quarta-feira, março 21

Recentemente descobri um poema chamado 'to Helena'. Eu já li muitos poemas escritos para a Helena, mas eu não sou a de Tróia. A minha beleza não faz ninguém virar a cara na rua, quanto mais inspirar campanhas bélicas e mortos, nem tenho a força fria das mulheres de Atenas, nem a minha dor é tão cinzenta como o Chico canta, são outra Helena, essas musas.
Eu sempre quis ser um poema. Uma coisa simples em folha de papel, preto sobre branco, tinta sobre tronco de árvore morta, material mastigável, saboreável, deglutível, intragável às vezes, dar nós nas gargantas, furar úlceras no estômago. Ou borboletas. Atravessar as mucosas gastrointestinais e espalhar-me feito vírus, fazer corar a pele e levantar os pêlos, provocar contracção dos músculos pélvicos e erecção dos orgãos genitais.
(não ter corpo, nem pernas, nem mamas nem cabelos por pentear)
Depois contrair-me, agarrar-me ao nervo vago, colada ao diafragma, memória esquecida e visceral, feito sombra à espera do momento solar onde possa, sem testemunhas, encostar a ponta da faca à base do coração ou ao umbigo - os lugares onde vivem as humanas inquietações  - no segundo exacto em que os pássaros cruzam os céus.
Recentemente descobri um poema chamado 'To Helena'. É do Ruy Belo e eu, afinal, sou um advérbio.

'To Helena
Acabo de inventar um novo advérbio: Helenamente
A maneira mais triste de se estar contente
a de estar mais sozinho em meio de mais gente'


quinta-feira, março 15

Poema para a Adília

Eu às vezes falo com pessoas que não têm cara.
Ou têm cara de boneco.
Eu tenho sempre cara.
Quando falo muito tempo com pessoas que não têm cara, tenho medo que sejam muito feias.
Ontem falei muito com uma pessoa que tinha cara de janela alta.
Depois de falar muito com ele, perguntei-lhe se era muito feio.
Não era. Era muito bonito.
Tive medo.

sábado, março 10

O meu pai era lindo e eu dançava em cima dos pés dele, ambos descalços. Eu era tão pequena que ele não me pegava pela cintura e eu segurava-o pelas coxas. Dançavamos um passo para o lado e dois para o outro, devagarinho porque o equilíbrio era fraco. Ele punha o Chico a tocar e como lesmas deslizávamos pela sala. Isto acontecia quase sempre pela manhã. Ele só dançava comigo e por isso eu nunca tive ciúmes. Era só meu, aquele momento orgulhoso de complexo de Electra.
Depois, um dia, cresci e deixámos de dançar na sala e eu, pesada e adolescente, tinha pena de não ter os pés leves sobre os dele.
Um dia, arranjei outros pés (menos doces) onde dançar, e o meu pai teve ciúmes. Fugi-lhe para onde ele não me visse dançar, que o ciúme dos nossos amores é feio de se ver.
Passaram mil anos e nunca nenhuns pés foram tão fortes debaixo dos meus. E nunca mais, nenhuns pés dançaram de manhã. E agora, quando olho o meu pai, não tenho coragem de recolher o ciúme e dizer-lhe ao ouvido, no meio da valsinha, pai, ninguém dança como tu.
Hoje fui, pela primeira vez, a uma aula da dança. Fui sozinha, como ando quase sempre pelo mundo. Rodávamos parceiros com frequência e um dos rapazes, quando o professor gritava 'troca' sorria e dizia 'até já'. Ai pai, quase o convidei para dormir no meu sofá para amanhã de manhã botar Chico e lhe subir para os pés.

quinta-feira, março 8

Carta aos concidadãos no dia da mulher

Hoje queria fazer um esclarimento. O dia internacional da mulher não é o dia de S. Valentim. Também não é o dia dos irmãos ou dia da Andreia da rádio comercial. Não é dia de oferecer bombons ou jantares à luz das velas, nem de enviar flores virtuais para os murais do facebook. Não é feriado religioso com direito a copos na noite anterior para os ateus e católicos não praticantes. Garotos, descansem, nem é dia de mimar a namorada nem de pequeno-almoço na cama.

Não é sequer dia de festa, que as mulheres, em Portugal, ainda têm pouco a celebrar.

Se fossemos homens, para obter o mesmo ordenado no final do ano, poderiamos começar a trabalhar só no final da próxima semana, tal é a disparidade salarial e aí, sim celebrariamos os 79 dias do ano em que não precisavamos de trabalhar de graça. Assim como assim, usariamos com prazer essas horas vagas para apanhar as meias do chão e fazer as tarefas domésticas que ainda nos caem maioritariamente nos ombros pós-laborais. São 17 horas por semana as horas a mais em relação aos companheiros homens que as mulheres dedicam à casa. Se as tivessemos para nós e para pôr os pés no sofá e ver a bola com uma cerveja na mão, aí, talvez celebrassemos com serpentinas nas ruas. Foram 17 as mulheres que morreram o ano passado às mãos dos companheiros e 23 as que foram vítimas de tentativa de homicidio. Se elas estivessem connosco, talvez fossemos todas lanchar ao café. Se as mulheres lideres não fossem chamadas de 'mandonas' ou 'vacas insensíveis' e tivessem direito a ser chamadas com orgulho de alpha, e podessem sem insultos chegar aos cargos de chefia, à política, às empresas sem ser por quotas e aí, iríamos com cornetas fazer cortejo bonito de cabelos ao vento.

Não é o caso.

Ainda é preciso ter sorte para se ser bem mulher em Portugal. Eu admito que sou uma sortuda, mas os números que acima descrevi não me deixam celebrar o meu dia como se fosse de festa.

Caríssimos concidadãos, celebrar o dia da mulher é compreender que estes números são uma vergonha. Celebrar o dia é exigir que a igualdade seja a norma, é apoiar a luta das trabalhadoras, a segurança da vizinha a quem o marido grita, o fim do insulto fácil às mini-saias e a divisão equalitária das tarefas domésticas sem desculpas. Todos os dias do ano. Até que o 8 de Março seguinte mostre resultados.

As flores, como a Mrs Dalloway nos ensinou, compraremos nós próprias.