Há 3 anos estava em viagem. Sai de casa no getbus das 4 da manhã, com a excitação e medo de uma criança. Havia anos que não viajava sozinha, com uma mochila e apenas um hostel marcado para a primeira noite. O voo saía às 8 e tinha uma breve (mas calculada) escala em Londres. Cheguei ao aeroporto e já tinha perdido o meu voo de ligação. O meu voo para Londres estava 8h atrasado.
Nota da autora: isto é um daqueles textos longos e não só não tem interesse nenhum como, chegando ao fim, não tem nenhuma moral. Se tiverem alguma coisa a fazer, levar o cão à rua, podar as sardinheiras, limpar o balcão da cozinha ou acabar de ler o expresso antes que seja sábado outra vez, façam um favor a vocês próprios e sigam com a vida.
Eram 5h da manhã e eu decidi que nada ía estragar as minhas férias. Peguei no vale de 5€ e comi um croissant com queijo para pequeno-almoço e sentei-me pacientemente a ler o livro grosso que tinha comprado no dia anterior para me acompanhar nos 10 dias de férias. Liguei o spotify e avisei a minha mãe que provavelmente não ligaria da Dinamarca às 4 da tarde como combinado, mas que não se preocupasse, tudo está bem quando a alma está para aí virada. E eu já tinha decidido que nada nem ninguém ía dar cabo das minhas férias e eu quando tomo uma decisão não há quem me tire de lá. Para mais, nunca li no jornal de notícias acerca de mortes de tédio no sá carneiro portanto, com orgulho e obstinação, mantive-me altiva nos calcanhares.
No balcão da ryanair confirmei o meu destino de perdedora de voos de ligação e a opção de um voo tardio para a cidade da Lego (billund? seriously?) não me animou. Troque-me lá o voo para o dia seguinte que eu lá me amanho nas inglaterras.
230 páginas depois abriu o sinal para o voo para londres e lá fui eu fresca e segura para o avião. Eu não gosto muito de voar. (Se pudesse ter um super-poder era, sem qualquer dúvida, voar - não entendo essas pessoas que queriam ser invisíveis, são umas coscuvelheiras! (Ou cabaneiras como se diz em Viana) (onde é que estã os aparentesis rectos? a ortografia tem poucas soluções para os meus apartes. A minha escrita não se coaduna com os símbolos disponíveis. É preciso inventar uma novi-escrita). Eu queria voar (ainda estamos nos super-poderes, daqui a nada voltamos à viagem) mas era sem metal nenhum à minha volta, sem máscaras de oxigénio que às tantas não se inflatam (é esta a palavra?) e que ainda assim deixam o oxigénio fluir e em caso de cair em mares e oceanos é preciso puxar o cordão apenas depois de sair do avião para não obstruir a passagem e mais a história do apito e do reflector de bicicleta. Eu a voar era mesmo só eu a voar, à super homem mas na versão mulher, sem pose, isso gostava, voar por cima das águas como na música do fausto e agora vou fechar os parentisis e já perdi a conta se os estou a fechar ou só a ser trenga, mas era isso, se eu tivesse um super poder era voar por cima das águas). Sento-me e tiro toda a parafernália necessária para se aguentar um voo - casaco e echarpe (faz sempre muito frio nos voos), livro, auscultadores, telefone, carteira aos pés com o caderninho e a caneta para tomar notas, máquina fotográfica no colo. Bring it on, senhores e senhoras hospedeiras, podem mandar descolar. Ao que vem a menina implacavelmente vestida a menina de bordo explicar porque é que eu tinha tanto espaço para montar ninho no meu lugar de avião low-cost 'menina, está na saída de emergência, não pode ter a carteira e máquina e o casaco e a echarpe e esse estaminé todo que montou nos últimos 3 minutos aos seus pés. Tem de pôr tudo na cabine e ouvir atentamente as instruções que caso isto corra mal, é a menina que abre a porta de saída'. Pensei e só disse aos meus amigos da b e c que estes gajos da ryanair devem ser tolos em dar-me o lugar que tem de puxar a alavanca de emergência. Em primeiro ligar (expliquei eu aos míudos que para mim serão sempre os strokes - fininhos, cheios de pinta vestidos de preto e calças rasgadas a caminho de um concerto) nem eu tinha força para puxar aquilo nem a ryanair devia atribuir aquele lugar de forma tão aleatória 'sabem lá eles se eu não sou da al qaeda (eram os maus da altura, ainda não havia daesh), lá por ser rapariga e pequena... a ryanair deixa muito a desejar no que toca à segurança aérea. Controlam os frascos de shampoo e tal mas depois dão a porta da despressuração aeronáutica a qualquer um' Eles riram-se e prometeram que, em caso de emergência, puxavam eles a alavanca enquanto eu panicava no meu lugar.
Ainda assim cheguei a stansted de bom humor. O voo para aarhus seria na manhã seguinte às 10 da manhã. Sem stress. Eu sou boa a criar planos b e vai daí, abri o google maps (o roaming ainda não era gratuíto, logo foi uma decisão ponderada) e vi o que é que havia ali perto. Por meia dúzia de horas não valia a pena meter-me em londres mas cambridge era logo ali ao lado e lembro-me de que aquilo era giro e vê-se em meia dúzia de horas, vai daí compro o bilhete de autocarro para cambridge, olha que fixe! O autocarro saia às 6 e às 5 já nos avisavam que ía chegar atrasado e eu repetia 'quem tem de férias não tem pressa! Até é bom que faço já com calma a reserva num hostel'. Abro o hostelword e está tudo cheio. Abro o booking e encontro uma cama com ar espelunca a 5km do centro a 120€ e nada mais. Ligo para a pousada da juventude e confirmar, não é possível, está bem que é sexta-feira, mas ainda assim, nem uma cama, ao que o simpático rapaz da recepção me diz 'pois sabe, é halloween'. Sentada no chão de um dos piores aeroportos da europa percebi então que os cetins vermelhos e as maquilhagens excessivamente negras não eram a moda londrina, mas sim a noite das bruxas. Dirigi-me ao balcão dos autocarros e pedi a devolução do bilhete para cambridge e sentei-me no costa, e pedi uma fatia de bolo de cenoura e um cappuccino extra-large e preparei-me para escrever esta história, mas entretanto fiquei sem bateria no telefone e não tinha adaptador. O telefone morreu e eu acabei as 362 páginas de 'a peregrinação do rapaz sem cor' do Murakami (que nem é grande livro) antes de tentar dormir com a cabeça na mesa do café, a cada minuto incomodada com a menina que dizia 'sorry, you can't sleep here' e continuamente interrompida pela corrente de ar das portas de sensor que se abriam a cada desesperado a sair para ir fumar um cigarro.
Claramente saiu-me travessura.
Nunca mais voltei à dinamarca. E tenho pena. Foram provavelmente as melhores férias que tive na vida.
Eu avisei que esta história não tinha moral.

