quarta-feira, junho 8
Não vás ainda. Ainda há tempo. Acabei de fazer um chá de lúcia-lima com limão e bem sabes que é muito melhor frio, tomado depois do sol se pôr na varanda. Aguenta mais um bocadinho, demora-te a fazer as malas, faz de conta que não encontras o passaporte (está na primeira gaveta da cómoda do escritório, junto às fotografias tipo passe que tiraste para o ginásio há 5 anos), senta-te a dobrar as camisolas todas como se não pudesses partir com tudo amarfanhado na mochila de campismo, descobre um cd perdido e não resistas a ouvi-lo uma última vez sentado no chão na minha aparelhagem. Entretanto o chá vai arrefecendo e eu vou fingindo-me ocupada, como se nada passasse, a cabeça a mil a inventar palavras que ainda não estejam gastas (eu sei que estão, todas gastas), a ganhar coragem para te dizer que tens razão, que as palavras parecem trapos, mas temos os silêncios todos e não há nada melhor do que os nossos silêncios mas que não quero que este seja de agora para sempre. Ganhar coragem para te dizer que hoje este silêncio está bem, enquanto o chá arrefece e tu vasculhas as gavetas e eu limpo o balcão da cozinha como se fosse a coisa mais normal do mundo e dizer-te também, em silêncio, que amanhã alguém escreverá um poema e este terá de ser dito em voz alta, da minha boca para os teus ouvidos ou da tua boca para os meus ouvidos e aí nasceram novas palavras e por isso não faz sentido que já não estejas aqui porque de certeza que ainda agora mesmo alguém está a escrever um poema para nós. Em silêncio ganho coragem e ponho-me à porta do quarto e em silêncio, encostada à ombreira, enquanto guardas os sapatos que nunca usas, digo-te isto tudo e tu fechas o saco, olhas-me com tristeza e em silêncio dizes adeus. Em silêncio eu digo-te que o chá ainda não está frio, mas que posso juntar-lhe umas pedras de gelo e tu, quase em silêncio, deixas a chave junto à entrada e num silêncio longo fechas a porta.
Até à próxima, sussuro apenas depois de ouvir a porta do prédio fechar
No dia em que nos casamos tu não apareceste.
A culpa foi minha - fui eu que me esqueci de te avisar que era dia de festa. Eram 15am quando me apercebi do erro e, quando me preparava para sair da cama para passar o vestido a ferro - ainda na dúvida se levava o vestido verde ou o das flores -, desisti e calcei as pantufas para, em segurança, tirar um café sem tropeçar no gato.
Também eu não compareci. Achei que não me ficava bem chegar de tacões ao cartório, sem plano maior do que passear o cabelo sobejamente bem penteado.
Haverá outras muito longas manhãs de Inverno e prometo no momento da decisão anotar lembrete no telemóvel e não nos deixar falhar a data.
A culpa foi minha - fui eu que me esqueci de te avisar que era dia de festa. Eram 15am quando me apercebi do erro e, quando me preparava para sair da cama para passar o vestido a ferro - ainda na dúvida se levava o vestido verde ou o das flores -, desisti e calcei as pantufas para, em segurança, tirar um café sem tropeçar no gato.
Também eu não compareci. Achei que não me ficava bem chegar de tacões ao cartório, sem plano maior do que passear o cabelo sobejamente bem penteado.
Haverá outras muito longas manhãs de Inverno e prometo no momento da decisão anotar lembrete no telemóvel e não nos deixar falhar a data.
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