quinta-feira, fevereiro 11

O preço de um poema

É triste constatar que um poeta consegue fazer mais tostões escrevendo ou falando da sua arte do que a praticá-la.
O lamento tem décadas e vem assinado por W.H. Auden, mas serve completamente para hoje.
Se aceitássemos, sem mais, que o valor intrínseco de um bem é aquele determinado pelo seu potencial económico, a poesia já há muito teria desaparecido.
Mas na situação actual, onde as questões de produção artística e cultural são mais ou menos remetidas para um limbo, não se pode garantir que a extinção não seja uma efectiva ameaça.
Sabemos que uma carcaça anda à volta de 20 cêntimos, e um litro de leite anda à roda dos 60 e por aí fora. São números que muito justamente nos preocupam enquanto indicadores das linhas de sobrevivência.
Mas quanto custa um poema?
Quanto custa mesmo um poema? Quanto é que nos custou o nosso poema nacional, os Lusíadas, e quanta pobreza custou a Camões? Quanto custou a obra de Álvaro de Campos, que é tão extraordinária como o claustro do Mosteiro dos Jerónimos onde jaz o seu criador.
Quanto custou Um Adeus Português  de Alexandre O'Neill, ou a Natureza Morte com Louvadeus de Fiama Pais Brandão? Que preço, colectivamente, nós pagamos por a Magnólia  de Luíza Neto Jorge ou por O Inominável de Eugénio de Andrade?
Sentimos em dívida por Armando Silva Carvalho ter escrito, no nosso tempo e a nosso lado, um conjunto tão extraordinário de poemas, como o do seu De Amore?
Os poetas precisam que a sociedade pergunte se tem a pagar alguma coisa.

José Tolentino Mendonça

De volta a casa por três dias e duas coisas me inquietam.
A primeira é grave.
É como quando faço o primeiro exercício de yoga tibetano, logo de manhã (o meu preferido) - braços abertos à altura dos ombros e rodopiar 21 vezes sobre mim própria, jogo de criança, muito rápido, mais rápido, terminando sempre naquele atraso do cérebro em perceber que o corpo já parou e os olhos, a olhar fixos para a frente, vêem o fundo da sala que estão nas minhas costas e volta devagarinho, quase tímido, 'adiantei-me, não foi?'. É o gato. Sabendo eu que ele já não mora aqui, o canto do meu olho vê-o a toda a hora em todas as esquinas - é a sombra das folhas das plantas da varanda ao vento ou só a minha sombra mas é o gato, o canto do olho vê o gato que deixei em casa da minha irmã há mais de 1 semana, o gato de quem recebo notícias diárias - continua tímido, aparece só meia hora depois dos miúdos irem dormir e mesmo assim a medo, mas ontem já ganhou coragem e se esticou no mimo do sofá ao lado do meu cunhado.
O gato é o primeiro.
O segundo são as chamadas não atendidas de números não identificados. Como o gato - sombra, canto dos óculos, folhas ao vento - as chamadas que não tocam, não oiço,  ou oiço mas não consigo atender a tempo (e corro, juro que corro) e que são  a sombra de serem tuas.

domingo, fevereiro 7

Ela não fuma, não bebe (nunca apanhou uma bebedeira), não joga. Apagou recentemente a conta de facebook. Tem medo dos vícios. Tem medo de cair dentro de um e nunca mais se encontrar.

Ele é o contrário. Vive nos excessos. Ri alto e barafusta como um louco para no segundo seguinte lhe fazer uma festa e dizer 'mas eu sou o teu ursinho'. Gosta de  medronho mais do que do ar que respira. Por respeito a ela, nunca bebe mais do que um copo.

Ela queria viver no campo, um monte no Alentejo, longe de todos. Vir à cidade só de vez em quando, para matar saudades.

Ele não gosta de comer em casa. Detesta a ideia de que depois de comer ficam pratos para lavar. Por ele, viviam num quarto de hotel e comiam todas as refeições num restaurante.

Ela mantém o instagram por trabalho. Ele tira selfies mascarado de borrego.

O ninho de um lado e a loucura do outro.
Faz um ano que passam as 24h do dia juntos. Ela calma, ele louco. Ela medo, ele  nos píncaros. A culpa é das mães - a dela sempre a achou feia, a dele abandonou-a com 9 meses.

São felizes, e eu sou testemunha.

quarta-feira, fevereiro 3

É quando estou em quartos de hotel
E a minha porta range
Que me lembro de como era bom
Saber atravessar paredes.

terça-feira, fevereiro 2

No meu sonho acordei muito mais cedo enquanto, na verdade, continuei a dormir. Também é verdade que no meu sonho estava escuro e frio e, por isso mesmo, saltei a ginástica matinal e dirigi-me para o shopping para sessão das 7 da manhã.
Entro de cabeça baixa, tentando passar despercebida entre as empregadas de limpeza. É que o shopping, como toda a gente sabe, só abre às 10.
Entretanto abro um olho, enquanto calo o despertador, e o nascer do sol, vermelho sobre Évora atira-se pela portada. Mas não há nada a fazer, já estou no shopping, agora é tarde para me levantar. É preciso continuar na fila com as empregadas para não dar nas vistas, o próprio movimento de lançar a mão para o telemóvel tem de ser muito suave, não vá a rapidez do braço alertar as senhoras. E na verdade, já não deve dar tempo para os 5 exercícios de yoga tibetano que prometi fazer.
Sigo alinhada até que me tocam no ombro - um homem, talvez 70 anos, de fato de fazenda xadrez amarelo-torrado, laço e chapéu de burel crava-me um cigarro. Fala baixo, também ele está ali infiltrado, não tem ar de vigilante e não trás um balde na mão como as senhoras. Dou-lhe o cigarro e ele segue, com ar mais ou menos confiante, até às escadas rolantes. Dá um passo para a primeira escada e ali fica, costas direitas, mão direita no corrimão de plástico , cigarro no canto da boca, à espera que as escadas comecem a subir. Às 10.
Vejo assim a minha vida andar para trás, para chegar ao cinema a horas (a sessão era às 7 ou às 7.15?) vou ter de ir pelas outras escadas, no outro canto do shopping. Há uma total falta de respeito, penso eu, em ocupar as escadas rolantes durante 3 horas. É, de facto, de um comodismo incrível. Ainda pondero usar as escadas ao lado, mas essas são para descer e mesmo paradas, correria graves riscos de, ao tentar subi-las, acabar com o nariz no chão.
Vou andando corredores fora e 4km depois começo a ficar cansada. Ligo o GPS para ver se estou no caminho certo e descubro que devia ter virado na quelha da herbanária, 200 metro antes. A menina do GPS resmunga 'vire à esquerda logo que possível' mas todos os corredores à esquerda são de sentido único e não me apetece nada galgar o separador central para fazer inversão de marcha. A menina do GPS começa a desesperar e às páginas tantas já está a gritar comigo 'vira à esquerda carago!'. Levanto a cabeça e reparo que 2 das da limpeza olham fixamente para mim. Sinto-me a corar. Não há como disfarçar - o casaco de peles por cima do pijama às flores denunciam-me. Endireito as costas, levanto elegantemente os óculos de sol e, com voz incisiva (e não canina), com travo doce a rosmaninho amadurecido em casco de carvalho (em pé) digo assertiva 'a montra da Zara tem dedadas de adolescente à espera da mesada'. Por acaso (ou destino) passa nesse momento um tuk-tuk puxado por ovelhas bordalesas com uma fadista de xaile minhoto a cantar um chorinho. Salto com ar de diva, acenando adeus às meninas da higiene suprema que já não me vêem porque correm beco abaixo atrás de um gato malhado. Pergunto inocente às ovelhas 'onde é a próxima paragem' e elas respondem num balido quase imperceptível que é na prova de vinhos nas Caves de Vinho do Porto. Olho para o relógio e constato que são 9 e 15 da manhã e eu tinha prometido estar na sala de pequeno-almoço  às 9.30 e ainda tenho que tomar banho. O vinho é tentador, até podia dar um saltinho aos avós para lhes dar um beijo e 2 de treta, mas lembro-me da máxima 'se conduzir não beba' e hoje sou a condutora até Portel.
Salto da cama, tropeço na base do chuveiro, dou uma cabeçada a um dos muitos senhores que já espera a mulher sentado no sofá à porta da H&M e mergulho no gel de banho.