Se eu te contar, ou melhor, se eu te contasse, quantas velinhas de igreja tenho guardadas no cesto da lenha,
Se te contar, ou melhor, se te contasse, que nenhuma consequência ocorre de pôr em off o telefone,
Se te contar, ou melhor, se alguma vez sobre o efeito embriagado deste copo de vinho, me ocorresse contar-te, enviar-te carta anónima (tenho envelopes selados em número maior que a coragem) que um dia recolhi da espuma do mar uma cabeça de santo de cera, parte de uma macumba qualquer que incluía também flores e uma galinha morta dentro de um saco de seda branca, numa praia de Carcavelos numa manhã ventosa,
Se o acaso quisesse fazer de assunto as vezes que jogo o euromilhões pedindo encarecidamente à menina para me dar apenas o segundo prémio,
Se te contasse que não sendo religiosa, nem um bocadinho que seja, teimo em agarrar-me com unhas e dentes às coincidências da vida e em todas as esquinas ver sinais que me hão de alumiar o caminho e que chegando a casa, depois de me perder mil vezes no caminho que é andar 100 metros e virar à esquerda e que houve dias dei a volta toda à cidade três vezes só porque um sorriso casual na rua me disse que era dia de passear,
E se te contar que em alguns desses dias estava a chover e eu estava de sapatilhas,
Se te contar que chegada a casa, com os pés molhados, espreito da varanda se é hoje que chegas no último autocarro que sai da cidade, como os Belle and Sebastian insistem em prometer-me,
Se um dia perder a vergonha, e te disser que quando digo que ponho em off o telefone minto, que nunca o ponho em off, nunca o desligo, nunca o deixo desligar-se, se te disser que o simples facto de teres o meu número não me permite, na vã esperança que um dia tenhas algo também para me dizer,
Se te contar que hoje é sexta-feira e que para mim, como dizem os espanhóis, me da igual, que podia ser terça ou quinta, que só não quero que seja Domingo, que não quero nunca que seja Domingo porque os Domingos são sempre o pior para pessoas como eu, se é que as há...
Se eu te contasse, ou melhor, quando eu te contar, com tom de fim de história, que vens tarde, que já toquei todos os discos do Chico, que já esgotei as possibilidades de não ser normal e que a tua ausência me levou à monomania dos dias e que houve um dia em que eu não pesquisei o preço das viagens para a Índia e que com isso ganhei tempo para arrumar o escritório como o resto das pessoas, e dobrar as meias como o resto das pessoas, e fazer desaparecer as tintas da mesa da sala como já devia ter feito há muito, muito antes sequer de te conhecer,
Se te contar que conhecer-te foi a última lufada de ar fresco e que agora, que é quase Inverno, prefiro o ar saturado e quente do sofá e que prometo manter o hábito da velinha da igreja em forma de lamparina por baixo do óleo de cheiro a laranja e cedro apenas por conforto e não por esperança, a cabeça do santo por motivos meramente estéticos e que passarei a vir directa para casa, faça chuva ou faça sol,
Se te disser tudo isto, em carta em papel perfumado com letra bonita,
Vens?
Se te contar, ou melhor, se te contasse, que nenhuma consequência ocorre de pôr em off o telefone,
Se te contar, ou melhor, se alguma vez sobre o efeito embriagado deste copo de vinho, me ocorresse contar-te, enviar-te carta anónima (tenho envelopes selados em número maior que a coragem) que um dia recolhi da espuma do mar uma cabeça de santo de cera, parte de uma macumba qualquer que incluía também flores e uma galinha morta dentro de um saco de seda branca, numa praia de Carcavelos numa manhã ventosa,
Se o acaso quisesse fazer de assunto as vezes que jogo o euromilhões pedindo encarecidamente à menina para me dar apenas o segundo prémio,
Se te contasse que não sendo religiosa, nem um bocadinho que seja, teimo em agarrar-me com unhas e dentes às coincidências da vida e em todas as esquinas ver sinais que me hão de alumiar o caminho e que chegando a casa, depois de me perder mil vezes no caminho que é andar 100 metros e virar à esquerda e que houve dias dei a volta toda à cidade três vezes só porque um sorriso casual na rua me disse que era dia de passear,
E se te contar que em alguns desses dias estava a chover e eu estava de sapatilhas,
Se te contar que chegada a casa, com os pés molhados, espreito da varanda se é hoje que chegas no último autocarro que sai da cidade, como os Belle and Sebastian insistem em prometer-me,
Se um dia perder a vergonha, e te disser que quando digo que ponho em off o telefone minto, que nunca o ponho em off, nunca o desligo, nunca o deixo desligar-se, se te disser que o simples facto de teres o meu número não me permite, na vã esperança que um dia tenhas algo também para me dizer,
Se te contar que hoje é sexta-feira e que para mim, como dizem os espanhóis, me da igual, que podia ser terça ou quinta, que só não quero que seja Domingo, que não quero nunca que seja Domingo porque os Domingos são sempre o pior para pessoas como eu, se é que as há...
Se eu te contasse, ou melhor, quando eu te contar, com tom de fim de história, que vens tarde, que já toquei todos os discos do Chico, que já esgotei as possibilidades de não ser normal e que a tua ausência me levou à monomania dos dias e que houve um dia em que eu não pesquisei o preço das viagens para a Índia e que com isso ganhei tempo para arrumar o escritório como o resto das pessoas, e dobrar as meias como o resto das pessoas, e fazer desaparecer as tintas da mesa da sala como já devia ter feito há muito, muito antes sequer de te conhecer,
Se te contar que conhecer-te foi a última lufada de ar fresco e que agora, que é quase Inverno, prefiro o ar saturado e quente do sofá e que prometo manter o hábito da velinha da igreja em forma de lamparina por baixo do óleo de cheiro a laranja e cedro apenas por conforto e não por esperança, a cabeça do santo por motivos meramente estéticos e que passarei a vir directa para casa, faça chuva ou faça sol,
Se te disser tudo isto, em carta em papel perfumado com letra bonita,
Vens?
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