sábado, julho 22

Sabiam quem em 2017 ainda se morre de coração partido? Eu não sabia! Soubesse eu que tal era possivel teria eu própria morrido há uns anos, mas a minha mãe jurou a pés juntos que tal não  era possível e que o melhor era comer a sopa, o que fiz, porque o que a minha mãe diz é verdade e eu tenho um medo dela que me pelo. Vai-se a ver,  a minha mãe é uma mentirosa e eu só descubro isto com uns anos de atraso e agora já colei o coração todo e é apenas um desperdício tanto esforço  (para não falar do dinheiro investido em vinho tinto, por absoluta aversão à indústria farmacêutica) decidir morrer agora que a vida até me corre bem.
Eu tenho com a minha mãe uma relação de amor-ódio. Desde que a professora de psicologia (coitada! era uma criatura obesa e pequena que falava baixinho e que vestia umas t-shirts com o mesmo padrão da saia, de um tecido altamente suável, às flores beje e preto, cujo design a faziam ainda mais quadrada e pequena do que realmente era; e que de tempos a tempos 'avariava' (palavras da própria, na aula seguinte, no pedido de desculpas) e berrava em altos gritos que nós eramos todos uns anormais, estúpidos e borbulhentos), desde que a Rosinha me explicou que o Freud dizia que a culpa era sempre das mães - tinha eu 16 anos - que decidi que assim haveria de ser. A culpa é toda dela, sempre. Não se preocupem muito, caros leitores, que a minha mãe é bicho pequeno mas no que toca a ombros bate o hércules e o átlas e para ela o mundo às costas é coisa de domingo de manhã! Se a quiserem castigar, o ponto fraco são os joelhos e eu praí não atiro. Mas é verdade que todas as culpas dos meus dias são da minha mãe, até porque se não fosse ela eu nunca tinha feito nada na vida. Nada mesmo nada. Tudo o que eu faço é pelo medo que lhe tenho! De manhã levanto-me cedo com medo que ela me apanhe a preguiça. É por ela que tenho sempre a casa (moderadamente) arrumada e o chão da cozinha o mais decente possível - a última vez que a minha mãe esteve em minha casa foi há mil anos e eu tinha-me esquecido de limpar o pó do ecrã do computador e tivede levar com aquellos ojos verdes a atirar-me contra a parede (ainda hoje sofro tormentas, mãe, e por isso da última vez comprei um portátil - está sempre protegido). Outra coisa que é mesmo mesmo culpa da minha mãe é o problema da literatura. Eu estava encaminhada para ser uma guna de boné para trás mas a minha mãe encasquetou que eu havia de gostar de ler! É daquelas coisas que as mães metem na cabeça e não há quem as segure. Eu estava ali muito bem a perseguir cães e a olhar para as formigas e veio ela e subornou-me com livros ad libidium na bertrand e não há como argumentar que não foi isto que me lixou os dias.  Toma aqui uma Sophia, olha o Eugénio, um bocadinho de Alice Vieira, olha tantas aventuras e vai daí e colei na cena (os livros são uma droga do caraças! aquilo às vezes é pior que cogumelos mágicos) e entretanto já comi de tudo - Marquez, Saramago, Roth, Beauvoir,  Niïn, Sartre e todas as coisas que fazem mal aos miolos. Culpa da minha mãe!
A última foi ontem!, nem vos conto! Se algum dia forem a casa da minha mãe, vão sentir-se a rainha da dinamarca (atenção,  fumar vale um raspanete!) - vai buscar as pratas, polir os cristais, rechear as sardinhas com sapateira, sacar do serviço vista alegre com o friso dourado e stressar como se a páscoa que não celebramos se tratasse e vocês fossem o senhor bispo. Mas dizia eu, ontem tive eu aqui em casa uns amigos para jantar - o gang do costume. Eu cá, ao contrário dela, adoro cozinhar e lá me atirei para a cozinha com um menú que não venderia por menos de 50€/cabeça (pão caseiro, amêijoas à bulhão pato, cenouras à algarvia, hummus, arroz de tamboril e mousse de lima, tudo bem regado com os melhores brancos alentejanos) e quando meti o pão no cesto pensei 'este paninho de linho bordado merecia uma última passagem com o ferro para tirar este meio vinco que anda pra'qui'. Felizmente fui capaz de sacudir os ombros e dizer 'sai de mim coisa ruim' e ignorar a dobra de forma altiva e dizer em voz alta 'ainda não,  mãe! resisitirei o mais que puder a tentação de sacar do ferro de engomar em cima da hora'. (dêem-me mais 5 anos)
De qualquer das formas, como é hábito - a culpa também deve ser da minha mãe, eu é que ainda não lhe descobri o caminho - já me distrai e o tema era ainda se morrer de coração partido em 2017 e queria fazer uma apelo sincero - don't go breaking hearts for fun!, ele há gente que não aguenta! E nem toda a gente tem uma mãe tão boa como eu!


sexta-feira, julho 21

Vaso ruim não quebra

"Aos que trazem coragem a este mundo, o mundo só pode quebrá-los matando-os, e por isso, é claro, mata-os. O mundo quebra toda a gente; no entanto muitos ficam mais fortes no lugar da fratura. Mas àqueles que não consegue quebrar, mata-os. Mata os muito bons, os muito doces, os muito corajosos, imparcialmente. Se não sois desses, também vos há de matar, mas nesse caso não será particularmente apressado."

- Hernest Hemingway, in “Adeus às Armas”

Quebrar, quebrou-se-me uma rótula (a direita) a posar para uma fotografia. Anos antes, era ainda miúda, rachou-se-me uma falange do indicador (também direito) por baixo de uma rocha numa saída de praia de Inverno em Ofir (salvou-me da morte certa, debaixo de uma pedra gigante, um marinheiro que por ali passava e ouviu os gritos da minha mãe. O meu pai ainda hoje jura que foi ele que levantou o paredão e a minha mãe pede-me silêncio quando eu digo que ainda hoje lhe vejo os braços de Popey e a tatuagem da âncora - ele há coisas que um pai tem de eliminar da sua história para continuar a ser grande e a minha mãe, neste momentos, relembra-o sempre de que foi ele que me apanhou quando gatinhei para dentro da piscina, mesmo antes de engulir o pirolíto que, eventualmente, destruiria a minha eterna alma de peixe e, quiça, a vida).
Uma rótula e uma falange.
Fora isso, já morri muitas vezes.
Trago em mim a sorte de ter crescido bicho. [É a vantagem de ser filha do meio - nem é surpresa nem é tardia, pode andar para ali feita mogli que só lhe darão pela falta se no final do dia não se apresentar para a revisão dos dentes lavados (eu chumbava, sem grandes penalizações para além de ter de repetir a fraca performance, dia sim dia senão).] Aprendi nos metrosideros da Foz com as lagartas como cair das alturas sem partir a cervical, e com os mexilhões do mar de Afife como fechar a concha em dias de porrada e aguentar o temporal. Aprendi com os gatos como gerir as sete vidas e felizmente apenas há um mês descobri que em 2017 ainda se morre mundo fora de coração partido e se alguém mo tivesse contado há 3 anos, teria sido mártir da causa.
Feitas as contas, devem sobrar-me 2 vidas inteiras mais esta que decidi dedicar ao disparate. Tenho fé na ciência e na minha avozinha que está no céu que antes que me ganhem, ainda levo como uma ou duas vidas extra. No entanto, tento não abusar da sorte. Pratico pilates e yoga todos os dias e sou capaz de me vergar feita cana verde.
Quebrar é que não quebro.

terça-feira, julho 18

Três raparigas riem no cruzamento enquanto esperam pela boleia para casa. Malas pousadas no chão. Ouço apenas os risos e frases soltas 'foi no quarto de banho misto' risos 'acho que não...' 'só tu!' Risos. Chega um homem de fato e gravata e pousa o saco de ginásio no chão junto à parede grafitada, olha para as miúdas e abre o saco. 'Acho que ele estava bêbedo...' Risos e o homem nem olha. Tira o casaco e pousa-o com o forro para fora no chão, aninha-se e tira do saco uma lata de tinta spray e começa a pintar a parede. Convém por ora dizer que não estou a inventar. Do 5○ andar ouvem-se apenas exeetos e neste momento (são 22:15),uma feijoada de frango apurava no fogão e eu tinha acabado de abrir um delicioso 'fonte da loba' reserva e estava no meu posto de vigia. Depois de me morrer a gata com um cancro do pulmão, não se fuma dentro de minha casa, com a excepção desta janela da cozinha. Tive um namorado que em dias de inverno fumava em frente do fogão, com o exaustor ligado num barulho ensurdecedor - eu cá não sei como se pode saborear um cigarro com aquele barulho, eu que mantenho o exaustor em boa forma embora prefira evitar qualquer cozinhado que precise do dito, o barulho desconcentra-me a arte de bem saborear o cozinhar. Enquanto as couves que a minha mãe cortou ontem da pequena horta que lhe entretem a reforma (as melhores couves do mundo) apuram a feijoada, só uma fervurazinha que são tão boas que até as comia cruas feita coelho, acendo o cigarro e saboreio a loba (é uma delícia - fazer lembrete que este é para repetir em nova promoção no pingo doce), vigio a central de camionagem. É um hábito que mantenho diariamente. Um dia dar-me-ão o título de faroleira da central, sendo que faroleiro, na minha terra, é sinónimo de cabaneira (custou-nos bastante descobrir o que ser cabaneira era, quando nos mudamos do Porto para Viana) ou, para falar português de Portugal inteiro, coscuvelheira, mas eu cá sou das faroleiras que só vigia para imaginar para onde vão e para o que vêem os que gostam de autocarros - eu cá sou de pessoa de comboios, estou a ver se os entendo. Isso e por ter na parte de trás de cabeça aquela música dos belle and sebastian que teima que o meu amor virá no último autocarro a sair da cidade (ainda estou para perceber qual é! É que não param de entrar e sair e infelizmente o meu apartamento não dá para a saída oficial da central - daqui só vejos os perdidos ou os que já têm quem os venha buscar). Junto à janela está o tanque de lavar roupa onde me sento todos os dias para fumar o cigarro. Por motivos práticos, não o uso para lavar roupa - ficava sempre com o rabo molhado - e na mais que prometida remodelação da minha cozinha (ai por favor, tirem-me estes frisos dos móveis e este chão preto onde dois segundos depois de se lavar se vêem as pegadas do gato!) ficará no mesmo sítio (todas as casas têm de ter um tanque de lavar a roupa, diz a minha mãe), mas terá um tampo de madeira que poderei baixar e uma almofada confortável para me sentar neste cigarro mesmo antes das couves cozerem. 'Acho que não lhe vou ligar' diz uma delas mesmo antes da boleia chegar. O homem, entretanto, afinal, só retocou as sapatilhas do desenho que já lá estava, voltou a pegar no casaco, sacudiu-o um bocadinho antes de o pôr ao ombro e seguiu avenida abaixo. As couves estão prontas. Abusei no piri-piri, mas a feijoada está uma delícia. Um dia gostei de um rapaz que não gostava de leguminosas. No dia em que mo disse percebi que a nossa relação nunca teria futuro. Às vezes ainda durmo com ele, mas tenho a noção que a não ser que os belle and sebastian tenham razão, vou acabar sozinha. E não pensem que este pensamento me entristece. Neste preciso momento o gato entra-me na cozinha e roça-se nas minhas pernas 'já te disse que nos próximos meses não te abandono? Um brinde a isso, Adolfo?'