E de um momento para o outro parece tudo claro como água.
Vim aqui só para dar um grito contra a noite que já não chama ninguém para um Martini às 7 na Brasileira e que me
manda para casa arrumar as tralhas que se acumulam pelo chão, dentro da máquina de lavar, em cima do cadeirão do quarto, a loiça na banca, procurar o gato que se recusa a voltar para casa. Só dar um grito aqui onde sei que não está ninguém à escuta como se fosse no meio do Gerês que ardeu outra vez este fim de semana e que vai arder outra vez para o ano ou para o outro até já não haver sítios onde dar gritos camuflados pelos fetos e castanheiros e carvalhos e outros que tais. Só dar o grito aqui para não acordar as muitas crianças romenas que dormem no prédio ao lado, só aqui e não acordar ninguém e mudar outra vez de morada, mudar-me para o fim do mundo e gritar no fim do mundo e esperar que ninguém tenha a camera apontada, nenhum microfone, nem dois olhos pardos a brilhar no escuro a transcrever-me e ao meu grito em conexões neuronais de memória com qualquer prazo. Gritar o rim cá para fora e não deixar registo. E já agora, arranjar uma mota e partir de férias pelo Outono fora!

