Tenho, como quase todas as pessoas deste mundo, mesmo as que o praticam, um preconceito contra blind dates e suspeito, como quase todas as pessoas deste mundo, de sites de encontros amorosas. Apesar disso, tenho também uma Alcina Lameiras na minha cabeça que repete vezes sem fim 'não negues à partida uma ciência que desconheces'.
É verdade que estava triste e aborrecida naquele domingo chuvoso e esse é quase sempre um primeiro passo para a asneira. É verdade também - juro - que embora fosse domingo, dia de não assinar boletins de vacinas e de, como tal, não saber a data exacta, o meu coração soubesse (e eu não) que faziam exactamente 4 anos que o meu coração tinha caído ao chão.
Entrei para ver como era. E para matar o tédio virando para a esquerda ou para a direita, com regras. Os giros muito giros não. Homens sem t-shirt não. Descrições com abreviaturas ou emojis não. Homens com fotos de carros não. Homens com barbas desenhadas por barbeiros da moda não. Homens com fotos demasiado desportivas não. Homens sem foto não. Homens com fotos de paisagem não. Homens a fazer pose do tipo do Martini não. Homens a prometer o melhor sexo do mundo não. Homens a dizer que ele e a mulher estão à procura de alguém para uma menage não. Miúdos não. Homens com citações filosóficas não. Aos outros, por defeito, sim. Aos amigos (felizmente só me cruzei com um), um superlike, que se dizemos sim a alguém que não conhecemos de lado nenhum, temos de dar superlike a um amigo.
Eu gosto de jogos, mas aquele não tem piada nenhuma. É tipo spectrum. Esquerda direita esquerda esquerda esquerda esquerda e de vez em quando uma mensagem a dizer 'então a menina como está hoje?' e eu a rebolar os olhos.
É que eu nem sequer ando à procura de ninguém (digo eu para mim própria, a convencer-me que a solidão e a liberdade me servem como uma luva).
Volta e meia lá aparece um tipo mais engraçado e a conversa vai fluindo até eu me aborrecer ou ele se aborrecer.
Cansei-me do jogo em menos de 1 semana e só por educação, mandei mensagem a 2 tipos a avisar que me ía. Não eram eles, nem era eu, ou era eu e a falta de pachorra para o jogo. Um deles respondeu-me de imediato e pediu-me o whatsapp. Dei mais por instinto do que por convicção e apaguei a aplicação. 2 minutos depois mandou-me uma mensagem a dizer que podiamos falar por ali, se me apetecesse, se lhe apetecesse. Apetecia-me. Falamos. Ligou-me. Não atendi. Falamos no dia seguinte e ligou-me. Não atendi. Falamos. Falamos. Marcou um encontro e eu disse que não gostava disso e ele disse que também não. Fui. Não acabei sem um rim. Diverti-me. Ele também, pelo que me disse quando falamos quando cheguei a casa. Ligou-me e eu não atendi. Liguei-lhe. Tinha o telefone desligado.
Ligou-me de volta e chamou-me baixinha. Acho que ele não tem jeito nenhum para isto. Ninguém chama baixinha a uma pessoa depois de um jantar. Coitado. Ninguém vai pegar nele. Vai ficar sozinho para o resto da vida. E nem merece, que é bom rapaz. E giro. Bem giro. Se calhar, só para ele não ficar muito sozinho, saio com ele outra vez. Eu que nem queria...
sexta-feira, fevereiro 23
segunda-feira, fevereiro 19
O meu coração tem dias em que habita em buracos negros. A minha mãe furibunda-se e insiste para eu trazer essas negras paixões para a luz do sol, sentar-me na varanda com a primeira luz da manhã e estendê-las a corar na relva de Carreço, botar-lhes neoblanc que nem gentil precisa de ser, à bruta, se rasgar, rasgou - lixo com elas. Arranjam-se novas.
Eu não digo nada ou digo que vou tomar banho e isso já passa. Gostava de ter coragem de lhe perguntar se alguma vez mergulhou num buraco negro, se entende do que falo, se já viu o infinito buraco tão cheio de nada, se acha que é resistível, o mergulho? Se sabe do que o Eugénio falava quando dizia 'que todas as coisas estremeciam só de murmurar o teu nome no silêncio do meu coração'?
Oh mãe, não me peças paixões alvas e calmas e umbigos que não se colam às costas
Apanha-me os cacos sempre que os meus olhos castanhos se encherem de mar, ou dá-me chá de camomila quando as olheiras denunciarem insónias. Dá-me tu o amor paz, mas deixa-me beber com as duas mãos do fundo do poço.