Hoje queria fazer um esclarimento. O dia internacional da mulher não é o dia de S. Valentim. Também não é o dia dos irmãos ou dia da Andreia da rádio comercial. Não é dia de oferecer bombons ou jantares à luz das velas, nem de enviar flores virtuais para os murais do facebook. Não é feriado religioso com direito a copos na noite anterior para os ateus e católicos não praticantes. Garotos, descansem, nem é dia de mimar a namorada nem de pequeno-almoço na cama.
Não é sequer dia de festa, que as mulheres, em Portugal, ainda têm pouco a celebrar.
Se fossemos homens, para obter o mesmo ordenado no final do ano, poderiamos começar a trabalhar só no final da próxima semana, tal é a disparidade salarial e aí, sim celebrariamos os 79 dias do ano em que não precisavamos de trabalhar de graça. Assim como assim, usariamos com prazer essas horas vagas para apanhar as meias do chão e fazer as tarefas domésticas que ainda nos caem maioritariamente nos ombros pós-laborais. São 17 horas por semana as horas a mais em relação aos companheiros homens que as mulheres dedicam à casa. Se as tivessemos para nós e para pôr os pés no sofá e ver a bola com uma cerveja na mão, aí, talvez celebrassemos com serpentinas nas ruas. Foram 17 as mulheres que morreram o ano passado às mãos dos companheiros e 23 as que foram vítimas de tentativa de homicidio. Se elas estivessem connosco, talvez fossemos todas lanchar ao café. Se as mulheres lideres não fossem chamadas de 'mandonas' ou 'vacas insensíveis' e tivessem direito a ser chamadas com orgulho de alpha, e podessem sem insultos chegar aos cargos de chefia, à política, às empresas sem ser por quotas e aí, iríamos com cornetas fazer cortejo bonito de cabelos ao vento.
Não é o caso.
Ainda é preciso ter sorte para se ser bem mulher em Portugal. Eu admito que sou uma sortuda, mas os números que acima descrevi não me deixam celebrar o meu dia como se fosse de festa.
Caríssimos concidadãos, celebrar o dia da mulher é compreender que estes números são uma vergonha. Celebrar o dia é exigir que a igualdade seja a norma, é apoiar a luta das trabalhadoras, a segurança da vizinha a quem o marido grita, o fim do insulto fácil às mini-saias e a divisão equalitária das tarefas domésticas sem desculpas. Todos os dias do ano. Até que o 8 de Março seguinte mostre resultados.
As flores, como a Mrs Dalloway nos ensinou, compraremos nós próprias.