Não quero ser do contra, ou menosprezar os mortos e feridos e os que ficaram emocionalmente abalados com isto que parece ser um ataque terrorista. Passei, naquela ponte, com as pessoas de quem mais gosto no mundo, no último sábado. Estou em Londres com frequência e sinto-me tão segura como em Braga.
O meu avô Albertino, que é (já o disse muitas vezes) o homem mais bonito do mundo, no outro dia, quando fomos almoçar, disse-me, ao atravessar a rua, que não atravessava a rua na passadeira - passava ali, meio à bruta, enviesado, de braço dado à minha avó - porque as passadeiras são o sítio mais perigoso do mundo. 'Quantas vezes já ouviste no noticiário 'morreu atropelado na passadeira', ainda hoje nas notícias... eu não me meto com passadeiras!' O meu avô brinca mas tem razão no que diz (o meu avô tem sempre razão and my love for him is endless, and I love him most of all) e há muitos sítios mais perigosos do que Londres neste início da tarde de 4a na ponte de Westminster. Infelizmente, habituamos-nos aos mortos diários (são milhares!!!!) em acidentes rodoviários - por excesso de velocidade, por falarem ao telemóvel ou por distracção ao volante de uma arma.
Este post também não é contra os carros. Tenho um e gosto muito dele - uso-o pelo menos uma vez por mês (ainda hoje!) e é um mimo.
Este post, na verdade, se é contra alguma coisa, é contra o medo e a manipulação dos dados.
'Enquanto em 2010 a obesidade e doenças relacionadas mataram cerca de 3 milhões de pessoas, terroristas mataram um total de 7697 pessoas em todo o mundo, a maioria deles em países em desenvolvimento', diz o Yuval Harari no seu recente 'Homo Deus'.
Eu estou convencida que nos querem convencer que o perigo são os outros, os maus, os muçulmanos, os pretos, os boogie man, os romenos, os ciganos - os outros, sempre os outros - de forma a não termos nunca de olharmos para dentro de nós próprios, de nos questionarmos acerca da nossa ordem de estar, quantos escravos patrocinamos para termos 15 t-shirts na gaveta, e podermos culpar os que não estão nas nossas calças lavadas depois de um dia de uso.
É bastante provável que eu esteja errada. Admito que sei muito pouco acerca da nossa história (oh pai, salva-me! explica-me outra vez aquela coisa que falavas ainda há pouco quando o canal de notícias nos distraíu dizendo que tínhamos de saber o nome do herói de Westminster) mas juro que prometo a diabetes, o cancro do pulmão, o colesterol, ou pior, o plástico que teimamos em usar à doida, entrosado na nossa cadeia alimentar ou o carro que me vai atropelar na passadeira e infelizmente não vai ser um dobledecker bus e tu não vais estás by my side, nos vai levar a todos muito antes do tipo que na frustração da sua vida estraga, desenha contra a nossa cultura e mata 5.
Repito, não tenho aspiração a sábia, mas acho que o terror, quase sempre, somos nós.



