O relógio digital, com os números a verde fluorescente fosforescente como se outra cor não fosse possível, aponta 20.10. São quase 11 da noite, na verdade, tem um atraso de exactamente 2h e 43 minutos e irrita-me a necessidade de fazer contas de cada vez que olho para ele. Nunca gostei de relógios e esta sensação de que andamos a correr atrás do tempo - faltam sempre 5h para qualquer coisa, ou estamos só 15 dias atrasados, e este lembrete contínuo cria-me angústia. Ainda assim, o fluorescente não me permite não pousar os olhos no relógio de cada vez que abro os olhos e dizer faltam 7h para acabar o turno. Depois faltarão mais 3 noites para voltar para casa. Depois mais 1 semana antes de partir para Espanha. Depois depois depois como se andasse em corrida entre metas e não a viver a minha vida.
Mr. P levanta-se a cada 10 minutos. Não sabe por quê. Desenrola-se da cama com esforço e senta-se com os pés sobre o tapete que buzina no comando na minha mão ao toque dos seus pés. Fica ali sentado a olhar para o sofá onde finjo que durmo, a ver o que eu faço, a ver o que faz. Depois levanta-se. Aí levanto-me também. E convenço-o de que é tarde, que devia dormir. É fácil convencer Mr. P. a voltar a deitar-se, no entanto, todo o processo demora, pelo menos 15 minutos. E 10 minutos depois ele está de novo a levantar os cobertores e a contorcer-se para fora da cama.
O turno da noite dura 10h. Acaba 15 minutos depois da Mrs. P. entrar no quarto e perguntar como correu a noite, acordando o surdo homem, no ranger das tábuas do soalho da mansão, meio podres por baixo da carpete vermelha manchada. Vejo-o a recomeçar a roçar os pés - síndrome das pernas inquietas que não pode curar com yoga porque já mal se mexe do fundo da demência vascular e da velhice dos grandes 91 anos.
Rezo para que se aguente um pouco mais, respondo baixinho embora saiba que ele não ouve - só ouve o ranger das tábuas - que não dormiu nada, que a cada 10 minutos se levantou e disse com penar 'it's all very muddled'. Mrs. P. encolhe os ombros e do alto da sua cegueira, tacteeia a bengala até ao banho.
Os dias são lentos. Aqui as horas não valem muito, como provam todos os relógios desfazados pela casa - o da sala não mexe, o do forno está no horário de Inverno, há um de cuco na sala de jantar ao qual já ninguém sacode o pó há mais de uma década, o relógio do pulso de Mr. P. acertei-o eu a semana passada - dizia que era dia 22 em pleno 4 de Abril. No entanto, o café é às 11 com 3 bolachas de queijo, o almoço à 1 em ponto, o chá às 4 (1 bolacha de aveia, 3 gotas de leite) e para o jantar devemos entrar na cozinha exactamente às 19.15, quando acaba a radionovela na BBC4. Mrs. P. tem um relógio de pulso sincronizado com o Big Ben que diz em voz alta as horas para a libertar daquilo que os olhos não vêem e manter a britânica tradição de cumprir horários. Se não fosse o rigor das refeições, o tempo não existia nesta casa. Toda a gente se move como um caracol, amanhã em nada será diferente de hoje, a não ser que venham o canalizador montar o lavatório ou seja terça-feira e seja dia de day center, ou quarta e seja dia de contabilista, ou um dos filhos apareça para o chá a mostrar o Bentley cinzento descapotável com cobertura cor de vinho que dá 200km/h, os dias são todos iguais. Miss Marple, Poirot, Murdoch Murders, a família real ao domingo que a rainha de copas faz 90 anos e ainda anda a cavalo (a Camila não falou no documentário).
A mansão será demolida quando eles morrerem. Foi desenhada pelo Sir John Wolfe Barry, o mesmo que desenhou a Tower Bridge em Londres, para a sua filha, mas hoje o terreno vale mais do que a mansão em si e dará para construir mais de 7 lotes na zona fina do subúrbio londrino - nenhum dos filhos hesitará em deixar demolir o Barry Lodge, nenhum dos filhos há de querer pagar a desbaratização da mansão nem calar o ranger das tábuas. Na verdade, foi assim que a família enriqueceu - sector imobiliário e multiplicação de dinheiros. Assim e a contar as maças. Ninguém fica rico sem contar as maças e claramente eu sou uma desperdiçada - nunca Mrs. P. viu tal coisa - 3 maças por dia! Fez as contas e disse-me em voz alta - 3 maças por dia são 21 maças por semana! Anuí, sim, tem razão, eu na verdade preferia desmultiplicar as 21 por 6 peras, 7 maçãs, 2 tangerinas, 4 laranjas, talvez uns kiwis de vez em quando, mas porquê complicar? A senhora precisa de saber exactamente aquilo que eu vou comer para poder providenciar tudo nas compras da quarta de manhã e prefiro manter simples - sim, 21 maças está bem. Mais o iogurte natural magro e escusa de comprar pão para mim, quero voltar a Portugal com saldo positivo de calórias a ingerir, que lá há vinho e pão e alheiras e massa e cogumelos.
Para se treinar um açor é preciso abdicar de se ser humano e ser-se açor. 'A de açor' foi o livro que a minha irmã me escolheu para esta viagem. Ela sabe-me melhor que ninguém. Sabe que também eu estou aqui a curar alguma coisa, a querer deixar de ser humana por uns tempos. A ser outra coisa qualquer que não eu, a ser velha, para me dar descanso. Aceito sem qualquer condição aquilo que os dias me reservam. Sem qualquer problema, aceito ter noventa e muitos anos, ser cega como a Mrs. P. para lhe entender o rancor, ser surda como o Mr. P., e demente, viver nesse mundo 'all very muddle' para lhe entender as insónias e com ele acordar cada 10 minutos, a cada 10 minutos rebolar-me do sofá desconfortável e perdoar-lhe a confusão por também a sentir na pele. 5 semanas a ser como eles, silenciosa, lenta, sem esperar coisa nenhuma para além do biscoito com o chá das 4, ou o final do turno, também eles esperam o final do turno, a hora a virar num relógio qualquer que diz que são horas de outra coisa.