar a mistura para uma taça e sem limpar a frigideira,  juntar a manteiga. Quando estiver derretida,  juntar as nozes picadas e deixar alourar. Juntar a mistura da aveia com o trigo e misturar lentamente e juntar 1 colher de açúcar.  Deixar em lume forte, misturando sempre.
Juntar a mistura com a maçã e servir com o iogurte grego.

É um crime. Não há aqui nada de ingredientes pouco saudáveis,  nada de coisas esquisitas,  tudo simples e, mais que tudo, delicioso.