sábado, março 10

O meu pai era lindo e eu dançava em cima dos pés dele, ambos descalços. Eu era tão pequena que ele não me pegava pela cintura e eu segurava-o pelas coxas. Dançavamos um passo para o lado e dois para o outro, devagarinho porque o equilíbrio era fraco. Ele punha o Chico a tocar e como lesmas deslizávamos pela sala. Isto acontecia quase sempre pela manhã. Ele só dançava comigo e por isso eu nunca tive ciúmes. Era só meu, aquele momento orgulhoso de complexo de Electra.
Depois, um dia, cresci e deixámos de dançar na sala e eu, pesada e adolescente, tinha pena de não ter os pés leves sobre os dele.
Um dia, arranjei outros pés (menos doces) onde dançar, e o meu pai teve ciúmes. Fugi-lhe para onde ele não me visse dançar, que o ciúme dos nossos amores é feio de se ver.
Passaram mil anos e nunca nenhuns pés foram tão fortes debaixo dos meus. E nunca mais, nenhuns pés dançaram de manhã. E agora, quando olho o meu pai, não tenho coragem de recolher o ciúme e dizer-lhe ao ouvido, no meio da valsinha, pai, ninguém dança como tu.
Hoje fui, pela primeira vez, a uma aula da dança. Fui sozinha, como ando quase sempre pelo mundo. Rodávamos parceiros com frequência e um dos rapazes, quando o professor gritava 'troca' sorria e dizia 'até já'. Ai pai, quase o convidei para dormir no meu sofá para amanhã de manhã botar Chico e lhe subir para os pés.

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