Minha querida,
Já pus aqui a música a tocar para ajudar na carta. A música é triste, como sempre foi a minha música, mas esperemos que a carta saía um pouco melhor – a
Torres canta a terrífica Waterfall
“From way up here, it looks so calm
Do you ever make it halfway down and think
God,
I never meant to jump at all?”
Ó miúda... nem sei bem por onde te começar. Devo começar por dizer que me dói a ausência de ti própria, quase como se fosse a minha. E por te dar a minha análise filosófica do meaning of life e, pondo de parte a corrente Monty Python, a qual eu penso ter uma lógica acima de qualquer outra já que de facto a vida é uma sequência louca de non-sence... tenho-me sentado sobre esta temática horas a fio nos últimos tempos, e tenho até discutido com amigos e família. E discordo de ti, não estamos em ciclo biológico nenhum, ou melhor, estamos, corporalmente, como qualquer ser vivo, com o objectivo único de fazer sobreviver os nossos genes (afinal de contas eles mandam muito mais do que nós pensamos – recomenda-se a leitura do”Gene Egoísta” de Richard Dawkins a quem queira acreditar na ciência do homem reduzido ao átomo), mas para além deste destino de sermos apenas um conjunto de genes com milhares de anos a tentar chegar ao próximo milénio, somos também outra coisa que é o cérebro em burburinho, o gozo da linguagem, a capacidade social, a memória, o riso, o coração bater mais rápido só com um toque de braços...
Eu venho de uma família não muito pequena mas apertada, se nos pedirem para caber num metro quadrado, entre avós, primos, tios, irmãs e sobrinhos cabemos todos, ao colo, ombros, enroscados nas pernas uns dos outros. Por isso para mim, é aqui que está o sentido da vida, o enrolar de pernas e almas, o discutir tudo e mais alguma coisa, os colos, os risos, as angustias uns dos outros que temos de aliviar para quando chegar a alturas das nossas haver alguém por perto. Pelo que disseste, vens do Polo Norte, talvez seja difícil ver isto. E ninguém merece ter uma família de esquimós. Mas todos temos direito a muitas famílias na vida, temos aquela que nos saíu na rifa e depois temos a possibilidade de fazer outras.
O teu trabalho lida com a parte mortal e podre da vida, bem sei o que é - na minha primeira vida fui médica veterinária. É difícil acreditar que para além dos choros, das dores lancinantes, das demências, dos maus cheiros do corpo, das escaras, das ansias da morte, haja alguma coisa que valha a pena. Mas há. oh se há... o deixar correr os dias às vezes é só o mais fácil, por isso somos neste momento muitos milhões sentados à frente da televisão à espera que a morte chegue. Mas ó miúda... já perdeste a infância para quem se calhar não te mereceu... perder o resto da tua vida é só suicídio lento. Não te vou dizer o que faço para fugir a isso, a minha vida nunca teve muito sofá e sempre teve amigos a bater a porta, às vezes mais do que deveria, sempre teve demasiada música e demasiados convites e a dúvida entre o que escolher é às vezes o mais díficil. Tive sorte. Por outro lado, no meio de uma vida tão preenchida, já me partiram o coração, já me tiraram o tapete debaixo dos pés vezes conta, amigos espetaram facas, patrões já berraram e já chorei mais do que por 2 vidas, já apostei tudo e perdi e ainda assim apostaria outra vez. Nada me angustia mais do que saber que a vida está a passar lá fora e eu vejo apenas a rua da minha janela. E sim, às vezes as pernas doem tanto que só apetece um pacote de bolachas ao lado do sofá.
Uma coisa temos em comum, a minha adolescência foi parecida com a tua. Melhor aluna, a estudar no meu canto, na minha cabeça – vou ser a melhor, vou ser a melhor – ninguém precisa de amigos, é tudo uma cambada de cromos com as hormonas aos saltos e preocupados com modas que não me aquecem nem arrefecem, ui nem pensar em perder tempo com isso. Depois cheguei à universidade e descobri que, do alto dos meus 18 valores, não percebia nada de música. Nem de computadores. Não tinha visto mais do que um punhado de filmes de jeito. Já tinha lido Kundera aos 15 mas nunca me tinha deliciado com um Miguelanxo Prado. Havia mil mundos que eu nunca tinha sequer questionado, coisas que uma pessoa não descobre sentada sozinha à frente da televisão. Bem sei que o mundo é diferente agora, nós não tinhamos esta internet. Tinhamos internet mas não nos dava este mundo, ainda tinhamos de ir para a rua, ainda tinhamos de ir a concertos e às lojas de discos e gravar cds dos amigos, discutir política era no café. Comecei a ouvir os outros, a contar aos outros as minhas histórias, mesmo as mais malucas, a rir-me das angustias, a abraçar quem precisava de chorar. E isto mudou-me. Porque quando começas a deixar as pessoas no teu coração, com todos os seus defeitos, também ganhas as suas virtudes e depois é um vício.
Tenho para mim que nada é mais importante que o amor. Nada. qualquer forma de amor, o amor próprio, os amigos, a família, a Rita que ontem fez 6 anos e que ontem se despediu de mim, no seu dia de anos, com um abraço e um eu adoro-te tia Lena que foi a coisa mais linda que me disseram em meses. só isso nos pode encher os ventrículos e as aurículas para que o dia-a-dia não seja só o motor a bombear e o ponteiro dos segundos em continuos solavancos. de outra forma nada disto faz sentido. sem amor é mesmo casa trabalho comida supermercado. sem amor, mesmo a ausência de rotinas são monotonia. O palerma que me deixou, viveu comigo 12 anos a dizer todos os dias que me adorava. A olhar para os meus pés e os meus ombros e os meus cabelos e as minhas loucuras e dizer que me amava toda. Uma semana antes de me deixar disse baixinho, pensou que eu já dormia, depois de fazermos amor, vou amar-te para sempre. E eu sei que vai, o estúpido. Só de vez em quando, quando um dia de tristeza o levar de volta ao 5ª andar onde viviamos, porque a ignorância, a angustia de envelhecer, o medo de que outros mundos possam correr sem ele, o vão levar para longe daquilo que teve. Não sou nada dependente, tenho uma auto-estima com a cabeça nos pés, sei bem quanto valho e não preciso que me digam que faço as coisas bem feitas ou que sou mesmo gira, nem preciso de ser mesmo gira. Mas não entendo como se vive sem ser para os outros, com os outros. Não entendo quem escreve só para si, ou para quê fazer um desenho se ninguém o ver. Acredito que a vida de uma árvore não tem nenhum valor se nunca ninguém a abraçar, se nenhum pássaro a escolher para fazer ninho, para isso mais vale morrer e ser soalho de uma salão de festas. Não acredito em gente-ilha, menina-ilhéu! Eu não acho que temos de ser amados para sermos gente, não estou a falar de família e filhos, estou a falar de amar, de dar, de olhar para o mundo depois de lhe termos dado alguma coisa, olhar para uma flor depois de a termos regado e ver como ela mudou, como arrebitou as costas, só isso basta para a nossa mera existência ter algum sentido. Intervir, mudar, deitar ideias tolas cá para fora na esperança de que alguém com outro juízo que não o nosso lhes dê alguma utilidade.
Não sei que te diga mais, cara amiga, senão que as tuas loucuras, as tuas inseguranças, as tuas viagens de autocarro e as mãos doces do teu companheiro de viagem fazem falta ao mundo todo e que haverá sempre alguém que precisa dessas tuas coisas todas para que a sua vida faça sentido, como eu preciso das aventuras amorosas do meu melhor amigo para me rir quando os dias estão mais tristes, e preciso dos abraços da minha sobrinha, e das birras do meu sobrinho para me encherem os dias, como preciso do smile no chat de um amigo que só tenho há 2 meses e por quem já fiz 100km só para ir tomar um café numa tarde folga e voltar para casa para minha solidão. Só tens de perder o medo de te dares. Porque falhar, levar facadas, ser gozada, todas essas coisas trazem sentimentos e isso é o que faz teres a certeza que estás vida.
Não quero que aches que te escrevo para te animar. Hoje estou triste. Apesar de ontem ter recebido todo o amor do mundo, devo admitir que sofro de vício e que a falta de um abraço hoje está a dar-me um nó no coração e que trago um edema da traqueia que está quase a inundar-me os olhos. Não tenho jeito para psicologa e que se não fosse o amor que já recebi e o amor que já dei, a certeza de que algum amigo há-de aparecer até ao final do dia com um abraço pendurado nos braços (ai que os
Dead Combo que aqui tocam sofridos Esse olhar que era só teu estão a partir-me toda), não fosse a certeza de que o grande amor da minha vida, por mais pequeno que seja, ainda vai aparecer, mais dia menos dia, e que me vai beijar os dedos das mãos e ler-me poemas para adormecer, não fossem estas certezas todas, hoje nem tinha saído da cama.