segunda-feira, fevereiro 19

O meu coração tem dias em que habita em buracos negros. A minha mãe furibunda-se e insiste para eu trazer essas negras paixões para a luz do sol, sentar-me na varanda com a primeira luz da manhã e  estendê-las a corar na relva de Carreço, botar-lhes neoblanc que nem gentil precisa de ser, à bruta, se rasgar, rasgou - lixo com elas. Arranjam-se novas.
Eu não digo nada ou digo que vou tomar banho e isso já passa. Gostava de ter coragem de lhe perguntar se alguma vez mergulhou num buraco negro, se entende do que falo, se já viu o infinito buraco tão cheio de nada, se acha que é resistível, o mergulho? Se sabe do que o Eugénio falava quando dizia 'que todas as coisas estremeciam só de murmurar o teu nome no silêncio do meu coração'?
Oh mãe, não me peças paixões alvas e calmas e umbigos que não se colam às costas
Apanha-me os cacos sempre que os meus olhos castanhos se encherem de mar, ou dá-me chá de camomila quando as olheiras denunciarem insónias. Dá-me tu o amor paz, mas deixa-me beber com as duas mãos do fundo do poço.

Sem comentários: