No meu sonho acordei muito mais cedo enquanto, na verdade, continuei a dormir. Também é verdade que no meu sonho estava escuro e frio e, por isso mesmo, saltei a ginástica matinal e dirigi-me para o shopping para sessão das 7 da manhã.
Entro de cabeça baixa, tentando passar despercebida entre as empregadas de limpeza. É que o shopping, como toda a gente sabe, só abre às 10.
Entretanto abro um olho, enquanto calo o despertador, e o nascer do sol, vermelho sobre Évora atira-se pela portada. Mas não há nada a fazer, já estou no shopping, agora é tarde para me levantar. É preciso continuar na fila com as empregadas para não dar nas vistas, o próprio movimento de lançar a mão para o telemóvel tem de ser muito suave, não vá a rapidez do braço alertar as senhoras. E na verdade, já não deve dar tempo para os 5 exercícios de yoga tibetano que prometi fazer.
Sigo alinhada até que me tocam no ombro - um homem, talvez 70 anos, de fato de fazenda xadrez amarelo-torrado, laço e chapéu de burel crava-me um cigarro. Fala baixo, também ele está ali infiltrado, não tem ar de vigilante e não trás um balde na mão como as senhoras. Dou-lhe o cigarro e ele segue, com ar mais ou menos confiante, até às escadas rolantes. Dá um passo para a primeira escada e ali fica, costas direitas, mão direita no corrimão de plástico , cigarro no canto da boca, à espera que as escadas comecem a subir. Às 10.
Vejo assim a minha vida andar para trás, para chegar ao cinema a horas (a sessão era às 7 ou às 7.15?) vou ter de ir pelas outras escadas, no outro canto do shopping. Há uma total falta de respeito, penso eu, em ocupar as escadas rolantes durante 3 horas. É, de facto, de um comodismo incrível. Ainda pondero usar as escadas ao lado, mas essas são para descer e mesmo paradas, correria graves riscos de, ao tentar subi-las, acabar com o nariz no chão.
Vou andando corredores fora e 4km depois começo a ficar cansada. Ligo o GPS para ver se estou no caminho certo e descubro que devia ter virado na quelha da herbanária, 200 metro antes. A menina do GPS resmunga 'vire à esquerda logo que possível' mas todos os corredores à esquerda são de sentido único e não me apetece nada galgar o separador central para fazer inversão de marcha. A menina do GPS começa a desesperar e às páginas tantas já está a gritar comigo 'vira à esquerda carago!'. Levanto a cabeça e reparo que 2 das da limpeza olham fixamente para mim. Sinto-me a corar. Não há como disfarçar - o casaco de peles por cima do pijama às flores denunciam-me. Endireito as costas, levanto elegantemente os óculos de sol e, com voz incisiva (e não canina), com travo doce a rosmaninho amadurecido em casco de carvalho (em pé) digo assertiva 'a montra da Zara tem dedadas de adolescente à espera da mesada'. Por acaso (ou destino) passa nesse momento um tuk-tuk puxado por ovelhas bordalesas com uma fadista de xaile minhoto a cantar um chorinho. Salto com ar de diva, acenando adeus às meninas da higiene suprema que já não me vêem porque correm beco abaixo atrás de um gato malhado. Pergunto inocente às ovelhas 'onde é a próxima paragem' e elas respondem num balido quase imperceptível que é na prova de vinhos nas Caves de Vinho do Porto. Olho para o relógio e constato que são 9 e 15 da manhã e eu tinha prometido estar na sala de pequeno-almoço às 9.30 e ainda tenho que tomar banho. O vinho é tentador, até podia dar um saltinho aos avós para lhes dar um beijo e 2 de treta, mas lembro-me da máxima 'se conduzir não beba' e hoje sou a condutora até Portel.
Salto da cama, tropeço na base do chuveiro, dou uma cabeçada a um dos muitos senhores que já espera a mulher sentado no sofá à porta da H&M e mergulho no gel de banho.