talvez tenhas razão. talvez não houvesse futuro para nós. se calhar viviamos mesmo em mundos diferentes.
eu a pensar que o amor é mesmo assim, é o conforto da alma, é a paz dentro de nós que se instala quando nos enroscamos no sofá, só isso. a paz. o não ser preciso dizer nada, o silêncio não incómodo, a vontade de que a manta chegue para os dois, o encaixe das orelhas nos ombros, as mãos geladas por baixo das camisolas de trazer por casa, a felicidade imensa só de tocar na pele. só isso. o dormir abraçado a recarregar energia para o dia seguinte que é sempre difícil porque o mundo é cruel e duro. e o amor para mim é isto, e era a nossa casa toda. todos os cantos. da cozinha, à varanda onde tomávamos o café e pequenos-almoços ao sol, à sala com o sofá e a lareira ao nosso quarto cuja cor nenhum de nós gostava.
mas tu não és igual a mim. precisas dos kicks. precisas dos picos, das excitações, a paz faz-te sentir mal, cria-te ansiedade. sempre quiseste os kicks mas nunca te atiraste para a frente, nunca soubeste que kicks querias, nunca tiveste a energia para dizer e levantar-te de manhã para os alcançares. contentaste-te com os copos e os amigos e os meus kicks que não te satisfaziam. mas não era suposto os meus kicks darem-te vida. era suposto tu lutares pelos teus próprios kicks e trazer-me para dentro deles, como eu sempre te trouxe para dentro dos meus, de todos os meus pequenos prazeres.
e não, não digas que o nosso amor é hábito. que é rotina, que é monotonia.
porque não é, nunca foi. era criado todos os dias, com todas as coisas
novas, deixando para trás as coisas velhas, avançado sempre em algum
sentido, pintando novas paredes, novos passeios, as bicicletas, os
desenhos. por isso eu queria filhos. filhos nossos, com os teus caracóis e com a tua doçura. porque as relações precisam de crescer. precisam de coisas novas, novas aventuras, experimentar novas fórmulas. agora que olho para trás (todos os minutos dos meus dias) e tento perceber o que se passou, como passamos de tanto amor para isto, para esta tua fuga, percebo que se calhar já não estavas lá comigo há muito tempo e só optaste por mentir. juraste, mesmo depois de me deixares, que nunca tinhas mentido, que todas as vezes que tinhas dito que me adoravas e que eu era a maior (até ao dia em que foste embora) que era verdade, pois eu acho que se calhar nunca me amaste e mentiste muito, todos os dias fizeste de conta que eramos um, se calhar para me enganar, se calhar para te enganares a ti próprio, se calhar porque não sabes o que isso é. se calhar não sabes o que é amar com o coração todo, dar tudo, ansiar pelo abraço mais do que qualquer outra coisa, não querer mais nada.
sabes... o mais difícil é aceitar sem explicação. e a tua explicação sabe-me a pouco. se calhar é mesmo verdade - se aquilo é uma relação estável, tu não queres estabilidade. para mim é só louco não se querer acordar num sábado à 1 da tarde e ter o pequeno-almoço na varanda... mas claro... isso sou eu e por isso é que sou eu que sofro, mesmo que todos esses pequenos-almoços tenhas sido servidos por mim, era a tua companhia que os fazia tão doces.
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