quarta-feira, janeiro 31

Hoje houve um tremor de terra às 3.45 da manhã. O Instituto do Mar e da Atmosfera não lançou alerta de tsunami mas eu senti-o no meu quarto de aldeia e os quadros que não tenho nas paredes brancas tremeram todos durante exactamente dois segundos arrancando-me (a mim e a uma coruja à distância) do sono profundo. Ainda ponderei meter-me debaixo da cama mas ela é muito baixa. É um esconderijo perfeito para gatos e restos de pijama em noites mais calorosas. Aguardei um pouco à espera da réplica mas nada. Levantei-me da cama e espreitei pela janela e a lua não só não balançava no céu como reflectia brutal sobre o mar. Não me lembro de alguma vez ter visto isto desta janela que é minha há tantos anos. Tudo isto porque nunca um tremor de terra me acordou às 3.45 da manhã. Olhei o fundo do jardim e vi os cães a dormir descansados e percebi que não havia perigo. Podia voltar a dormir com a lua nos olhos. Contemplei mais uns minutos e voltei para o ninho.
Às 7.26 veio a réplica. Toda eu a tremer. As almofadas várias a mudarem de sítio. A coruja a piar novamente ao fundo. O rumor da água que atravessa o jardim a fazer espuma. O farol que normalmente alumia Carreço de amarelo a piscar vermelho. Os cães a dormir. E eu a abençoar o terramoto que me tirou do sono para esta imagem.
Um dia calarão também os faróis.
Os gps e os barcos de condução automatizada, bem como a transformação da orla costeira em fábricas de multiplicar peixe para alimentar as grandes superfícies, ditarão a sua morte. O senhor militar cujo trabalho é polir o corrimão da escada em caracol que leva até à lampada que me ilumina o quarto será recolocado numa missão de paz armada num sítio qualquer.
Nem um barco cruzará as águas bravas à deriva e por isso, a rapariga de Carreço não achará o seu amor.
Até esse dia chegar, nos meus domingos de aldeia, porei o despertador para as 3.45 e outro para as 7.26. Vigiarei Montedor por vocês. Podem dormir descansados. O IPMA quer pouco saber destes pequenos sobressaltos. Alerta-vos-à se algo mais grave se passar. Para estas histórias de pouca importância estarei cá eu.


sábado, janeiro 6

Temeste que eu fosse âncora quando tu querias ser livre de tudo
Não reparaste que a minha força não era gravítica, não prendia o barco em nenhum cais.
Era vento, eu, que empurrava para onde virasses as velas, caso te tivesses lembrado de as içar.
Soprei e perdi o fôlego e o teu barco não passou do ondular da espuma.