3 lágrimas, não mais, por ter, hoje, mandado cortar a luz que já não havia ao fundo de qualquer túnel.
Mais 4 por ter ido, sozinha, declarar o óbito não só ao meu ganha pão mas, muito mais importante que isso, áquele lugar junto à auricula direita, onde fui tão feliz (e tão infeliz) nos últimos 4 anos.
20 lágrimas pelas conversas que não voltarei a ter, 13 pelos pôr-do-sol,
300 pelo caso que o acaso que por azar nos colocou naquela mesma varanda não queira voltar a juntar-nos, mas deixo essas para depois.
25 pela vergonha de estar hoje a chorar quando devia estar orgulhosa
Mais 3 mas estas são o vinho a falar.
quarta-feira, dezembro 30
segunda-feira, dezembro 28
E a minha mãe, que raramente vem cá a casa (talvez por saber do medo que tenho de a desapontar com pó no ecrã na televisão, do stress que me vai causar em tentar impressioná-la e não ter a casa um brinco, o caos de lápis de cor e garrafas de vinho que ela nunca vai entender, a desarrumação de alma que ela nunca sofreu) perguntou-me, quando se deliciava com o meu novo escritório - porque é que fazes isto? os desenhos? os quadros? os paninhos pintados com corações e cérebros e olhos, para que servem?
Como lhe explicar, a ela, a senhora das soluções práticas, a rainhas das coisas úteis, que aquilo não serve para nada, que eu própria não sirvo para nada e mais, também não quero servir para nada, não tenho energia para ter qualquer utilidade, que faço desenhos para aliviar o coração, tirar de lá de dentro coisas que me entopem a respiração, que têm de ser ditas, mesmo que ninguém as oiça, mesmo que não sirvam a ninguém, só tirar aquelas coisas de dentro de mim como quem arranca as larvas migrans cutâneas com um anzol perfurando a pele, mesmo que a minha formação me diga que tirar a larva migrans cutânea deixa o ovo enquistado noutro canto qualquer, os parasitas são mesmo assim, sacamos o óbvio mas há sempre o enquistado, prestes a eclodir a qualquer momento, provavelmente quando for Verão e estiver calor e tudo parecer bom, tudo de t-shirt e calções e cerveja na mão e de um momento para o outro, lá eclode o bicho. Ainda assim, mãe, arranco tudo, como quem espreme os pontos negros, como quem varre por onde passa a noiva, é o possível. Por mais que tente ir mais fundo, mais fundo, limparei as juntas dos azulejos do quarto de banho com a máquina de vapor e escova de dentes, como a tia Lúcia, mesmo que faça isso tudo, arrume tudo, deite tudo ao lixo, prometa que daqui em diante farei este procedimento para o resto da vida pelo menos semanalmente, tudo, não deixe fotos, não me agarre a nenhum momento feliz e só olhe para a frente, não me apegue àquelas coisas que nunca ninguém vê, os poemas que vivem dentro dos dias maus, as esperanças que vivem nos pôr-do-sol, mesmo que prometa que tomo os comprimidos a horas, quaisquer que sejam os comprimidos, mesmo que jure que não vou melancolar dentro de todas as músicas tristes, que vou esquecer o Chico Buarque, o Chet Baker, que vou esquecer tudo aquilo de que me lembro feito gravador, feito tatuagem, o que cada um dos homens por quem me apaixonei me disse e qual era a cor do céu, ou que música tocava naquele instante (sim mãe, foi sempre só um instante, toda a minha vida foi só um instante, esta parte é que é longa), prometo mãe e mais, juro que prometo que vou lavar dos dentes comme il faut e as mãos como a OMS quer e ainda assim, o sorriso que levarei para a cama será para te aliviar o peso de teres parido uma fraca da alma.
Como lhe explicar, a ela, a senhora das soluções práticas, a rainhas das coisas úteis, que aquilo não serve para nada, que eu própria não sirvo para nada e mais, também não quero servir para nada, não tenho energia para ter qualquer utilidade, que faço desenhos para aliviar o coração, tirar de lá de dentro coisas que me entopem a respiração, que têm de ser ditas, mesmo que ninguém as oiça, mesmo que não sirvam a ninguém, só tirar aquelas coisas de dentro de mim como quem arranca as larvas migrans cutâneas com um anzol perfurando a pele, mesmo que a minha formação me diga que tirar a larva migrans cutânea deixa o ovo enquistado noutro canto qualquer, os parasitas são mesmo assim, sacamos o óbvio mas há sempre o enquistado, prestes a eclodir a qualquer momento, provavelmente quando for Verão e estiver calor e tudo parecer bom, tudo de t-shirt e calções e cerveja na mão e de um momento para o outro, lá eclode o bicho. Ainda assim, mãe, arranco tudo, como quem espreme os pontos negros, como quem varre por onde passa a noiva, é o possível. Por mais que tente ir mais fundo, mais fundo, limparei as juntas dos azulejos do quarto de banho com a máquina de vapor e escova de dentes, como a tia Lúcia, mesmo que faça isso tudo, arrume tudo, deite tudo ao lixo, prometa que daqui em diante farei este procedimento para o resto da vida pelo menos semanalmente, tudo, não deixe fotos, não me agarre a nenhum momento feliz e só olhe para a frente, não me apegue àquelas coisas que nunca ninguém vê, os poemas que vivem dentro dos dias maus, as esperanças que vivem nos pôr-do-sol, mesmo que prometa que tomo os comprimidos a horas, quaisquer que sejam os comprimidos, mesmo que jure que não vou melancolar dentro de todas as músicas tristes, que vou esquecer o Chico Buarque, o Chet Baker, que vou esquecer tudo aquilo de que me lembro feito gravador, feito tatuagem, o que cada um dos homens por quem me apaixonei me disse e qual era a cor do céu, ou que música tocava naquele instante (sim mãe, foi sempre só um instante, toda a minha vida foi só um instante, esta parte é que é longa), prometo mãe e mais, juro que prometo que vou lavar dos dentes comme il faut e as mãos como a OMS quer e ainda assim, o sorriso que levarei para a cama será para te aliviar o peso de teres parido uma fraca da alma.
quarta-feira, dezembro 16
Dançar não serve para nada
(...) ; os nove diabos da civilização escondem-se debaixo do 3º andar do baile, os homens da pré-história não faziam bailes, pelo contrário, estavam sempre apressados, não andavam à roda como os malucos que dançam, que dançar é também isso: não ter pressa, não ter medo (...)
Gonçalo M Tavares, in animalescos
Gonçalo M Tavares, in animalescos
Num mundo em que todos corremos atrás das coisas altamente úteis - o décimo-sexto casaco, a máquina de cortar ovos cozidos, o carro que dá 320, pulseiras brilhantes Swarovsky, o status para entrar no grupo de elite daqueles que por sorte ou artimanha ainda não foram detectados pelas malhas da lei, o mordomo para maltratar, eu continuo a preferir as coisas que não servem para nada. Talvez por também eu querer ser inútil, não servir para cozinhar, ou dobrar as meias, ninguém contar comigo para equilibrar as contas domésticas, ninguém precisar de mim para coisa nenhuma. E ainda assim, no final do dia, cansada, depois de uma noite sem dormir às custas de 3 inundações, fazer bolachas que não hão-de servir para nada e ir para o sofá a réstia de esperança de que alguém, mesmo eu não servindo para nada, mesmo até atrapalhando a cena como é meu hábito, alguém, obviamente não estando no seu juízo perfeito, queira ser meu par.
Voulez vous dancer avec moi?
sexta-feira, dezembro 11
Se eu te contar, ou melhor, se eu te contasse, quantas velinhas de igreja tenho guardadas no cesto da lenha,
Se te contar, ou melhor, se te contasse, que nenhuma consequência ocorre de pôr em off o telefone,
Se te contar, ou melhor, se alguma vez sobre o efeito embriagado deste copo de vinho, me ocorresse contar-te, enviar-te carta anónima (tenho envelopes selados em número maior que a coragem) que um dia recolhi da espuma do mar uma cabeça de santo de cera, parte de uma macumba qualquer que incluía também flores e uma galinha morta dentro de um saco de seda branca, numa praia de Carcavelos numa manhã ventosa,
Se o acaso quisesse fazer de assunto as vezes que jogo o euromilhões pedindo encarecidamente à menina para me dar apenas o segundo prémio,
Se te contasse que não sendo religiosa, nem um bocadinho que seja, teimo em agarrar-me com unhas e dentes às coincidências da vida e em todas as esquinas ver sinais que me hão de alumiar o caminho e que chegando a casa, depois de me perder mil vezes no caminho que é andar 100 metros e virar à esquerda e que houve dias dei a volta toda à cidade três vezes só porque um sorriso casual na rua me disse que era dia de passear,
E se te contar que em alguns desses dias estava a chover e eu estava de sapatilhas,
Se te contar que chegada a casa, com os pés molhados, espreito da varanda se é hoje que chegas no último autocarro que sai da cidade, como os Belle and Sebastian insistem em prometer-me,
Se um dia perder a vergonha, e te disser que quando digo que ponho em off o telefone minto, que nunca o ponho em off, nunca o desligo, nunca o deixo desligar-se, se te disser que o simples facto de teres o meu número não me permite, na vã esperança que um dia tenhas algo também para me dizer,
Se te contar que hoje é sexta-feira e que para mim, como dizem os espanhóis, me da igual, que podia ser terça ou quinta, que só não quero que seja Domingo, que não quero nunca que seja Domingo porque os Domingos são sempre o pior para pessoas como eu, se é que as há...
Se eu te contasse, ou melhor, quando eu te contar, com tom de fim de história, que vens tarde, que já toquei todos os discos do Chico, que já esgotei as possibilidades de não ser normal e que a tua ausência me levou à monomania dos dias e que houve um dia em que eu não pesquisei o preço das viagens para a Índia e que com isso ganhei tempo para arrumar o escritório como o resto das pessoas, e dobrar as meias como o resto das pessoas, e fazer desaparecer as tintas da mesa da sala como já devia ter feito há muito, muito antes sequer de te conhecer,
Se te contar que conhecer-te foi a última lufada de ar fresco e que agora, que é quase Inverno, prefiro o ar saturado e quente do sofá e que prometo manter o hábito da velinha da igreja em forma de lamparina por baixo do óleo de cheiro a laranja e cedro apenas por conforto e não por esperança, a cabeça do santo por motivos meramente estéticos e que passarei a vir directa para casa, faça chuva ou faça sol,
Se te disser tudo isto, em carta em papel perfumado com letra bonita,
Vens?
Se te contar, ou melhor, se te contasse, que nenhuma consequência ocorre de pôr em off o telefone,
Se te contar, ou melhor, se alguma vez sobre o efeito embriagado deste copo de vinho, me ocorresse contar-te, enviar-te carta anónima (tenho envelopes selados em número maior que a coragem) que um dia recolhi da espuma do mar uma cabeça de santo de cera, parte de uma macumba qualquer que incluía também flores e uma galinha morta dentro de um saco de seda branca, numa praia de Carcavelos numa manhã ventosa,
Se o acaso quisesse fazer de assunto as vezes que jogo o euromilhões pedindo encarecidamente à menina para me dar apenas o segundo prémio,
Se te contasse que não sendo religiosa, nem um bocadinho que seja, teimo em agarrar-me com unhas e dentes às coincidências da vida e em todas as esquinas ver sinais que me hão de alumiar o caminho e que chegando a casa, depois de me perder mil vezes no caminho que é andar 100 metros e virar à esquerda e que houve dias dei a volta toda à cidade três vezes só porque um sorriso casual na rua me disse que era dia de passear,
E se te contar que em alguns desses dias estava a chover e eu estava de sapatilhas,
Se te contar que chegada a casa, com os pés molhados, espreito da varanda se é hoje que chegas no último autocarro que sai da cidade, como os Belle and Sebastian insistem em prometer-me,
Se um dia perder a vergonha, e te disser que quando digo que ponho em off o telefone minto, que nunca o ponho em off, nunca o desligo, nunca o deixo desligar-se, se te disser que o simples facto de teres o meu número não me permite, na vã esperança que um dia tenhas algo também para me dizer,
Se te contar que hoje é sexta-feira e que para mim, como dizem os espanhóis, me da igual, que podia ser terça ou quinta, que só não quero que seja Domingo, que não quero nunca que seja Domingo porque os Domingos são sempre o pior para pessoas como eu, se é que as há...
Se eu te contasse, ou melhor, quando eu te contar, com tom de fim de história, que vens tarde, que já toquei todos os discos do Chico, que já esgotei as possibilidades de não ser normal e que a tua ausência me levou à monomania dos dias e que houve um dia em que eu não pesquisei o preço das viagens para a Índia e que com isso ganhei tempo para arrumar o escritório como o resto das pessoas, e dobrar as meias como o resto das pessoas, e fazer desaparecer as tintas da mesa da sala como já devia ter feito há muito, muito antes sequer de te conhecer,
Se te contar que conhecer-te foi a última lufada de ar fresco e que agora, que é quase Inverno, prefiro o ar saturado e quente do sofá e que prometo manter o hábito da velinha da igreja em forma de lamparina por baixo do óleo de cheiro a laranja e cedro apenas por conforto e não por esperança, a cabeça do santo por motivos meramente estéticos e que passarei a vir directa para casa, faça chuva ou faça sol,
Se te disser tudo isto, em carta em papel perfumado com letra bonita,
Vens?
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