sábado, março 23

Dizer-te que sou do sol
Do sexo pela manhã
Do salto para fora da cama.
Dizer-te que sou dos rios
Ou dos mares revoltos
E que me aborrecem as águas paradas.
Dizer-te que, ainda de joelho coxo,
Corro e que não quero conquistar o mundo devarinho.
Que para ficar parada terei a velhice
Se lá chegar.
Que para a paz terei sempre a hora dos livros
E que os amores se querem com sede.
Ou não te dizer nada,
Que não o entendes.

terça-feira, março 12

Quando perco o pé faço listas para ver se não me perco de vez.
(perder o pé é tão fácil. a terra é-me tão estranha debaixo dos pés na maior parte dos dias, como se não fossemos feitos da mesma matéria - mica feldspato e quartzo. as leis da física com frequência esquecem-se de mim e nem a chuva em dia em que resolvi vestir vestido de meia manga me traz gravidade aos ombros. a minha cabeça não é daqui.)
A maioria das vezes nem reparo que aluei. Mas quando em pequeno percalço estatelo os olhos firmemente contra a parede azul da sala à procura de um quadro desalinhado que faça pandan comigo, apercebo-me que já não estou aqui. Às vezes (a maior parte das vezes) é depois da minha enfermeira em tom de brincadeira me dizer durante a tarde 'o que fez à doutora Helena? quem é você?'
(ninguém sabe realmente olhar para si próprio)
Então anoto tudo. As conversas que tenho de ter amanhã, ponto por ponto.
E faço lembretes no telemóvel.
Despertador para as sete e trinta e três só para olhar pela janela sempre aberta.
Despertador para as oito e dezassete para poder adiar vezes quase sem fim até às oito e cinquenta e três ou quatro.
Lembrete para mudar a água aos gatos às treze e cinquenta e nove.
Outro para limpar a areia às vinte e quarenta e sete.
Às sextas um lembrete para regar as plantas às vinte e uma e vinte e três.
Às quintas um lembrete para o cesto das meias por emparelhar.
Uma lista com as tarefas em atraso - os candeeiros do escritório, os apoios do aquecedor, o pagamento da via verde daquela vez que me esqueci que não tinha verde, as vacinas em atraso, arrumar a garagem, as prateleiras que há mais de um ano jurei que ia pôr na sala para os gatos serem mais altos.
O método que um dia há-de me fazer assentar.
Esta semana está difícil. Já acrescentei mais doze lembretes.
(terra. terra. terra.)
Apitos a horas aleatórias para não me esquecer de pensar menos, falar menos.
(calar calar calar não inventar novas histórias)
Falta pôr o alarme definitivo para te esquecer.
Preciso de me lembrar de te esquecer.

segunda-feira, março 11

Estou disponível para tudo.
Menos para nada.

segunda-feira, março 4

Carta à Rita

A semana passada a minha sobrinha de 10 anos ao jantar - tia, o que é o feminismo? E eu - o que é tu achas que é? E ela meio a medo 'é o machismo ao contrário?' Não resisti a um suspiro embora eu aos 10 anos também nunca me tivesse debruçado sobre o assunto. O suspiro foi em parte para mim, que ainda não lhe tinha ensinado e por isso eu hoje vou aborrecer-vos com uma pequena explicação dos pássaros. Este post é para a Rita, para o João e para a Sara, que é tão pequenina que quase só sabe dizer olá mas a quem eu, a seu tempo, tenciono explicar estas coisas todas outra vez, na esperança de que isto seja só um post histórico ao modo do 'no meu tempo'. É também para a Inês e para a Clara e para a Alice e para a Rosa e para a Maria e para todos as mulheres e homens que, não obstante as evidências, ainda não perceberam o que é o feminismo.

O feminismo é um movimento filosófico, politico e social que defende a igualdade de direitos (e obrigações) e oportunidades para homens e mulheres.
Sabes Rita, aí em casa todos fazem as tarefas por igual - tu e o João, a mãe e o pai, mas na maior parte das casas portuguesas não é assim. As mulheres portuguesas trabalham em casa (na casa que é de todos) muito mais horas do que os homens (dizem os últimos números que são mais 17 horas por semana!) - limpam o chão que todos pisam, cozinham a comida que todos comem, lavam a loiça que todos sujam, dobram as meias de todos, vão buscar os filhos e levá-los ao médico (os filhos que são do casal), vão às compras ao supermercado para que a casa de todos tenha tudo. 17 horas por semana é muito tempo e o único motivo para as mulheres terem de fazer estas coisas todas é terem nascido mulheres e porque a sociedade acha que estes trabalhos todos são coisas de mulheres.
Desde sempre que as mulheres ficaram com o papel de dona de casa, como se só elas o pudessem fazer, como se essas tarefas fossem uma vergonha para os homens. O que o feminismo defende é que estas tarefas todas não são coisas de mulher, mas sim coisas que as pessoas (homens e mulheres) devem partilhar. Tem lógica, não tem, Rita? E se os homens portugueses partilhassem igualmente estas tarefas, as mulheres portuguesas ganhavam 2h e 25 minutos por dia para fazerem o que quisessem, o que quer que isso seja. E isto também parece justo, certo?

Mas o feminismo, Rita, não se fica pela defesa da partilha das tarefas de casa. No trabalho as coisas também estão longe de ser justas. Os homens, em Portugal, ganham mais 17,5% do que as mulheres - isto significa que por cada euro que eu, por exemplo, pague ao João para me fazer qualquer coisa, só te pagaria a ti 82 cêntimos, só porque tu és rapariga. Isto para não falar das oportunidades de subir na carreira - é muito mais difícil para uma mulher chegar ao topo de uma carreira e minha querida, não é por sermos menos espertas que os homens, é só mesmo porque nos levantam mais dificuldades. Em Portugal há muito poucas mulheres chefes, ou directores, ou patroas.

Ai Rita, nem te vou falar sobre a violência física e psicológica sobre as mulheres. Aposto que já ouviste nas notícias que já morreram 11 mulheres vítimas de violência doméstica em Portugal, só este ano, e ainda nem chegamos à Primavera. Namorados e maridos que ainda acham que são donos das suas companheiras e que como donos, têm o direito a gritar-lhes, ameaça-las, abusar delas, bater-lhes e quando elas não se resignam, a matá-las. E para mais, apesar de a violência doméstica ser um crime publico, há muito poucas condenações efectivas para os homens que agridem e assustam as mulheres e ainda há juízes que acham que não há nada de mal em um grito ou um estalo.

Ser mulher às vezes é difícil. Conheces a palavra 'estereótipo'? Estereótipos são imagens preconcebidas de uma pessoa ou grupos de pessoas e são usados principalmente para definir e limitar pessoas na sociedade. O estereótipo da mulher na sociedade ainda é o de um ser humano meigo, doce, fraco, bonito, caseiro, com jeito para a cozinha e para o pano do pó, fã de novelas e até algo fútil e infantil. Mas Rita, nós somos fortes e não temos de nos deixar limitar pelo estereótipo. E se umas têm jeito para os bolos outras têm para a bola. As mulheres não são todas iguais, como os homens não são todos iguais, mas todos (homens e mulheres) temos direito de sermos o que quisermos.

Rita, não vou massacrar-te contando como ainda há tão pouco tempo as mulheres não podiam estudar, nem votar, nem conduzir, nem ganhar dinheiro, nem gerir o seu próprio dinheiro, nem viajar, nem ser pintoras ou escritoras ou jogadoras de futebol ou maratonistas ou médicas, nem usar minissaias, nem calças, nem decidir nada acerca da sua vida amorosa ou sexual, mas gostava que soubesses que se hoje nós podemos fazer estas coisas todas, é porque muitas feministas antes de nós lutaram pelos direitos das mulheres com unhas e dentes. E estas mulheres, felizmente, tiveram alguns homens ao lado delas, a lutar com elas, por elas, e por uma sociedade mais justa. O lugar da mulher já foi muito mais pequeno do que é hoje, mas há quem queira que o tempo volte para trás e nós não podemos deixar que isso aconteça. Para a frente é que é o caminho.

A história das mulheres é tão longa e há tantas coisas que eu ainda tenho de te contar, coisas que te vão tornar mais forte,  que te vão ajudar a não tropeçar ou tão só a andares de cabeça erguida ou a levantares-te mais rápido. Sabes Rita, estas coisas que te escrevo aqui, há muitas mulheres e muitos homens muito mais velhos que tu, que continuam a não saber. E por não saberem, e por não quererem saber, não me ajudam a mudar o mundo para melhor. Foi também para essas pessoas que eu escrevi devagarinho.

Dia 8 de Março é o dia internacional de Mulher. É o dia em que as mulheres celebram as lutas pela igualdade e se organizam para novas lutas. Eu, como todos os dias 8 de Março desde há muitos anos, vou celebrar este dia e vou para a rua para defender os nossos direitos - os meus e os teus, minha querida, para ver se te deixo um mundo melhor do que este.

E não, minha sobrinha diabrete e maluca, ser feminista não é ser machista ao contrário, não é querer mal aos homens nem a ninguém. Não te acredites em tudo o que se diz sobre as feministas. Ser feminista é defendermos que as mulheres são seres humanos de 1a qualidade e que como tal exigimos ser tratadas com igualdade e respeito, e isso incomoda muita gente.

Beijos grandes da tia que te adora

H.



sexta-feira, março 1

Precisava que me desarrumasses a sala.
Que entornasses o copo de vinho na toalha lavada.
Que me atrapalhasses as pernas.
Maldissesses os gatos.
Roubasses a manta.
Enrodilhasses os cabelos.
Desacertasses o tempo.

Que fora de horas e sem aviso,
Viesses desconcertar este silêncio.