terça-feira, outubro 23

Etiquetas para esta mensagem (sugestão do blogger a ver se me inspira): motas, férias, outono.
E de um momento para o outro parece tudo claro como água.

Vim aqui só para dar um grito contra a noite que já não chama ninguém para um Martini às 7 na Brasileira e que me manda para casa arrumar as tralhas que se acumulam pelo chão, dentro da máquina de lavar, em cima do cadeirão do quarto, a loiça na banca, procurar o gato que se recusa a voltar para casa. Só dar um grito aqui onde sei que não está ninguém à escuta como se fosse no meio do Gerês que ardeu outra vez este fim de semana e que vai arder outra vez para o ano ou para o outro até já não haver sítios onde dar gritos camuflados pelos fetos e castanheiros e carvalhos e outros que tais. Só dar o grito aqui para não acordar as muitas crianças romenas que dormem no prédio ao lado, só aqui e não acordar ninguém e mudar outra vez de morada, mudar-me para o fim do mundo e gritar no fim do mundo e esperar que ninguém tenha a camera apontada, nenhum microfone, nem dois olhos pardos a brilhar no escuro a transcrever-me e ao meu grito em conexões neuronais de memória com qualquer prazo. Gritar o rim cá para fora e não deixar registo. E já agora, arranjar uma mota e partir de férias pelo Outono fora!

quarta-feira, outubro 3

Sofias


As Sofias têm asas nos pés. São tipo pássaros descarados. Fazem ninho junto à sala, tiram fotos, posam para outras, tomam martinis e sobremesa com café e depois, um dia, sem aviso, batem asas e voam.

Nos últimos tempos perdi 2 Sofias-Pássaro e 1 Adolfo-Gato.


As Sofias aproveitaram os voos low-cost e fugiram da vida certa da cidade pequena. A primeira fugiu para Barcelona. Despediu-se do emprego-função-pública, fez 2 malas compradas no chinês "Cheio-Cheio Entre-Entre" e picou o bilhete. Agora é feliz noutro lado, vejo-a nas férias, nas minhas, e nos dias em que vem comer cozido a casa da mãe. Sabe a pouco.

A outra fugiu há 2 dias. Esperou que o tribunal arrumasse o processo de despedimento mais injusto, pegou na indemnização, brindou-nos com um jantar, pôs a máquina fotográfica na mochila e abalou para Londres. Há-de voltar várias vezes - volta para jantar comigo daqui a 10 dias, isso é certo, mas vai saber a pouco.


O Adolfo apanhou a janela aberta e fugiu. ou perdeu-se. ou foi expulso pelo puma preto que vive nos telhados e que força a nossa persiana como se os intrusos fôssemos nós. Agora vive por aí. Vi-o há 1 semana dentro do seminário do outro lado da rua. Deixei-lhe lá o prato de comida, e uma manta para se enroscar, mas ele ainda não os encontrou. eu ainda não o encontrei.

E agora a casa da parede verde já não é a mesma. Já não há 2 gatos às 7 em ponto a esfregar-se na porta. Já não tenho a máquina da Sofia apontada aos pratos e aos copos e aos aventais, à comida, a mim (que saudades já de ser a tua modelo fotográfica). Já não há café na Brasileira aos sábados no fim do dia. Já quase não sobram Sofias em Braga para convidar para jantar.

Com saudades,
Não sei o que se passou. Passou quase um ano e não perguntem por onde andei porque nunca saí daqui. Estive sempre aqui.