terça-feira, abril 29

talvez tenhas razão. talvez não houvesse futuro para nós. se calhar viviamos mesmo em mundos diferentes.

eu a pensar que o amor é mesmo assim, é o conforto da alma, é a paz dentro de nós que se instala quando nos enroscamos no sofá, só isso. a paz. o não ser preciso dizer nada, o silêncio não incómodo, a vontade de que a manta chegue para os dois, o encaixe das orelhas nos ombros, as mãos geladas por baixo das camisolas de trazer por casa, a felicidade imensa só de tocar na pele. só isso. o dormir abraçado a recarregar energia para o dia seguinte que é sempre difícil porque o mundo é cruel e duro. e o amor para mim é isto, e era a nossa casa toda. todos os cantos. da cozinha, à varanda onde tomávamos o café e pequenos-almoços ao sol, à sala com o sofá e a lareira ao nosso quarto cuja cor nenhum de nós gostava.
mas tu não és igual a mim. precisas dos kicks. precisas dos picos, das excitações, a paz faz-te sentir mal, cria-te ansiedade. sempre quiseste os kicks mas nunca te atiraste para a frente, nunca soubeste que kicks querias, nunca tiveste a energia para dizer e levantar-te de manhã para os alcançares. contentaste-te com os copos e os amigos e os meus kicks que não te satisfaziam. mas não era suposto os meus kicks darem-te vida. era suposto tu lutares pelos teus próprios kicks e trazer-me para dentro deles, como eu sempre te trouxe para dentro dos meus, de todos os meus pequenos prazeres.

e não, não digas que o nosso amor é hábito. que é rotina, que é monotonia. porque não é, nunca foi. era criado todos os dias, com todas as coisas novas, deixando para trás as coisas velhas, avançado sempre em algum sentido, pintando novas paredes, novos passeios, as bicicletas, os desenhos. por isso eu queria filhos. filhos nossos, com os teus caracóis e com a tua doçura. porque as relações precisam de crescer. precisam de coisas novas, novas aventuras, experimentar novas fórmulas. agora que olho para trás (todos os minutos dos meus dias) e tento perceber o que se passou, como passamos de tanto amor para isto, para esta tua fuga, percebo que se calhar já não estavas lá comigo há muito tempo e só optaste por mentir. juraste, mesmo depois de me deixares, que nunca tinhas mentido, que todas as vezes que tinhas dito que me adoravas e que eu era a maior (até ao dia em que foste embora) que era verdade, pois eu acho que se calhar nunca me amaste e mentiste muito, todos os dias fizeste de conta que eramos um, se calhar para me enganar, se calhar para te enganares a ti próprio, se calhar porque não sabes o que isso é. se calhar não sabes o que é amar com o coração todo, dar tudo, ansiar pelo abraço mais do que qualquer outra coisa, não querer mais nada.

sabes... o mais difícil é aceitar sem explicação. e a tua explicação sabe-me a pouco. se calhar é mesmo verdade - se aquilo é uma relação estável, tu não queres estabilidade. para mim é só louco não se querer acordar num sábado à 1 da tarde e ter o pequeno-almoço na varanda... mas claro... isso sou eu e por isso é que sou eu que sofro, mesmo que todos esses pequenos-almoços tenhas sido servidos por mim, era a tua companhia que os fazia tão doces.

sábado, abril 26

ainda me dói ouvir-te dizer "não quero uma vida normal". porque não sei o que é uma vida normal. a minha vida de normal não tem nada. sempre lutei por novas coisas, todos dias. pinto e desenho e escrevo e crio coisas novas todos os dias, fervilho de ideias que todos os dias ponho em prática - fotografias, paredes, museus, livros, filmes, móveis, passeios pelo parque. onde está o normal que só tu viste, fechado no teu computador? vida normal é o que vive quem não luta por nada, quem não se dá ao trabalho, quem se arrasta todos os dias do trabalho para casa e de casa para o bar do costume, isso sim é uma vida normal. e quem se queixa à mesa do café mas no final do dia não fez nada para mudar nada, para além do óbvio apoio à industria cervejeira.
sempre quis o mundo inteiro, todos os dias lutei pelo mundo inteiro. lutei por ti, por nós, pela ecologia e contra as guerras. e tu roubaste-me, de um dia para o outro, o direito ao meu ninho, ao ombro onde pousar a cabeça no final da luta. roubaste-me a paz como se ela fosse tua.
fugiste porque não soubeste ser maior. e a vida nunca será extraordinária para quem cruza os braços ou foge dos perigos.
dei-te o mundo inteiro, a força do mundo inteiro e tu não soubestes olhar para além do teu umbigo.

segunda-feira, abril 14

domingos

os domingos à noite são sempre o pior.
e os BBC Vida Selvagem que eram meus muito antes de ser nossos. na verdade, todos os documentários.
e a sensação de que desististe de nós muito antes de me deixares, que desististe de ti e consequentemente de nós, de mim e que da boca para fora foste dizendo palavras bonitas para ficares bem na fotografia. a tua cobardia de lutar comigo, de todos os dias lutar por nós, porque adaptar não é viver uma relação, porque uma relação é uma interacção, e tu quiseste fazer tudo sozinho.

e tens razão, quem não luta nem sequer por si próprio não pode lutar por mais nada. se tens vazio dentro de ti não podes sentir nada por mim.

mas já posso dizer que os domingos de manhã são muito melhores!


quinta-feira, abril 3

As mulheres têm fios desligados, António Lobo Antunes

"Há uns tempos a Joana
- Pai, acabei um namoro à homem.
Perguntei como era acabar um namoro à homem e vai a miúda
-Disse-lhe o problema não está em ti, está em mim.
O que me fez pensar como as mulheres são corajosas e os homens cobardes. Em primeiro lugar só terminam uma relação quando têm outra. Em segundo lugar são incapazes de
- Já não gosto de ti
de
- Não quero mais
chegam com discursos vagos, circulares
- Preciso de tempo para pensar
- Não é que não te amo, amo-te, mas tenho de ficar sozinho umas semanas
ou declarações do género de
- Tu mereces melhor do que eu
- Estive a reflectir e acho que não te faço feliz
- Necessito de um mês de solidão para sentir a tua falta
e aos amigos
- Dá-me os parabéns que lá me consegui livrar da chata
- Custou-me mas foi
- Amandei-lhe daquelas lérias do costume e a gaja engoliu
- Chora um dia ou dois e passa-lhe
e pergunto-me se os homens gostam verdadeiramente das mulheres. Em geral querem uma empregada que lhes resolva o quotidiano e com quem durmam, uma companhia porque têm pavor da solidão, alguém que os ampare nas diarreias, nos colarinhos das camisas e nas gripes, tome conta dos filhos e não os aborreça. Não se apaixonam: entusiasmam-se e nem chegam a conhecer com quem estão. Ignoram o que ela sonha, instalam-se no sofá do dia a dia, incapazes de introduzir o inesperado na rotina, só são ternos quando querem fazer amor e acabado o amor arranjam um pretexto para se levantar
(chichi, sede, fome, a janela de que se esqueceram de baixar o estore)
ou fingem que dormem porque não há paciência para abraços e festinhas,
pá, e a respiração dela faz-me comichão nas costas, a mania de ficarem agarradas à gente, no ronhónhó, a mania das ternuras, dos beijos, quem é que atura aquilo? Lembro-me de um sujeito que explicava
- O maior prazer que me dá ter relações com a minha mulher é saber que durante uma semana estou safo
e depois pegam-nos na mão no cinema, encostam-se, colam-se, contam histórias sem interesse nenhum que nunca mais terminam, querem variar de restaurante, querem namoro, diminutivos, palermices e nós ali a aturá-las. O Dinis Machado contava-me de um conhecedor que lhe aclarava as ideias
- As mulheres têm fios desligados
e um outro elucidou-me que eram como os telefones: avariam-se sem que se entenda a razão, emudecem, não funcionam e o remédio é bater com o aparelho na mesa para que comecem a trabalhar outra vez. Meu Deus, que pena me dão as mulheres. Se informam
- Já não gosto de ti
se informam
-Não quero mais
aí estão eles a alterarem a agressividade com a súplica, ora violentos ora infantis, a fazerem esperas, a chorarem nos SMS a levantarem a mãozinha e, no instante seguinte, a ameaçarem matar-se, a perseguirem, a insistirem, a fazerem figuras tristes, a escreverem cartas lamentosas e ameaçadoras, a entrarem pelo emprego dentro, a pegarem no braço, a sacudirem, a mandarem flores eles que nunca mandavam flores, a colocarem-se de plantão à porta dado que aquela puta há-de ter outro e vai pagá-las, dispostos a partes-gagas, cenas ridículas, gritos. A miséria da maior parte dos casais, elas a sonharem com o Zorro, com o Che Guevara ou eles a sonharem com o decote da vizinha de baixo, de maneira que ao irem para a cama são quatro: os dois que lá se deitam e os outros dois com quem sonham. Sinceramente as minhas filhas preocupam-me: receio que lhe caia na sorte um caramelo que passe à frente delas nas portas, não lhes abra o carro, desapareça logo a seguir por chichi-sede-fome-persiana-mal-descida-e-os-ladrões-percebes, não se levante quando entram, comece a comer primeiro e um belo dia
(para citar noventa por cento dos escritores portugueses)
- O problema não está em ti, está em mim
a mexerem na faca à mesa ou a atormentarem a argola do guardanapo, cobardes como sempre. Não tenho nada contra os homens: até gosto de alguns. Dos meus amigos. De Shubert. De Ovídio. De Horácio, de Virgílio. De Velásquez. De Rui Costa. De Einzenberger. Razoável, a minha colecção. Não tenho nada contra os homens a não ser no que se refere às mulheres. E não me excluo: fui cobarde, idiota, desonesto.
Fui
(espero que não muitas vezes)
rasca.
Volta e meia surge-me na cabeça uma frase de Conrad em que ele comenta que tudo o que a vida nos pode dar é um certo conhecimento dela que chega tarde demais. Resta-me esperar que ainda não seja tarde para mim. A partir de certa altura deixa-se de se jogar às cartas connosco mesmos e de fazer batota com os outros. O problema não está em ti, está em mim, que extraordinária treta. Como os elogios que vêm logo depois: és inteligente, és sensível, és boa, és generosa, oxalá encontres etc., que mulher não ouviu bugigangas destas? Uma amiga contou-me que o marido iniciou o discurso habitual
- Mereces melhor que eu
levou como resposta
- Pois mereço. Rua.
Enfim, mais ou menos isto, e estou a ver a cara dele à banda. Nem uma lágrima para amostra. Rua. A mesma lágrima para amostra. Rua. A mesma amiga para uma amiga sua
- O que faço às cartas de amor que me escreveu?
e a amiga sua
- Manda-lhas. Pode ser que lhe façam falta.
Fazem de certeza: é só copiar mudando o nome. Perguntei à minha amiga
- E depois de ele se ir embora?
- Depois chorei um bocado e passou-me.
Ontem jantámos juntos. Fumámos um cigarro no automóvel dela, fui para casa e comecei a escrever isto. Palavra de honra que na janela uma árvore a sorrir-me. Podem não acreditar mas uma árvore a sorrir-me.”