Vesti-me com se existisses.
Saí da cama onde repousava depois de tanto trabalho, depois de arrumar as malas, voltar a pôr todas as camisolas dobradas como se tivesse chegado para ficar, depois de tomar um banho de imersão como quem renova energias para um novo começo, como quem te espera.
Saí da cama onde me meti sem sequer enxugar o cabelo. Saí da cama como quem se prepara para te receber para o jantar.
Vesti-me como se fosses chegar tarde, roupa interior preta, calças largas, cintura apertada, cabelo com ganchos, limpei as olheiras e resto da maquilhagem da noite de ontem.
Saí de casa devagar, como quem sabe que não vens, para comprar cogumelos e vinho para o jantar. Lentamente, como se o tempo não fosse factor, servi-me do vinho e mandei o Nick Cave cantar do rádio. Sem pressa, assei os pimentos no bico do fogão, grelhei os cogumelos, juntei as malaguetas e o alho sem medo, os coentros, o molho de soja, o gengibre, os sabores que invento que gostas e cozi a massa para um.
Bebi o vinho guardando para ti o copo vazio ao lado do meu.
Disse-te baixinho que devia parar de alimentar este amor portátil por ti e de guardar o teu lugar nos meus dias.
Praticar a solidão às vezes é um exercício de mentira.
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