terça-feira, outubro 31

eu uma vez fui ao halloween e saiu-me travessura

Há 3 anos estava em viagem. Sai de casa no getbus das 4 da manhã, com a excitação e medo de uma criança. Havia anos que não viajava sozinha, com uma mochila e apenas um hostel marcado para a primeira noite. O voo saía às 8 e tinha uma breve (mas calculada) escala em Londres. Cheguei ao aeroporto e já tinha perdido o meu voo de ligação.  O meu voo para Londres estava 8h atrasado.

Nota da autora: isto é um daqueles textos longos e não só não tem interesse nenhum como, chegando ao fim, não tem nenhuma moral. Se tiverem alguma coisa a fazer, levar o cão à rua, podar as sardinheiras, limpar o balcão da cozinha ou acabar de ler o expresso antes que seja sábado outra vez, façam um favor a vocês próprios e sigam com a vida.

Eram 5h da manhã e eu decidi que nada ía estragar as minhas férias. Peguei no vale de 5€ e comi um croissant com queijo para pequeno-almoço e sentei-me pacientemente a ler o livro grosso que tinha comprado no dia anterior para me acompanhar nos 10 dias de férias. Liguei o spotify e avisei a minha mãe que provavelmente não ligaria da Dinamarca às 4 da tarde como combinado, mas que não se preocupasse, tudo está bem quando a alma está para aí virada. E eu já tinha decidido que nada nem ninguém ía dar cabo das minhas férias e eu quando tomo uma decisão não há quem me tire de lá. Para mais, nunca li no jornal de notícias acerca de mortes de tédio no sá carneiro portanto, com orgulho e obstinação, mantive-me altiva nos calcanhares.
No balcão da ryanair confirmei o meu destino de perdedora de voos de ligação e a opção de um voo tardio para a cidade da Lego (billund? seriously?) não me animou. Troque-me lá o voo para o dia seguinte que eu lá me amanho nas inglaterras.
230 páginas depois abriu o sinal para o voo para londres e lá fui eu fresca e segura para o avião. Eu não gosto muito de voar. (Se pudesse ter um super-poder era, sem qualquer dúvida, voar - não entendo essas pessoas que queriam ser invisíveis, são umas coscuvelheiras! (Ou cabaneiras como se diz em Viana) (onde é que estã os aparentesis rectos? a ortografia tem poucas soluções para os meus apartes. A minha escrita não se coaduna com os símbolos disponíveis. É preciso inventar uma novi-escrita). Eu queria voar (ainda estamos nos super-poderes, daqui a nada voltamos à viagem) mas era sem metal nenhum à minha volta, sem máscaras de oxigénio que às tantas não se inflatam (é esta a palavra?) e que ainda assim deixam o oxigénio fluir e em caso de cair em mares e oceanos é preciso puxar o cordão apenas depois de sair do avião para não obstruir a passagem e mais a história do apito e do reflector de bicicleta. Eu a voar era mesmo só eu a voar, à super homem mas na versão mulher, sem pose, isso gostava, voar por cima das águas como na música do fausto e agora vou fechar os parentisis e já perdi a conta se os estou a fechar ou só a ser trenga, mas era isso, se eu tivesse um super poder era voar por cima das águas). Sento-me e tiro toda a parafernália necessária para se aguentar um voo - casaco e echarpe (faz sempre muito frio nos voos), livro, auscultadores, telefone, carteira aos pés com o caderninho e a caneta para tomar notas, máquina fotográfica no colo. Bring it on, senhores e senhoras hospedeiras, podem mandar descolar. Ao que vem a menina implacavelmente vestida a menina de bordo explicar porque é que eu tinha tanto espaço para montar ninho no meu lugar de avião low-cost 'menina, está na saída de emergência, não pode ter a carteira e máquina e o casaco e a echarpe e esse estaminé todo que montou nos últimos 3 minutos aos seus pés. Tem de pôr tudo na cabine e ouvir atentamente as instruções que caso isto corra mal, é a menina que abre a porta de saída'. Pensei e só disse aos meus amigos da b e c que estes gajos da ryanair devem ser tolos em dar-me o lugar que tem de puxar a alavanca de emergência. Em primeiro ligar (expliquei eu aos míudos que para mim serão sempre os strokes -  fininhos, cheios de pinta vestidos de preto e calças rasgadas a caminho de um concerto) nem eu tinha força para puxar aquilo nem a ryanair devia atribuir aquele lugar de forma tão aleatória 'sabem lá eles se eu não sou da al qaeda (eram os maus da altura, ainda não havia daesh), lá por ser rapariga e pequena... a ryanair deixa muito a desejar no que toca à segurança aérea. Controlam os frascos de shampoo e tal mas depois dão a porta da despressuração aeronáutica a qualquer um' Eles riram-se e prometeram que, em caso de emergência, puxavam eles a alavanca enquanto eu panicava no meu lugar.
Ainda assim cheguei a stansted de bom humor. O voo para aarhus seria na manhã seguinte às 10 da manhã. Sem stress. Eu sou boa a criar planos b e vai daí, abri o google maps (o roaming ainda não era gratuíto, logo foi uma decisão ponderada) e vi o que é que havia ali perto. Por meia dúzia de horas não valia a pena meter-me em londres mas cambridge era logo ali ao lado e lembro-me de que aquilo era giro e vê-se em meia dúzia de horas, vai daí compro o bilhete de autocarro para cambridge, olha que fixe! O autocarro saia às 6 e às 5 já nos avisavam que ía chegar atrasado e eu repetia 'quem tem de férias não tem pressa! Até é bom que faço já com calma a reserva num hostel'. Abro o hostelword e está tudo cheio. Abro o booking e encontro uma cama com ar espelunca a 5km do centro a 120€ e nada mais. Ligo para a pousada da juventude e confirmar, não é possível, está bem que é sexta-feira, mas ainda assim, nem uma cama, ao que o simpático rapaz da recepção me diz 'pois sabe, é halloween'. Sentada no chão de um dos piores aeroportos da europa percebi então que os cetins vermelhos e as maquilhagens excessivamente negras não eram a moda londrina, mas sim a noite das bruxas. Dirigi-me ao balcão dos autocarros e pedi a devolução do bilhete para cambridge e sentei-me no costa, e pedi uma fatia de bolo de cenoura e um cappuccino extra-large e preparei-me para escrever esta história, mas entretanto fiquei sem bateria no telefone e não tinha adaptador. O telefone morreu e eu acabei as 362 páginas de 'a peregrinação do rapaz sem cor' do Murakami (que nem é grande livro) antes de tentar dormir com a cabeça na mesa do café, a cada minuto incomodada com a menina que dizia 'sorry, you can't sleep here' e continuamente interrompida pela corrente de ar das portas de sensor que se abriam a cada desesperado a sair para ir fumar um cigarro.
Claramente saiu-me travessura.
Nunca mais voltei à dinamarca. E tenho pena. Foram provavelmente as melhores férias que tive na vida.
Eu avisei que esta história não tinha moral.


sexta-feira, outubro 27

Uma história para a Marina

Tenho uma pena tremenda das coisas que, por uma mero acaso, se tornam inúteis. Não é que eu tenha alguma coisa contra a inutilidade das coisas - ainda hoje defendi com unhas e dentes a minha figueira-violino quando alguém ao jantar resumiu a sua existência ao facto de, de facto, não dar figos. Fui até um pouco agressiva. Eu cá para mim, tenho pouca preocupação em ser útil para mais do que mim própria e para os poucos que se chegam para jantar e estou convencida que cada um é o que lhe apetece ser e não deve nada a ninguém e, não obstante eu adorar figos, não aponto o dedo à figueira-violino que se estica no canto da sala e a quem eu limpo o pó folha a folha mais do que ao aparador da sala porque gosto dela (não é que não goste do aparador da sala) mesmo que ela seja inútil.  O aparador da sala também é quase inútil.  Na verdade, nesta casa, somos todos uma cambada de inúteis, no conjunto ficamos todos muito bem e temos como rei o Adolfo, o gato mais bonito e provavelmente mais burro do mundo. Por mim, tudo óptimo. Sinto-me em casa.
Mas, ainda assim, há coisas que se me sofrem no coração pela sua inutilidade que nem a estratosfera salva.
A primeira são as luvas que perderam o par. O meu coração dói-se sempre que vejo uma luva perdida no passeio ou no banco de um tram (eu sei que aqui por Portugal não é a coisa mais vulgar do mundo, mas mundo fora há muitos trams e em meses de inverno têm sempre uma luva perdida e por cada luva perdida há uma outra que também, numa bolsa ou numa mochila, se vê sem par). Não vou, senhores, falar-vos das meias que perdem a parelha. São um assunto malcheiroso e demasiado banal (acontece-nos a todos!) para uma história digna como esta! Uma luva sem par não serve para nada. É lixo. E pode ter andado de mãos dadas na mais plena paixão que, sozinha, de nada vale. E isso é muito triste.
A segunda coisa que por um acidente ganha inutilidade são os baralhos de cartas a quem faltam um 5 de ouros, ou um 9 de espadas. Pode já ter jogado king e ter ganho tudo a nulos e  ser um às na canasta e saber o burro em pé e o peixinho, mas a partir do momento em que uma das 52 cartas decide abandonar o barco (que sem os jokers sobrevivem quase sempre) perde o valor todo.
Eu, com as luvas, sempre tive muito cuidado e até à data, penso nunca ter desemparelhado nenhuma. Uso a mesma técnica  que uso para os guarda-chuvas. Eu nunca perdi um guarda-chuva. E mais, sei sempre onde ele está. É um guarda-chuva bestial de 10 varetas, muito resistente, muito bonito, branco com pintas vermelhas, que fica mesmo bem com o casaco vermelho que eu vestia no dia em que me chovia torrencialmente em cima e que a minha mãe, não conseguindo cobrir com o seu pequeno guarda-chuva azul-da-cor-do-seu-casaco, decidiu comprar para mim naquela loja que vende chapéus e guarda-chuvas no início da rua do Souto. É um guarda-chuva daqueles em que se pode confiar. Faça chuva ou faça sol está sempre onde eu o deixei - na mala do carro e por isso nunca o hei-de perder. O mesmo me acontece com as luvas. Tenho vários pares e gosto muito delas, mas para evitar esta coisa terrível de lhes perder o par - e com isso torná-las em objectos inúteis - raramente as tiro da primeira gaveta da cómoda.
Já com os baralhos de cartas, não tenho tanta sorte. Tenho um baralho muito bonito, com poemas da Florbela Espanca, que um amor me ofereceu sem saber que eu sempre a achei depressiva demais para o meu género - deve ter confundido o meu terrível hábito de cantar mal para espantar os espíritos com paixão literária. Ainda assim era um bonito baralho de cartas e infelizmente acho que nunca chegou a jogar uma bisca sequer. Sofre da horrível falta da manilha de paus, patologia letal num baralho de cartas. Como sofro muito com esta perda de utilidade (eu que gosto de ser inútil) pus o baralho no móvel da entrada e quando alguém vem jantar a minha casa tem o direito a escolher uma carta e levar para casa para ser marcador de livros. Não é bem o mesmo que ser trunfo mas é melhor do que o lixo. Hoje a Marina levou o Às de Copas e embora o poema falasse dos olhos frios (e os olhos da Marina são uns doces), foi uma carta que até fora do baralho fez sentido.

domingo, outubro 15

Esta história começa assim:
Há 2 anos eu era outra pessoa. Há 10 anos, ainda que vestisse o mesmo pijama cirúrgico azul e estetoscópio pendurado ao pescoço, eu era ainda menos eu, mas desses tempos não reza esta história.
Há pouco menos de 2 anos, tinha eu um estaminé de alojamento local onde o meu trabalho era ter as melhores conversas do mundo, com as aleatórias pessoas mais interessantes do mundo, quando vi que o Tiago Pereira vinha a Braga apresentar o seu filme 'Porque eu não sou o Giacometti do século XXI' e num segundo, feita fã sem vergonha, mandei-lhe uma mensagem a oferecer dormida. Sempre tive medo de perder alguma boa conversa e foi assim que conheci o Tiago em pessoa e ainda hoje me orgulho da falta de vergonha. 9 dias depois fechei portas ao hostel e ainda hoje, quando vou à garagem solto uma lágrima quando olho para as tralhas que sobraram só de pensar nas conversas que não vou ter e das pessoas que não vou conhecer. Mas acerca disso, também não reza esta história.
Comecei 2016 como uma página em branco, cheia de possibilidades, sem contratos e sem grandes obrigações para além do gato e das sardinheiras, no bolso tinha uma licenciatura e uma pós-graduação em bichos e quase 5 anos de mochila às costas sem sair de Braga e a terrível sensação de que nunca fui marinheira (nem capitã) nem pintora nem bailarina clássica ou actriz de cinema mudo - aquilo que qualquer pessoa com a cabeça no sítio chama de 'perdida na vida' mas que eu decidi chamar de 'peito aberto para o mundo'.
Em Dezembro, porta fechada, mandei uma mensagem ao Tiago e disse-lhe 'nunca andei de tripé ao ombro e fui chauffeur, se precisares de alguma mula de carga ou só um peso para as filmagens, eu estou disponível em Janeiro'. O Tiago respondeu 'de 29 de Janeiro a 8 de Fevereiro vamos para o Alentejo. O nosso carro capotou e está na ante-câmera da funerária. Queres vir?'
Oh bien sûre e juro-vos que não sabia a maravilha que me esperava. Foram 10 dias a reaprender a ser portuguesa, de vida nova, a ouvir os velhos, as histórias, as receitas, correr atrás de ovelhas, a ouvir a música como sentimento, a descobrir o sentimento do cante, das ceifeiras, das tradições (quem nem sempre eram as minhas - este país que é tão pequeno é tão grande!), da solidão de um interior do país abandonado, do alcoolismo, das praças vazias e do queijo, do cheiro a esteva e dos coentros frescos. Fiz pouco mais do que ser motorista sem chapéu e comer tomatadas no Rugla e aprendi tanto! 10 dias a ganhar mais um mundo debaixo da pele, mais uma camada, que ainda hoje mal me acredito de quando ganhei nesses dias.
Ontem, o Tiago, que é um pequeno génio e sim, não é um Giacometti do século XXI (porque não está aqui para registar e documentar coisa nenhuma - está aqui para sentir e mostrar como se sente), mas sim um louco anjo da alma portuguesa, enviou-me o seu último 'os cantadores da Paris', no dia em que o apresentou em Paris em estreia mundial. Ele há honras que não merecemos e esta é uma delas. Para quem não sabe (como é possível?!?), o "os cantadores de Paris' é um magnifico filme acerca da universalidade da música e um grupo de cante alentejano de Paris que inclui franceses, italianos e alemães, gente que nunca (até o Tiago os trazer) tinham posto os pés em Portugal e que cantam como quem comeu açorda de bacalhau desde menino.
E é, meus senhores, LINDO. Se durante anos ouvimos óperas de Wagner, Mozart e Puccini, sem percebermos peva de italiano ou alemão, o Tiago mostra que os nossos sons são igualmente universais.
A música portuguesa a gostar dela própria é um trabalho de embaixador e eu, meus amigos, porei em todos os meus CV's, sejam para veterinária ou o para varredora de rua, que fui motorista deste projecto durante 10 dias para o resto da minha vida.
Parabéns Tiago, por mais um filme tão bonito, tão pele, tão português e por mostrar que a nossa voz é tão particular ao mesmo tempo que esta nossa linguagem é tão universal. E obrigada pela amizade, por me fazeres sempre sentir mais portuguesa e ainda desta forma pequenina me deixares ser parte deste teu projecto que é do país inteiro. De um mundo inteiro. Obrigada.


clicar aqui para ver como é tudo isto é lindo - https://vimeo.com/237596698
Os Cantadores de Paris viram o meu vídeo da moda "Além daquela Janela" dos Alentejo Cantado em que estes a cantavam de firma diferente, introduzindo o "cânone" e começaram a cantar a moda da mesma forma. Mais tarde vieram ao Alentejo e puderam cantar com eles da mesma forma. Isto é A música portuguesa a gostar dela própria.

quinta-feira, outubro 5

Há momentos em que uma pessoa toma uma decisão e no segundo a seguir diz foda-se, vou fumar um cigarro.