segunda-feira, abril 25

Jardinar é preciso

Não é a primeira vez que aproveito um feriado para a jardinagem e quase sempre a analogia salta-me aos olhos. A democracia é um canteiro de varanda, ou um jardim, que o tamanho pouco importa.
Que alguém tenha deitado a semente já é ajuda. Cortaram, em 1974, as daninhas com serra eléctrica que é a única forma quando a selva se instala. A lei da selva diz que sobrevivem os mais fortes. Os mais gordos. Os mais aptos. Os ratos. As baratas. Os vírus. As ervas daninhas.
As ervas daninhas têm raízes fundas. Sobrevivem com metade da água que sugam à má fila deixando todas as outras à míngua. E crescem. Esticam-se rápido para os pálidos raios de sol de Inverno. Está frio e o que apetece é o banho de imersão que apesar da crise ainda há dinheiro para pagar a conta do gás - deixa-as crescer, lá para Abril, quando fizer sol, porei um cravo na lapela e passearei a camisola vermelha pelo centro da cidade.
A democracia é como o canteiro da varanda e as daninhas também dão flor -
os lírios d'água à procura de espelho, o trevo que nunca é da sorte são daninhas.
Mas a democracia não se dá na selva. A natureza, por mais bela que seja, não se preocupa com coisa nenhuma - nem com os pobres nem com os coxos. A lei da selva é a lei dura. É como Wall Street - eat or get eaten!
Eu, que gosto da selva, prefiro imaginar o meu país pouco tropical um pouco mais suave.
Trato das minhas plantas,  das sardinheiras à buganvília, dos difíceis coentros à figueira-violino, dos que me são úteis todos os dias (é a hortelã) à ficus bonsai que só ornamenta a janela do quarto de banho, todos os dias. Há que regar. É preciso arejar a terra. Mudar de vaso. Cantar-lhes ao ouvido. Tirar as folhar secas. Podar. Aceitar que isto de domar a natureza nem sempre é fácil. Sujar as unhas, arranhar os braços. Defender os pequenos rebentos de salsa e saber que criar eucaliptos era muito mais fácil mas que não é o que interessa. Lembrar que na natureza crescem urtigas e que para tratar dessas há que calçar luvas ou sofrer a urticária.
Todos os dias.
E todos os dias lembrar que se exercermos a jardinagem (ou a democracia) diariamente é tudo muito mais fácil. Regarmos quando não chove, mimarmos quando faz frio, arrancarmos as daninhas pelo grito da nossa denúncia e a lembrança constante de que não vale de nada termos semeado um cravo vermelho em 1974 se não o mimamos todos os dias.
E convém ainda lembrar os que juram e prometem que quando tiverem os 6 hectares sobre o Douro é que vai ser, que se não sabem salvar os canteiros da janela da cozinha, não lhes serve de nada aspirar a sonhos maiores.

sábado, abril 23

Tudo correu como planeado e nada deu certo. Que é como dizer que perco sempre os papéis todos, que tenho mil blocos de notas, cadernos de desenhos, que trago sempre os lápis de cor na carteira não vá uma criança me pedir para desenhar um golfinho, mas que que no caos da minha cabeça nunca sei por onde começar.
Tenho a memória de um elefante de zoólogico que se lembra do caminho para atravessar a selva e que todos os dias perscruta os embondeiros pela curva certa onde apanhar o leito seco do rio. Eu sou assim. Afino a perspicácia para os dias que não hei-de cruzar, sei de cor as conversas que não hei-de ter e dos dias normais pouco mais sei do que esperar que algo de estranho aconteça para que possa reagir com normalidade.
Acordo sempre cedo de manhã e neste Abril de águas mil há sempre céus azuis radiosos pelas seis e quinze da manhã. Apago-me sempre mais um bocadinho e pelas nove já o céu se vestiu de cinzento quase fúnebre. Banho, dentes, roupa no cesto, pequeno-almoço, café, café, café, nada cai das paredes da sala para dar azo a uma discussão solitária. café. a loiça na máquina, o vento que não deixa ir jardinar e roubar as folhas velhas das sardinheiras, vento. vento. 
Abro e fecho a boca com energia para exercitar os maxilar. Quinze vezes, como os quinze goles de água que bebo da torneira do lavatório antes de ir dormir. quinze. quando faço flexões (raro) também tento fazer quinze. às vezes não consigo.
Estou absolutamente convencida que um dia alguma coisa vai acontecer e aviso-vos já que estou absolutamente preparada. Quando acontecer, vou entrar de rompante e não me faltará a palavra, o gesto será fácil e de um momento para o outro a terrível espera fará absoluto sentido. Saberei cozinhar pato na perfeição e de como pegar num crocodilo sem hesitação. Quando acontecer, não terei de pensar duas vezes no discurso e sairá em inglês coloquial, com referências precisas a Shakespeare, qual navalha, e não obstante o gume pontiagudo, ninguém sairá magoado, nuvens cor-de-rosa de algodão doce (mas sem colar) ampararão a queda e tudo será como aquele sonho que eu sonhei uma vez quando tinha sete anos e os planos faziam sentido.
O relógio digital, com os números a verde fluorescente fosforescente como se outra cor não fosse possível, aponta 20.10. São quase 11 da noite,  na verdade, tem um atraso de exactamente 2h e 43 minutos e irrita-me a necessidade de fazer contas de cada vez que olho para ele. Nunca gostei de relógios e esta sensação de que andamos a correr atrás do tempo - faltam sempre 5h para qualquer coisa, ou estamos só 15 dias atrasados, e este lembrete contínuo cria-me angústia. Ainda assim, o fluorescente não me permite não pousar os olhos no relógio de cada vez que abro os olhos e dizer faltam 7h para acabar o turno. Depois faltarão mais 3 noites para voltar para casa. Depois mais 1 semana antes de partir para Espanha. Depois depois depois como se andasse em corrida entre metas e não a viver a minha vida.
Mr. P levanta-se a cada 10 minutos. Não sabe por quê. Desenrola-se da cama com esforço e senta-se com os pés sobre o tapete que buzina no comando na minha mão ao toque dos seus pés. Fica ali sentado a olhar para o sofá onde finjo que durmo, a ver o que eu faço, a ver o que faz. Depois levanta-se. Aí levanto-me também. E convenço-o de que é tarde, que devia dormir. É fácil convencer Mr. P. a voltar a deitar-se, no entanto, todo o processo demora, pelo menos 15 minutos. E 10 minutos depois ele está de novo a levantar os cobertores e a contorcer-se para fora da cama.
O turno da noite dura 10h. Acaba 15 minutos depois da Mrs. P. entrar no quarto e perguntar como correu a noite, acordando o surdo homem, no ranger das tábuas do soalho da mansão, meio podres por baixo da carpete vermelha manchada. Vejo-o a recomeçar a roçar os pés - síndrome das pernas inquietas que não pode curar com yoga porque já mal se mexe do fundo da demência vascular e da velhice dos grandes 91 anos.
Rezo para que se aguente um pouco mais, respondo baixinho embora saiba que ele não ouve - só ouve o ranger das tábuas - que não dormiu nada, que a cada 10 minutos se levantou e disse com penar 'it's all very muddled'. Mrs. P. encolhe os ombros e do alto da sua cegueira, tacteeia a bengala até ao banho.
Os dias são lentos. Aqui as horas não  valem muito, como provam todos os relógios desfazados pela casa - o da sala não mexe, o do forno está no horário de Inverno, há um de cuco na sala de jantar ao qual já ninguém sacode o pó há mais de uma década, o relógio do pulso de Mr. P. acertei-o eu a semana passada - dizia que era dia 22 em pleno 4 de Abril. No entanto, o café é às 11 com 3 bolachas de queijo, o almoço à 1 em ponto, o chá às 4 (1 bolacha de aveia, 3 gotas de leite) e para o jantar devemos entrar na cozinha exactamente às 19.15, quando acaba a radionovela na BBC4. Mrs. P. tem um relógio de pulso sincronizado com o Big Ben que diz em voz alta as horas para a libertar daquilo que os olhos não vêem e manter a britânica tradição de cumprir horários. Se não fosse o rigor das refeições, o tempo não existia nesta casa. Toda a gente se move como um caracol, amanhã em nada será diferente de hoje, a não ser que venham o canalizador montar o lavatório ou seja terça-feira e seja dia de day center, ou quarta e seja dia de contabilista, ou um dos filhos apareça para o chá a mostrar o Bentley cinzento descapotável com cobertura cor de vinho que dá 200km/h, os dias são todos iguais. Miss Marple, Poirot, Murdoch Murders, a família real ao domingo que a rainha de copas faz 90 anos e ainda anda a cavalo (a Camila não falou no documentário).
A mansão será demolida quando eles morrerem. Foi desenhada pelo Sir John Wolfe Barry, o mesmo que desenhou a Tower Bridge em Londres, para a sua filha, mas hoje o terreno vale mais do que a mansão em si e dará para construir mais de 7 lotes na zona fina do subúrbio londrino - nenhum dos filhos hesitará em deixar demolir o Barry Lodge, nenhum dos filhos há de querer pagar a desbaratização da mansão nem calar o ranger das tábuas. Na verdade, foi assim que a família enriqueceu - sector imobiliário e multiplicação de dinheiros. Assim e a contar as maças. Ninguém fica rico sem contar as maças e claramente eu sou uma desperdiçada - nunca Mrs. P. viu tal coisa - 3 maças por dia! Fez as contas e disse-me em voz alta - 3 maças por dia são 21 maças por semana! Anuí, sim, tem razão, eu na verdade preferia desmultiplicar as 21 por 6 peras, 7 maçãs,  2 tangerinas, 4 laranjas, talvez uns kiwis de vez em quando, mas porquê complicar? A senhora precisa de saber exactamente aquilo que eu vou comer para poder providenciar tudo nas compras da quarta de manhã e prefiro manter simples - sim, 21 maças está bem. Mais o iogurte natural magro e escusa de comprar pão para mim, quero voltar a Portugal com saldo positivo de calórias a ingerir, que lá há vinho e pão e alheiras e massa e cogumelos.
Para se treinar um açor é preciso abdicar de se ser humano e ser-se açor. 'A de açor' foi o livro que a minha irmã me escolheu para esta viagem. Ela sabe-me melhor que ninguém. Sabe que também eu estou aqui a curar alguma coisa, a querer deixar de ser humana por uns tempos. A ser outra coisa qualquer que não eu, a ser velha, para me dar descanso. Aceito sem qualquer condição aquilo que os dias me reservam. Sem qualquer problema, aceito ter noventa e muitos anos, ser cega como a Mrs. P. para lhe entender o rancor, ser surda como o Mr. P., e demente, viver nesse mundo 'all very muddle' para lhe entender as insónias e com ele acordar cada 10 minutos, a cada 10 minutos rebolar-me do sofá desconfortável e perdoar-lhe a confusão por também a sentir na pele. 5 semanas a ser como eles, silenciosa, lenta, sem esperar coisa nenhuma para além do biscoito com o chá das 4, ou o final do turno, também eles esperam o final do turno, a hora a virar num relógio qualquer que diz que são horas de outra coisa.

sexta-feira, abril 22

Dos velhos ingleses aos crocodilos que apesar dos 5 anos ainda só têm meio metro, à fotografia e a mania que hei-de fotografar tudo em manual que só assim se apanham pássaros em pleno voo às 6 da manhã. Há o curso de serigrafia que ainda não contei a ninguém mas que ainda hei-de fazer. Ou o de cerâmica - por favor não digam à minha mãe!
Aprender a brincar com a máquina de costura. Estudar a fundo filosofia e fazer um master em comportamento animal e sem medo das violações (ou dos leões) viver numa tenda no meio da selva em África. E ainda ter tempo para dançar até de manhã ao som dos Joy Division - luzes epiléticas à minha volta e acabar a noite a beber uma meia de leite com um croissant com fiambre sobre o Douro.
É que o saber não ocupa lugar, ensinou-me o Sr. Santos, dono da pequena papelaria em Costa Cabral onde eu parava todos os dias pendurada na mão do meu avô,  à vinda do infantário. Cruzavamos a rua, pequeno desvio a caminho de casa, para uma inocente troca de piadas secas. Às vezes nem entravamos, o meu avô lançava a graçola da porta e o Sr. Santos, 20 anos mais novo que ele, mas amigos pelo gosto do saber, lá saía do balcão para responder à palermice. 'O saber não ocupa lugar' era o nome dos pequenos livros que ele próprio editava e assinava, com todas as curiosidades do mundo - todas as páginas começavam com
- Sabia que...
ao que se seguia qualquer conhecimento absolutamente inócuo e inútil do actual ponto de vista meramente mercantilista do conhecimento. Universidades e institutos com objectivo final de criar lucro financeiro - aprende isto e ganharás dinheiro vendendo o teu conhecimento. O Sr. Santos ganhava dinheiro (pouco) vendendo cadernos de argolas e esferográficas bic laranja de escrita fina e bic cristal de escrita normal. 12h atrás de um balcão para pagar as contas,  12h a estudar dentro da loja minúscula quase sem luz as coisas importantes do mundo - os anéis de Jupiter e os povos amerindos, as pirâmides e assuntos de física nuclear
- Sabia que
20$ pelo caderno pautado e 10$ pelo lápis de carvão pouco duro
Mais tarde, já o Sr. Santos era uma memória remota entre o gelado Epá (isto não é para contar aos pais!) e o apontar a mica feldespato e quartzo dos muros do caminho até casa, conheci um rapaz inglês hippie, 25 anos, sem eira nem beira e provavelmente não mais do que o 9° ano de escolaridade. Eilan ganhava a vida entre a construção civil e a agricultura. Quando chovia muito (acontece com frequência quando se é Inglês e se vive na terra mãe) não trabalhava. Um dia pela manhã perguntou-me - 'Helena, what are you going to study next year?' E eu do meu lugar ignorante e pouco humilde respondi que já era licenciada, tinha até post-grad - 'Eilan, I've finished my studies.' E ele, com um sorriso calmo disse não  é disso que falo - 'eu, por exemplo, para o ano vou estudar astronomia e super-nutrientes. São assuntos que quero saber. Quando estiver a chover, vou à biblioteca e leio sobre os assuntos.' Senti vergonha. Ai a sobranceria, a mania dos títulos, juro-vos que corei e lhe pedi desculpa - és melhor que eu, Eilan, que ainda hoje chegaste a Portugal e já vais para o mercado municipal de dicionário emprestado em punho para comprar legumes em português.
Hoje, ainda com medo e às vezes com vergonha do que não devia, aprendo a apanhar cobras constrictoras pela cabeça de forma rápida e a atirar a mão direita directa ao corpo frio que se vai enrolar no braço (há que respeitar a regra de 1 pessoa por metro de bicho), estudo como lidar com a demência e leio sobre a história do Sapiens que me é estranho quase todos os dias. Sonho com os dias em que hei-de meter a mão no barro e fazer a mochila para África. Sei que a utilidade é reduzida, e era bom que quisesse ficar em casa, nesta casa onde descanso hoje, 4 dias antes de nova viagem, neste palácio com sofá para 2 aninhados onde se calhar só não quero ficar para sempre - as paredes desta sala são onde os meus olhos estão em casa - porque se é para estar sozinha, prefiro o cansaço da mochila às costas - planes and boats and trains - do que com os olhos na tua ausência ao meu lado.

terça-feira, abril 19

Como se cura a utopia?

sexta-feira, abril 8

Vesti-me com se existisses.
Saí da cama onde repousava depois de tanto trabalho, depois de arrumar as malas, voltar a pôr todas as camisolas dobradas como se tivesse chegado para ficar, depois de tomar um banho de imersão como quem renova energias para um novo começo, como quem te espera.
Saí da cama onde me meti sem sequer enxugar o cabelo. Saí da cama como quem se prepara para te receber para o jantar.
Vesti-me como se fosses chegar tarde, roupa interior preta, calças largas, cintura apertada, cabelo com ganchos, limpei as olheiras e resto da maquilhagem da noite de ontem.
Saí de casa devagar, como quem sabe que não vens, para comprar cogumelos e vinho para o jantar. Lentamente,  como se o tempo não fosse factor, servi-me do vinho e mandei o Nick Cave cantar do rádio. Sem pressa, assei os pimentos no bico do fogão, grelhei os cogumelos, juntei as malaguetas e o alho sem medo, os coentros, o molho de soja, o gengibre, os sabores que invento que gostas e cozi a massa para um.
Bebi o vinho guardando para ti o copo vazio ao lado do meu.
Disse-te baixinho que devia parar de alimentar este amor portátil por ti e de guardar o teu lugar nos meus dias.

Praticar a solidão às vezes é um exercício de mentira.