Eu tenho com a minha mãe uma relação de amor-ódio. Desde que a professora de psicologia (coitada! era uma criatura obesa e pequena que falava baixinho e que vestia umas t-shirts com o mesmo padrão da saia, de um tecido altamente suável, às flores beje e preto, cujo design a faziam ainda mais quadrada e pequena do que realmente era; e que de tempos a tempos 'avariava' (palavras da própria, na aula seguinte, no pedido de desculpas) e berrava em altos gritos que nós eramos todos uns anormais, estúpidos e borbulhentos), desde que a Rosinha me explicou que o Freud dizia que a culpa era sempre das mães - tinha eu 16 anos - que decidi que assim haveria de ser. A culpa é toda dela, sempre. Não se preocupem muito, caros leitores, que a minha mãe é bicho pequeno mas no que toca a ombros bate o hércules e o átlas e para ela o mundo às costas é coisa de domingo de manhã! Se a quiserem castigar, o ponto fraco são os joelhos e eu praí não atiro. Mas é verdade que todas as culpas dos meus dias são da minha mãe, até porque se não fosse ela eu nunca tinha feito nada na vida. Nada mesmo nada. Tudo o que eu faço é pelo medo que lhe tenho! De manhã levanto-me cedo com medo que ela me apanhe a preguiça. É por ela que tenho sempre a casa (moderadamente) arrumada e o chão da cozinha o mais decente possível - a última vez que a minha mãe esteve em minha casa foi há mil anos e eu tinha-me esquecido de limpar o pó do ecrã do computador e tivede levar com aquellos ojos verdes a atirar-me contra a parede (ainda hoje sofro tormentas, mãe, e por isso da última vez comprei um portátil - está sempre protegido). Outra coisa que é mesmo mesmo culpa da minha mãe é o problema da literatura. Eu estava encaminhada para ser uma guna de boné para trás mas a minha mãe encasquetou que eu havia de gostar de ler! É daquelas coisas que as mães metem na cabeça e não há quem as segure. Eu estava ali muito bem a perseguir cães e a olhar para as formigas e veio ela e subornou-me com livros ad libidium na bertrand e não há como argumentar que não foi isto que me lixou os dias. Toma aqui uma Sophia, olha o Eugénio, um bocadinho de Alice Vieira, olha tantas aventuras e vai daí e colei na cena (os livros são uma droga do caraças! aquilo às vezes é pior que cogumelos mágicos) e entretanto já comi de tudo - Marquez, Saramago, Roth, Beauvoir, Niïn, Sartre e todas as coisas que fazem mal aos miolos. Culpa da minha mãe!
A última foi ontem!, nem vos conto! Se algum dia forem a casa da minha mãe, vão sentir-se a rainha da dinamarca (atenção, fumar vale um raspanete!) - vai buscar as pratas, polir os cristais, rechear as sardinhas com sapateira, sacar do serviço vista alegre com o friso dourado e stressar como se a páscoa que não celebramos se tratasse e vocês fossem o senhor bispo. Mas dizia eu, ontem tive eu aqui em casa uns amigos para jantar - o gang do costume. Eu cá, ao contrário dela, adoro cozinhar e lá me atirei para a cozinha com um menú que não venderia por menos de 50€/cabeça (pão caseiro, amêijoas à bulhão pato, cenouras à algarvia, hummus, arroz de tamboril e mousse de lima, tudo bem regado com os melhores brancos alentejanos) e quando meti o pão no cesto pensei 'este paninho de linho bordado merecia uma última passagem com o ferro para tirar este meio vinco que anda pra'qui'. Felizmente fui capaz de sacudir os ombros e dizer 'sai de mim coisa ruim' e ignorar a dobra de forma altiva e dizer em voz alta 'ainda não, mãe! resisitirei o mais que puder a tentação de sacar do ferro de engomar em cima da hora'. (dêem-me mais 5 anos)
De qualquer das formas, como é hábito - a culpa também deve ser da minha mãe, eu é que ainda não lhe descobri o caminho - já me distrai e o tema era ainda se morrer de coração partido em 2017 e queria fazer uma apelo sincero - don't go breaking hearts for fun!, ele há gente que não aguenta! E nem toda a gente tem uma mãe tão boa como eu!