E a minha mãe, que raramente vem cá a casa (talvez por saber do medo que tenho de a desapontar com pó no ecrã na televisão, do stress que me vai causar em tentar impressioná-la e não ter a casa um brinco, o caos de lápis de cor e garrafas de vinho que ela nunca vai entender, a desarrumação de alma que ela nunca sofreu) perguntou-me, quando se deliciava com o meu novo escritório - porque é que fazes isto? os desenhos? os quadros? os paninhos pintados com corações e cérebros e olhos, para que servem?
Como lhe explicar, a ela, a senhora das soluções práticas, a rainhas das coisas úteis, que aquilo não serve para nada, que eu própria não sirvo para nada e mais, também não quero servir para nada, não tenho energia para ter qualquer utilidade, que faço desenhos para aliviar o coração, tirar de lá de dentro coisas que me entopem a respiração, que têm de ser ditas, mesmo que ninguém as oiça, mesmo que não sirvam a ninguém, só tirar aquelas coisas de dentro de mim como quem arranca as larvas migrans cutâneas com um anzol perfurando a pele, mesmo que a minha formação me diga que tirar a larva migrans cutânea deixa o ovo enquistado noutro canto qualquer, os parasitas são mesmo assim, sacamos o óbvio mas há sempre o enquistado, prestes a eclodir a qualquer momento, provavelmente quando for Verão e estiver calor e tudo parecer bom, tudo de t-shirt e calções e cerveja na mão e de um momento para o outro, lá eclode o bicho. Ainda assim, mãe, arranco tudo, como quem espreme os pontos negros, como quem varre por onde passa a noiva, é o possível. Por mais que tente ir mais fundo, mais fundo, limparei as juntas dos azulejos do quarto de banho com a máquina de vapor e escova de dentes, como a tia Lúcia, mesmo que faça isso tudo, arrume tudo, deite tudo ao lixo, prometa que daqui em diante farei este procedimento para o resto da vida pelo menos semanalmente, tudo, não deixe fotos, não me agarre a nenhum momento feliz e só olhe para a frente, não me apegue àquelas coisas que nunca ninguém vê, os poemas que vivem dentro dos dias maus, as esperanças que vivem nos pôr-do-sol, mesmo que prometa que tomo os comprimidos a horas, quaisquer que sejam os comprimidos, mesmo que jure que não vou melancolar dentro de todas as músicas tristes, que vou esquecer o Chico Buarque, o Chet Baker, que vou esquecer tudo aquilo de que me lembro feito gravador, feito tatuagem, o que cada um dos homens por quem me apaixonei me disse e qual era a cor do céu, ou que música tocava naquele instante (sim mãe, foi sempre só um instante, toda a minha vida foi só um instante, esta parte é que é longa), prometo mãe e mais, juro que prometo que vou lavar dos dentes comme il faut e as mãos como a OMS quer e ainda assim, o sorriso que levarei para a cama será para te aliviar o peso de teres parido uma fraca da alma.
Sem comentários:
Enviar um comentário