quarta-feira, novembro 30
um dos meus maiores problemas é a saudade. eu tenho saudades de tudo! e não me venham com a história de que é porque estou emigrada, que não tem nada a ver com isso. sempre tive saudades de tudo. tenho saudades de quando tinha 4 anos e subia aos metrosideros da foz com totós ridículos no alto da cabeça, tenho saudades de quando viva junto à linha do minho e acordava duas vezes por noite (no tempo em que ainda havia comboios à noite) com a casa a estremecer; tenho saudades de achar que era muito esperta e sabia muito e vai-se a ver tinha só 15 anos; tenho saudades de perseguir a empregada e fazer de conta (durante horas) que era a sua sombra até, ela no pino do desespero, me dar 50 escudos para eu ir alugar um filme. tenho saudades de quando os filmes custavam 50 escudos e saudades de quando o teclados dos computadores tinham o símbolo dos escudos. Tenho saudades (muitas muitas muitas) dos domingos de manhã em família e aquele momento esquisito em que ninguém saía do carro porque o Júlio Machado Vaz estava a falar acerca do Sexo dos Anjos e nós os 5 queríamos ouvir. Tenho saudades do tempo da universidade e do gozo que me dava chegar ao café antes da Joana para fazer as palavras cruzadas todas. Tenho saudades de atravessar o Marão no Inverno, cheia de medo, ao Domingo. Tenho saudades da minha primeira casa pequena e da minha segunda casa que era um caos até de manhã com gente feliz a jogar catan até muito depois de eu ir dormir. Tenho saudades de todos os meus amores, saudades até dos meus desamores, saudades de todos os pedaços que vivi e que anotei e das cicatrizes que trago, saudades do gato, da sala, de todos os amigos, dos amantes, daqueles com quem só falei uma vez, num hostel em Copenhagen (ou em Braga), saudades de tudo, saudades de TUDO, e isto não me digam que é ser portuguesa! isto é só ter a certeza de, até à data, ter vivido muito bem.
quinta-feira, novembro 10
23° Reunião da Associação Amizade Cena - Coiso
Porque o Mundo nos chamou, via assobio dos pássaros, mal saíram os resultados das eleições americanas, do nosso estádio de latência, e os esquilos bateram na janela meio gelada e os patos deram 3 voltas sobre a casa em formação, sinal que esperávamos todos os dias desde fomos mandados acalmar e tricotar os dias à lareira.
Temos sempre as malas prontas (é só apanhar as meias sujas de ontem do chão e o pijama) e sabemos o protocolo de cor e salteado e lá me faço ao caminho.
Temos de estar sempre atentos, até chegar ao ponto de encontro no meio da floresta. Por exemplo, faz parte do protocolo sair do comboio uma estação antes da estação de ligação - preferencialmente em estações internacionais que é onde a confusão é tão grande que não se dá por uma backpacker de metro e meio - e sem ninguém reparar entrar na carruagem seguinte. É assim que se despista o senhor com a caixa do violoncelo (toda a gente sabe que é a forma mais segura de transportar uma bazuca) e a senhora implacavelmente vestida de preto e de sobretudo e bâton vermelho (são mundialmente conhecidas as histórias de drama e traição em que estas personagens se envolvem, quase sempre com altos riscos para os agentes como eu). É preciso apanhar pelo menos 3 comboios diferentes e evitar os lugares perto dos wc, se possível, embora isto seja por motivos de conforto dos próprios agentes. Às vezes é preciso ir para Sul quando na verdade se quer ir para Norte e juro-vos que uma vez fui até Minchihampton só para despistar um miúdo que viajava com uma prancha de longboard, quando o ponto de encontro era em Aberdeen e eu tinha saído de Wolverhapmton. Já me pediram até para perder aviões para confundir velhinhos em gabardines cinzentas (his bow tie was really a camera)
Eles estão em todo o lado, os agentes do medo e do ódio . Eu sei que não parece, mas isso é porque o facebook nos trata como putos do infantário e nos junta em grupinhos bonitos e homogéneos e não nos deixa ver os outros meninos. Mas eles estão aí, em todas as esquinas de todas as vilas, atrás dos balcões dos bares, nos bancos de trás das igrejas (de todas igrejas), nos bancos de jardim e da City, a empurrar rua abaixo os carrinhos de bebés tapados para ninguém ver que carregam sacos de granadas e propaganda quase tão letal como as primeiras.
Nós somos poucos e muitos são demasiado novos para intervir, como o miúdo com o boné do homem-aranha que saiu hoje comigo em Banbury. É claramente um dos nossos, mas com 3 anos tem de se limitar à função de fazer birras em plenos pulmões dentro de áreas comerciais ou de restauração para permitir a fuga discreta de um agente sénior. Ainda assim, porque eu não estava em perigo, este não fez mais do que sorrir para mim (coisa que deveria ter evitado, já que o contacto entre agentes só deve ocorrer em lugares seguros, mas não se pode pedir tanto a uma criança de 3 anos e nós, apesar de sermos agentes, somos humanos).
Lá para as 16.17 chegarei à estação final (sempre a 4 estações da mais próxima do ponto de encontro) e esperarei cerca de 23 minutos e 33 segundos até que chegue um carro descaracterizado para me levar até à floresta.
Hoje haverá cerveja e abraços. Talvez batatas assadas. Devo ser das primeiras agentes a chegar, já que não estava estacionada muito longe.
Há cerca de 5 anos que não reunimos a associação amizade cena - coiso que tem como fachada a melhoria das relações entre Braga e Guimarães. Ninguém vai estranhar 3 minhotos numa floresta inglesa. Daqui, faremos planos sinceros para salvar o mundo.
Temos sempre as malas prontas (é só apanhar as meias sujas de ontem do chão e o pijama) e sabemos o protocolo de cor e salteado e lá me faço ao caminho.
Temos de estar sempre atentos, até chegar ao ponto de encontro no meio da floresta. Por exemplo, faz parte do protocolo sair do comboio uma estação antes da estação de ligação - preferencialmente em estações internacionais que é onde a confusão é tão grande que não se dá por uma backpacker de metro e meio - e sem ninguém reparar entrar na carruagem seguinte. É assim que se despista o senhor com a caixa do violoncelo (toda a gente sabe que é a forma mais segura de transportar uma bazuca) e a senhora implacavelmente vestida de preto e de sobretudo e bâton vermelho (são mundialmente conhecidas as histórias de drama e traição em que estas personagens se envolvem, quase sempre com altos riscos para os agentes como eu). É preciso apanhar pelo menos 3 comboios diferentes e evitar os lugares perto dos wc, se possível, embora isto seja por motivos de conforto dos próprios agentes. Às vezes é preciso ir para Sul quando na verdade se quer ir para Norte e juro-vos que uma vez fui até Minchihampton só para despistar um miúdo que viajava com uma prancha de longboard, quando o ponto de encontro era em Aberdeen e eu tinha saído de Wolverhapmton. Já me pediram até para perder aviões para confundir velhinhos em gabardines cinzentas (his bow tie was really a camera)
Eles estão em todo o lado, os agentes do medo e do ódio . Eu sei que não parece, mas isso é porque o facebook nos trata como putos do infantário e nos junta em grupinhos bonitos e homogéneos e não nos deixa ver os outros meninos. Mas eles estão aí, em todas as esquinas de todas as vilas, atrás dos balcões dos bares, nos bancos de trás das igrejas (de todas igrejas), nos bancos de jardim e da City, a empurrar rua abaixo os carrinhos de bebés tapados para ninguém ver que carregam sacos de granadas e propaganda quase tão letal como as primeiras.
Nós somos poucos e muitos são demasiado novos para intervir, como o miúdo com o boné do homem-aranha que saiu hoje comigo em Banbury. É claramente um dos nossos, mas com 3 anos tem de se limitar à função de fazer birras em plenos pulmões dentro de áreas comerciais ou de restauração para permitir a fuga discreta de um agente sénior. Ainda assim, porque eu não estava em perigo, este não fez mais do que sorrir para mim (coisa que deveria ter evitado, já que o contacto entre agentes só deve ocorrer em lugares seguros, mas não se pode pedir tanto a uma criança de 3 anos e nós, apesar de sermos agentes, somos humanos).
Lá para as 16.17 chegarei à estação final (sempre a 4 estações da mais próxima do ponto de encontro) e esperarei cerca de 23 minutos e 33 segundos até que chegue um carro descaracterizado para me levar até à floresta.
Hoje haverá cerveja e abraços. Talvez batatas assadas. Devo ser das primeiras agentes a chegar, já que não estava estacionada muito longe.
Há cerca de 5 anos que não reunimos a associação amizade cena - coiso que tem como fachada a melhoria das relações entre Braga e Guimarães. Ninguém vai estranhar 3 minhotos numa floresta inglesa. Daqui, faremos planos sinceros para salvar o mundo.
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