quinta-feira, março 23

Acerca do terrorismo

Não quero ser do contra, ou menosprezar  os mortos e feridos e os que ficaram emocionalmente abalados com isto que parece ser um ataque terrorista. Passei, naquela ponte, com as pessoas de quem mais gosto no mundo, no último sábado. Estou em Londres com frequência e sinto-me tão segura como em Braga.

O meu avô Albertino, que é (já o disse muitas vezes) o homem mais bonito do mundo, no outro dia, quando fomos almoçar, disse-me, ao atravessar a rua, que não atravessava a rua na passadeira - passava ali, meio à bruta, enviesado, de braço dado à minha avó - porque as passadeiras são o sítio mais perigoso do mundo. 'Quantas vezes já ouviste no noticiário 'morreu atropelado na passadeira', ainda hoje nas notícias... eu não me meto com passadeiras!' O meu avô brinca mas tem razão no que diz (o meu avô tem sempre razão  and my love for him is endless, and I love him most of all) e há muitos sítios mais perigosos do que Londres neste início da tarde de 4a na ponte de Westminster. Infelizmente, habituamos-nos aos mortos diários (são milhares!!!!) em acidentes rodoviários - por excesso de velocidade,  por falarem ao telemóvel ou por distracção ao volante de uma arma.

Este post também não é contra os carros. Tenho um e gosto muito dele - uso-o pelo menos uma vez por mês (ainda hoje!) e é um mimo.

Este post, na verdade, se é contra alguma coisa, é contra o medo e a manipulação dos dados.

'Enquanto em 2010 a obesidade e doenças relacionadas mataram cerca de 3 milhões de pessoas, terroristas mataram um total de 7697 pessoas em todo o mundo, a maioria deles em países em desenvolvimento', diz o Yuval Harari no seu recente 'Homo Deus'.

Eu estou convencida que nos querem convencer que o perigo são os outros, os maus, os muçulmanos,  os pretos, os boogie man, os romenos, os ciganos - os outros,  sempre os outros - de forma a não termos nunca de olharmos para dentro de nós próprios, de nos questionarmos acerca da nossa ordem de estar, quantos escravos patrocinamos para termos 15 t-shirts na gaveta, e podermos culpar os que não estão nas nossas calças lavadas depois de um dia de uso.

É bastante provável que eu esteja errada. Admito que sei muito pouco acerca da nossa história (oh pai, salva-me! explica-me outra vez aquela coisa que falavas ainda há pouco quando o canal de notícias nos distraíu dizendo que tínhamos de saber o nome do herói de Westminster) mas juro que prometo a diabetes, o cancro do pulmão, o colesterol, ou pior, o plástico que teimamos em usar à doida, entrosado na nossa cadeia alimentar ou o carro que me vai atropelar na passadeira e infelizmente não vai ser um dobledecker bus e tu não vais estás by my side, nos vai levar a todos muito antes do tipo que na frustração da sua vida estraga, desenha contra a nossa cultura e mata 5.

Repito, não tenho aspiração a sábia, mas acho que o terror, quase sempre, somos nós.

quarta-feira, março 8

O Síndrome de Estocolmo e o dia que eu gostava que não fosse necessário

Diz a Simone de Beauvoir no seu "Segundo Sexo" que as mulheres nunca alcançaram o seu potencial porque nunca souberam unir-se. Todas as outras restantes revoluções da história foram feitas com base no paradigma nós contra os outros - os trabalhadores contra os patrões, os ricos contra os pobres, os pretos contra os brancos, os povos ocupados contra os seus opressores, cristãos contra os muçulmanos, os ecologistas contra os poluidores. A nossa fraqueza - ou a nossa força, digo eu - é não querermos ser contra os homens. Não somos o oposto dos nossos pais, não estamos do outro lado da barricada dos nossos maridos, não queremos estar contra os nossos filhos, não queremos o mal aos nossos amantes. Não queremos guerra com os que são iguais a nós em quase tudo. A nossa fraqueza - a nossa maior força - é sermos quase sempre contra a guerra, a nossa grande diferença é querermos mais o bem que o mal. Não conseguimos ver o mundo das mulheres contra os homens, porque não nos achamos melhores do que eles, mais merecedoras, mais fortes, mais inteligentes ou mais altas. Somos diferentes em alguns aspectos, mas sem que essas diferenças sejam para melhor ou para pior. É muito difícil fazer a revolução sem ser contra alguém e nós, mulheres, para piorar a situação, sofremos sempre um pouco da Síndrome de Estocolmo. Vivemos apaixonadas pelos nossos opressores, amamos de morte os nossos filhos e morremos todos os dias de medo de que se não formos nós a apanhar as meias do chão, ninguém as irá apanhar.

No dia 24 de Outubro de 1975, 90% das mulheres Islandesas "tiraram o dia de folga" - não compareceram nos seus empregos, não fizeram a lide doméstica e não trataram dos filhos. Muitas fábricas fecharam, não houve serviços telefónicos nem jornais, a maioria das escolas não chegou a abrir já que as professoras não compareceram, voos foram cancelados porque não havia assistentes de bordo e os senhores executivos dos bancos tiveram de ir para as caixas para os manter abertos. Os homens tiveram de levar as suas crianças para o trabalho (já que os trabalhadores das creches são quase sempre mulheres) e ausência das mulheres nas cozinhas de todo o país fez com que as salsichas esgotassem nos supermercados. Foi um acto de coragem brutal! 25mil mulheres juntaram-se no centro de Reykjavik para reclamar os seus direitos, para mostrar a importância que têm no mundo e a falta que fazem todos os dias. No ano seguinte o parlamento islandês passou a lei que obriga à igualdade de direitos entre os géneros e 5 anos depois foi eleita a primeira mulher presidente do mundo. A Islândia classifica-se todos os anos entre os 10 países com melhor qualidade de vida a nível mundial de acordo com a OCDE (Portugal ficou-se pelo 29º lugar, entre os 38 países analisados o ano passado). A Islândia classifica-se, nos dias de hoje, também de acordo com a OCDE, no topo no que toca a empregos e rendimentos, conexões sociais, bem-estar, estado de saúde, qualidade do meio ambiente, segurança pessoal, educação e qualificação da sua população.

Não acredito que as mulheres Islandesas gostem menos da sua família do que a Portuguesas, não me acredito que não lhes tenha custado não dar o pequeno-almoço às crianças naquele dias, mas deixaram de se encantar com o orgulho de dizer "ai se não fosse eu não sei o que era de vocês" com que tantas mulheres ainda se vai alimentando para aguentar os dias demasiados pesados. Se não forem as mulheres a limpar o chão da cozinha, alguém o vai limpar. Se as mulheres decidirem que não aceitam ser pagas abaixo dos seus colegas, serão aumentadas. Se as mulheres não infantilizarem os seus companheiros e não perdoarem aos patrões ("a verdade é que quando a criança está doente eu até posso faltar sem ser despedida"), se as mulheres se unirem e deixarem de querer ser todas super-mulheres (rotas, descalças, cheias de olheiras, sem tempo para o ginásio ou um copo com os amigos, com sentimentos de culpa por não terem o corpo capa de revista, muito mais velhas ao chegar à meia idade do que os seus companheiros), se deixarem de apontar os dedos às outras mulheres por não disfarçarem o cansaço tão bem, se não tomarem nos seus ombros todo o peso do mundo pedindo nada em troca, talvez comecem a ser valorizadas.

Se as mulheres (as portuguesas e as outras) deixarem o Síndrome de Estocolmo pelo Síndrome de Reykjavic, talvez o título "Segundo Sexo" deixe de fazer sentido, por deixar de haver um Primeiro. Nós somos 52% da população mundial. Acham mesmo que não podemos mudar o mundo?