segunda-feira, junho 23

Mrs. Dalloway and me

 Eram 4 da manhã quando ele me deixou à porta de casa. Podia tê-lo convidado a subir. Podia ter apagado as dores da alma no corpo. Ainda olhamos um para o outro, sim, era possível, os 2 a fingir a ausência de dor numa noite de sexo e no dia seguinte tudo seria na mesma. Ficaria para sempre a história, talvez o nervoso miudinho da próxima vez que me oferecesse boleia, mas nada mais que isso. Sim, era possível, mas não quis. Foi só o terceiro corpo que rejeitei essa noite. O terceiro homem que não se importava nada de fazer de conta que me lambia as feridas para poder subir até à minha cama. Não me choca nada a ideia, não pensem que sou púdica, e lá chegará o dia em que não importarei de acordar de manhã com um corpo perdido ali ao lado, mas precisava de dormir. Tinha dançado e tinha-me rido e tinha bebido e comido cerejas e agora queria o meu descanço de quem merece o seu próprio sono, do seu próprio umbigo.
Para além do mais não tinha nada para o pequeno-almoço. 
Acordei já passava das 2. Já nem me lembro da última vez que me deixei arrastar horas a dentro, com o sol a bater-me nas pernas, vira para um lado vira para o outro, dar-me a mim própria o gozo de bronzear no ninho, o gato a passar de um lado para o outro, na ansia do mimo matinal, a enrolar-se nos meus dedos e desistindo logo de seguida, aborrecido. 
Não havia nada para pequeno-almoço. Não havia leite, nem iogurte, nem laranjas, não havia pão, não havia croissants nem fiambre. Havia café e havia um cigarro cravado no último minuto à janela do carro, para amanhã de manhã, era o que havia. Felizmente havia café e um cigarro e uma varanda húmida que depois do sol, o céu deu ares da sua graça e caiu para me poupar à rega das sardinheiras. 
Mrs Dalloway said she would buy the flowers herself e, fumado o cigarro e tomado o café, gato no colo a cravar as unhas nas minhas coxas, fui comprar as cerejas, o fiambre, o croissant, o leite, o iogurte grego, as laranjas para o sumo, e mais uns morangos e um brie para mais logo.
Mrs Dalloway said she would buy the flowers herself e eu sou como elas, presa dentro das minha cabeça, um cérebro que sempre viu outro mundo, fechado dentro dos parietais e occipitais e frontal e temporais, encaixado como se pertencesse e não como se estes fossem jaula. E sim, como elas trago a tempestade lá dentro, mil palavras, 4 angústias, 7 dores agudas, 25 crónicas e um pequeno derrame, e visto de fora, tudo composto, lá vou eu de vestido, unhas pintadas, comprar flores.






Carta para ilha de Mann

Minha querida,

Já pus aqui a música a tocar para ajudar na carta. A música é triste, como sempre foi a minha música, mas esperemos que a carta saía um pouco melhor – a Torres canta a terrífica Waterfall
“From way up here, it looks so calm
 Do you ever make it halfway down and think God,
 I never meant to jump at all?”

Ó miúda... nem sei bem por onde te começar. Devo começar por dizer que me dói a ausência de ti própria, quase como se fosse a minha. E por te dar a minha análise filosófica do meaning of life e, pondo de parte a corrente Monty Python, a qual eu penso ter uma lógica acima de qualquer outra já que de facto a vida é uma sequência louca de non-sence... tenho-me sentado sobre esta temática horas a fio nos últimos tempos, e tenho até discutido com amigos e família. E discordo de ti, não estamos em ciclo biológico nenhum, ou melhor, estamos, corporalmente, como qualquer ser vivo, com o objectivo único de fazer sobreviver os nossos genes (afinal de contas eles mandam muito mais do que nós pensamos – recomenda-se a leitura do”Gene Egoísta” de Richard Dawkins a quem queira acreditar na ciência do homem reduzido ao átomo), mas para além deste destino de sermos apenas um conjunto de genes com milhares de anos a tentar chegar ao próximo milénio, somos também outra coisa que é o cérebro em burburinho, o gozo da linguagem, a capacidade social, a memória, o riso, o coração bater mais rápido só com um toque de braços...

Eu venho de uma família não muito pequena mas apertada, se nos pedirem para caber num metro quadrado, entre avós, primos, tios, irmãs e sobrinhos cabemos todos, ao colo, ombros, enroscados nas pernas uns dos outros. Por isso para mim, é aqui que está o sentido da vida, o enrolar de pernas e almas, o discutir tudo e mais alguma coisa, os colos, os risos, as angustias uns dos outros que temos de aliviar para quando chegar a alturas das nossas haver alguém por perto. Pelo que disseste, vens do Polo Norte, talvez seja difícil ver isto. E ninguém merece ter uma família de esquimós. Mas todos temos direito a muitas famílias na vida, temos aquela que nos saíu na rifa e depois temos a possibilidade de fazer outras.

O teu trabalho lida com a parte mortal e podre da vida, bem sei o que é - na minha primeira vida fui médica veterinária. É difícil acreditar que para além dos choros, das dores lancinantes, das demências, dos maus cheiros do corpo, das escaras, das ansias da morte, haja alguma coisa que valha a pena. Mas há. oh se há... o deixar correr os dias às vezes é só o mais fácil, por isso somos neste momento muitos milhões sentados à frente da televisão à espera que a morte chegue. Mas ó miúda... já perdeste a infância para quem se calhar não te mereceu... perder o resto da tua vida é só suicídio lento. Não te vou dizer o que faço para fugir a isso, a minha vida nunca teve muito sofá e sempre teve amigos a bater a porta, às vezes mais do que deveria, sempre teve demasiada música e demasiados convites e a dúvida entre o que escolher é às vezes o mais díficil. Tive sorte. Por outro lado, no meio de uma vida tão preenchida, já me partiram o coração, já me tiraram o tapete debaixo dos pés vezes conta, amigos espetaram facas, patrões já berraram e já chorei mais do que por 2 vidas, já apostei tudo e perdi e ainda assim apostaria outra vez. Nada me angustia mais do que saber que a vida está a passar lá fora e eu vejo apenas a rua da minha janela. E sim, às vezes as pernas doem tanto que só apetece um pacote de bolachas ao lado do sofá.

Uma coisa temos em comum, a minha adolescência foi parecida com a tua. Melhor aluna, a estudar no meu canto, na minha cabeça – vou ser a melhor, vou ser a melhor – ninguém precisa de amigos, é tudo uma cambada de cromos com as hormonas aos saltos e preocupados com modas que não me aquecem nem arrefecem, ui nem pensar em perder tempo com isso. Depois cheguei à universidade e descobri que, do alto dos meus 18 valores, não percebia nada de música. Nem de computadores. Não tinha visto mais do que um punhado de filmes de jeito. Já tinha lido Kundera aos 15 mas nunca me tinha deliciado com um Miguelanxo Prado. Havia mil mundos que eu nunca tinha sequer questionado, coisas que uma pessoa não descobre sentada sozinha à frente da televisão. Bem sei que o mundo é diferente agora, nós não tinhamos esta internet. Tinhamos internet mas não nos dava este mundo, ainda tinhamos de ir para a rua, ainda tinhamos de ir a concertos e às lojas de discos e gravar cds dos amigos, discutir política era no café. Comecei a ouvir os outros, a contar aos outros as minhas histórias, mesmo as mais malucas, a rir-me das angustias, a abraçar quem precisava de chorar. E isto mudou-me. Porque quando começas a deixar as pessoas no teu coração, com todos os seus defeitos, também ganhas as suas virtudes e depois é um vício.

Tenho para mim que nada é mais importante que o amor. Nada. qualquer forma de amor, o amor próprio, os amigos, a família, a Rita que ontem fez 6 anos e que ontem se despediu de mim, no seu dia de anos, com um abraço e um eu adoro-te tia Lena que foi a coisa mais linda que me disseram em meses. só isso nos pode encher os ventrículos e as aurículas para que o dia-a-dia não seja só o motor a bombear e o ponteiro dos segundos em continuos solavancos. de outra forma nada disto faz sentido. sem amor é mesmo casa trabalho comida supermercado. sem amor, mesmo a ausência de rotinas são monotonia. O palerma que me deixou, viveu comigo 12 anos a dizer todos os dias que me adorava. A olhar para os meus pés e os meus ombros e os meus cabelos e as minhas loucuras e dizer que me amava toda. Uma semana antes de me deixar disse baixinho, pensou que eu já dormia, depois de fazermos amor, vou amar-te para sempre. E eu sei que vai, o estúpido. Só de vez em quando, quando um dia de tristeza o levar de volta ao 5ª andar onde viviamos, porque a ignorância, a angustia de envelhecer, o medo de que outros mundos possam correr sem ele, o vão levar para longe daquilo que teve. Não sou nada dependente, tenho uma auto-estima com a cabeça nos pés, sei bem quanto valho e não preciso que me digam que faço as coisas bem feitas ou que sou mesmo gira, nem preciso de ser mesmo gira. Mas não entendo como se vive sem ser para os outros, com os outros. Não entendo quem escreve só para si, ou para quê fazer um desenho se ninguém o ver. Acredito que a vida de uma árvore não tem nenhum valor se nunca ninguém a abraçar, se nenhum pássaro a escolher para fazer ninho, para isso mais vale morrer e ser soalho de uma salão de festas. Não acredito em gente-ilha, menina-ilhéu! Eu não acho que temos de ser amados para sermos gente, não estou a falar de família e filhos, estou a falar de amar, de dar, de olhar para o mundo depois de lhe termos dado alguma coisa, olhar para uma flor depois de a termos regado e ver como ela mudou, como arrebitou as costas, só isso basta para a nossa mera existência ter algum sentido. Intervir, mudar, deitar ideias tolas cá para fora na esperança de que alguém com outro juízo que não o nosso lhes dê alguma utilidade. Não sei que te diga mais, cara amiga, senão que as tuas loucuras, as tuas inseguranças, as tuas viagens de autocarro e as mãos doces do teu companheiro de viagem fazem falta ao mundo todo e que haverá sempre alguém que precisa dessas tuas coisas todas para que a sua vida faça sentido, como eu preciso das aventuras amorosas do meu melhor amigo para me rir quando os dias estão mais tristes, e preciso dos abraços da minha sobrinha, e das birras do meu sobrinho para me encherem os dias, como preciso do smile no chat de um amigo que só tenho há 2 meses e por quem já fiz 100km só para ir tomar um café numa tarde folga e voltar para casa para minha solidão. Só tens de perder o medo de te dares. Porque falhar, levar facadas, ser gozada, todas essas coisas trazem sentimentos e isso é o que faz teres a certeza que estás vida.

Não quero que aches que te escrevo para te animar. Hoje estou triste. Apesar de ontem ter recebido todo o amor do mundo, devo admitir que sofro de vício e que a falta de um abraço hoje está a dar-me um nó no coração e que trago um edema da traqueia que está quase a inundar-me os olhos. Não tenho jeito para psicologa e que se não fosse o amor que já recebi e o amor que já dei, a certeza de que algum amigo há-de aparecer até ao final do dia com um abraço pendurado nos braços (ai que os Dead Combo que aqui tocam sofridos Esse olhar que era só teu estão a partir-me toda), não fosse a certeza de que o grande amor da minha vida, por mais pequeno que seja, ainda vai aparecer, mais dia menos dia, e que me vai beijar os dedos das mãos e ler-me poemas para adormecer, não fossem estas certezas todas, hoje nem tinha saído da cama.

sexta-feira, junho 20

o meu problema é que tenho um cérebro demasiado grande para corpo tão pequeno. é o cérebro que preciso de partilhar que o corpo faz-me falta.

quinta-feira, junho 19

Carta ao Chico

Meu caro amigo, sei que aí estão jogando futebol , e que hoje fazes anos e por isso te escrevo.

És um dos meus primeiros amigos. O meu pai, talvez por não se lembrar de acalantos, ninou-me com histórias de pequenos burgueses. Lembras-te, Chico, da viagens Porto-Alentejo, com a família toda, os 6 no carro, antes dos carros terem ar condicionado e das auto-estradas ligarem rapidinho o país, todos a cantar em uníssono e tu sempre a saltar no mesmo sítio, ao segundo 145, mesmo quando elas se iam cruzar, e o auto-reverse a ter de te virar do avesso?

Tu não sabes, nunca provaste o feijão com arroz lá de casa, nem provaste um beijo a saber à hortelã do jardim da minha mãe, não sabes que o bosque que um muro alto proibia é na estrada Viana-Barcelos, nem sabes que fiz samba e amor até mais tarde, que o doce predilecto era a tarte de chocolate e natas e que com açucar com afecto o fiz vezes sem conta para ele parar em casa, qual o quê, ele sumiu no mundo sem me avisar - foi tudo ilusão passageira que a brisa primeira levou. Não sabes, Chico, que a Rita é um homem, não sabes que eu continuo à espera do terceiro e que eu um dia dancei uma valsinha com alguém que levou um pedaço de mim. Ai Chico, quem o viu e quem o vê...

O meu coração já não é um pote cheio até aqui de mágoa e já estou como o Pedro, à espera do trem e até já me pego cantando sem mais nem porquê mas ainda é difícil acordar calada e com tanta confusão de perna ainda procuro as com que seguir.
 
ó Chico, tu que escreveste a minha vida toda, que a cantaste mesmo antes de eu ter nascido, que és parte do meu corpo feito tatuagem, inventa-me agora uma história de amor, sem ladrões e sem malandros, sem canções desnaturadas ou folhetins.

Sei que estás em festa, pá, e eu queria só dar-te um abraço, desculpa lá o chorinho.

Parabéns deste lado do mar.

quarta-feira, junho 18

Se tanto me dói que as coisas passem
Se tanto me dói que as coisas passem
É porque cada instante em mim foi vivo
Na busca de um bem definitivo
Em que as coisas de Amor se eternizassem

Sophia de Mello Breyner Andresen


e dói-me tudo e dói que passe este amor que tive e no qual acreditei e do qual vivi cada instante, cada gesto, cada palavra. nunca estive aérea, nunca estive ausente, vivi tudo, ouvi tudo, lembro-me de todas as palavras, as boas, as más, os silêncios. já não me custa a tua ausência, estás melhor aí, ó criatura podre e indecisa, infantil no mau sentido, custa-me deixar de amar os últimos 12 anos da minha vida.

sábado, junho 14

"Maria,
Frase de amigo em sonho cruel, "ela já tinha ido embora antes de partir". Aurora sem sol ou paz, mas com memória. O corpo entregue sem desejo; a voz fervente mas sem calor; a sms que chegou mas separava; o mail que me impunha o adeus à boleia de versos que te ensinei.
Sinais claros para o meu nevoeiro teimoso; indícios tentadores para a sua lucidez; sinos que dobravam por nós, assim o adivinhasse eu quando li Hemingway..."

Júlio Machado Vaz como que contando a história dos meus dias

lembro-me, sem nunca reler, de uma das últimas sms que me mandaste. dizia "vi-te a descer a avenida". respondi-te "e o que sentiste?"  tu nunca respondeste.

terça-feira, junho 10

és um palerma. sempre foste. um egoísta. uma criança egoísta. nunca soubeste quais eram as coisas importantes da vida.
no entanto, pensar que vais voltar a dizer eu amo-te, que vais voltar a abraçar alguém com o meu abraço... só isto. tudo o resto - rir na cama, foder, cozinhar um assado, brincar no monte, mergulhar no mar de mãos dadas - nada disso importa. até espero que o faças.
mas não voltes a dizer piki. não voltes nunca a pôr os braços à volta da cintura como se fosse a minha, não voltes a dizer eu amo-te tanto, mesmo que nunca realmente me tenhas amado. não o repitas. não voltes a dizer és a maior. não voltes nunca a dizer como me dizias todos os dias eu adoro-te com os olhos cheios de orgulho.
podes pousar todos os dias a tua cabeça estúpida noutro colo, podes dedicar músicas na rádio, mas não voltes a dançar na cozinha, ela com os pés em cima dos teus, enquanto o arroz cozinha e cantas a duas vozes Chico Buarque.

sábado, junho 7

tenho pena que te recuses a crescer. que queiras ter 20 anos para sempre. que queiras repetir os mesmos passos que já deste, as mesmas festas onde já foste, os mesmo erros, as mesmas felicidades, em loop. tenho pena que tenhas medo do futuro e por isso te agarres aquilo que já conheces. tenho pena que não saibas ainda o que é o amor. tenho pena que sejas egoista ao ponto de não aceitares o amor. tenho pena por ti, não por mim. pena que não saibas o que é ter o coração cheio sem precisar de palavras ou correrias ou picos. tenho mesmo pena de ti por achares ainda, nessa infantilidade de quem nunca passou dos 17 anos, que há sempre um mundo que estás a perder. haverá sempre um mundo que estás a perder, milhões de mundos, independentemente de estares parado ou a correr. haverá sempre mil vidas que poderias ter, em cada gesto que fazes estás a escolher o teu mundo e ficar a olhar para os outros com inveja, querer apanhar todos os mundos é não saber viver bem dentro da própria pele. é normal aos 17, quando ainda somos coisa pouca, não nos conhecemos, não sabemos ainda caminho nenhum. tenho pena que aos 36 anos não tenhas ainda te encontrado e continues a correr e esconder-te nos clichés, atrás da barba da moda, da futilidade hipster de quem ainda não tem identidade própria, tenho pena.

tenho pena de ti porque pensas só no teu umbigo e não vês mais nada, porque não sabes dar incondicionalmente, sem pesar ou medir, não soubeste estar à altura do amor que tinhas, acobardaste-te e provavelmente vais voltar a fazer. dirás que não foste talhado para relacionamentos estáveis, e eu dir-te-ei que se isso é verdade, abstem-te de qualquer relacionamento, abstem-te de qualquer forma de compromisso. amor teenager não é amor, amor magro não é amor. os corações partem-se, as pessoas sofrem, há coisas que o tempo cura mas há cicatrizes que nunca vão desaparecer, há anos que nunca vão voltar atrás, talvez haja filhos que eu nunca poderei ter.

tenho pena por ti. por mim só tenho pena que tenhas demorado tanto tempo a deixar-me, que tenhas posto a mão na minha barriga todo o verão a perguntar quando íamos ter filhos quando se tivesses olhado bem para dentro de ti saberias perfeitamente que não estavas à altura. e choro ainda porque há 4 meses eu era feliz, era mesmo feliz, e amava-te incondicionalmente, e sonhava com a nossa família e com o tudo o que poderiamos fazer juntos. e agora ainda sou uma ferida à espera que o tempo crie cicatriz e que estas coisas todas, esta tua traição ao amor que te dei, todo o amor do mundo, esta mentira, deixem de ter importância. e choro também porque tu não estás feliz, como nunca foste feliz, e que isto que fizeste foi só uma violência gratuíta que não fez bem a ninguém. espero que um dia chegues lá.

sexta-feira, junho 6

ele diz -
"magoar os outros por sermos a parte de nós que não entendemos… morte aos humanos, deixem as flores mandar nesta merda buh"

ele que magoou alguém e que lhe dói ter dentro dele esse lado mau. 
eu, que fui magoada, digo
todos temos um lado mau dentro de nós, um lado menos bonito, um lado que muitas vezes optamos por não ver, por esconder dos outros mas principalmente de nós. está mal. deviamos falar com ele todos os dias, amansar o monstro, dar-lhe água e pão e algumas flores, deixá-lo vir brincar para o jardim de tempos a tempos, deixá-lo pisar formigas e rir-se dos velhos, de vez em quando. levá-lo ao shopping e comprar-lhe doces e não nos preocuparmos com os dentes podres. dar-lhe alguns dos nossos dias para que ele não rebente connosco.

domingo, junho 1

"Ser mulher, explicavam, era como ter o trabalho todo no que respeita à humanidade. Que os homens eram para tarefas avulsas, umas participações quase nenhumas. Como se fossem traves de madeira que se usavam momentaneamente para segurar o teto que ameaçasse cair. Se não valessem pela força, nunca valeriam por motivo nenhum, porque de coração estavam sempre mal feitos. Eram gulosos, pouco definidos, mudavam com facilidade os desejos, não conheciam a lealdade passional, concebiam apenas engenharias e mediam até os amores pelo prático da beleza, gostavam sempre de quem lhes parecesse dar mais jeito, como se procurassem empregadas ao invés de esposas, como se precisassem de precaver os seus próprios defeitos mais do que as virtudes livres das mulheres."

Valter Hugo Mãe in "A Desumanização"

não é verdade, também há homens bons. há homens que têm nas mulheres companheiras, amores, dedicações eternas. mas na verdade aqui ainda criamos homens-meninos, mimados, centrados no seus umbigos, feministas apenas da boca para fora porque quando chega a hora de estar lá, de igual para igual, olham para o lado e procuram a mulher que o seu pai teve, comida na mesa e pouca conversa, poucos problemas.

digo-o com o coração partido por um rapaz que nunca quis crescer e que eu, mulher adulta, empresária, dinâmica, pensei que era companheiro, mas que descobri da pior maneira que o amor não chega para se ser homem, muito menos homem de uma mulher com M grande. os corações estão sempre mal feitos e há sempre um mundo lá fora muito mais fácil.