Dos velhos ingleses aos crocodilos que apesar dos 5 anos ainda só têm meio metro, à fotografia e a mania que hei-de fotografar tudo em manual que só assim se apanham pássaros em pleno voo às 6 da manhã. Há o curso de serigrafia que ainda não contei a ninguém mas que ainda hei-de fazer. Ou o de cerâmica - por favor não digam à minha mãe!
Aprender a brincar com a máquina de costura. Estudar a fundo filosofia e fazer um master em comportamento animal e sem medo das violações (ou dos leões) viver numa tenda no meio da selva em África. E ainda ter tempo para dançar até de manhã ao som dos Joy Division - luzes epiléticas à minha volta e acabar a noite a beber uma meia de leite com um croissant com fiambre sobre o Douro.
É que o saber não ocupa lugar, ensinou-me o Sr. Santos, dono da pequena papelaria em Costa Cabral onde eu parava todos os dias pendurada na mão do meu avô, à vinda do infantário. Cruzavamos a rua, pequeno desvio a caminho de casa, para uma inocente troca de piadas secas. Às vezes nem entravamos, o meu avô lançava a graçola da porta e o Sr. Santos, 20 anos mais novo que ele, mas amigos pelo gosto do saber, lá saía do balcão para responder à palermice. 'O saber não ocupa lugar' era o nome dos pequenos livros que ele próprio editava e assinava, com todas as curiosidades do mundo - todas as páginas começavam com
- Sabia que...
ao que se seguia qualquer conhecimento absolutamente inócuo e inútil do actual ponto de vista meramente mercantilista do conhecimento. Universidades e institutos com objectivo final de criar lucro financeiro - aprende isto e ganharás dinheiro vendendo o teu conhecimento. O Sr. Santos ganhava dinheiro (pouco) vendendo cadernos de argolas e esferográficas bic laranja de escrita fina e bic cristal de escrita normal. 12h atrás de um balcão para pagar as contas, 12h a estudar dentro da loja minúscula quase sem luz as coisas importantes do mundo - os anéis de Jupiter e os povos amerindos, as pirâmides e assuntos de física nuclear
- Sabia que
20$ pelo caderno pautado e 10$ pelo lápis de carvão pouco duro
Mais tarde, já o Sr. Santos era uma memória remota entre o gelado Epá (isto não é para contar aos pais!) e o apontar a mica feldespato e quartzo dos muros do caminho até casa, conheci um rapaz inglês hippie, 25 anos, sem eira nem beira e provavelmente não mais do que o 9° ano de escolaridade. Eilan ganhava a vida entre a construção civil e a agricultura. Quando chovia muito (acontece com frequência quando se é Inglês e se vive na terra mãe) não trabalhava. Um dia pela manhã perguntou-me - 'Helena, what are you going to study next year?' E eu do meu lugar ignorante e pouco humilde respondi que já era licenciada, tinha até post-grad - 'Eilan, I've finished my studies.' E ele, com um sorriso calmo disse não é disso que falo - 'eu, por exemplo, para o ano vou estudar astronomia e super-nutrientes. São assuntos que quero saber. Quando estiver a chover, vou à biblioteca e leio sobre os assuntos.' Senti vergonha. Ai a sobranceria, a mania dos títulos, juro-vos que corei e lhe pedi desculpa - és melhor que eu, Eilan, que ainda hoje chegaste a Portugal e já vais para o mercado municipal de dicionário emprestado em punho para comprar legumes em português.
Hoje, ainda com medo e às vezes com vergonha do que não devia, aprendo a apanhar cobras constrictoras pela cabeça de forma rápida e a atirar a mão direita directa ao corpo frio que se vai enrolar no braço (há que respeitar a regra de 1 pessoa por metro de bicho), estudo como lidar com a demência e leio sobre a história do Sapiens que me é estranho quase todos os dias. Sonho com os dias em que hei-de meter a mão no barro e fazer a mochila para África. Sei que a utilidade é reduzida, e era bom que quisesse ficar em casa, nesta casa onde descanso hoje, 4 dias antes de nova viagem, neste palácio com sofá para 2 aninhados onde se calhar só não quero ficar para sempre - as paredes desta sala são onde os meus olhos estão em casa - porque se é para estar sozinha, prefiro o cansaço da mochila às costas - planes and boats and trains - do que com os olhos na tua ausência ao meu lado.
sexta-feira, abril 22
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