Chovia torrencialmente, coisa que nunca se veio a verificar, pelo que o homem atarracado e rosado a quem perguntamos as direcções nos ofereceu boleia quando nós queriamos era caminhar e, para mais,o carro dele estava longe como tudo e no sentido oposto do Arthur's Seat.
Não era assim que eu queria começar o dia e nem sei como é que um meu ex- apareceu em Edimburgo, quanto mais no meu sonho.
O homem rosado e comar de ressaca da noite anterior (estaria em condições para conduzir?) levou-nos até ao seu carro contando-nos tudo acerca da sua família que ele fazia aguardar pelo pão matinal só para nos levar ao vulcão morto - o saco de papel amassado pela chuva e pela axila - e ele suava mais do que a chuva.
O carro era um Travi e ele sentou-se no banco de trás, do lado esquerdo e começou a conduzir. Eu sentei-me à frente dele e fiz a viagem toda torta, meio deitada, para ele poder ver alguma coisa. Explicou-nos que o motor tinha avariado há uns anos e, como a reparação era muito cara 'agora eles não querem reparar nada. É tudo novo. Tudo novo', optou por instalar um motor novo na parte de trás do carro, porque sempre achou aquele sofá bem mais confortável do que o banco da frente. Depois de 5 minutos de viagem deixou-nos no sopé do Arthur's Seat e estou segura que só não tivemos nenhum acidente porque ainda era muito cedo e não havia ninguém nas ruas naquela manhã de domingo.
Começamos a subir e aquilo não era nada do que eu me lembrava. Tinha estado ali há mais de 20 anos, numa viagem da escola,e lembrava-me da professora Margarida Laranjeira, a professora mais temida da escola, a esgravatar monte acima apontando para um sinal que dizia 'ATTENTION - falling stones!' e que a senhora, professora de português-francês, traduziu como 'ATENÇÃO - Sigam as pedras'. De qualquer das formas, na altura vulcão morto era um belo monte verde que nós, adolescentes, subimos na galhofa de não corrigir nem seguir a professora,para apreciar as vistas sobre a cidade.
Agora,o Arthur's Seat era uma estrada sempre a subir, ladeada de pubs.
Por esta altura eu subia o monte mas estava deverás desiludida, e para mais o meu ex- estava ali e eu detesto ir de férias com fantasmas e a Chica, que está grávida, só queria encontrar uma padaria onde se sentsr e comer pão quente com manteiga. Eu que gosto tanto de viajar sozinha...
Eu queria subir o Arthur's Seat porque reza a lenda que as raparigas sobem lá acima para lavar a cara no orvalho da manhã para ficarem mais bonitas, mas esta beleza estava a custar-me.
A certa altura, estou eu a remoer estas coisas todas mais a subida e reparo na fachada de um dos pubs e o coat of arms é o símbolo do FCP! Sorri de imediato ♡ - o brasão do FCP em plena Escócia e nesse instante o Litos sai do pub com uma pint na mão e diz 'foi pena o Porto ter perdido ontem!' E eu 'Como? O Porto jogou aqui em Edimburgo ontem? E perdeu?' E ele 'Sim, 1-0' e foi por isso que eu percebi que isto era só um pesadelo e assim acordei a suar na minha camarata de 12 com vista para o castelo.
Levantei-me e como não chovia caminhei até ao topo do Arthur's Seat, que continua a ser um magnífico monte verde filho de um vulcão que já morreu, sem pubs pelo caminho, e lavei a cara no orvalho e como estou de férias fiquei realmente muito mais bonita.
Iá lá o Porto perder... pfffff